sábado, 16 de junho de 2012

Just saturday


A vida pode ser muito simples de se viver e até mesmo um pouco sofisticada, quando nos permitimos experimentar os prazeres saudáveis que nos proporciona.
Quando você é sozinho, e com isso quero dizer solteiro, você pode, de qualquer modo, buscar estar bem consigo mesmo e com aqueles que cruzam o seu caminho: isso também é a tal da simplicidade com um pouco de sofisticação.
Por exemplo, se sua mãe diz que a televisão queimou, você deve providenciar uma outra, imediatamente, não porque televisão seja essencial, mas porque talvez isso represente um conforto para ela...
Se você for simpático na loja de eletrodomésticos, o atendente poderá lhe dar um bom desconto e se você não reclamar da demora na fila do caixa, e ainda elogiar o cabelo da moça que o for atender quando chegar a sua vez, ela irá lhe abrir um sorriso, com certeza!
Depois disso, você pode passar na loja de ervas naturais e comprar cominho e hortelã. Elas serão necessárias para fazer um creme delicioso de alcachofras em conserva, uma tradicional receita portuguesa, e que no período de outono/inverno é sempre reconfortante.
Eu diria até que se trata de um refinamento como poucos existentes nessa vida. Não esqueça também de passar na padaria e comprar uma baguete, com ela você irá fazer as torradas que com manteiga de anchovas acompanha muito bem o tal creme.

Creme de alcachofras

2 colheres (sopa) de azeite e mais um pouco para regar
1 cebola picada
3 dentes de alho
2 colhes (chá) de cominho em pó. [eu pedi para o moço moer na hora...]
2 conservas de 400 g de corações de alcachofras, escorridos
(Sim, pode ser em conservas)
1,15 litro de caldo de legumes [vamos fazer o nosso e não comprar o industrializado, please!]
2 colheres de chá de hortelã fresca, picada, mais um pouco para a decoração
sal e pimenta preta [eu tenho síria e que também gosto de moer na hora...]

Aqueça o azeite numa panela grande. Junte a cebola e o alho e refogue em fogo brando, durante 4 minutos.
Adicione o cominho e depois os corações de alcachofras e o caldo.
Quando começar a ferver, baixe o fogo, tampe a panela e deixe cozinhar em fogo brando, durante 10 minutos.
Leve tudo ao liquidificador para obter o creme.
Agora, sim, junte um pouco de hortelã e veja se está tudo bem com os temperos.

Por fim, você deve esmagar uns filetes de anchovas (4 filetes mais ou menos) com um garfo. Em seguida misture-os com um pouco de manteiga (55g). Corte a baguete em fatias, torre-as, e cubra cada uma com essa deliciosa manteiga de anchovas. Por cima, você pode por um pouco da pimenta síria, moendo-a na hora.

Decore a sopa com umas folhinhas de hortelã e ponha uma fatia da baguete sobre cada bowl.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Elogio à alegria

Maude Alice Cowles (1871-1905),
Untitled, no date [ca. 1897?].
Há um elogio possível, e que acontece comumente sem que dele possamos abarcar seu próprio acontecimento, completamente.
Trata-se do elogio à alegria.
O fato é que ele pode se dar em meio às circunstâncias mais fortuitas e por esse motivo é que se obliteram certos acontecimentos, aqueles capazes de instaurarem essencialmente em nossos corações o júbilo da alegria.

Assim sendo, quero fazer aqui uma espécie de inventário de passagens em que noto o registro da ocorrência desse elogio.

Por exemplo, quando alguém lhe diz, no dia dos namorados: Mas você não namora? Você não tem cara de solteiro!
Ao ouvir essa informação o que se sente é uma espécie de elogio à alegria... futura.

Há uma outra circunstância e que participa dessa cenografia: uma banda está tocando jazz ao fundo e você pede a uma pessoa superatraente e que atende no balcão do bar, uma garrafa de qualquer coisa, mas, então, ela traz apenas a tal garrafa. Em resposta, você delicadamente lhe diz: "Só falta você me trazer o copo..."
O riso franco e aberto de ambos é todo ele elogio à alegria.

