Quem acompanha esse blog sabe que eu estive lendo o romance Ana Karênina de Tolstói, e que, em determinadas passagens, não me contive de alegria e emoção e compartilhei-as por aqui. Agora, cheguei à última página e fiquei absolutamente emocionado e para sempre admirador absoluto da genialidade do romancista russo.
Tolstói contou-nos essa triste história de uma mulher para nos falar de amor, somente de amor. E não se trata tão somente do amor entre homem e mulher, mas do amor cáritas, que se revela pelo bem que façamos ao próximo.
A personagem Liêvin, marido de Kitty, é a que serve ao autor para que ele nos apresente a possibidade de viver esse amor, o que se dá pelo exercício do bem.
Ele tem como que uma epifania, depois de muito sofrer, quando compreende algo que não pode ter explicação lógica ou racional e essa descoberta, ele nos prova, é antes de mais nada possível quando agimos segundo o bem.
Não é preciso explicar tal descoberta aos outros, basta agir de acordo com essa disposição moral e essencial para viver no amor.
Compartilho essa passagem do romance de Tolstói e também um vídeo de Björk que um amigo compartilhou, por sua vez, ontem, pelo facebook. Acho que tanto o texto de Tolstói como o vídeo de Björk estão falando da mesma coisa. Não estranhem, por favor, mas eu sempre estabeleço relações entre coisas que, aparentemente, não teriam nada a ver uma com a outra! ;-D
“Eu bem sei que as estrelas não caminham”, prosseguiu, notando a mudança que se operara na posição de um planeta que subia por detrás de uma bétula. “No entanto, incapaz de imaginar a rotação da Terra ao ver as estrelas mudarem de lugar, tenho razão quando digo que elas caminham. Teriam os astrônomos chegado a compreender tudo isso, teriam chegado a calcular alguma coisa, se por ventura houvessem tomado em consideração movimentos da Terra tão variados e complicados? As surpreendentes conclusões a que eles chegaram sobre a distância, o peso, o movimento e as revoluções dos corpos celestes não terão por ponto de partida os movimentos aparentes dos astros em torno da Terra imóvel, estes mesmos movimentos de que eu sou testemunha, como milhões de homens o foram e o serão durante séculos e que sempre podem vir a ser verificados? Pela mesma razão que as conclusões dos astrônomos seriam vãs e inexatas se não fossem deduzidas das observações do céu aparente, em relação a um único meridiano e a um único horizonte, também as minhas deduções metafísicas se veriam privadas de sentido se eu as não fundamentasse neste conhecimento do bem inerente ao coração de todos os homens e de que eu tive, pessoalmente, a revelação, graças ao cristianismo, e que sempre me será dado verificar na minha alma. As relações das outras crenças com Deus continuarão para mim insondáveis, e eu não tenho o direito de as perscrutar.”
- Que, pois tu ainda estás aí? – disse, de súbito, a voz de Kitty, que voltava para o salão. – Não tens nada que te preocupe? – insistiu ela, procurando ler no rosto do marido, à claridade das estrelas. Um relâmpago que atravessou o espaço entremostrou-lho sereno e feliz.
“Ela compreende-me”, pensou Liêvin, vendo-a sorrir. “E bem sabe em que eu estou pensando. Devo dizer-lho? Sim.”
No momento em que ia falar, Kitty interrompeu-o.
- Faze-me o favor, Kóstia – disse ela –, vai dar uma olhadela ao quarto do Sérgio Ivánovitch. Estará tudo em ordem? Ter-lhe-iam posto um lavatório novo? A mim custa-me ir lá.
- Está bem, vou – respondeu Liêvin, beijando-a.
“Não, é melhor calar-me”, decidiu ele, enquanto a mulher entrava no salão. “Este segredo só tem importância para mim, e palavra alguma o poderia explicar. Este novo sentimento não me modificou, não me deslumbrou, nem me tornou feliz, como eu supunha. Sucedeu a mesma coisa com o amor paternal, que não foi acompanhado de surpresa ou de deslumbramento. Devo chamar-lhe fé? Não sei. Sei apenas que me penetrou na alma através do sofrimento e nela se implantou com toda a firmeza.
