quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Gabriela Machado



Ontem, na minha hora de almoço, fui ver uma exposição na galeria da Caixa Cultural. Ela fica bem pertinho de onde trabalho, então, sempre passo por lá para ver as novidades. Agora, por exemplo, essa artista plástica, que mora no Rio de Janeiro, está expondo seus trabalhos nessa exposição a que chamou doida disciplina. Esses quadros de pintura abstrata são, na verdade, imensos. A maioria pertence à série Cascas e medem 220 x 195 cm ou 233 x 198 cm. É bonito vê-los, assim, cobrindo cada qual grande extensão das paredes. As pinceladas são fartas, generosas, e o efeito, ao menos para mim, é o de tranquilizar o observador.
Há também um vídeo que, ao que tudo indica, mostra a artista trabalhando em seu atêlie: algo sempre interessante de se ver. Eu não pude vê-lo, porque havia um rapaz também imenso assistindo ao vídeo na torre que vinha do chão e alcançava-lhe a cintura. Estava tão compenetrado que achei melhor não atrapalhar. ;-D
Volto outro dia para conferir.
Na parede, antes dos quadros, há um texto de Ronaldo Brito, curador da exposição, e nele somos muito bem informados acerca desse trabalho. Como é um texto que instiga o desejo de ver tais quadros, vou reproduzí-lo aqui:
Há quase dois séculos, Eugène Delacroix começava a inventar a cor moderna, e o fazia sobretudo por meio de pequenos estudos livres, as suas legendárias manchas de cor. Ao emancipar-se de a priori acadêmicos, da tirania do claro-escuro, da mimese da textura ( a imitação visual da sensação tátil), essas manchas afirmavam decididamente a sensibilidade, agora realibitada, do homem moderno. Reza a lenda que, à frente do quadro pronto, Delacroix costumava passar um buquê de flores sislvestres para conferir o acerto de cores: porque em um buquê, qualquer buquê, o arranjo de cores está sempre coerente, é infalível. Longe de receitas acadêmicas, tudo se decidia já no olho pelo olho, no contato fluente entre homem e natureza.
Em vários sentidos, as pinturas e os desenhos de Gabriela Machado procuram atualizar, em um mundo muito diferente, essa lógica espontânea e esse rigoroso frescor. Só valem aqui as cores que acabam de se descobrir como tais e que respondem de imediato a uma sensação vital e corpórea: do mesmo modo, feitas todas as mediações, também essas obras buscam renovar à sua maneira o contato com a natureza. Claro, como se pode notar por seu aspecto um tanto pop, pela estridência de seus tons contemporâneos, esta não é mais a natureza do século 19. O que permanece em comum, no entanto, é a ideia básica da pintura como metabolismo, interação entre o artista e a natureza. A atividade da pintura repotencializa assim o impulso de vida, e sua disciplina específica, insubstituível, consiste em aguçar, sempre em crescendo, uma curiosidade visual pródiga e incessante.
Não é excelente esse texto? Eu o li primeiro e, depois, olhei para os quadros e pude compreendê-los melhor. Uma prova de que precisamos estar sempre nos educando. Penso que se trata de uma educação do olhar, é isso o que nos possibilita esse trabalho de Gabriela Machado.
Caixa Cultural São Paulo
Praça da Sé, 111
Tel.: 11 3321.4400
28/11/09 a 17/01/10
terça a domingo / 9h às 21h
Entrada Franca \o/ \o/ \o/

2 comentários:

  1. E não só do olhar, né?
    Ontem fiz uma "meditação ativa", um ciclo de 5 etapas alternadas de respirações e desenhos com o corpo, que seguem justamente essa "lógica espontânea e esse rigoroso frescor" - que coisa importante foi isso!
    Há muito mais de disciplina e lógica no mundo sensível do que nossa cultura ocidentalizada é capaz de supor - e que agora busca tortamente resgatar... E há mesmo muito frescor nessa doidera que deixamos fluir (veja bem: fluir e não explodir; acho que, quando explode, como naquele caso da menina vilipendiada na Uniban, por exemplo, é porque estão faltando experiências fluentes da loucura).

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  2. Lu,
    Acho você incrível. Um único comentário, pequenino até, mas abarcando todo um universo de reflexão pessoal. Você conseguiu trazer aqui uma reflexão absolutamente pertinente sobre aquele episódio triste e grosseiro da uniban, tão discutido em todas as mídias. Isso é o que deveria ter sido dito mesmo: que aquilo foi uma explosão de loucura, mas daquela de um tipo que não se permite fluir pelos canais mais vitais e, portanto, agradavelmente distante do que foi aquilo: uma experiência mais para pulsão de morte. Sim, concordo, plenamente.

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