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terça-feira, 15 de abril de 2014

Da amizade, quando Jesus não tem dentes no país dos banguelas.

Hoje aconteceu comigo uma experiência tomadora.

Acordei sem poder ir trabalhar, pois como estaria diante de outras pessoas dando uma aula de língua portuguesa, não poderia correr o risco de ter meu dente saltando da boca em uma fala mais entusiasmada.
A verdade é que depois dos 40 e próximo dos 50 anos, quem não tem uma dentição muito sadia dificilmente mantém todos os dentes na boca. Fui então a uma dentista que conheço para a retirada de parte de mim.
Essa operação já começa enfadonha, porque se sabe que não se está ali para cuidar de dente, mas para tirar dente. Portanto, era mesmo um preâmbulo de luto. O dia amanhecera chuvoso e fiquei na porta do consultório de guarda-chuva aberto. A doutora, um amor, quando me viu saudou-me solícita e tudo terminou rápido para que eu saísse do consultório apenas com a esperança de marcar uma consulta com o especialista em implantes que ela me indicara.
No trabalho, contando para duas amigas o ocorrido e, por fim, a respeito de todo o pesar que eu sentia, uma delas, jornalista jovem mas muito experiente, disse-me que também sentiu esse mesmo vazio que eu sentia quando um dia ela perdera um dente, que quebrara acidentalmente.
Mais tarde enviou-me um texto lindo, pelo facebook, que me pareceu ter sido a única saída que ela encontrou, naquela ocasião, para expurgar tal sentimento:

Débora passava a língua pela gengiva crua onde outrora Deus lhe havia imputado um dente. Daqueles bem másculos e brancos. Mas agora ela estava ali, de gengivas à mostra e trabalhando a sua capacidade de ser mais pacienciosa com as coisas do corpo. E da fome. 
- Mãe, não andes assim toda desdentada pela casa! Que coisa feia. O que teus netos vão pensar?
 - Que hoje é quinta-feira, Elvira! 
- Já te disse para parar com isso de marcar dia para se livrar da dentadura. 
Débora amava as quintas-feiras. 'Rancava mesmo os dentes de homem e vivia como queria: sem dentes e com uma fome maturada. Não sabia se deveria conversar com a cozinheira sobre sopas ou sobre legumes refogados. Ainda não decidira se era importante dar outro passo. A gengiva tinha lhe dado muito e, aos poucos, foi entendendo o que existe por trás de um homem cansado e farto de dias.

Eu, então, elogiei o texto lindo de Victória Brotto, esse é o nome da autora.
E na nossa conversa on-line ela disse-me ter sido isso o que aprendeu quando quebrou seu dente.

Aprendi e escrevi esse texto.

Eu a congratulei pelo texto belíssimo, dizendo que a gente escreve mesmo é na urgência. Como que por expurgo do sofrimento íntimo. É verdade! E ela escrevera lindamente a respeito disso tudo.

É. vi que a perda de um dente representa um corpo cansado, farto de dias. E talvez seja bom perder os dentes pra vermos até onde vai nossa humanidade. Vermos o limite do corpo e a grandeza da alma. E juntarmos os dois. alma e corpo. numa só coisa.

Sim Victoria, é essa a lição que devo tirar dessa experiência, sem dúvida. Vou me agarrar a isso mesmo!
E também agarrar-me a esse apoio fecundo dos amigos, pois sem amigos, não importaria quantos dentes tivéssemos na boca: seríamos bem miseráveis. 

sexta-feira, 7 de março de 2014

Das emoções do que se vê e do que se entrevê em Victor Hugo

                                           Deep Sea Flower by TylerXy

Uma grande emoção que tenho vivido, desde a última quinzena, tem sido a leitura do romance Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo. Tenho compartilhado com meus amigos, no facebook, minhas impressões de tal leitura, bem como trechos dessa obra.
Isso tem sido ótimo!
Outro dia, inclusive, encontrei uma moça no elevador da empresa em que trabalho, com quem tenho pouco contato na vida real, e ela comentou comigo:

- Nossa! Dá uma vontade de também ler o livro, quando a gente lê os trechos que você tem postado no face!