Continuarei, sem dúvida, a impacientar-me com o meu cocheiro Ivan, a discutir inutilmente, a exprimir mal as minhas próprias idéias. Sentirei sempre uma barreira entre o santuário da minha alma e a alma dos outros, mesmo a da minha própria mulher. Sempre tornarei Kitty responsável dos meus terrores, arrependendo-me logo em seguida. Continuarei a rezar sem saber por que rezo. Que importa? A minha vida não estará mais à mercê dos acontecimentos, cada minuto da minha existência terá um sentido incontestável. Agora possuirá o sentido indubitável do bem que eu lhe sou capaz de infundir.”
It is so cut. Beautiful! Beautiful! Beautiful!
The Comet Song
With our fingers we make million holes
We run and we fall into pot holes
On a mission to savor the world, oh!
We peek at the sky through tree holes
Comet! Oh, damn it!
The comet comes hurtling down
On a precious plot of earth
Like the bugs in mother's flower bed
We walk on long legs over the sea bed
On our mission to save the world, oh!
We need milk and cakes and a warm bed
Comet! Oh, damn it!
The comet comes hurtling down
On a precious plot of earth
Grey leaves are too much
For any mother to handle
A father must pull
His black hat down over the eyes
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sexta-feira, 3 de setembro de 2010
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Quando o sentimento é amor II
Hoje, eu pretendia falar de um livro que terminei de ler, hoje mesmo, e que trata de futebol. Mas vou deixar para falar desse livro na segunda-feira, porque é um livro muito especial e sua leitura foi uma revelação, em muitos sentidos, então, ainda estou elaborando para saber como falar dele. Nesse meio tempo, retomei a leitura de Ana Karenina, o livro que eu estou saboreando aos bocados e que é imenso, em número de páginas e na riqueza do aprendizado que nos proporciona.
Uma coisa que eu gosto muito quando estou lendo é compartilhar a leitura com alguém. Enfim, trechos supreendentes, algo que me causou uma emoção especial, durante a leitura, isso porque sempre senti que compartilhar a leitura esse é também um dos prazeres especiais do ato de ler.
Tolstói tem um estilo único of course. Ele consegue, em um livro que trata do drama de uma mulher que não vive o amor no casamento, sofrendo as mazelas de sua condição de mulher casada e que se apaixona por outro homem, no final do XIX, pois bem, ele consegue falar com a profundidade necessária do que acontece com um outro casal, no romance, e que se ama de verdade. Como eu já disse na minha última postagem about Kitty e Liêvin se reencontraram. Agora, casados, estão em lua de mel.
Vejam se não é linda essa descrição de um incidente que acontece logo no começo da nova vida de casados. Tolstói está falando de algo fundamental e que aprendemos... quando o sentimento é amor.
A primeira discussão veio certo dia em que Liêvin fora de visita a uma granja nova e se atrasou meia hora, pois se perdera num atalho. Voltava para casa a pensar em Kitty, só em Kitty, no seu amor, na sua felicidade, e quanto mais se aproximava tanto maior era nele a ternura que sentia por ela. Entrou em casa a correr, tanto ou mais emocionado que no dia em que entrara em casa dos Tchierbástski para pedir a mão de Kitty. Esta, porém, acolhera-o com uma expressão tão carrancuda como nunca lhe vira. Quis beijá-la e ela repeliu-o.
- Que tens tu?
- Diverte-te... - disse Kitty, procurando mostrar-se tranquila e mordaz.
Quando, finalmente, falou, foi um nunca acabar de censuras por causa de uns absurdos ciúmes e pelo que sofrera naquela meia hora sentada, imóvel, junto à janela, à espera dele. Só então Liêvin compreendeu pela primeira vez o que não compreendera quando a levara da igreja depois da boda. Compreendeu que não só lhe queria muito, como ignorava, mesmo, onde terminava ela e onde principiava ele, tão dolorosa a sensação de desdobramento que sentira naquele momento. Ao princípio, pareceu magoado, mas não tardou a compreender que Kitty o não podia magoar, visto ser parte dele próprio. Era como quando sucede sentirmos de repente nas costas uma dor aguda e ao voltarmo-nos, com a impressão de que alguém nos feriu, verificarmos tratar-se apenas de uma pancada acidental e não termos outro remédio senão sofrer calados o mal do que no fim de contas só nós próprios somos responsáveis.
