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sexta-feira, 7 de março de 2014

Das emoções do que se vê e do que se entrevê em Victor Hugo

                                           Deep Sea Flower by TylerXy

Uma grande emoção que tenho vivido, desde a última quinzena, tem sido a leitura do romance Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo. Tenho compartilhado com meus amigos, no facebook, minhas impressões de tal leitura, bem como trechos dessa obra.
Isso tem sido ótimo!
Outro dia, inclusive, encontrei uma moça no elevador da empresa em que trabalho, com quem tenho pouco contato na vida real, e ela comentou comigo:

- Nossa! Dá uma vontade de também ler o livro, quando a gente lê os trechos que você tem postado no face!

Fiquei contente, porque esse autor é tão pouco lido nos nossos dias! E ele foi, sem dúvida alguma, genial.
Uma das coisas que mais tem acontecido comigo, durante essa experiência de leitura, é eu ficar com os olhos marejados e ter que interrompê-la. Como apenas leio o livro durante o trajeto para o trabalho ou do trabalho para casa, faço a leitura em público, nos vagões dos trens da CPTM ou do Metrô de São Paulo. Hoje também aproveitei para ler o romance na fila de um banco, local em que fui obrigado a aguardar pelo atendimento por mais de uma hora. Que bom que eu estava com o livro. Jamais se aventure a frequentar uma fila durante tanto tempo sem ter um livro para ler!

De qualquer modo, seja no interior de vagões ou em filas, o constrangimento é sempre o mesmo, ter de verter lágrimas, durante a leitura, e perceber que as outras pessoas ficam se perguntando:

- Afinal, o que faz esse homem chorar? O que este livro pode conter de tão triste ou de tão emocionante?

Bem, nesse livro (eu ia dizer filme! hahaha) a história se passa a maior parte do tempo no mar. Em lugares inabitados ou mesmo hostis à presença humana. Lendo o capítulo XIII da obra,  O QUE SE VÊ E O QUE SE ENTREVÊ, deparei-me com um trecho com o qual me emocionei, especialmente, porque tive uma sensação que me pareceu antiquíssima: a de visitar um ambiente que é muitíssimo familiar à nossa espécie, apesar de tudo, de todo o estranhamento aparente... Afinal, sim, não podemos esquecer que todos viemos do mar.

Bonne lecture et bonne relecture!

Debaixo dessas vegetações escondiam-se e mostravam-se ao mesmo tempo as mais raras joias do escrínio do oceano, os martins, as mitras, os elmos, as púrpuras, os búzios, os estrutiolários, as conchas univalves. As campanas de lapas, semelhantes a barracas microscópicas, aderiam ao rochedo e grupavam-se em aldeias em cujas ruas rolavam as multivalves, esses escarabeus da vaga. Não podendo os seixos de mariscos entrar facilmente nessa grota, aí se refugiavam as conchas. As conchas são grandes fidalgos que, bordados e paramentados, evitam o rude e incivil contato do populacho das pedras. A fúlgida reunião das conchas fazia debaixo da água, em certos lugares, inefáveis irradiações através das quais entrevia-se um grupo de azuis e vermelhos, e todos os reflexos da água.
Na parede da caverna, um pouco acima da linha de flutuação da maré, uma planta magnífica e singular prendia-se como um debrum à tapeçaria do sargaço, continuava-o e terminava-o. Essa planta, fibrosa, vasta, inextrincavelmente dobrada, e quase negra, oferecia ao olhar largas toalhas embaraçadas e obscuras, ornadas em toda a extensão de numerosas florinhas cor de lápis-lazúli. Na água parecia que essas flores acendiam-se, e cuidava-se ver brasas azuis. Fora da água eram flores, dentro da água eram safiras, de modo que a onda, subindo e inundando o esvazamento da grota, revestia essas plantas e cobria o rochedo de carbúnculos.