Fiquei contente, porque esse autor é tão pouco lido nos nossos dias! E ele foi, sem dúvida alguma, genial.
Uma das coisas que mais tem acontecido comigo, durante essa experiência de leitura, é eu ficar com os olhos marejados e ter que interrompê-la. Como apenas leio o livro durante o trajeto para o trabalho ou do trabalho para casa, faço a leitura em público, nos vagões dos trens da CPTM ou do Metrô de São Paulo. Hoje também aproveitei para ler o romance na fila de um banco, local em que fui obrigado a aguardar pelo atendimento por mais de uma hora. Que bom que eu estava com o livro. Jamais se aventure a frequentar uma fila durante tanto tempo sem ter um livro para ler!

De qualquer modo, seja no interior de vagões ou em filas, o constrangimento é sempre o mesmo, ter de verter lágrimas, durante a leitura, e perceber que as outras pessoas ficam se perguntando:

- Afinal, o que faz esse homem chorar? O que este livro pode conter de tão triste ou de tão emocionante?

Bem, nesse livro (eu ia dizer filme! hahaha) a história se passa a maior parte do tempo no mar. Em lugares inabitados ou mesmo hostis à presença humana. Lendo o capítulo XIII da obra,  O QUE SE VÊ E O QUE SE ENTREVÊ, deparei-me com um trecho com o qual me emocionei, especialmente, porque tive uma sensação que me pareceu antiquíssima: a de visitar um ambiente que é muitíssimo familiar à nossa espécie, apesar de tudo, de todo o estranhamento aparente... Afinal, sim, não podemos esquecer que todos viemos do mar.

Bonne lecture et bonne relecture!

Debaixo dessas vegetações escondiam-se e mostravam-se ao mesmo tempo as mais raras joias do escrínio do oceano, os martins, as mitras, os elmos, as púrpuras, os búzios, os estrutiolários, as conchas univalves. As campanas de lapas, semelhantes a barracas microscópicas, aderiam ao rochedo e grupavam-se em aldeias em cujas ruas rolavam as multivalves, esses escarabeus da vaga. Não podendo os seixos de mariscos entrar facilmente nessa grota, aí se refugiavam as conchas. As conchas são grandes fidalgos que, bordados e paramentados, evitam o rude e incivil contato do populacho das pedras. A fúlgida reunião das conchas fazia debaixo da água, em certos lugares, inefáveis irradiações através das quais entrevia-se um grupo de azuis e vermelhos, e todos os reflexos da água.
Na parede da caverna, um pouco acima da linha de flutuação da maré, uma planta magnífica e singular prendia-se como um debrum à tapeçaria do sargaço, continuava-o e terminava-o. Essa planta, fibrosa, vasta, inextrincavelmente dobrada, e quase negra, oferecia ao olhar largas toalhas embaraçadas e obscuras, ornadas em toda a extensão de numerosas florinhas cor de lápis-lazúli. Na água parecia que essas flores acendiam-se, e cuidava-se ver brasas azuis. Fora da água eram flores, dentro da água eram safiras, de modo que a onda, subindo e inundando o esvazamento da grota, revestia essas plantas e cobria o rochedo de carbúnculos.

A cada enchimento da vaga túmida como um pulmão, essas flores banhadas resplandeciam, a cada abaixamento apagavam-se; melancólica semelhança com o destino. Era a aspiração, que é a vida; era a expiração, que é a morte.
(HUGO, Victor. Os Trabalhadores do Mar. Trad. Machado de Assis. São Paulo: Nova Cultural, 2002, p. 220-221)

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Almoçando com uma amiga

Hoje, eu conversava com uma amiga na hora do almoço e ela ficou muito desapontada comigo.

