sábado, 14 de julho de 2012

Richard Sweeney


Richard Sweeney nasceu em Huddersfield, Inglaterra, em 1984. Ele descobriu um talento natural para a escultura na Batley School of Art and Design, em 2002, que o levou ao estudo do desenho tridimensional na Metropolitan Manchester University.
O trabalho de Sweeney combina as disciplinas de design, fotografia, artesanato e escultura.
Ele lecionou na Universidade de Artes Aplicadas, de Viena, e é professor convidado do departamento de design gráfico na Sheffield Hallum University.

Richard Sweeney é representado pela Victor Felix Gallery, em Londres.

Só conheci este trabalho hoje, via facebook, e não resisti a divulgá-lo também por aqui, meu canto predileto para colecionar imagens de talento e sensibilidade sem par. ;-)





quarta-feira, 11 de julho de 2012

Bliss or the pear tree


via World Trees

Não há motivo algum para se sentir infeliz, vamos combinar assim. Ainda que, por exemplo, sei lá... você descobrisse que seu namorado tem um envolvimento com outra pessoa. Ainda assim! Tampouco isso justificaria o sentimento de infelicidade mórbida que costuma acometer algumas pessoas, as quais eu conheço e talvez você mesmo também conheça.

A tal descoberta justifica, quando muito, o término da relação, justificaria também, quiçá, o perdão e o recomeço, mas não o sentimento de tristeza profunda e que acompanha tantas decepções amorosas.

Fiquei pensando nisso ao ler o conto Bliss, “Felicidade”, de Katherine Mansfield.

Bertha Young, Pearl Fulton e Harry vivem qualquer coisa que, afinal, não poderia ser catalogada em um nível comum de relação, mesmo aquela que já se esperaria de um triângulo, ou seja, quando o próprio "triângulo"  não é de fato desejado, ao menos por um dos três vértices.

Nesse conto há uma cumplicidade entre mais de um par: entre Bertha e Pearl e entre Pearl e Harry. E claro, uma cumplicidade em algum sentido mais profundo, para além da natural ou que já se esperaria, entre Bertha e Harry: o casal "oficial".

Mas, então, no ápice do que poderia ter sido uma situação que, entre os mortais comuns, decairia  para uma espécie de sofrimento imensurável, temos tão somente essa singela passagem:

Bertha correu para as janelas largas do jardim. "Deus! O que vai acontecer agora?".
Mas a pereira estava tão linda como sempre, tão imóvel e florida como sempre.
  
No fundo, é isso o que me interessou apreender nessa experiência de leitura: o fato de que essa linda pereira continua imóvel e florida como sempre.

Mesmo que a apropriação da metáfora possa parecer "brega", não vou me furtar a dizer que há, sim, uma pereira dentro de cada um de nós e é a isso que desejo também chamar felicidade, porque se trata daquela que não se dissipa por nenhum motivo da ordem dos anseios egoístas, menos ainda por um motivo que pretenda ser o oposto dessa beleza e desse desabrochar sem igual. Mesmo quando me desespero e clamo por Deus e/ou me pergunto acerca do futuro incerto.

Simplesmente assim ou ainda que não tão simplesmente! ;-)

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Ensemble Intercontemporain e Marthe Keller: uma visão de Cassandre!


Ensemble Intercontemporain

No dia 02, segunda-feira, fui até a Sala São Paulo conhecer o Ensemble Intercontemporain. Trata-se de um grupo composto de 31 musicistas que têm paixão pela música do século XX e XXI e, assim sendo, a divulgam nas principais salas de concerto do mundo. O Ensemble é sediado na Cité de la Musique, em Paris, e tem um intenso trabalho de pesquisa e de fomento da produção e difusão da música contemporânea, além de promover a formação e educação musical de jovens instrumentistas, bem como de seu público.

A oportunidade de ouvir um grupo de tanto prestígio e que divulga um repertório muito distante do lugar comum foi uma experiência que achei consoladora em mais de um sentido. Afinal, como é bom saber que há pessoas trabalhando com o suprassumo da composição musical e que nos possibilitam, então, uma experiência de audição muito mais próxima do nosso próprio tempo em uma espécie de atualização da tradição de concertos. Evidentemente, o repertório apresentado também tinha muito de atemporal, e isso desde a primeira peça, La Barque Mystique, de Tristan Murail (1947). Nela, senti-me como fosse tripulante da tal barca que na minha sensação navegava não em águas líquidas mas numa espécie de bruma espessa.

