sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Elysa Lynch e a Guerra do Paraguai




Elisa aos 20 anos (arquivo da família de Barbara Dimock)

Como já disse aqui, comecei a leitura de Grandes Expedições à Amazônia Brasileira. No entanto, o fiz enquanto ainda lia esse livro: Calúnia - Elisa Lynch e a Guerra do Paraguai. Agora, terminei a leitura do mesmo e ficou-me um sentimento de bom dever de leitura cumprido. Porque, não sei se minha formação em história não foi suficiente, mas a verdade é que durante a leitura dei-me conta de que eu não conhecia quase nada acerca da história da Guerra do Paraguai. :-(

Uma guerra sangrenta como sói ser as guerras e que ocorreu no quintal de nossa casa. Eu não sabia nada acerca do ditador do Paraguai na ocasião, Francisco Solano López, bem como nada acerca de sua loucura persecutória, que aliás, contribui para que ele perdesse a guerra, e ainda, nada acerca da Aliança tríplice entre Brasil, Argentina e Uruguai, os que venceram a guerra. Tampouco, que Dom Pedro II poderia ter aceitado a informação do Duque de Caxias de que a guerra estava ganha dois anos antes do tempo em que acabou sendo, por fim, o do término da guerra: o carniceiro Conde d’Eu, marido da princesa Isabel, só sossegou depois que mataram López (que, aliás, tinha pretendido casar-se com a princesa brasileira). Solano López, então, foi enterrado juntamente com seu filho de apenas 13 anos, numa cova cavada pelas próprias mãos de sua mulher, Elisa Lynch.
Essa heroina é a personagem central do livro. Tal mulher, segundo os autores, Michael Lillis e Ronan Fanning, sofreu toda espécie de calúnia durante a guerra e depois dela. Ela era uma Irlandesa e conheceu Solano López em Paris, uniu-se a ele e viveu no Paraguai onde foi considerada por muitos uma rainha, por tantos outros uma espécie de prostituta e usurpadora. Na verdade, tinha porte de rainha e causou muita inveja, ao menos, isso é o que pude concluir da leitura do livro.
O mais delicioso é que o livro é escrito de uma maneira que muitas vezes lembra um roteiro de cinema. É possível visualizar os momentos dramáticos da vida dessa mulher na sua relação com o ditador paraguaio, com seus inimigos, mas também com o povo simples do Paraguai, sobretudo as mulheres do povo e que a amavam.
Ao final de sua curta e intensa vida, ela morreu aos 52 anos, Elysa, sobrevivente da guerra, viveu sozinha num pequeno apartamento em Paris, durante treze anos de silêncio. Os autores então, são bastante elegantes. Eles nos dizem, na tentativa de responder ao porquê desse silêncio final, vindo de uma mulher tão aguerrida no passado:

Seria a calúnia, a torrente de difamação quase inimaginável e sensacionalista, ou a compreensão, no fim, de que não havia nada que ela jamais pudesse fazer para recuperar sua fortuna ou resgatar sua reputação como mãe compassiva e decente, além de companheira fiel até a morte de Francisco Solano López? O que esmagou seu entusiasmo? Algumas linhas de Shelley são sugestivas:
[Ela] superou a sombra de nossa noite
Inveja e calúnia e ódio e dor
E aquela inquietação que os homens erroneamente chamam de prazer ,
Já não podem nem tocá-la nem torturá-la novamente
Do contágio do lento estigma do mundo
[Ela] está a salvo, e já não pode condoer-se
Um coração tornou-se frio, uma cabeça ficou grisalha em vão.

Penso que a mulher é sempre um ser especialíssimo, e quando ela é a personagem central de um livro e de uma história verdadeira, a história e o livro tornam-se muito mais interessantes. ;-D
Na esperança de convencer futuros leitores dessa história, da importância e necessidade dessa leitura, irei reproduzir um texto que sintetiza melhor do que eu próprio estou conseguindo fazê-lo o sentido desse livro. Trata-se de um texto que se pode ler na orelha do livro, e que é assinado por Olgária Matos:

Calúnia oferece três planos simultâneos de interesse cultural: a pesquisa histórica que o inscreve nas competências da análise documental e o estabelecimento dos critérios de validade; a reconstituição do imaginário de uma época em meio às Guerras de Independência e a constituição das políticas de centralização autoritárias; o gênero literário e seu destaque entre as biografias históricas. Além de reabrir o passado, amplia os horizontes do presente, não para contar a "história do vencido", mas refletir sobre as injunções que tornaram possível, de ambos os lados, a barbárie. O livro não prescinde da consideração do papel das paixões nas decisões políticas, afastando-se da noção de uma objetividade assegurada pelo sentido único dos eventos políticos. Diferenciando-se de Maria Antonieta, de Stephan Zweig, o presente trabalho constrói as contingências da vida de Elisa Lynch, aproximando-se dos procedimentos literários de Proust, que invertem as relações entre arte e vida, transfigurando a personagem história em heroína literária, elaborando suas reflexões no limiar da história e da ficção, para melhor ingressar no sentido dos acontecimentos.

Boa leitura!

2 comentários:

  1. Eu quero ler isso também! Realmente eu não tenho nenhum conhecimento relacionado a isso.
    Inclusive o Brasil já esteve em outras guerras, com outros paises latinos que desconheço também.
    Se for seu, depois vc me empresta, pois estou lendo no momento o livro Auto-engano, Eduardo Gianetti.
    Abraço!

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  2. Olyvia,

    Sim, o livro é meu. Eu o ganhei.
    Vou emprestá-lo a você, claro! Tenho certeza que você também vai gostar de saber dessa história.
    um beijo.

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