Nunca, depois, tornaria a sentir tão intensamente essa impressão.
Custou-lhe encontrar o equilíbrio. Queria demonstrar a Kitty a sua injustiça, mas ao provar-lhe que era ela quem estava em erro, irritá-la-ia ainda mais. Um sentimento natural o compelia a arredar de si próprio a culpa, atribuindo-a a ela, e outro, mais forte ainda, a reparar o sucedido o mais breve possível para não se agravar o desacordo. Ser vítima de uma injustiça era cruel, irritá-la com o pretexto de uma justificação, pior ainda. Muitas vezes acontece lutar um homem que dorme com um sofrimento de que desejaria libertar-se, verificando, ao acordar, que é no fundo dele próprio que o sofrimento reside. Eis como Liêvin teve de reconhecer que o melhor remédio era a paciência.
Não é genial em Tolstói essa capacidade para dizer tão lindamente o que vai dentro da alma de seu personagem e isso que aí vai não é o que há de mais belo no ser humano?
Uma coisa que eu gosto muito quando estou lendo é compartilhar a leitura com alguém. Enfim, trechos supreendentes, algo que me causou uma emoção especial, durante a leitura, isso porque sempre senti que compartilhar a leitura esse é também um dos prazeres especiais do ato de ler.
Tolstói tem um estilo único of course. Ele consegue, em um livro que trata do drama de uma mulher que não vive o amor no casamento, sofrendo as mazelas de sua condição de mulher casada e que se apaixona por outro homem, no final do XIX, pois bem, ele consegue falar com a profundidade necessária do que acontece com um outro casal, no romance, e que se ama de verdade. Como eu já disse na minha última postagem about Kitty e Liêvin se reencontraram. Agora, casados, estão em lua de mel.
Vejam se não é linda essa descrição de um incidente que acontece logo no começo da nova vida de casados. Tolstói está falando de algo fundamental e que aprendemos... quando o sentimento é amor.
A primeira discussão veio certo dia em que Liêvin fora de visita a uma granja nova e se atrasou meia hora, pois se perdera num atalho. Voltava para casa a pensar em Kitty, só em Kitty, no seu amor, na sua felicidade, e quanto mais se aproximava tanto maior era nele a ternura que sentia por ela. Entrou em casa a correr, tanto ou mais emocionado que no dia em que entrara em casa dos Tchierbástski para pedir a mão de Kitty. Esta, porém, acolhera-o com uma expressão tão carrancuda como nunca lhe vira. Quis beijá-la e ela repeliu-o.
- Que tens tu?
- Diverte-te... - disse Kitty, procurando mostrar-se tranquila e mordaz.
Quando, finalmente, falou, foi um nunca acabar de censuras por causa de uns absurdos ciúmes e pelo que sofrera naquela meia hora sentada, imóvel, junto à janela, à espera dele. Só então Liêvin compreendeu pela primeira vez o que não compreendera quando a levara da igreja depois da boda. Compreendeu que não só lhe queria muito, como ignorava, mesmo, onde terminava ela e onde principiava ele, tão dolorosa a sensação de desdobramento que sentira naquele momento. Ao princípio, pareceu magoado, mas não tardou a compreender que Kitty o não podia magoar, visto ser parte dele próprio. Era como quando sucede sentirmos de repente nas costas uma dor aguda e ao voltarmo-nos, com a impressão de que alguém nos feriu, verificarmos tratar-se apenas de uma pancada acidental e não termos outro remédio senão sofrer calados o mal do que no fim de contas só nós próprios somos responsáveis.
Nunca, depois, tornaria a sentir tão intensamente essa impressão.
