quinta-feira, 21 de abril de 2016

Aprendendo a amar

Todos nós estamos sempre aprendendo a amar, porque ninguém jamais nasceu sabendo como é isso de amar. Ontem, eu tive uma espécie de epifania que agora pela manhã eu tomei como lição do que seja vivenciar o amor em suas dificuldades.

Amar é... estar num parquinho com seus instrumentos de folguedo - gangorras, balanços, escorregadores etc. - e cerca de umas vinte crianças felizes por estarem ali, todas correndo e utilizando  os recursos do local e você sendo o único adulto responsável por elas. Acreditem, é realmente um misto de bem-estar tenso. Sua primeira preocupação é que elas não se machuquem. Os brinquedos de repente parecem ser perigosos e as brincadeiras todas igualmente perigosíssimas. E, então, você descobre que estar no mundo é uma brincadeira perigosa, embora absolutamente necessária por isso mesmo. Até que aparece a primeira criança chorando.

Nesse caso em questão, era um garoto loirinho que vinha em minha direção, cercado por todos os amiguinhos:

- O que foi que aconteceu?
- A gente estava brincando de pega-pega e ele foi pego e começou a chorar.
- Mas o que vocês fizeram a ele? ( Aqui fala o adulto desconfiado de que o problema não poderia ser tão simples...rs)
- Nada. Ele foi pego...
O menino derramava lágrimas sentidas e eu, por minha vez, senti que o problema era este tão somente.
- Querido, quando a gente brinca de pega-pega é assim mesmo: a gente corre de alguém que quer nos pegar como todos os outros estão correndo e... a gente pode ser pego, mas a partir deste momento, você se torna o pegador e aí é só correr atrás de todos os outros até achar alguém que possa ser pego também. Entendeu?
Ele entendeu. E imediatamente o choro estancou e, a partir daí já se tornara o pegador e a brincadeira continuou.
Amar é... compreender que as crianças estão aprendendo a viver no mundo e que elas ainda não sabem coisas muito simplórias, aparentemente.

Mais um alerta de choro e ranger de dentes e que vinha da área dos balanços.
Uma garotinha sentada no chão, enquanto dois ou três amiguinhos se prostravam em volta, consternados. Mais uma prova de que o amor é instintivo nas crianças e que a forma básica e primitiva de sua revelação é mesmo em meio ao sofrimento do outro.

- O que foi que aconteceu?

Esta pergunta é a prova do interesse do adulto pelo caso e precisa ser dita de maneira agradável aos ouvidos, revelando ao mesmo tempo que estamos preocupados, mas seguros de que podemos resolver qualquer problema. Tudo isso só pode ser indicado pela cadência sonora da frase, o que parece ser incrível...hahaha
- Ela caiu.
O choro era copioso, mas ela parecia não ter sofrido nenhuma lesão. Apenas o joelho estava levemente vermelho. Não havia sangue. Ela também conseguia mover-se e andar. Sentamos no banquinho debaixo da árvore, para lhe dizer, enquanto enxugávamos as lágrimas do seu rosto:

half moon
- Fique calma, o momento mais traumático já passou, que foi a queda em si mesma. Esta dorzinha que você está sentindo agora tenderá a diminuir. Seja bem-vinda ao planeta terra, aqui é um lugar onde a gente se machuca bastante, mas esta experiência é importante porque nos torna mais fortes a cada queda. Acredite em mim, a gente vive isso ao longo de toda a vida, e a experiência não precisa ser assim tão dramática. ok?

Ela foi se acalmando como quem acredita que aquele adulto parece ter razão, embora a gente não esteja entendendo muito bem ainda o que ele está dizendo.


segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Berreiro do bem

Hoje aconteceu uma coisa tão fofa na escola!

Eu estava saindo da sala dos professores e três garotinhas muito pequeninas (do primeiro ciclo do fundamental) estavam chorando desesperadamente. Eu perguntei o que estava acontecendo: 

- Como assim três garotas chorando ao mesmo tempo: isso é uma lástima! O que aconteceu? 