É que ela me contava uma história e no meio do seu relato desatei a rir.

Meu riso pareceu-lhe desrespeitoso, porque o que ela me contava era o caso de uma injustiça sofrida por uma outra pessoa. Então, quando minha reação jocosa se deu, pareceu à narradora que eu era indiferente propriamente a essa injustiça relatada.

Tive um certo trabalho para lhe explicar que não era do relato que eu rira, mas da forma como ela se revelava profundamente indignada, mais até do que talvez estivesse a própria vítima da injustiça.

Veja bem, não se tratava de algo irreversível ou demasiado, como, sei lá: uma pena de morte imputada a um inocente ou a vitimização própria de quem sofre assédio moral, nada disso...

Era um feito grave, mas corriqueiro até. Tratava-se de algo que, muito provavelmente, a própria pessoa iria superar, no devido tempo. Os responsáveis pelo mal feito talvez nem tivessem consciência absoluta do que fizeram. Erraram porque não sabiam o que faziam, sabe?

Portanto, foram apenas egoístas, como a maioria de nós ainda costuma ser.

Mas, então, por que eu ri, se, ainda assim, de fato tudo era da ordem do lamentável?

É que eu sou muito parecido com esta minha amiga com quem eu almoçava. Provavelmente, quando crianças, ambos sofremos preconceitos diversos e fomos aprendendo a reagir intempestivamente diante de qualquer injustiça e mais: aprendemos a defender "os frascos e os comprimidos" na nossa sede de justiça!

Tarte tatin, a sobremesa
Quando vi que ela fazia o mesmo que eu também faço, aqui e acolá, comecei a rir por que isso me pareceu um tanto ingênuo, embora absolutamente legítimo!

O incrível da nossa ingenuidade é mesmo o quão ela é legítima.

O magnífico da experiência humana é quando não somos absolutamente ingênuos e sabemos que não há culpados completamente, nem tampouco inocentes, mas que todos precisamos cada vez mais aprender um tanto do amor próprio para, então, amar perdidamente e, aliás, sem nenhuma ingenuidade a qualquer um.

terça-feira, 30 de abril de 2013

fagulha incandescente



Viver em contato com o invisível é um aprendizado.

Ao fundo, as torres
da Catedral da Sé
Hoje, entrei na agência da caixa econômica federal que fica na praça da sé, 111. Para tanto,  fui obrigado a utilizar a única entrada disponível para a agência e que fica na rua Venceslau Brás . Nessa rua, vê-se uma construção que acho lindíssima: o Palacete do Carmo.

Mas, ele está abandonado! E deteriorando-se. :-(

Segundo o que pude apurar, o imóvel pertence à arquidiocese de São Paulo e, ao que tudo indica, a igreja católica está aguardando liberação de uma verba do Ministério da Cultura para reformar o palacete.

Sempre que vou a essa agência em frente, ponho-me à janela para observá-lo. Como é lindo! Está muito velho, mas há ali qualquer coisa muito impregnada em seu corpo arquitetônico, nas paredes, janelas e telhados. Ele foi construído no início dos anos 20 do século passado e em seus andares sempre funcionaram estabelecimentos comerciais, quando conheceu sua glória e, a partir dos anos 60, sua decadência.

Talvez porque a visão do palacete, agora mausoléu, despertasse em mim nostalgias desconhecidas, quando a moça do caixa deu-me aquela quantia módica de troco, fiquei emocionado. 

Pareceu-me compreender demasiado o pagamento da soberba de ontem, mas no lugar da revolta eruptiva do orgulho, senti muito mais a necessidade contrita do devoto. Nesse ato, verifica-se imediatamente que existe na aparente decadência a sobrevivência de uma aura do que se viveu demasiado, é dela que salta a fagulha de sentido, que por magia da graça retorna incandescente.

