segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O Futebol é uma janela para o Brasil, segundo Felipe Carrilho

Na semana passada, aconteceu o lançamento do livro Futebol: uma janela para o Brasil, de Felipe Dias Carrilho. O autor é um apaixonado por futebol, como tantos brasileiros, não é mesmo? Além disso, ele também é bacharel em história pela USP, colabora com os jornais Brasil de Fato e Diário do Comércio e tem um blog chamado Jogo de Classe.
Embora eu não seja apaixonado assim por futebol, depois de ler o livro, eu compreendi até mesmo minha relação um tanto ambígua com o esporte. É que na infância eu não curti futebol e houve um período em que eu nem queria ouvir falar de futebol, mas graças a Deus, a gente cresce! E, então, já faz alguns anos, eu tenho olhado para o futebol com bons olhos, e com a consciência de que esse é um fenômeno que precisa ser compreendido para que faça sentido. E, afinal, eu sou uma pessoa que deseja entender o sentido das coisas. rsrsrs

Pois bem, se o futebol é um esporte que mobiliza tanta gente, todo um país, ele não pode ser algo que não faça sentido, e, tampouco ser visto, tão somente, como diversão, naquilo que essa palavra tem de descompromisso com o próprio contexto social em que vivemos.
Ele pode também ser diversão, entretenimento, mas é muito mais do que isso.
E eu, bem ou mal, já sabia disso, mesmo que eu nunca o tenha jogado, ou tenha ido a um estádio assistir a uma partida de futebol e me limite a assistir a um jogo de futebol quando é época de copa do mundo, para ver a seleção brasileira jogar.
A seleção brasileira e as copas todas são o alvo de uma análise histórica e mesmo antropológica, bastante aprofundada pelo autor de Futebol: uma janela para o Brasil.
O livro tem um apelo importante: ele nos faz entender porque o futebol é essa janela para vislumbrarmos nosso país, em suas contradições. É que o esporte passou a ser popular, propriamente, desde que saiu dos ciclos de elite a que estava circunscrito, no início de sua propagação pelo país.
Ele defende que, sim, a participação dos negros no esporte é que tornou o futebol brasileiro o futebol arte (esse quase em extinção) e essa ascensão, tanto dos negros quanto desse tipo de futebol, não ocorreu sem sofrimento:
Por exemplo, você sabia que os negros ficaram muito tempo sem ocupar a posição de goleiro na nossa seleção, depois do gol que fez o Brasil perder a última copa sediada no país, em 1950, quando o goleiro era negro?
Ou você sabia que, durante a ditadura, o Brasil perdeu uma das Copas e isso já era uma sugestão do declínio do próprio regime?
E, também, que alguns nomes importantes do futebol brasileiro, como o do jogador Dr. Sócrates, do Corinthians, apoiou, em campo, o movimento pela reabertura democrática do país durante aquela mesma ditadura?
Uma outra informação importante e atual, e que o autor nos sugere pensar, diz respeito ao fato de que há um perigo de retorno da elitização do esporte - com a desculpa de combater a violência das torcidas - limitando o acesso aos estádios, por exemplo, encarecendo os ingressos. São os caminhos de uma nova configuração do futebol: a da sua mercantilização, nos moldes dos interesses econômicos que envolvem verdadeiras fortunas.
Por tudo isso, por nos fazer conhecer e refletir em toda essa complexa teia que envolve o esporte no nosso país é que esse livro é importante e deve ser lido.
Há ainda um motivo ainda mais prazeroso e que reconheci a partir de sua leitura, é que, como em todo livro bem escrito, podemos observar que o autor consegue falar do futebol, da sua história, suas relações com o universo da política, da economia, enfim, com a própria vida brasileira nesse último século, e tudo isso soa vivo e pleno de interesse. Nada é exagerado no livro, sequer a paixão do autor pelo tema.
Tal paixão apenas contribuiu para que ele falasse do assunto com toda a segurança de quem o estuda e o pensa também com amor. Amor que está para além do esporte, posto que o que lhe interessa no futebol são os seres humanos que o fazem existir dentro de campo e também fora dele.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Quando o sentimento é amor II