Entre lágrimas e soluços uma delas conseguiu relatar que o "Gabriel" (um coleguinha) tinha invadido o banheiro das meninas enquanto uma delas fazia o número 1 e ainda contou uma outra história nada a ver para a professora (que invertia a culpa - típico dos meninos desde a tenra idade, portanto). 

Depois de ouvi-las atentamente, eu disse:

- Então, a primeira coisa que nós vamos fazer é parar de chorar. Os inocentes NÃO DEVEM CHORAR JAMAIS. Apenas os culpados é que deveriam chorar e sofrer as consequências dos seus atos. Pessoas inocentes devem manter a calma até que tudo fique esclarecido. Jamais chorem sendo inocentes. Nós devemos permanecer calmos diante de um episódio como esse, para explicar o que aconteceu e se defender de eventuais injustiças. ok? 

E não é que as meninas foram ficando calmas e pararam de chorar? Emoticon heart
hahahaha

sexta-feira, 8 de maio de 2015

A pergunta que não deveria ser feita

Quando eu era mais jovem, eu achava normal e louvável que se declarasse a orientação sexual e estranhava quando alguém não se declarava, por exemplo, homossexual.

Isso tinha a ver com o fato de eu já ter sofrido preconceito de pessoas muito queridas justamente após elas terem descoberto por terceiros a minha verdadeira orientação. Ingenuamente eu acredita que se elas tivessem sido informadas por mim, elas não teriam tido preconceito. Pobre ilusão...

Contudo, o tempo passou e hoje acho absolutamente grosseiro quando alguém me pergunta: "Você é homossexual, heterossexual ou bissexual?" Isso é ainda mais desagradável se a pergunta for feita por uma pessoa que eu mal conheço e que se sente muito à vontade em me questionar apenas por que ela já imagina qual seja a resposta e, portanto, quer apenas uma confirmação...

Foi o que aconteceu comigo outro dia e a minha reação foi:

- Meu! Jura que você está me perguntando qual é a minha orientação sexual? Você não acha falta de educação perguntar a esse respeito a uma pessoa com a qual você não tem intimidade?

O rapaz ficou meio surpreso com minha resposta e achou melhor responder, por sua vez, alguma coisa a título de esclarecimento: "Eu não tenho problemas com isso, eu não tenho preconceito."

De minha parte, achei melhor esclarecer também o seguinte:

- Ainda que isso possa ser verdade, seria interessante que você ao menos refletisse a respeito desse seu questionamento a minha pessoa. Por exemplo, eu considero muito estranho que você se sinta à vontade para fazer um pergunta de natureza íntima a alguém que você acabou de conhecer.
Além disso, há uma outro aspecto da questão - e isso talvez seja ainda mais importante. Quando você me pergunta a respeito da minha orientação é devido ao fato de que, muito provavelmente, você já tenha um palpite a esse respeito e está tão somente querendo uma confirmação... Eu não consigo, por exemplo, imaginá-lo fazendo essa mesma pergunta a alguém que você tenha certeza que é um heterossexual. Aliás, será que algum heterossexual já foi questionado sobre a sua orientação sexual? "Você é heterossexual?" Acredite: nenhum heterossexual já ouviu essa pergunta. Então, por que um homossexual precisa ne-ces-sa-ri-a-men-te se assumir homossexual ao mundo? Evidentemente que ele pode e deve, se quiser. O que eu questiono a partir da sua pergunta é: Por que as pessoas não podem simplesmente conviver com um homossexual sem questioná-lo sobre a sua vida íntima ou tão somente deixar que as questões concernentes à intimidade dessa pessoa venham à tona, naturalmente, à medida em que o tempo e o espaço do convívio permitam que se fale sobre sexo etc?
E saiba: eu não estou me sentindo ofendido (embora, nesse sentido que aqui expus, a sua pergunta seja realmente ofensiva) eu apenas estou surpreso com o fato de que uma pessoa que me parece inteligente não tenha pensado nisso tudo por conta própria. 

sexta-feira, 3 de abril de 2015

My Muffins!


Uma coisa que eu sempre quis aprender a fazer: Muffins!

Para variar, descobri que eu estava querendo tornar difícil uma coisa que qualquer criança pode fazer...rs

Assim sendo, outro dia eu me dediquei a conhecer a receita e a reproduzi-la na minha cozinha.
Não foi uma experiência careta!