Genevieve Almeda Cowles (born 1871),
Untitled, no date [ca. 1897?]. 
No mesmo local, pode ocorrer outra cena, quando você está sentado ao balcão, conferindo mensagens no celular e alguém toca em seu braço. Levantando o olhar lentamente, você se depara com a moça mais linda do mundo, querendo lhe cumprimentar com um beijo.
Isso resulta em emoção de alegria, o que é uma variação do mesmo elogio à alegria de viver.

Até mesmo sentir frio em meio à neblina, ao deixar o abrigo, isso fará parte de mais um episódio de elogio à alegria.
É que há um calor que a sustenta em qualquer circunstância: aquela chama que não se apaga, mesmo que não saibamos os motivos de uma tal celebração da alma e possamos, então, apenas agradecer.

Obrigado, alegria!

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Nossa reverência


Eu passei, faz pouco tempo é verdade, a admirar todos os seres humanos. Tenho a sensação de que o que temos, ao ver o mundo habitado, é sempre uma variação infinita do mesmo tema, isso mesmo! Sobretudo, quando se trata de seres humanos e seus comportamentos: seus feitos, suas alegrias e tristezas, seus limites ou  genialidade.

Notamos isso que estou tentando descrever, por exemplo, ao ler uma biografia. Mesmo que em tal livro se conte, necessariamente, a vida de alguém cujos feitos foram considerados importantes e, assim sendo, tornou-se também imprescindível que o conjunto de acontecimentos dessa vida fosse conhecido pela posteridade.

No momento, leio acerca da vida de Beethoven, uma biografia escrita por Bernard Fauconnier e traduzida por Paulo Neves. Aqui fica evidente, ao que me pareceu, que ser genial é uma condição a ser alçada somente por alguns poucos, pois isso não poderia ser para todos e ao mesmo tempo, ou seja, esse vir a ser em meio à humanidade, fazendo notar essa capacidade de estar à frente do próprio tempo: um dos segredos da genialidade humana em qualquer área do conhecimento.

E, ao lermos essa história, algo muito importante também fica comprovado: o que determina uma genialidade não é a condição aparente em que esse ser genial vive sua experiência. Por exemplo, o grande músico era filho de um pai alcoólatra e de uma mãe tuberculosa e era cercado de irmãos ineptos e, mesmo assim, não se submeteu a essas condições, não se tornou um medíocre.
Beethoven, aliás, nasceu num período que acabara de conhecer o gênio de Mozart, e precisou, mesmo que em meio a muitas vicissitudes, impor o seu próprio gênio aos seus contemporâneos.

Algumas passagens muito interessantes desse livro que ora leio:

Diante do majestoso Reno, nessa natureza amável e poderosa, ele descobriu o sentimento profundo da realidade do mundo e de suas forças telúricas, concebeu o desejo de ser amado por sua música, de tornar-se através do trabalho, da virtude, da doação de si a seus semelhantes, aquilo que o seu pai não soube ser: um grande artista.

Posso dizer que levo uma vida miserável. Há quase dois anos evito encontros em sociedade, pois não posso dizer às pessoas: sou surdo. Se eu tivesse outra profissão, ainda seria possível; mas na minha é uma situação terrível. E o que diriam meus inimigos, que não são poucos? – Para te dar uma ideia dessa estranha surdez, direi que no teatro devo me colocar junto à orquestra para compreender os atores. Não ouço os tons elevados dos instrumentos e das vozes quando me coloco um pouco distante.

Beethoven é contemporâneo do nascimento e dos primeiros passos do piano moderno. Ele conheceu o cravo, depois o pianoforte, de som ainda áspero, vagamente desafinado, digam o que disserem os “puristas”, os esnobes, os defensores de uma “autenticidade musical” imaginária: com frequência Beethoven se queixou de que o instrumento com o qual sonhava, e para o qual compunha, ainda não existia!

Príncipe o que o senhor é, o é pelo acaso do nascimento. O que eu sou, o sou por mim. Príncipes existem e sempre existirão aos milhares. Mas só há um Beethoven.

Por volta das quatro da tarde, o céu escureceu e caiu uma tempestade, “uma tempestade formidável, acompanhada de granizo e neve”, escreve Gerhard von Breuning. Beethoven ergue a mão, cerra o punho como se quisesse desafiar o céu, conta Hüttenbrenner, enfeitando talvez a cena. E acrescenta: “Quando a mão caiu sobre o leito, os olhos estavam semifechados. Com a mão direita ergui sua cabeça, apoiando a esquerda sobre o peito. Nenhum sopro saía dos seus lábios, o coração havia parado de bater. Fechei seus olhos, sobre os quais depus um beijo, assim como na testa, na boca, nas mãos.”


quinta-feira, 31 de maio de 2012

The Secret Garden by Frances Hodgson Burnett

O tema da infância no abandono tem sido recorrente para mim nos últimos tempos.