Custou-lhe encontrar o equilíbrio. Queria demonstrar a Kitty a sua injustiça, mas ao provar-lhe que era ela quem estava em erro, irritá-la-ia ainda mais. Um sentimento natural o compelia a arredar de si próprio a culpa, atribuindo-a a ela, e outro, mais forte ainda, a reparar o sucedido o mais breve possível para não se agravar o desacordo. Ser vítima de uma injustiça era cruel, irritá-la com o pretexto de uma justificação, pior ainda. Muitas vezes acontece lutar um homem que dorme com um sofrimento de que desejaria libertar-se, verificando, ao acordar, que é no fundo dele próprio que o sofrimento reside. Eis como Liêvin teve de reconhecer que o melhor remédio era a paciência.
Não é genial em Tolstói essa capacidade para dizer tão lindamente o que vai dentro da alma de seu personagem e isso que aí vai não é o que há de mais belo no ser humano?
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Quando o sentimento é amor
Eu continuo lendo Ana Karênina de Tolstói. Sim! O romance é imenso e quem acompanha esse blog sabe que eu comecei a ler esse livro faz alguns dias. Agora alcancei a página 371 da edição que leio, cuja tradução é de Manuel Siqueira Paranhos. Estou quase terminando o primeiro tomo. ;-p
Há um casal, que já citei por aqui, que faz um contraponto, dentro da obra, ao triângulo amoroso protagonista, ou seja, Ana Karênina, seu marido Alieksiei Alieksándrovitch, e seu amante, o Conde Vronski. Trata-se mesmo de um constraste e que se dá porque naquele o amor é puro, ele não é contaminado pelo desejo um tanto inconsequente, como sói ser os dos amantes, e tampouco pela febre do egoísmo desenfreado, por exemplo, e que acomete, em geral, os envolvidos na experiência de adultério.
Kitty e Liêvin, ao contrário, são adoráveis. Kitty, é verdade, há um tempo atrás havia preterido Liêvin, ainda que inadvertidamente. É que ela estava confusa. Agora, ambos se reencontram em um jantar na casa da irmã de Kitty e a cena é de puro puro puro amor.
;-D
- Disseram-me que tinha abatido um urso - interveio Kitty, procurando, debalde, espetar um cogumelo recalcitrante; o garfo escorregava, Kitty impacientava-se, afastava para trás as rendas da manga do vestido, descobrindo um pouco o bonito braço. - Há, realmente, ursos na sua propriedade? - acrescentou, voltando para ele um rosto sorridente.
Aparentemente não havia nada de extraordinário no que Kitty dissera, no entanto que inexplicável significado tinha para ele cada som e cada movimento dos seus lábios, dos seus olhos, das suas mãos! O que isso não dizia! Havia neles um pedido de perdão, confiança em Liêvin, uma carícia meiga e tímida tal como uma esperança e uma promessa de amor, coisas que ele, Liêvin não podia deixar de querer e que o inundavam de felicidade.
Não dá vontade de viver isso?
Há um casal, que já citei por aqui, que faz um contraponto, dentro da obra, ao triângulo amoroso protagonista, ou seja, Ana Karênina, seu marido Alieksiei Alieksándrovitch, e seu amante, o Conde Vronski. Trata-se mesmo de um constraste e que se dá porque naquele o amor é puro, ele não é contaminado pelo desejo um tanto inconsequente, como sói ser os dos amantes, e tampouco pela febre do egoísmo desenfreado, por exemplo, e que acomete, em geral, os envolvidos na experiência de adultério.
Kitty e Liêvin, ao contrário, são adoráveis. Kitty, é verdade, há um tempo atrás havia preterido Liêvin, ainda que inadvertidamente. É que ela estava confusa. Agora, ambos se reencontram em um jantar na casa da irmã de Kitty e a cena é de puro puro puro amor.
;-D
- Disseram-me que tinha abatido um urso - interveio Kitty, procurando, debalde, espetar um cogumelo recalcitrante; o garfo escorregava, Kitty impacientava-se, afastava para trás as rendas da manga do vestido, descobrindo um pouco o bonito braço. - Há, realmente, ursos na sua propriedade? - acrescentou, voltando para ele um rosto sorridente.