Em primeiro lugar, eu procurei adquirir mirtilos frescos. Aliás, fui obrigado a visitar um outro bairro da cidade onde eu poderia encontrá-los em um sacolão e, assim, os trouxe para casa.

Além dos mirtilos frescos (170g), você vai precisar de:

1 xícara e 1/2 (195 gramas) de farinha de trigo
3/4 xícara (150 gramas) de açúcar
1/2 colher de chá de sal
2 colheres de chá de fermento em pó
1/3 xícara (79 ml) de óleo vegetal
1 ovo grande
1/3 - 1/2 xícara (79 ml - 118 ml) de gordura reduzida (2%) do leite
1 colher e 1/2 de chá de essência de baunilha


A receita é facílima:

Misture a farinha, o açúcar, o fermento e o sal em uma tigela grande e misture com um fuê.
Bata pelo menos 10 vezes para se certificar de o fermento em pó e o sal estão incorporados uniformemente.
Em seguida, adicione o óleo vegetal em um recipiente de medição até alcançar a quantidade sugerida. Adicione ali também o ovo. Em seguida, acrescente o leite até alcançar a linha equivalente a 1 copo. Adicione, por fim, o extrato de baunilha e bata até misturar.

Leve essa mistura líquida para a tigela com os secos e mexa com um garfo. Não exagere, pois a massa deve ficar grossa mesmo. Por fim, basta acrescentar os blueberries, usando uma espátula de silicone para misturar, suavemente, as frutinhas na massa do muffin. Leve ao forno pré-aquecido, o tempo será de 15 a 20 minutos para assar, mas isso também pode depender do seu forno. Quando a superfície estiver dourada e o palitinho espetado sair sequinho estará pronto. :-)

No domingo de páscoa, vou substituir os mirtilos por gotas de chocolate. Acho que vai ser beeeemmm legal! hahaha

Muffins com gotas de chocolate.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Sexo & Religião: o estudo de Dag Øistein Endsjø

O livro Sexo e religião: do baile de virgens ao sexo sagrado homossexual, do cientista da religião norueguês e professor da Universidade de Bergen, Dag Øistein Endsjø, propicia aos seus leitores um prazer bastante peculiar, o de acompanhar o desvelamento do vasto panorama que a obra situa em torno dos modos como a sexualidade humana é idealizada pelas principais religiões do mundo contemporâneo: Cristianismo, Judaísmo, Hinduísmo, Islamismo e Budismo. O livro já foi traduzido para sete idiomas e este ano se deu seu lançamento no Brasil, onde também assistimos ao debate em torno de temas polêmicos ligados à sexualidade, por exemplo, na agenda política, quando candidatos cristãos conservadores e candidatos pró-bandeiras do movimento LGBT se digladiaram, motivando ainda os desdobramentos acerca de tais manifestações entre usuários das principais redes sociais na internet. Portanto, encontrarmos este livro nas livrarias se reveste de um caráter de necessidade.

O interesse da obra de Dag Øistein Endsjø está justamente em questionar consensos. Nem sempre temas tabus a respeito da sexualidade humana foram assim considerados pelas religiões, ou antes, as origens de tais tabus ou mesmo do que hoje entendemos como preconceitos podem perfeitamente apontar para reflexões necessárias, sobretudo na direção da compreensão de que sexo e religião podem ser combinados de diferentes maneiras e de que, portanto, máximas como “O judaísmo sempre foi...” ou “O islã sempre foi...” não deixam de ter contrapontos muito produtivos, os quais a própria disciplina histórica revela e que dizem respeito à maioria das religiões na sua relação com a sexualidade.

Ao optar por não fazer uma abordagem cronológica e tampouco não tomando cada religião à parte para discorrer sobre o papel do sexo em cada uma, o pesquisador desperta ainda mais nosso interesse na leitura da obra, pois ele a organiza em capítulos temáticos, nos quais questões absolutamente contemporâneas são apresentadas a partir de uma pletora de informações sobre como as diferentes religiões viram ou veem os aspectos abordados. Assim, temos que alguns dos antecedentes, motivação e crenças gerais por trás da paisagem complexa de atitudes religiosas em relação ao sexo hoje, podem ser melhor compreendidos quando frente a uma análise mais detida sobre textos sagrados, mitos antigos, declarações doutrinais, material histórico, pesquisas de ontem e hoje sobre o comportamento sexual, além de uma grande variedade de outras fontes que o autor analisa.