Marthe Keller
Também devido ao programa da noite, tínhamos ainda um motivo a mais para entender tal concerto como um acontecimento particularmente especial, é que acompanhava o grupo e seu regente, Jean Deroyer, a atriz suíça Marthe Keller, que faria a protagonista da obra de Michael Jarrel, Cassandre: o monodrama escrito em 1993-94, especialmente para a atriz. Trata-se, segundo seu compositor, de peça escrita para “comediante e conjunto instrumental e eletrônico”. Foi uma honra ouvir Keller o declamando.

Além disso, foi também muito impactante ouvir tal narrativa em primeira pessoa. Nela, uma mulher solitária expõe seu drama. Cassandra, na mitologia, foi a bela filha de Príamo e Hécuba, reis de Troia e que recebeu do apaixonado deus Apolo o dom da profecia. Como ela se negou a corresponder ao amor do deus, Apolo decidiu que seu dom seria inútil e, então, embora ela profetizasse, ninguém lhe dava crédito.

A peça de Jarrel foi inspirada na versão radiofônica que Gerhard Wolf que a adaptara da novela escrita por sua esposa, a escritora alemã Christa Wolf. Então, encontramos Cassandra no momento em que ela é prisioneira de Agamenon e tem poucas horas de vida. Cassandra nos conta em desespero tudo o que ocorreu na guerra que ela previra e que ninguém foi capaz de evitar, ou seja, no momento após ter testemunhado a morte dos pais e a derrota da cidade.

O musicólogo e crítico musical Philippe Albèra, citado no programa do concerto, analisa que “a música de Michael Jarrel situa-se naquele limiar que separa a profundidade do passado do abismo do futuro. Essa música incerta e vibrante oscila entre o dito e o não dito, entre o sono e a vigília; dela emergem vozes solitárias e fantasmagóricas. (...) Oblívio e retrospecção em Cassandre refletem-se, pois, numa música que entretece misteriosamente os fios do novo e do velho.”

Pois bem, uma experiência como a de ouvir tal peça pode ser transformadora se assim o quisermos. Afinal, por ela vivenciamos a emoção de conhecermos artistas tão talentosos e ainda encenando uma peça tão bem escrita e urdida por seus autores, mas também aprendemos que, desde tempos imemoriais, os místicos como Cassandra são desacreditados. Porém, tal experiência trágica renova-se em mais de um grau, a cada dia, em meio à humanidade que se por um lado é sofrida, por outro, é também bastante feroz. Mon Dieu!

     Cassandra and her Trojan by Jann Barry

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Segredos de infância




Como sabem, eu estou lendo The Secret Garden by Frances Hodgson Burnett. E estou encantado com o livro e, claro, muito emocionado. Pois há passagens que são verdadeiras pérolas de espontaneidade infantil.

Lendo uma delas mergulhei tão fundo no sentido da descoberta ali expressa que, então, cheguei a pensar que sempre que me vejo muito empolgado, com literatura infantil ou com o universo da criança, sinto-me um pouco envergonhado com esse tipo de emoção que sinto, ou seja, por meio dessa identificação com a pureza expontânea que há na infância.

Explico-me melhor: o que primeiro me vem à mente é que tendo a achar que eu não deveria me emocionar tanto assim ou ser o alvo de uma identificação tão plena com essa mimesis da infância, na literatura ou na arte, e isso devido ao simples fato de que sou um adulto.

Por outro lado, tal vergonha logo passa, quando noto que há tanta coisa mais vergonhosa nas atitudes de um adulto, nas minhas próprias atitudes (ainda hoje e que são muito mais concretas!) do que a mera identificação com o que de puro e infantil sobrevive em mim e que, convenhamos, apenas comunga com um certo exagero de expressão. kkkkk

Sobretudo, quando a infância está em júbilo como nesta "cena" de O Jardim Secreto. Nela, as crianças veem a primavera chegar pela primeira vez.
Pois então, sim, Mary Lennox e Colin Craven, podemos ouvir com agradável surpresa soarem os trompetes dourados. Abram as janelas!