Palacete do Carmo


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Learning all time

Femme a L'amphore by Henri Matisse

Talvez pareça confuso o fato de que possamos agir de maneira equivocada em um determinado momento e depois igualmente  não percebamos que, por exemplo, aquilo que aconteceu mais adiante se revelou como uma consequência direta daquele equívoco anterior.

É que o tempo ocorre à revelia de nossas ações. E, por isso, tanto aquele tempo do equívoco e que provocou a reação em cadeia, quanto o tempo posterior, no qual a reação propriamente se desenrolou, ambos sempre foram distintos.

Assim sendo, talvez não seja sempre possível estabelecer a relação entre os fatos,  porque vivemos no tempo ou do desconhecido, ou do olvido ou no novíssimo, que é já o aqui e agora, ou seja, o tempo em que afinal pode ser consumado o aprendizado.

Como nem sempre a consequência de uma ação nossa é imediata, ficamos, por vezes, como crianças, sentindo e compreendendo apenas o que de fato ocorre como consequência imediata. Por exemplo, como quando percebemos que “o fogo queimou minha mão”.

Quando há um intervalo mais significativo entre uma coisa e outra, podemos nos sentir irresponsáveis e por isso mesmo falsamente livres.

Por que falsamente livres?

Porque a verdadeira liberdade implicaria na aceitação da consequência. Será sempre melhor quando isso acontecer sem a participação dos sentimentos de culpa ou de vergonha. Nesse sentido, será mais produtivo que a aceitação da responsabilidade seja tão somente aceitação.

Até aquele momento em que diremos devo, não nego e pago... agora!

Sim, pois ao contrário do “quando puder” da frase feita, o próprio tempo determina que o momento de tal cobrança - a declarada e indisfarçável consequência em qualquer tempo seguinte do que quer que tenhamos feito - seja a possibilidade mesma do aprendizado que se impõe. 

Então, temos a chance de conhecer uma liberdade possível, a que acontece quando não falseamos  nossa condição. Ou seja, quando já podemos aceitar o que nos acontece como consequência natural daquela ação que perpetramos anteriormente.

É por isso que não sou agora quem já fui e continuo sempre sendo outro, mas sem deixar de ser eu mesmo.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Lullaby Project

Carnegie Hall

Hoje, ouvindo a rádio Cultura FM, soube por meio da coluna de Cláudia Toni, no programa Começando o Dia, de um projeto belíssimo promovido pelo Carnegie Hall, famosa casa norte-americana de concertos.

Trata-se do Lullaby Project [Lullaby significa “canção de ninar” ou “acalanto”], uma série de oficinas de composição que os músicos da casa promovem em hospitais da cidade de Nova York, em um presídio feminino em Rikers Island, e também em dois abrigos da cidade. Tais oficinas visam proporcionar uma experiência criativa para mulheres (e, às vezes, também para seus parceiros/familiares), que estão experimentando a gravidez e paternidade em situações estressantes.

As participantes são na maioria adolescentes grávidas, que recebem cuidados obstétricos e serviços de aconselhamento em hospital público, mães encarceradas em Rikers Island ou mulheres que estão grávidas e vivem e/ou têm seus filhos em abrigos públicos.

O projeto tem como objetivo oferecer um contexto positivo e criativo para as participantes, considerando o que representa para elas ser mãe em circunstâncias tão particulares. Por exemplo, sabemos que pré-adolescentes de 11, 12, 13 anos ao engravidarem podem rejeitar, e comumente o fazem, a experiência da gravidez e o próprio bebê.

Assim sendo, por meio de sessões de criação, as oficinas do Lullaby Project oferecem a oportunidade de tais jovens mães criarem uma canção de ninar ao seu próprio bebê, possibilitando assim que elas expressem e explorem seus sentimentos de ligação com essa criança que estão gerando.