Aparentemente não havia nada de extraordinário no que Kitty dissera, no entanto que inexplicável significado tinha para ele cada som e cada movimento dos seus lábios, dos seus olhos, das suas mãos! O que isso não dizia! Havia neles um pedido de perdão, confiança em Liêvin, uma carícia meiga e tímida tal como uma esperança e uma promessa de amor, coisas que ele, Liêvin não podia deixar de querer e que o inundavam de felicidade.
Não dá vontade de viver isso?
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Lendo Tolstói
Hoje, entrei no metrô, sentei-me e abri o livro Ana Karênina, de LeonTolstói, no Capítulo XXVI, para dar continuidade a minha leitura do romance. Quando dei por mim estava em lágrimas e, evidentemente, envergonhado dos meus vizinhos de assento, tratei de procurar um lenço de papel...
;-D
Ler um romance do século XIX, um clássico da literatura, escrito por um autor imortal, para mim, é isso: é mergulhar intensamente em uma história escrita com amor, paixão e talento imensuráveis e, por conseguinte, na vida de personagens que, embora não tenham existência no que chamamos de "realidade concreta", nos ensinam muito do que é ser gente de verdade nesse mundo.
Não vou aqui trazer notícia da personagem que dá nome ao romance, mas de uma personagem "coadjuvante" ( é melhor chamá-la assim do que "secundária", afinal, estou achando tal personagem cabal para o equilíbrio do painel de tipos humanos no romance) e que é apaixonante: Constantin Liêvin.
Apenas para que vocês entendam o trecho que reproduzo abaixo e que me levou às lágrimas: essa personagem é um homem feito, solteiro e que, embora rico, vive no campo, daí sua flagrante timidez diante da cosmopolita Moscou e que visitara, tão somente, para pedir a mão de Kitty, irmã da cunhada de Ana Karênina. A jovem, no entanto, já tinha um rapaz lhe cortejando, o desenvolto e charmoso Vronski.
Liêvin, enjeitado, fica muito aborrecido e volta para casa. No início desse capítulo a que me referi, ele está chegando, de volta a sua casa:
No dia seguinte pela manhã, Constantino Liêvin saía de Moscou e chegava a casa ao fim da tarde. Durante o trajeto entabulou conversa com os companheiros, falou de política, de estradas de ferro, e, tal qual como em Moscou, não tardou a sentir-se submerso no caos das opiniões, descontente consigo próprio e envergonhado sem que soubesse muito bem por quê. Mas , quando, à luz indecisa que se derramava das janelas da estação, viu Ignat, o cocheiro estrábico, a gola do cafetã levantada, depois o trenó coberto de peles e os cavalos com seus arreios bem-tratados, e aquele lhe contou, enquanto ele se instalava, as novidades da aldeia - que chegara um comprador e que a Pava tivera o seu bom sucesso -, Liêvin sentiu que toda aquela confusão de idéias se esclarecia e que a vergonha e o descontentamento se dissipavam. Entretanto, essa impressão ele a teve apenas com o ver Ignat e os cavalos, quando se embrulhou no tulup - um casaco de pele de carneiro, feito de maneira que os pêlos ficassem na parte de dentro, como forro - que o cocheiro tivera o cuidado de lhe trazer e se sentou bem abrigado, no trenó, que se pôs a andar, pensou nas ordens que teria de dar logo que chegasse a casa e, examinando um dos cavalos, o seu preferido para montar - um velho cavalo do Don, já gasto, mas ainda veloz -, pôs-se a ver de maneira muito diferente o que lhe acontecera. Deixou de querer ser outro que não ele próprio e apenas desejou ser melhor do que fora até ali. Em primeiro lugar, decidiu que daí por diante não poria as suas esperanças numa felicidade extraordinária, como a que esperara do casamento, e que, por conseguinte, não iria menosprezar tanto o momento presente; depois, que nunca mais se deixaria conduzir por uma baixa paíxão, como acontecera na véspera, antes de se decidir a declarar-se. E, lembrando-se do irmão, resolveu nunca mais o esquecer nem o perder de vista, para assim poder ajudá-lo sempre que ele precisasse. Pressentia que isso iria acontecer dentro de pouco. Em seguida pensou na conversa que tivera com o irmão sobre o comunismo e que tão superficialmente encarara na oportunidade. Considerava absurda a reforma das condições econômicas, mas sempre se dera conta da injustiça que representava o muito que tinha em comparação com a miséria do povo. Para se sentir completamente justo, apesar de que sempre trabalhara muito, vivendo sem luxo algum, tomou a resolução de trabalhar cada vez mais e de levar uma vida ainda mais simples. Tudo lhe parecia tão fácil de realizar que pensar nisso foi a coisa mais agradável que lhe ocorreu durante o trajeto. Quando chegou a casa, por volta das nove da noite, sentiu que uma vida nova, uma vida mais bela, começava para ele. Uma réstia de luz se filtrava nas janelas de Agáfia Mikháilovna, a sua velha ama, agora governanta da casa. A velha ainda não dormia. Acordou Kuzmá, que, estremunhado e descalço, veio até ao alpendre. Também Laska, a cadela, apareceu, e por pouco não derrubava Kuzmá, ladrando e esfregando-se nas pernas de Liêvin, sem ousar pôr-lhe as patas dianteiras no peito.