'It's so beautiful!' she said, a little breathless with her speed. 'You never saw anything so beautiful! It has come! I thought it had come that other morning, but it was only coming. It is here now! It has come, the Spring! Dickon says so!'
'Has it?' cried Colin, and thought he really knew nothing about it he felt his heart beat. He actually sat up in bed.
'Open the window!' He added, laughing half with joyful excitement and half at his own fancy. 'Perhaps we may hear golden trumpets!'






terça-feira, 26 de junho de 2012

Ao som da Valsa


O Teatro Municipal de São Paulo recebeu no seu palco, ontem, e receberá, também hoje, a Orquestra Nacional de Washington, sob a regência do maestro Christoph Eschenbach.  Em cada programa, a orquestra apresenta 3 peças. A peça intermediária em ambas as apresentações é o Concerto para violoncelo e orquestra em ré menor, de Edouard Lalo, com solo de violoncelo, tocado por Cláudio Bohórquez, um rapaz que tem ascendência peruana e uruguaia e que é considerado um dos violoncelistas de maior prestígio na atualidade.

O Concerto de Lalo é delicioso, porque o violoncelo reina sobre o conjunto da orquestra, que, no entanto, é também muito presente com seus acordes marcantes ou mesmo durante o dueto em que as flautas fazem uma bonita parceria com o instrumento do solista. Essa particularidade empresta um certo lirismo e até uma dimensão onírica à peça que, de qualquer modo, tem como sentimento predominante o de melancolia.

Bem, vamos combinar, que tal sentimento é muito respeitável e até majestoso se quem o promove, comandando-o em direção a nossa sensibilidade é um violoncelo.

Ontem, antes da apresentação desse Concerto, tivemos a Abertura, Carnaval Romano (op. 9), de Hector Berlioz, e, após o peça de Lalo, a Sinfonia nº 5, em mi menor (op. 64), de Piotr Ilyich Tchaikovsky. Hoje, antes e depois do Concerto de Lalo, o público ouvirá, respectivamente, a peça Blue Blazes, de Sean Shepherd, e a Sinfonia nº 7, em lá maior (op. 92), de Ludwig van Beethoven.

Eu só posso agradecer aos céus por ter ouvido a Sinfonia de Tchaikovsky. Ela remete o ouvinte aos sentimentos que influenciavam o compositor na época e que tinham a ver com a ruptura que acontecera entre ele e a Condessa Nadejda von Meck, alguém que ele não conhecera pessoalmente, mas que era uma confidente e patrocinadora. Um rompimento, naturalmente, impregnaria de sentimentos intensos essa sinfonia!

Trata-se de uma composição em que o tema principal passeia pelos naipes, mas os instrumentos de sopro, tanto metais quanto madeiras, são os que mais traduzem as sensações sobre as quais ele pretende discorrer musicalmente. Por exemplo, o oboé tem uma participação importante quando, aqui e ali, impõe um sentimento de lugubridade. Sem dúvida, o solo da trompa é o que mais nos arrebata. E, ouvindo esse solo, fiquei pensando se Philip Glass  não foi também um ouvinte dedicado dessa sinfonia já que em suas peças  tanto a trompa quanto a tuba são tão recorrentes e, de qualquer modo, apontando para o tema do destino... Mas isso é uma divagação, ou seja, uma abstração que me permiti, carecendo de uma pesquisa acerca de!

Contudo, o que mais provocou minha completa comoção foi o fato de me sentir como quando dancei pela primeira vez uma valsa: estilo musical que impera nessa sinfonia. Pareceu-me como quando em um conto de fadas o par amoroso tem um clímax de intimidade e de celebração do seu amor, valsando em um grande baile. Em tais circunstâncias, mesmo a condição de evento social não oblitera a comovente intimidade desses corações e que podem sentir o que representa uma união, quiçá,  para a eternidade.