Tal exercício de composição também permite às participantes desenvolverem uma nova memória em relação a essa experiência e mesmo uma herança positiva da mesma, isso tudo em um espaço criativo seguro, que possibilita o reconhecimento dos sentimentos, os quais são compartilhados por todo o grupo de participantes.

Lullaby Parade
No site do Carnegie Hall, aparece a temporada de oficinas programadas para 2013, a relação dos  locais e, respectivamente, dos músicos responsáveis:

Rikers Island (Rosa M. Singer Center). Músicos responsáveis: Thomas Cabaniss e Emeline Michel
Jacobi Medical Center. Músicos responsáveis: Thomas Cabaniss e Eagen Emily com Falu Shah
Siena House (DHS abrigo para sem tetos). Músicos responsáveis: Emily Eagen com Duo Rhone
Callaway Residence (DHS abrigo para sem tetos). Músicos responsáveis: Emily Eagen com Saskia Lane e Bhasin Meena
Bellevue Hospital Center, dois programas. Músicos responsáveis: Saskia Lane, Deidre Rodman Struck, e Lee Ann Westover com Camille Zamora

Achei essa iniciativa magnífica, emocionante, e seria maravilhoso se no Brasil tal exemplo fosse seguido, uma vez que esse tipo de circunstância: a gravidez de mães muito jovens, em situação de extrema penúria e suas dificuldades para lidar com tal experiência é, afinal, algo muito comum em todo lugar: é preciso agir em apoio a essa mães tão jovens e seus rebentos. 



sábado, 22 de dezembro de 2012

L'ange qui rit


Os anjos são mesmo seres verdadeiros e que expressam a Verdade.

É claro que quando penso em Verdade, ao menos em relação aos seres angelicais, considero que talvez possamos entendê-la tal como ouvi uma sua possível descrição ainda nessa manhã, quando o músico e ator Arrigo Barnabé – ele tem um programa admirável na rádio Cultura FM, o Supertônica –, citando Novalis, transmitiu sua mensagem de fim de ano aos ouvintes:

A poesia é o autêntico real absoluto, quanto mais poético mais verdadeiro.

Por conta disso, mesmo que os antigos tenham criado toda uma iconografia em torno dessa personagem celestial, na qual podemos ver anjos de espada em punho, alguns mais severos e outros de semblantes mais ou menos graves ou basicamente piedosos, ainda assim, gosto de pensar na companhia amiga, por exemplo, do meu anjo da guarda, em que ele se apresenta a mim de um modo muito particular,como também desejo manter meu relacionamento com esse celestial amigo.

Assim sendo, imagino meu anjo da guarda – e se eu tivesse a capacidade mística de vê-lo tenho certeza que seria assim mesmo que eu o veria – com o semblante semelhante ao daquele que se encontra no pórtico da Catedral de Notre-Dame de Reims: um anjo que sorri!

É por isso que, parafraseando o belo axioma do poeta e filósofo alemão, eu então diria que os anjos são verdadeiros, porque são seres plenos de poesia.

E, como a tradição cristã nos diz que o anjo da guarda é aquele designado para nos acompanhar em todos os momentos da nossa existência neste planeta, é compreensível que ele seja alguém que naturalmente possa sorrir e, sendo assim, os motivos de seu riso serão os mais variados.

Rêves de couleurs (2011), de Michel Quesne e Hélène Richard da Société Skerto
projeção que ocorreu durante as festividades em torno do aniversário de 800 anos da Catedral. 
A projeção buscou restaurar por minutos, as cores vivas e alegres que a Catedral e suas estátuas 
possuíam na Idade Média e que desapareceram em consequência da ação do tempo e da poluição.
Ele poderá, por exemplo, demonstrar por esse riso a natureza benévola do amigo que compreende minha pequenez e os desajustes a que estou sujeito, encontrando-me onde ainda estou, nessa situação particular de um distanciamento exato e único, esse exatamente que demarca meu lugar em relação ao Altíssimo.