Hoje, eu pretendia falar de um livro que terminei de ler, hoje mesmo, e que trata de futebol. Mas vou deixar para falar desse livro na segunda-feira, porque é um livro muito especial e sua leitura foi uma revelação, em muitos sentidos, então, ainda estou elaborando para saber como falar dele. Nesse meio tempo, retomei a leitura de Ana Karenina, o livro que eu estou saboreando aos bocados e que é imenso, em número de páginas e na riqueza do aprendizado que nos proporciona.
Uma coisa que eu gosto muito quando estou lendo é compartilhar a leitura com alguém. Enfim, trechos supreendentes, algo que me causou uma emoção especial, durante a leitura, isso porque sempre senti que compartilhar a leitura esse é também um dos prazeres especiais do ato de ler.
Tolstói tem um estilo único of course. Ele consegue, em um livro que trata do drama de uma mulher que não vive o amor no casamento, sofrendo as mazelas de sua condição de mulher casada e que se apaixona por outro homem, no final do XIX, pois bem, ele consegue falar com a profundidade necessária do que acontece com um outro casal, no romance, e que se ama de verdade. Como eu já disse na minha última postagem about Kitty e Liêvin se reencontraram. Agora, casados, estão em lua de mel.

Vejam se não é linda essa descrição de um incidente que acontece logo no começo da nova vida de casados. Tolstói está falando de algo fundamental e que aprendemos... quando o sentimento é amor.

A primeira discussão veio certo dia em que Liêvin fora de visita a uma granja nova e se atrasou meia hora, pois se perdera num atalho. Voltava para casa a pensar em Kitty, só em Kitty, no seu amor, na sua felicidade, e quanto mais se aproximava tanto maior era nele a ternura que sentia por ela. Entrou em casa a correr, tanto ou mais emocionado que no dia em que entrara em casa dos Tchierbástski para pedir a mão de Kitty. Esta, porém, acolhera-o com uma expressão tão carrancuda como nunca lhe vira. Quis beijá-la e ela repeliu-o.
- Que tens tu?
- Diverte-te... - disse Kitty, procurando mostrar-se tranquila e mordaz.
Quando, finalmente, falou, foi um nunca acabar de censuras por causa de uns absurdos ciúmes e pelo que sofrera naquela meia hora sentada, imóvel, junto à janela, à espera dele. Só então Liêvin compreendeu pela primeira vez o que não compreendera quando a levara da igreja depois da boda. Compreendeu que não só lhe queria muito, como ignorava, mesmo, onde terminava ela e onde principiava ele, tão dolorosa a sensação de desdobramento que sentira naquele momento. Ao princípio, pareceu magoado, mas não tardou a compreender que Kitty o não podia magoar, visto ser parte dele próprio. Era como quando sucede sentirmos de repente nas costas uma dor aguda e ao voltarmo-nos, com a impressão de que alguém nos feriu, verificarmos tratar-se apenas de uma pancada acidental e não termos outro remédio senão sofrer calados o mal do que no fim de contas só nós próprios somos responsáveis.
Nunca, depois, tornaria a sentir tão intensamente essa impressão.
Custou-lhe encontrar o equilíbrio. Queria demonstrar a Kitty a sua injustiça, mas ao provar-lhe que era ela quem estava em erro, irritá-la-ia ainda mais. Um sentimento natural o compelia a arredar de si próprio a culpa, atribuindo-a a ela, e outro, mais forte ainda, a reparar o sucedido o mais breve possível para não se agravar o desacordo. Ser vítima de uma injustiça era cruel, irritá-la com o pretexto de uma justificação, pior ainda. Muitas vezes acontece lutar um homem que dorme com um sofrimento de que desejaria libertar-se, verificando, ao acordar, que é no fundo dele próprio que o sofrimento reside. Eis como Liêvin teve de reconhecer que o melhor remédio era a paciência.