sábado, 16 de junho de 2012

Just saturday


A vida pode ser muito simples de se viver e até mesmo um pouco sofisticada, quando nos permitimos experimentar os prazeres saudáveis que nos proporciona.
Quando você é sozinho, e com isso quero dizer solteiro, você pode, de qualquer modo, buscar estar bem consigo mesmo e com aqueles que cruzam o seu caminho: isso também é a tal da simplicidade com um pouco de sofisticação.
Por exemplo, se sua mãe diz que a televisão queimou, você deve providenciar uma outra, imediatamente, não porque televisão seja essencial, mas porque talvez isso represente um conforto para ela...
Se você for simpático na loja de eletrodomésticos, o atendente poderá lhe dar um bom desconto e se você não reclamar da demora na fila do caixa, e ainda elogiar o cabelo da moça que o for atender quando chegar a sua vez, ela irá lhe abrir um sorriso, com certeza!
Depois disso, você pode passar na loja de ervas naturais e comprar cominho e hortelã. Elas serão necessárias para fazer um creme delicioso de alcachofras em conserva, uma tradicional receita portuguesa, e que no período de outono/inverno é sempre reconfortante.
Eu diria até que se trata de um refinamento como poucos existentes nessa vida. Não esqueça também de passar na padaria e comprar uma baguete, com ela você irá fazer as torradas que com manteiga de anchovas acompanha muito bem o tal creme.

Creme de alcachofras

2 colheres (sopa) de azeite e mais um pouco para regar
1 cebola picada
3 dentes de alho
2 colhes (chá) de cominho em pó. [eu pedi para o moço moer na hora...]
2 conservas de 400 g de corações de alcachofras, escorridos
(Sim, pode ser em conservas)
1,15 litro de caldo de legumes [vamos fazer o nosso e não comprar o industrializado, please!]
2 colheres de chá de hortelã fresca, picada, mais um pouco para a decoração
sal e pimenta preta [eu tenho síria e que também gosto de moer na hora...]

Aqueça o azeite numa panela grande. Junte a cebola e o alho e refogue em fogo brando, durante 4 minutos.
Adicione o cominho e depois os corações de alcachofras e o caldo.
Quando começar a ferver, baixe o fogo, tampe a panela e deixe cozinhar em fogo brando, durante 10 minutos.
Leve tudo ao liquidificador para obter o creme.
Agora, sim, junte um pouco de hortelã e veja se está tudo bem com os temperos.

Por fim, você deve esmagar uns filetes de anchovas (4 filetes mais ou menos) com um garfo. Em seguida misture-os com um pouco de manteiga (55g). Corte a baguete em fatias, torre-as, e cubra cada uma com essa deliciosa manteiga de anchovas. Por cima, você pode por um pouco da pimenta síria, moendo-a na hora.

Decore a sopa com umas folhinhas de hortelã e ponha uma fatia da baguete sobre cada bowl.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Elogio à alegria

Maude Alice Cowles (1871-1905),
Untitled, no date [ca. 1897?].
Há um elogio possível, e que acontece comumente sem que dele possamos abarcar seu próprio acontecimento, completamente.
Trata-se do elogio à alegria.
O fato é que ele pode se dar em meio às circunstâncias mais fortuitas e por esse motivo é que se obliteram certos acontecimentos, aqueles capazes de instaurarem essencialmente em nossos corações o júbilo da alegria.

Assim sendo, quero fazer aqui uma espécie de inventário de passagens em que noto o registro da ocorrência desse elogio.

Por exemplo, quando alguém lhe diz, no dia dos namorados: Mas você não namora? Você não tem cara de solteiro!
Ao ouvir essa informação o que se sente é uma espécie de elogio à alegria... futura.

Há uma outra circunstância e que participa dessa cenografia: uma banda está tocando jazz ao fundo e você pede a uma pessoa superatraente e que atende no balcão do bar, uma garrafa de qualquer coisa, mas, então, ela traz apenas a tal garrafa. Em resposta, você delicadamente lhe diz: "Só falta você me trazer o copo..."
O riso franco e aberto de ambos é todo ele elogio à alegria.

Genevieve Almeda Cowles (born 1871),
Untitled, no date [ca. 1897?]. 
No mesmo local, pode ocorrer outra cena, quando você está sentado ao balcão, conferindo mensagens no celular e alguém toca em seu braço. Levantando o olhar lentamente, você se depara com a moça mais linda do mundo, querendo lhe cumprimentar com um beijo.
Isso resulta em emoção de alegria, o que é uma variação do mesmo elogio à alegria de viver.