No capítulo inicial sua intenção é compreender as fronteiras da própria religião: as religiões têm fronteiras e/ou limites? Uma vez que determinada religião espelha uma ampla gama de abordagens diante de diferentes tipos de sexo, até que ponto certas normas relativas à sexualidade podem ser circunscritas a ela? No capítulo seguinte, o desafio é o de compreender o que é o sexo para as religiões. A variação das definições do que se considera sexual obedece o que as diferentes comunidades de fiéis determinam, uma vez que, em essência, este é um fenômeno construído culturalmente. Isso é o que permite que conservadores do talibã considerem os tornozelos de uma mulher à mostra um crime que possa vir a ser punido, ou que, em determinados círculos cristãos, a masturbação mútua entre jovens solteiros possa vir a não ser considerada uma prática sexual propriamente.

O maior capítulo do livro é dedicado ao tema do sexo heterossexual, que traz o sugestivo título de Bençãos e maldições da heterossexualidade. Apesar de termos a falsa impressão de que o sexo heterossexual, por ser amplamente aceito, possa parecer mais livre, no contexto religioso, isso não é verdade. Segundo o autor, culpa, danação eterna e pena de morte são apenas alguns exemplos do que aguarda aqueles “que não lograram se ater ao parceiro heterossexual correto, ao contexto correto e aos orifícios corretos”. As sessões do capítulo são bastante elucidativas de até onde pode ir o cerceamento da liberdade do fiel heterossexual: sexo pré-conjugal, casamento como instituição, sexo obrigatório, sexo para fins de procriação, poligamia, sexo extraconjugal, divórcio e, ainda, demais proibições e orifícios corporais. Ou seja, após a análise de tal listagem, o que se conclui é que há poucas, senão nenhuma, áreas do comportamento sexual que a religião não tentou regular. Além disso, Endsjø considera que as regras para homens e mulheres são tão desiguais que mais correto seria tratar separadamente da heterossexualidade masculina e da feminina, ou seja, como categorias marcadamente distintas. Os homens sempre têm prerrogativas na condução de sua experiência sexual na maior parte das religiões.

No capítulo dedicado ao sexo homossexual, Endsjø declara que não há nada no fenômeno religioso como tal que forneça subsídios para que uma determinada religião seja homofóbica. Ele, aliás, elenca exemplos na tradição budista ancestral, além da experiência helênica, nas quais a homossexualidade foi amplamente abençoada. É evidente, no Cristianismo, que Jesus jamais proferiu palavra contra o sexo homossexual, embora as palavras de Paulo contra o mesmo sejam sempre lembradas de tempos em tempos para justificar a execução de homossexuais, além de, evidentemente, a narrativa de Sodoma e Gomorra no Antigo Testamento, que Endsjø nos esclarece foram condenadas muito mais pela falta de hospitalidade que exerciam, pois ela era um preceito importante no judaísmo de então. Os exemplos da perseguição aos homossexuais promovida pelos cristãos são inúmeros no capítulo, e que ocorreram ao longo de toda a história, apesar disso, talvez o mais chocante seja o do século passado, quando os ideais cristãos serviram como ponto de partida para a perseguição homossexual nazista e por que quem derrotou os nazistas foram os cristãos, um grande contingente de homens homossexuais não foram libertados dos campos de concentração, mas enviados para prisões para cumprir a pena a que os nazistas os condenaram, ou seja, embora não tenham sido o único grupo a que os nazistas perseguiram, foram o único cuja perseguição foi legitimada pelos aliados ao fim da guerra.