Não é genial em Tolstói essa capacidade para dizer tão lindamente o que vai dentro da alma de seu personagem e isso que aí vai não é o que há de mais belo no ser humano?

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Queria ter aceitado as pessoas como elas são

Ainda tenho dificuldades para aceitar as pessoas como elas são. E eu acho isso tão triste! Aliás, eu acredito, de verdade, que a melhor atitude é a de aceitar as pessoas, respeitá-las, e, com isso, ter um convívio menos áspero ou que não resulte em sofrimento para todos os envolvidos.
É precisamente por pensar assim, ou seja, essa ser uma conclusão racional a que cheguei, que tenho buscado vivenciar esse ideal. Sim, não é fácil. No entanto, eu cheguei à conclusão de que esse deve ser o ideal das relações, ou que assim é melhor, depois de muito conviver e também sofrer, ou seja, ao colher os frutos envenenados de um convívio insatisfatório e que se deu, sobretudo, quando eu próprio não respeitei as pessoas ou não as aceitei, e também quando revidei, pagando na mesma moeda, o mal que tivessem feito a mim, ao não me aceitarem como eu sou e, assim sendo, com desrespeito.
Algo muito importante e que eu estou percebendo como uma lição é o fato de que não é possível praticar essa boa vontade para com todas as pessoas, tão somente por um desejo infeliz: como quando por mesquinhez, ou seja, quando apenas não queremos ter problemas de convívio social, enfim não queremos ter problemas e...somos egoístas. Se assim o for, não será boa vontade e, naturalmente, soará falso, mesmo que as outras pessoas não percebam, pois soará falso dentro de você mesmo, mais cedo ou mais tarde.
Eu prefiro ser sincero comigo mesmo, desde agora e sempre. ;-D
Sim eu sei, é muito melhor, por exemplo, ser educado, cortez, do que ser grosseiro, ogro. Mas aquilo que por fora é bela viola, pode mesmo, por dentro, ser pão embolorado. E não há coisa pior do que você próprio se sentir assim, uma vez que só você pode saber-se tal qual.
Quero, com todas as minhas forças, acreditar que posso ser uma pessoa melhor... aceitando as pessoas como elas são. Contudo, sem exasperação. Nem para com os outros, nem para comigo mesmo. Afinal, alguém me disse, graças a Deus, uma máxima verdadeira e que me é reiterada, a cada vez que fraquejo: a calma na luta é sempre um sinal de força e de confiança; a violência, ao contrário, é uma prova de fraqueza e de dúvida de si mesmo.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Wandi Doratiotto


Eu me lembro quando o Wandi Doratiotto começou a fazer o programa Bem Brasil. Naquela época, tal programa acontecia lá na cidade universitária da USP. Eu, então, morava no Crusp e era uma delícia, no domingo de manhã, levantar-me, logo cedo, e ir assistir ao programa, ao vivo! De todos os que vi, achei inesquecível o que contou com a participação da Zizi Possi. Esse programa foi uma sensação e, ao menos para mim, isso também se devia ao seu apresentador e idealizador Wandi, com o seu bordão: “Paaaalco!”

Pois então, depois de se tornar conhecido como um dos integrantes do grupo musical Premeditando o Breque, o Premê, gravar inúmeros comerciais (o mais famoso deles consagrou aquele outro bordão “Não é assim uma Brastemp”), participar de filmes como Sábado, de Ugo Giorgetti (que eu acho maravilhoso) e apresentar toda semana o programa Bem Brasil na TV Cultura, há 15 anos, Wandi Doratiotto, agora, estreia na literatura.