Mas, o riso do meu anjo também poderá ainda ser de alegria, pois ao me ver assim tão humílimo, por minha própria condição, ainda assim percebe que, de quando em quando, demonstro amor e carinho aos outros seres da criação.

É quando, por fim, sorri de satisfação, ao notar que vou avançando em direção a essa liberdade a que somente alçam aqueles dessa própria natureza angelical.

Seres que por possuírem asas não reclamam de distâncias e se sentem satisfeitos na sua missão de proclamarem a Verdade do amor divino, sendo expressão absoluta de poesia.




quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Abilities

by William Morris

Eu estou fortalecendo em mim o desenvolvimento, ainda que lenta e gradualmente, de algumas capacidades:

A capacidade de não se desesperar.

Embora o desespero tenha sempre sido espetacular, na vida real ele é patético e triste. Irmão gêmeo da desrazão, enfraquece qualquer desesperado, expondo-o ao torvelinho das circunstâncias demolidoras.

A capacidade de não alimentar raiva.

Embora a raiva possa acontecer com muita facilidade, sua expressão também é tola, e ainda nos coloca imediatamente frágeis diante do objeto da própria raiva, seja esse último uma porta ou uma pessoa.

A capacidade de silenciar-se em situações de conflito iminente.

Embora o combate verbal sempre conclame seus públicos, o que as pessoas querem ver é a rinha de galos e, nesse tipo de contenda, aqueles que se machucam são e-xa-ta-men-te os galos, levados para a tal rinha pela força de circunstâncias atormentadoras, em que os envolvidos todos estão cegos e emburricados.

A capacidade de fazer uma prece no lugar de alimentar o desespero, a raiva e a bulha.

Aliás, fazer isso mesmo no exato momento em que essas tristes ações seriam convocadas ou quando estariam ali latentes e, portanto, a nossa disposição, pois nesse momento é quando então se faz necessário convocar os anjos e aliados da primeira hora – o que definitivamente será mais vantajoso e benéfico do que alimentar inimizades.

by William Morris
Afinal, só temos antecipadamente uma única informação acerca de um inimigo qualquer: ele sempre irá nos solicitar aquelas mesmas provas de sentimentos espúrios das quais se nutre em relação a nós mesmos e muitas vezes em relação a todos os demais, a começar por si mesmo.

Bem, no que diz respeito a tais sentimentos, podemos simplesmente escolher no fundo do coração não senti-los em relação a ninguém.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Happy end

And they lived happily ever after

Há um momento em que você modifica um tanto sua maneira de ser. 

Em geral - ao menos com a minha geração foi assim que se deu - isso só acontece lá pelo meio-dia da vida.
Após os 35 anos, quando ocorre como que uma compreensão mais atenta da própria existência e experiência. Isso permite que não haja exatamente martírio, mas algo que suscita aquela clareza de inteligência de que é possível viver qualquer penalidade sem esgares.

Afinal, já lamentamos o suficiente quando pensávamos ser apenas inocentes. Agora, no entanto, também não fazemos da culpa baluarte algum, sequer a lamentamos: buscamos muito dentro de alguma causa a sua consequência natural que é sentida e dispensada. Queremos novas aventuras.

Estou dizendo que isso tudo aconteceu comigo tardiamente, ou no meu próprio tempo de maturidade, mas saibam que conheci alguém que vive isso tudo já na infância. In-crí-vel!

Foi no último sábado, quando tive contato com um garotinho que está vivendo a vida assim mesmo, mas muito antes (ou talvez seja melhor dizer: no tempo certo para ele!)

A verdade é que o menino está sofrendo por viver sem pai nem mãe. Ou melhor, por não tê-los juntos, constituindo a sua família. Assim sendo, nosso amigo mora com o pai que, ao que me pareceu, não dá uma atenção mais detida ao próprio filho, uma vez que esse último é do tipo falante, atualizado, informado e quer expor suas reflexões acerca da própria vida o tempo todo (alguns adultos parecem não ficar à vontade, diante de uma criança com esse perfil, vamos combinar!).