A verdade é que, segundo Endsjø, o reconhecimento religioso do casamento homossexual, o clamor pela pena de morte, uma liberalização maior dos costumes sociais, o surgimento de grupos religiosos homossexuais e um esforço crescente empreendido pelas religiões na manutenção da discriminação formam um quadro bem complexo. No entanto, o que se verifica também é que mesmo os mais conservadores são obrigados a recuar quando convivem com fiéis da mesma religião dotados de outra visão e, portanto, mais tolerantes em relação à homossexualidade. Além disso, embora a maioria dos cristãos homofóbicos, por exemplo, feche os olhos à trajetória sangrenta da perseguição aos homossexuais impingida pelo cristianismo durante séculos, quando se toma consciência de que aquilo que é condenado não são mais meras figuras abstratas, mas sim pessoas, nossos vizinhos, amigos, filhos e irmãos, o tradicional preconceito cristão deixa de ser assimilado tão facilmente. Contudo, a única conclusão possível deste capítulo é de que o leque de atitudes religiosas em relação à homossexualidade é mais amplo hoje do que jamais foi e de que não existe nenhuma visão da homossexualidade que não possa ser defendida sob uma perspectiva religiosa.

O livro vai fechando seu escopo de temáticas possíveis em torno do tema central da obra, em direção ao problema do racismo sexo-religioso entre outras formas de discriminação e também da visão do sexo, no contexto religioso, em cultos religiosos, sexo praticado com divindades, e até após a morte, afinal, a existência de vida após a morte é um tópico jamais contestado por nenhuma concepção religiosa (Endsjø acrescenta, “bem como jamais comprovado”) e, portanto, reflete algumas das mesmas ideias sexo-religiosas sobre as quais se fundamentam vários credos. Daí é que se originaram ideias como a de que sexólatras habitam regiões infernais dantescas ou ainda de que no arrependimento é possível alcançar o perdão de Deus, pois, de acordo com o Alcorão, o paraíso tem oito portas, enquanto o inferno tem apenas sete.

Perto do término do livro, no capítulo dedicado às Prioridades Sexuais da Religião, o autor nos apresenta uma rigorosa análise do problema central a que as religiões se veem atreladas: se os fieis não mais seguirem suas regras pertinentes à vida sexual e, portanto, na vida real e privada, esses mesmos fiéis podem passar a suspeitar de que não acreditam naquilo que professam, pois se sequer se comportam como suas crenças tradicionalmente exigem que eles se comportem! Mas, afinal, quais são as estratégias comuns adotadas pelos líderes religiosos para aproximar as normas sexo-religiosas da vida real? Em primeiro lugar é possível mudar as regras completamente, caso dos cristãos em relação, por exemplo, ao racismo-sexual, que sempre caracterizou parcelas consideráveis do cristianismo, mas cuja alteração é um exemplo de uma modificação de tal sorte que leigos, e até o próprio clero, acreditam que o modo como é hoje seja na verdade o modo original da doutrina. Também é possível coagir as pessoas a fazerem o que a doutrina determina. Essa foi a estratégia mais adotada no passado e há inúmeros países que a empregam até hoje e sem nenhum pudor. É evidente que esta estratégia é uma afronta direta aos direitos humanos e, portanto, condenada pela ONU entre outras organizações. Outra possibilidade que as religiões encontram como estratégia é a da simples expulsão das pessoas que não se comportam como as regras determinam. Endsjø é irônico ao falar dela, pois nos diz que o problema aqui é que talvez, nesse caso, as religiões tivessem que promover expulsões em massa de fiéis. Por fim, é possível também a esses religiosos tão somente ignorar as discrepâncias entre preceitos sexo-religiosos e comportamento, mas, como já vimos, isso estabelece a dúvida a todo o complexo das crenças: se não preciso realmente obedecer tal preceito, posso pôr em dúvida todos os outros.


Após percorrer do modo mais abrangente os interstícios do tema a que se propôs tratar, Endsjø é claro e taxativo ao nos lembrar que há três palavras que, ao menos na realidade de um mundo democrático, precisam ser sempre consideradas: livre-arbítrio, consentimento e respeito mútuos. Quando tais princípios são levados em conta, dá-se ao indivíduo o direito de decidir até que ponto ele será ou não governado por códigos de conduta sexo-religiosa e não teremos como determinante o fenômeno de que alguns queiram controlar a vida sexual alheia. Simples assim.