Uma amiga foi naquele show que Wandi e outros artistas fizeram em homenagem ao Adoniram, nesse fim de semana, lá no Auditório Ibirapuera, e comprou o livro Haicais, do artista. O livro reúne 160 poemas, todos na consagrada forma de criação japonesa. Neles, temos uma fina e sensível observação do dia a dia, algumas vezes com toques de humor, ou propondo uma reflexão e, como nos é dito lá no seu site: nunca sem poesia.

Outra coisa muito bacana no livro é que o projeto gráfico e as ilustrações são de outro artista que eu adoro: Guto Lacaz.
Selecionei cinco dentre os que eu mais gostei:



Chamando a atenção pra si,
Falou alto o maconheiro:
- ih, esqueci...

Quer um sofrimento?
Reunião de chatos
no bar do momento.

Fruta-do-conde
Como pode?
Responde.

Digo e não sofismo:
até pra morte dá-se um jeito
depois do espiritismo.

Olha, a lua!
Toma,
é tua.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Eu sou fã de Vander Lee

Na sexta-feira, eu falei aqui do centenário de Adoniran e chamei à postagem Um menino de 100 anos. Ao criar um link para essa postagem no Facebook, um amigo comentou por lá: Viveu menino... morreu poeta. Só depois, entendi tratar-se de uma citação e isso porque ele, posteriormente, sugeriu-me que eu assistisse a um vídeo de Vander Lee no Youtube.
Fui ouvindo a canção Alma Nua e me emocionando, completamente. Ainda bem que eu deixei para ouvir a música, estando sozinho, no recôndito do meu quarto, uma vez que fiquei com o rosto banhado em lágrimas.
E, depois, fiquei pensando: Por que eu nunca tinha ouvido falar nesse mineiro, uai? Cheguei a pensar que isso se deu simplesmente porque a MPB não tem mais tanto espaço, na tv e no rádio, como já teve no passado... Contudo, hoje, conversando com uma amiga, ela disse-me que já ouvira Vander Lee e que suas músicas são tocadas no rádio, sim. Pode ser que esse seu depoimento não seja lá tão válido, porque ela é muito sofisticada, alternativa, descolada, enfim, não é qualquer pessoa, assim como aquele meu amigo que me apresentou a canção, e gente assim ouve o que tem de ser ouvido naquela única vez que toca no rádio e já ficam informados de uma preciosidade, enfim... Embora, pode ser que aconteça de eu também não estar ouvindo muito ao rádio. rsrsrs
De qualquer modo, eu me lembro que, quando criança, ouvia Chico Buarque de Holanda, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Elis Regina, Djavan, Maria Bethânia, Gal Costa, Ney Matogrosso, enfim, todos eles, os hoje ícones da MPB e isso se dava assim que uma joia de composição desses grandes compositores ou intérpretes saia do estúdio: ela vinha diretamente para nossas casas. Agora, talvez estejamos ouvindo menos rádio e a televisão, essa, definitivamente, não abre espaço para a MPB de qualidade, e, então, precisamos aguardar o tempo das nossas próprias relações, no meio virtual, para conhecer qualquer coisa nova, verdadeira e de qualidade na MPB.
O mais incrível é que Vander Lee não é alguém que começou agora, não senhor. Segundo a Wikipédia, o cantor e compositor nasceu em Belo Horizonte, em 3 de março de 1966 e começou sua carreira em barzinhos de seu estado, em meados da década de 80. Suas canções variam desde o romântico, passando pelo samba até a balada e rock mineiro. Ele já gravou com grandes nomes da MPB, como Zeca Baleiro, Elza Soares, Rita Ribeiro, Emilinha Borba, Leila Pinheiro e Nando Reis. Também compôs a música "Estrela", que foi gravada pela cantora Maria Bethânia e, além disso, teve a canção "Onde Deus possa me ouvir" gravada por Gal Costa.
Eu, se fosse você, verificaria se ninguém está por perto (caso você precise chorar como eu) e ouviria Alma Nua. A canção é um poema e ao mesmo tempo uma oração, como a Romaria, de Renato Teixeira. Nesse sentido, eu sou suspeito em falar, porque eu sou muito rezador...
Digo apenas que é uma composição como há muito eu não via na MPB. Assim sendo, a MPB está viva e seu nome atual é Vander Lee. Como podem ver virei fã do cantor. ;-D