Até mesmo sentir frio em meio à neblina, ao deixar o abrigo, isso fará parte de mais um episódio de elogio à alegria.
É que há um calor que a sustenta em qualquer circunstância: aquela chama que não se apaga, mesmo que não saibamos os motivos de uma tal celebração da alma e possamos, então, apenas agradecer.

Obrigado, alegria!

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Nossa reverência


Eu passei, faz pouco tempo é verdade, a admirar todos os seres humanos. Tenho a sensação de que o que temos, ao ver o mundo habitado, é sempre uma variação infinita do mesmo tema, isso mesmo! Sobretudo, quando se trata de seres humanos e seus comportamentos: seus feitos, suas alegrias e tristezas, seus limites ou  genialidade.

Notamos isso que estou tentando descrever, por exemplo, ao ler uma biografia. Mesmo que em tal livro se conte, necessariamente, a vida de alguém cujos feitos foram considerados importantes e, assim sendo, tornou-se também imprescindível que o conjunto de acontecimentos dessa vida fosse conhecido pela posteridade.

No momento, leio acerca da vida de Beethoven, uma biografia escrita por Bernard Fauconnier e traduzida por Paulo Neves. Aqui fica evidente, ao que me pareceu, que ser genial é uma condição a ser alçada somente por alguns poucos, pois isso não poderia ser para todos e ao mesmo tempo, ou seja, esse vir a ser em meio à humanidade, fazendo notar essa capacidade de estar à frente do próprio tempo: um dos segredos da genialidade humana em qualquer área do conhecimento.

E, ao lermos essa história, algo muito importante também fica comprovado: o que determina uma genialidade não é a condição aparente em que esse ser genial vive sua experiência. Por exemplo, o grande músico era filho de um pai alcoólatra e de uma mãe tuberculosa e era cercado de irmãos ineptos e, mesmo assim, não se submeteu a essas condições, não se tornou um medíocre.
Beethoven, aliás, nasceu num período que acabara de conhecer o gênio de Mozart, e precisou, mesmo que em meio a muitas vicissitudes, impor o seu próprio gênio aos seus contemporâneos.

Algumas passagens muito interessantes desse livro que ora leio:

Diante do majestoso Reno, nessa natureza amável e poderosa, ele descobriu o sentimento profundo da realidade do mundo e de suas forças telúricas, concebeu o desejo de ser amado por sua música, de tornar-se através do trabalho, da virtude, da doação de si a seus semelhantes, aquilo que o seu pai não soube ser: um grande artista.

Posso dizer que levo uma vida miserável. Há quase dois anos evito encontros em sociedade, pois não posso dizer às pessoas: sou surdo. Se eu tivesse outra profissão, ainda seria possível; mas na minha é uma situação terrível. E o que diriam meus inimigos, que não são poucos? – Para te dar uma ideia dessa estranha surdez, direi que no teatro devo me colocar junto à orquestra para compreender os atores. Não ouço os tons elevados dos instrumentos e das vozes quando me coloco um pouco distante.

Beethoven é contemporâneo do nascimento e dos primeiros passos do piano moderno. Ele conheceu o cravo, depois o pianoforte, de som ainda áspero, vagamente desafinado, digam o que disserem os “puristas”, os esnobes, os defensores de uma “autenticidade musical” imaginária: com frequência Beethoven se queixou de que o instrumento com o qual sonhava, e para o qual compunha, ainda não existia!

Príncipe o que o senhor é, o é pelo acaso do nascimento. O que eu sou, o sou por mim. Príncipes existem e sempre existirão aos milhares. Mas só há um Beethoven.

Por volta das quatro da tarde, o céu escureceu e caiu uma tempestade, “uma tempestade formidável, acompanhada de granizo e neve”, escreve Gerhard von Breuning. Beethoven ergue a mão, cerra o punho como se quisesse desafiar o céu, conta Hüttenbrenner, enfeitando talvez a cena. E acrescenta: “Quando a mão caiu sobre o leito, os olhos estavam semifechados. Com a mão direita ergui sua cabeça, apoiando a esquerda sobre o peito. Nenhum sopro saía dos seus lábios, o coração havia parado de bater. Fechei seus olhos, sobre os quais depus um beijo, assim como na testa, na boca, nas mãos.”