A cada enchimento da vaga túmida como um pulmão, essas flores banhadas resplandeciam, a cada abaixamento apagavam-se; melancólica semelhança com o destino. Era a aspiração, que é a vida; era a expiração, que é a morte.
(HUGO, Victor. Os Trabalhadores do Mar. Trad. Machado de Assis. São Paulo: Nova Cultural, 2002, p. 220-221)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Victor Hugo

Eu preciso agradecer ao Alessandro do blog Livros & Afins porque ele sempre tem informações preciosíssimas sobre o mundo dos livros. Hoje, ele exibiu uma imagem de Onde Batman passa os poucos momentos em que não há crimes. Então, vejo no rodapé dessa postagem um link para outro post em que ele nos conta que o magnífico Coringa foi inspirado em um livro de Victor Hugo chamado O homem que ri.
De Victor Hugo eu só lera O Corcunda de Notre Dame, [uma amiga disse-me que o Paulo Francis (um jornalista brasileiro antiquíssimo) chamava-o "O Cordame de Notre Cunda". rsrsrs]. No entanto, o li quando eu ainda era um adolescente. Pois bem, imediatamente fiquei louco de vontade de ler Victor Hugo nesse momento da minha vida e comecei a procurar pela web o tal O homem que ri. Encontrei, em um site chamado Eflúvio Magnético, a reprodução de uns poucos capítulos do livro e comecei-lhes a leitura. Achei incrível, aterrador e emocionante. Mas isso eu já sabia que seria. Eu lembro-me perfeitamente da forte impressão que me deixou o Corcunda...
Só para que vocês saibam o contexto do trecho que li, até o ponto da passagem que trouxe para cá: ali temos uma criança que provavelmente fora abandonada em uma ilha deserta, um menino náugrafo e que encontra o cadáver de um enforcado dependurado em um precipício. Após a descrição terrível de um ataque de corvos ao cadáver, teremos a passagem a seguir e que eu reproduzo aqui porque eu achei que fala do ser criança de um modo muito, muito peculiar:

Já não corria, andava. Dizer que o encontro com um morto o fizera homem, seria limitar a impressão múltipla e confusa que experimentava. Havia nesta impressão muito mais e muito menos. Aquela forca, sobretudo turva no rudimento de compreensão que era o seu pensamento, permanecia para ele uma aparição. Como, porém, um terror dominado equivale a um robustecimento, sentiu-se mais forte. Se tivesse idade para se sondar, teria descoberto em si mil outros princípios de meditação, mas a reflexão das crianças é informe, e quanto muito sentem o travo amargo desta coisa obscura para elas a que o homem mais tarde chama de indignação. Acrescentemos que a criança tem o dom de aceitar muito rapidamente o termo de uma sensação. Os contornos longínquos e fugitivos, que constituem a amplitude das coisas dolorosas, escapam-lhes. A criança é resguardada pelo seu limite, que é a fraqueza, das comoções demasiado complexas. Vê o facto, e pouco mais ao lado dele. A dificuldade de achar suficientes as ideias parciais, não existe para a criança. O processo da vida só se instrui mais tarde, quando chega a experiência com os seus actos. É então que se dá o confronto dos grupos de factos encontrados, no decorrer do tempo; a inteligência, suficientemente informada e desenvolvida, compara; as recordações da infância reaparecem sob as paixões, como o palimpsesto por baixo dos borrões; estas recordações são pontos de apoio para a lógica; e o que era visão no cérebro da criança torna-se silogismo no cérebro do homem. A experiência, afinal, é diversa, e dá bom ou mau resultado, segundo as disposições naturais dos homens. Os bons amadurecem; os maus apodrecem.
O pequeno transpusera um quarto de légua a correr e outro quarto de légua a andar. De repente, sentiu que o estômago o importunava. Então assaltou-o um pensamento, que lhe eclipsou num instante a hedionda aparição da colina: pensou em comer. Há no Homem felizmente um animal; é ele que o chama à realidade.
Comer, porém, o quê? Comer onde? Comer de que modo?
Apalpou as algibeiras, porém, maquinalmente, porque bem sabia que as tinha vazias.
Depois apressou o passo. Não sabia para onde ia, mas apressou o passo para o albergue possível.
Esta fé numa pousada faz parte das raízes da providência no homem.
Crer numa pousada, é crer em Deus.

Preciso comprar esse livro! Agora, quero ler o livro inteiro.