Não vou resistir e vou reproduzir também um trecho em que temos uma reação de Ana Karênina a uma circunstância e que eu achei hilária (tive que conter a gargalhada dentro do metrô... ;-p)
Pois bem, depois de praticamente roubar o coração de Vronski e tornar-se "rival" de Kitty. Karênina está, praticamente, em fuga dessa nova paixão, e ao chegar em sua cidade:
Mal desembarcou do trem, o primeiro rosto que encontrou foi o do marido: "Meu Deus! Por que lhe terão crescido tanto as orelhas?", pensou ela, mirando-lhe a arrogante e fria figura e sobretudo as cartilagens das orelhas, que lhe chamavam a atenção, nas quais, dir-se-ia, vinham pousar as abas do chapéu.
Literatura é um universo amplo: a se perder de vista. Todos os elementos que constituem a literatura são importantes, uma vez que por eles ela nos educa, propicia o exercício de traquejo com a língua, cria o hábito salutar da leitura, permitindo-nos aprender a filosofar, além do treino da sensibilidade para a compreensão da psicologia dos mortais e tanta coisa mais! Mas o mais delicioso de tudo é o quanto ela nos emociona e ainda pode ser divertida, com humor.
Anton Chejov e Leon Tolstoi
;-D
Ler um romance do século XIX, um clássico da literatura, escrito por um autor imortal, para mim, é isso: é mergulhar intensamente em uma história escrita com amor, paixão e talento imensuráveis e, por conseguinte, na vida de personagens que, embora não tenham existência no que chamamos de "realidade concreta", nos ensinam muito do que é ser gente de verdade nesse mundo.
Não vou aqui trazer notícia da personagem que dá nome ao romance, mas de uma personagem "coadjuvante" ( é melhor chamá-la assim do que "secundária", afinal, estou achando tal personagem cabal para o equilíbrio do painel de tipos humanos no romance) e que é apaixonante: Constantin Liêvin.
Apenas para que vocês entendam o trecho que reproduzo abaixo e que me levou às lágrimas: essa personagem é um homem feito, solteiro e que, embora rico, vive no campo, daí sua flagrante timidez diante da cosmopolita Moscou e que visitara, tão somente, para pedir a mão de Kitty, irmã da cunhada de Ana Karênina. A jovem, no entanto, já tinha um rapaz lhe cortejando, o desenvolto e charmoso Vronski.