Alma Nua
Vander Lee
Composição: Vander Lee

Ó Pai
Não deixes que façam de mim
O que da pedra tu fizestes
E que a fria luz da razão
Não cale o azul da aura que me vestes
Dá-me leveza nas mãos
Faze de mim um nobre domador
Laçando acordes e versos
Dispersos no tempo
Pro templo do amor
Que se eu tiver que ficar nu
Hei de envolver-me em pura poesia
E dela farei minha casa, minha asa
Loucura de cada dia
Dá-me o silêncio da noite
Pra ouvir o sapo namorar a lua
Dá-me direito ao açoite
Ao ócio, ao cio
À vadiagem pela rua
Deixa-me perder a hora
Pra ter tempo de encontrar a rima

Ver o mundo de dentro pra fora
E a beleza que aflora de baixo pra cima
Ó meu Pai, dá-me o direito
De dizer coisas sem sentido
De não ter que ser perfeito
Pretérito, sujeito, artigo definido
De me apaixonar todo dia
E ser mais jovem que meu filho
De ir aprendendo com ele
A magia de nunca perder o brilho
Virar os dados do destino
De me contradizer, de não ter meta
Me reinventar, ser meu próprio Deus
Viver menino, morrer poeta.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Um menino de 100 anos

No dia 6 de agosto de 1910 nascia Adoniran Barbosa. Desde criança, ouço as músicas do cantor e compositor (que também foi ator e tinha ainda muitos outros talentos) e elas sempre me emocionam. A delicadeza, a simpatia, a ternura, a ingenuidade e a bondade: para mim, esses são os maiores atributos do artista. Hoje o Diário do Comércio, no DCultura, fez um grande tributo a Adoniran, que vale a pena ler. Vide aqui.
Também ali, fiquei sabendo que, nesse fim de semana, dois eventos irão homenagear Adoniran Barbosa.
Reforço aqui a informação:
Um deles irá acontecer no Centro Cultural São Paulo, na Vergueiro: Adoniran Barbosa - 100 Anos. No Sábado, dia 8, às 19h, cantam Vânia Bastos e Maria Alcina e, no domingo, dia 9, às 18h, Osvaldinho da Cuíca, Fabiana Cozza e Milena. O evento terá entrada franca.
Já no evento Vida Rouca - 100 de Adoniran Barbosa, que acontece no Auditório Ibirapuera, cantam os clássicos de Adoniran: Ná Ozzetti, Swami Jr., Danilo Moraes, Wandi Doratiotto e o Grupo Premê. Será hoje, sexta-feira, dia 6, às 21h. Ingressos: R$ 30.

Eu sou fã confesso de Vânia Bastos e Ná Ozzetti (terei que ir aos dois shows!) e, para sempre serei fã de Adoniran Barbosa. ;-D

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A Rebelião de Rebecca Horn está acontecendo aqui em Sampa. Não perca!




Hoje, na minha hora do almoço, fui até o CCBB para dar uma olhadinha na exposição Rebelião em Silêncio, de Rebecca Horn.