O jovenzinho apenas visita a mãe, mas ela também parece estar em outra. De tudo isso resulta que temos uma criança solitária, pois vive entre duas casas e, assim, nem bem lá nem bem cá, por aí...

E foi então que, do alto de seus nove anos de idade, no último sábado, ele me disse:

- Eu acho a vida uma grande aventura, a gente nunca sabe o que vai acontecer. Parece um filme! E por isso a gente só tem uma certeza, no final, a gente vai ser feliz e vai alcançar aquilo que mais do que tudo a gente quer.

Eu que também sei das aventuras da vida e que, assim como ele, sinto que esse alcance do desejo maior é mesmo coisa muito verdadeira, emendei:

- Eu concordo com você! Acho que você tem toda razão: nós queremos e teremos isso mesmo, um happy end!

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Vamos juntos adiante?


- Já lhe aconteceu de não reconhecer um amigo?

- Como assim? De encontrá-lo na rua e não o reconhecer imediatamente?

- Não. De, conversando com ele, lhe parecer que ele não é mais a mesma pessoa?

- Ao encontrá-lo depois de muito tempo sem tê-lo visto?

- Não. O que observei é que, no convívio, ele foi mudando seu comportamento aos poucos, a ponto de não se tratar mais da mesma pessoa: aquele amigo que a gente conhecia e admirava.

- E essa nova pessoa não é mais tão admirável?

- Infelizmente não é. É como se alguns “defeitos” que, evidentemente, já existiam latentes naquele amigo tivessem agora tomado o primeiro plano, ou seja, aflorado com alguma intensidade. O que é sempre desagradável.

- Você acha que o que aconteceu é irreversível?

- Não. Acho que nada é irreversível. O problema é que a pessoa pode ir ficando para trás... Eu não sei como fazer para continuar acompanhando-o, entende?

- Sei. Mas isso acontece com qualquer um de nós o tempo todo. Precisamos avançar para alcançar o que lá na frente queremos buscar e, então, aqui e ali, recuamos, porque nos apegamos ao que deixamos para trás.
É quando, então, os que nos acompanharam até um determinado ponto continuam avançando, pois interpretam diferentemente a sua própria experiência no caminho que fazem, no percurso que engendram.
Esses últimos encontram, por vezes, mais à frente, uma nova compreensão do que foi deixado para trás e assim fica mais fácil voltar e mesmo auxiliar quem escolhera ir mais lentamente.
É preciso considerar, ainda, que, com o tempo, as pessoas mudam a compreensão do seu próprio ritmo de caminhada. E até podem, no devido tempo, desejar avançar diferentemente, quiça, aceleradamente...

- Sim, é necessário respeitar o fôlego de cada um e, sobretudo, não temer os salteadores do caminho. 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Diálogos concordantes I


imagens via a little sweetness
by tasha noel

- A cada dia uma luta!
- Engraçado você dizer isso: parece fala de uma senhora idosa.
- Ou de boxeador! kkkk
- Talvez isso signifique, tão somente, que viver demanda uma boa disposição de espírito e que... há uma ação a ser desenvolvida.
-Então, isso é a luta? Trabalhar?
- Não apenas. Mesmo no “lazer”, se estamos convivendo com outras pessoas – e ninguém nunca está completamente só – sempre teremos que nutrir uma disposição paciente para alguma espécie de confronto.
- Nesse sentido, será mais prudente que não haja julgamentos.
- Sim, não julgarei o outro e tampouco o meu passado: considerado já a partir de um segundo atrás.
- Essa é a disposição de que falávamos, então, ser agora e adiante sempre.
- Uma tarefa solitária, sobretudo no que tange à decisão. No mais, tudo será sempre em companhia.
- Yes.