Liêvin, enjeitado, fica muito aborrecido e volta para casa. No início desse capítulo a que me referi, ele está chegando, de volta a sua casa:
No dia seguinte pela manhã, Constantino Liêvin saía de Moscou e chegava a casa ao fim da tarde. Durante o trajeto entabulou conversa com os companheiros, falou de política, de estradas de ferro, e, tal qual como em Moscou, não tardou a sentir-se submerso no caos das opiniões, descontente consigo próprio e envergonhado sem que soubesse muito bem por quê. Mas , quando, à luz indecisa que se derramava das janelas da estação, viu Ignat, o cocheiro estrábico, a gola do cafetã levantada, depois o trenó coberto de peles e os cavalos com seus arreios bem-tratados, e aquele lhe contou, enquanto ele se instalava, as novidades da aldeia - que chegara um comprador e que a Pava tivera o seu bom sucesso -, Liêvin sentiu que toda aquela confusão de idéias se esclarecia e que a vergonha e o descontentamento se dissipavam. Entretanto, essa impressão ele a teve apenas com o ver Ignat e os cavalos, quando se embrulhou no tulup - um casaco de pele de carneiro, feito de maneira que os pêlos ficassem na parte de dentro, como forro - que o cocheiro tivera o cuidado de lhe trazer e se sentou bem abrigado, no trenó, que se pôs a andar, pensou nas ordens que teria de dar logo que chegasse a casa e, examinando um dos cavalos, o seu preferido para montar - um velho cavalo do Don, já gasto, mas ainda veloz -, pôs-se a ver de maneira muito diferente o que lhe acontecera. Deixou de querer ser outro que não ele próprio e apenas desejou ser melhor do que fora até ali. Em primeiro lugar, decidiu que daí por diante não poria as suas esperanças numa felicidade extraordinária, como a que esperara do casamento, e que, por conseguinte, não iria menosprezar tanto o momento presente; depois, que nunca mais se deixaria conduzir por uma baixa paíxão, como acontecera na véspera, antes de se decidir a declarar-se. E, lembrando-se do irmão, resolveu nunca mais o esquecer nem o perder de vista, para assim poder ajudá-lo sempre que ele precisasse. Pressentia que isso iria acontecer dentro de pouco. Em seguida pensou na conversa que tivera com o irmão sobre o comunismo e que tão superficialmente encarara na oportunidade. Considerava absurda a reforma das condições econômicas, mas sempre se dera conta da injustiça que representava o muito que tinha em comparação com a miséria do povo. Para se sentir completamente justo, apesar de que sempre trabalhara muito, vivendo sem luxo algum, tomou a resolução de trabalhar cada vez mais e de levar uma vida ainda mais simples. Tudo lhe parecia tão fácil de realizar que pensar nisso foi a coisa mais agradável que lhe ocorreu durante o trajeto. Quando chegou a casa, por volta das nove da noite, sentiu que uma vida nova, uma vida mais bela, começava para ele. Uma réstia de luz se filtrava nas janelas de Agáfia Mikháilovna, a sua velha ama, agora governanta da casa. A velha ainda não dormia. Acordou Kuzmá, que, estremunhado e descalço, veio até ao alpendre. Também Laska, a cadela, apareceu, e por pouco não derrubava Kuzmá, ladrando e esfregando-se nas pernas de Liêvin, sem ousar pôr-lhe as patas dianteiras no peito.
Não vou resistir e vou reproduzir também um trecho em que temos uma reação de Ana Karênina a uma circunstância e que eu achei hilária (tive que conter a gargalhada dentro do metrô... ;-p)
Pois bem, depois de praticamente roubar o coração de Vronski e tornar-se "rival" de Kitty. Karênina está, praticamente, em fuga dessa nova paixão, e ao chegar em sua cidade:
Mal desembarcou do trem, o primeiro rosto que encontrou foi o do marido: "Meu Deus! Por que lhe terão crescido tanto as orelhas?", pensou ela, mirando-lhe a arrogante e fria figura e sobretudo as cartilagens das orelhas, que lhe chamavam a atenção, nas quais, dir-se-ia, vinham pousar as abas do chapéu.
Literatura é um universo amplo: a se perder de vista. Todos os elementos que constituem a literatura são importantes, uma vez que por eles ela nos educa, propicia o exercício de traquejo com a língua, cria o hábito salutar da leitura, permitindo-nos aprender a filosofar, além do treino da sensibilidade para a compreensão da psicologia dos mortais e tanta coisa mais! Mas o mais delicioso de tudo é o quanto ela nos emociona e ainda pode ser divertida, com humor.
Anton Chejov e Leon Tolstoi
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