Na verdade, não vi os trabalhos.rsrsrs ;-p

Acabei por ver apenas o piano que está dependurado de ponta cabeça, no saguão do CCBB, preso a imensos cabos de aço, despejando suas entranhas para fora... Trata-se da obra Concerto para Anarquia. Aliás, o conceito de anarquia parece ser muito caro para a artista. Ela fala bastante disso no vídeo a que assisti no segundo andar. Inicialmente, achei que a conversa dela com Donald Sutherland, no vídeo, estava incompreensível para mim. Mas fiquei calmo, afinal, como a conversa era intermeada com cenas de filmes em que o ator aparece, ainda jovem, e também de vários dos trabalhos da artista, à quisa de ilustração para a conversa, o que inicialmente era um tanto hermético (por conta de eu ter pego o vídeo já iniciado), foi aos poucos se acomodando na minha cabeça. Inclusive a informação de que o cinema também faz parte da carreira da artista, que filmou, em 1990, Buster’s Bedroom, estrelado pelo mesmo Donald Sutherland e Geraldine Chaplin.



Rebecca Horn começou seu trabalho em 1970, quando fazia performances, o que chamou de esculturas corporais. Já, em 1972, ela foi convidada  para participar da 5ª Documenta de Kassel, quando foi a artista mais jovem da mostra. Foi por conta dessa participação que ela começou a filmar suas performances e a se interessar por cinema.


Enquanto eu via a história dessa trajetória, contada no tal vídeo, comecei a perceber a riqueza de seu trabalho e uma luz se acendeu.

De repente, pude compreender muito da poética do trabalho da artista. Isso se deu, quando, no filme, ela fala dos fugitivos de Sarajevo, durante a guerra, e que tomaram as ruas de Viena, buscando um sentido para o que estava acontecendo, em um momento de pura sofreguidão e, quando nada mais podia ser dito. Era o silêncio. Apenas restava o silêncio contrito de quem passou por uma tragédia. Ela, então, criou a obra em que os violinos numa alta torre tocam sozinhos, como a dar sentido para o que restava a essas pessoas viver.

A anarquia de Rebecca é de fato uma Rebelião do Silêncio.

Importante: eu não vi quase nada, estou falando tão somente do pouco que vi e que me emocionou por demais. Devo voltar até lá mais vezes, uma vez que a exposição acontece até Outubro de 2010. ;-D

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Natasha Sazonova

Natasha Sazonova é uma artista e ilustradora nascida na Ucrânia e que vive nos Estados Unidos. Seu trabalho tem sido divulgado nesse país, inclusive no Museum of Art and Design in New York City. Ela também tem participado de muitos eventos, um deles o da simpática Cow Parade.
Ela nasceu em 22 de julho de 1978, na cidade de Poltava e migrou para os Estados Unidos ainda muito jovem, aos 16 anos.
Seu site é muito atrativo. Uma característica desse sítio é que ela mostra o seu trabalho e fala bastante sobre ele e com toda sinceridade e desprendimento. Aliás, ela nos conta que sempre lhe perguntam porque teria escolhido adicionar tantas coisas pessoais em seu site e Natasha nos diz que a verdade é que ela sente que uma das muitas razões de tanta gente não se interessar por arte é porque elas não se sentem ligadas aos artistas contemporâneos.
Assim, interessada em se aproximar do seu público, a artista nos mostra, por exemplo, uma determinada ilustração e escreve todo um texto dizendo o que ela pensou quando imaginou aquela criação. Eu achei tão gostoso de ler! Ela é uma pessoa unusual. A impressão que temos é que poderíamos ficar sentados, num café, por horas a fio, só ouvindo-a falar.
Vou trazer uns trechos que acompanham algumas dessas ilustrações, mas se eu fosse você eu iria até o site e passaria uma tarde toda só lendo e aprenciando esse trabalho que é único no mundo, porque Natasha é única e encantadora! Visite o site!


O casal adorável que você vê nessa ilustração está no meio da primeira dança que experimentam juntos. Eles foram apresentados um ao outro, anteriormente, em uma reunião, há algumas semanas, e não puderam esperar para se verem novamente...

Eu imaginei o homem na ilustração como um popular ator do cinema mudo chamado Grant Leary. Eu pintei a mulher, Anna Dupont, como alguém que escreve num jornal de fofocas sob o pseudônimo de Jaime Torres...
Eu pintei o casal de vacas dançando, assim que eu terminei de pintar minha primeira vaca (Moogie, the Moogic Cow) para a CowParade West Hartford. Depois de trabalhar na Moogie, por mais de um mês, eu fiquei tão enamorada das vacas que por um bom tempo todo o meu trabalho foi relacionada a elas. Pintei vacas vendedoras, professoras, apaixonadas e, claro, vacas dançando a noite toda...
Antes de seus próprios textos e que acompanham as ilustrações, Natasha também seleciona algumas epígrafes de escritores ou personalidades. Para a ilustração acima, temos como epígrafe uma frase de Madre Teresa: “A mais terrível pobreza é a solidão e o sentimento de não ser amado.”

Esse trabalho de colagem foi inspirado em Greta Garbo.
Amazing!

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Heidelberger Sinfoniker & Haiou Zhang

Ontem, fui à Sala São Paulo ver e ouvir a Heidelberger Sinfoniker, regida por Thomas Fey, cujo repertório abrange muitas obras centrais do classicismo vienense, inclusive um grande número de sinfonias e concertos de Haydn, Mozart e Beethoven. Além disso, ela também tem incorporado ao repertório os primeiros românticos alemães e Johann Strauss.
A primeira peça que tocaram, ontem, foi a Sinfonia nº 82, em dó maior "O Urso", de Franz Joseph Haydn. Uma pequena piada: eu fiquei procurando o tal "urso" durante a audição e não o vi! ;-p A verdade é que ela ganhou esse apelido devido ao último movimento da obra, um Finale: Vivace Assai, que imita a sonoridade de uma gaita-de-foles. Pois bem, na época em que a Sinfonia de Haydn estreiou, havia uma famosa canção popular que utilizava essa mesma sonoridade e se chamava "Ursos dançantes". Isso eu descobri lendo o programa nº 28 do Mozarteum brasileiro e que recebemos na ocasião.
Mas, o mais delicioso da apresentação foi ouvir a Heidelberger Sinfoniker acompanhando o Piano de Haiou Zhang, no Concerto para piano nº 21, em dó maior, K 467 de Wolfgang Amadeus Mozart.
Sim, é muito emocionante ouvir uma música que parece divina, em perfeição, e que nos abre as portas da percepção para qualquer coisa que é pura sensação de alegria e felicidade. Sobretudo,  ficamos contentes de saber que o ser humano pode, então, tocar o espírito com as próprias mãos. Para tanto, basta que ele tenha, entre essas mesmas mãos e o ouvido da seleta plateia, um piano. O instrumento do artista é o piano, já o intrumento de ligação entre o homem e o divino é o próprio artista em entrega.
Eu comecei a chorar, a partir do segundo movimento: um Andante, aliás muito conhecido. É considerado entre os andantes mais românticos de Mozart, quando "o piano desenha seu sonho sobre um acompanhamento murmurante da orquestra", segundo Sergio Chnee.
Aliás, há um trecho, em um dos comentários desse maestro e compositor, que achei muito bonito para justificar a escolha do repertório da noite, que também contou com uma peça de Antonio Salieri, a Abertura "Les Horaces" - nunca antes tocada no Brasil - e com a Sinfonia nº 92, em sol maior "Oxford", de Franz Joseph Haydn .
No comentário a que me referi, Sergio Chnee escreve:

Lux Aeterna
Muitas vezes desejamos que alguns erros não fossem cometidos novamente. Apesar das idas e vindas, o plano terreno segue sendo um campo fértil para semeadura. E para que os frutos venham, são necessários vários insumos. Apesar dos períodos de escuridão, muitos procuraram através de sua criação, dar a sua contribuição para que a alma humana siga sempre um caminho de luz. Os criadores do Classicismo pediram, através de suas obras, que essa luz perdure para sempre.

No meu coração, nessa ocasião, a luz se fez com Mozart, of course.
Hoje, tais artistas repetem o mesmo programa, na mesma Sala São Paulo, às 21 horas. Vá lá.  Garanto que você aplaudirá com gosto esse jovens talentosos.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Vladimir Dimitrov from Bulgaria by Enric from Bosphorus

Outro dia, eu conheci um trabalho de um artista búlgaro chamado Vladimir Dimitrov, aqui pela web.
Embora eu não tenha muitas informações a respeito da história e cultura da Bulgária, tenho um apreço especial por esse país porque, quando morei em Brasília, tive uma amiga que falava búlgaro e que vivera em Sofia, capital daquele país. Ela me contou passagens extraordinárias da vida das pessoas com as quais ela conviveu na ocasião. Além disso, ela também me contava da paisagem característica de sua geografia e dos monumentos belíssimos desse país tão antigo.
Pois bem, eu não pensei em fazer um post a respeito de Dimitrov, anteriormente, porque seu trabalho deixou-me boquiaberto e fiquei sem palavras. Cheguei mesmo a pensar: o que eu poderia dizer diante dessas mulheres incríveis, diante de tanta cor e tanta vivacidade, verdade e poder?

Foi quando comentei com meu amigo Enric, lá no seu blog, o Bosphorus, acerca de Dimitrov, porque eu tinha acabado de travar contato com essa informação e achei uma coincidência feliz o fato de eu estar voltado para a Bulgária, no mesmo momento em que Enric falava das vozes búlgaras lá so seu blog, e isso por conta de que nos apresentava o sexteto que divulga a música corsa (vide A Filetta, no link ao lado).
Esse meu amigo Enric, que é uma pessoa muito, muito inteligente e também ele um artista, então, falou-me de sua impressão acerca do pintor búlgaro e, acreditem, ela é tão melhor do que a minha que eu tenho que compartilhar:

Reconozco con la frente bajada y la mirada pegada al asfalto que no conocía la obra de Vladimir Dimitrov. Naturalmente he estado fisgoneando por ahí y, vaya, es EXTRAORDINARIO !!! Algunas imágenes (y no sé exactamente porqué) me han conducido levitando, como por un pasillo en corriente de aire muy potente, hacia sensaciones "klimtianas", al tacto frágil de panes de oro de Plovdiv y campos de Tracia donde, en pequeños castillos (hermosos), todavía resuena el silbido doble de un kaval o de una gaida. Gracias por la aportación impagable !

Reconheço de semblante baixado e com o olhar pegado ao asfalto que não conhecia a obra de Vladimir Dimitrov. Naturalmente, estive fisgando por aí e, vaia, é EXTRAORDINÁRIO !!! Algumas imagens (e não sei exatamente o porquê) conduziram-me, levitando, como por um corredor, em uma corrente de ar muito potente, até sensações "klintianas", ao tato frágil de panes de oro [tinta a base de ouro que recobre gravuras, quiça monumentos, provavelmente torres de igrejas etc] de Plovdiv [cidade da Bulgária, muito antiga, com mais de 6.000 anos] e campos da Trácia onde, em pequenos castelos (formosos), todavia ressoa o silvo duplo de um Kaval (instrumento de sopro, uma flauta comum na Turquia, Bulgária etc.) ou de uma gaita. [semelhante a gaita de foles, com aquela bolsa de ar] Obrigado pela aportáción impagável [esse "aportácion" é intraduzível, seria a "ação de entregar a cada um a sua cota, conjunto de bens entregues", penso que ele quis dizer que eu restitui a ele algo precioso e que ele já possuía dentro de si, ou seja, o bem querer a esse artista e seu trabalho, que pertence a esse universo cultural tão caro ao meu amigo catalão]

Por tudo isso, vejam, então, um tanto da obra de Vladimir Dimitrov.