Por exemplo, eu pude ver e escrever a respeito do filme Adorável Pivellina e foi tocante conhecer a personagem que encontrou uma pobre menina de 2 anos abandonada em um balanço de playground e vê-la sendo obrigada a fazer companhia e distrair uma criança perdida, portanto, a imagem mais flagrante da inocência, quando aguardam, ambas, por um longo tempo, uma mãe que não aparece.

E hoje eu estava nessa livraria e vi um exemplar muito charmoso de um livro que é um clássico da literatura infantil inglesa: The Secret Garden, de Frances Hodgson Burnett.

Eu não leio em língua inglesa mais amiúde como gostaria, embora consiga fazê-lo bastante bem, sem precisar recorrer ao dicionário a cada palavra desconhecida do meu vocabulário individual naquela língua. Contudo, nunca é tão fácil ler em outro idioma, e, ainda assim, quando comecei a ler esse livro não consegui parar, pois é também essa, como foi assistir aquele filme, uma experiência adorável.

Já li dois capítulos do livro e foi igualmente comovente ver a protagonista, Mary Lennox, uma garotinha de apenas 9 anos de idade e que, no começo da história, vive na Índia, ela também abandonada pelos pais, mesmo que ainda morando com os mesmos! É que ambos mal conversam com ela e a deixam todo o tempo aos cuidados de uma aia. Assistimos ainda, logo nesse começo da história, todos os adultos da casa morrerem de cólera, quando, então, ela é encontrada sozinha no bangalô.

Eu não cheguei, portanto, a conhecer o tal jardim do título da obra, mas já sei que será um jardim de maravilhas, como costuma ser o que é do plano redentor de todo sofrimento. ;-)

De qualquer modo, importa aqui registrar essa minha solidariedade em relação ao abandono de um modo geral, que é realmente uma das realidades mais tristes na infância, para não falarmos na realidade ainda mais triste do abandono de pais na velhice (na verdade, não dá para pensar no que seja pior entre ambas circunstâncias). Essa última, entretanto, é mais comum do que imaginamos... São nesses dois extremos da vida, quando as pessoas mais precisariam de cuidados, que, muitas vezes, elas são abandonadas.

Tais expressões dessa dolorosa realidade humana, quando desenvolvidas em obras de arte, podem até nos chocar, mas ao mesmo tempo nesse contexto nos consolam, porque ali já há a elaboração da experiência em um grau superior e que nos permite imaginar uma saída mais honrosa para tanta tristeza. Pois, então, ela geralmente se revela pela solidariedade dos justos: o que nem sempre encontramos na vida real, lamentavelmente.

Que esses modelos exemplares, idealizados na arte, possam nutrir mais esperança para o nosso plano comum, a saber: o da realidade cotidiana. Oxalá!

O Jardim Secreto de Frances Hodgson Burnett

Capa da primeira edição

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Alessandro Gottardo


Como é belo e realmente convidativo o trabalho do ilustrador italiano Alessandro Gottardo, que tem tido destaque em importantes jornais e revistas, incluindo The New York Times, The Wall Street Journal, TIME, The Economist e Newsweek, entre outros.

Além do prestígio de ter suas ilustrações em tais publicações importantes, o artista também é premiadíssimo. Dentre os inúmeros prêmios que já recebeu, levou para casa a medalha de ouro da Sociedade de Ilustradores de Nova York, em 2009.

Gottardo aprendeu que basta uma abordagem minimalista e que, portanto, não é preciso ir por um longo caminho para se contar uma história. Assim, ele vai tirando tudo o que é desnecessário, excessivo, o que permite que ele vá destilando suas ideias, criando formas mais básicas e nos provando que mesmo conceitos complicados podem ser ilustrados de uma maneira surpreendentemente simples.

Todas essas informações acerca desse trabalho eu obtive na postagem de Alice, uma garota que escreve no blog My Modern Met e eu concordo com  a interpretação que ela deu a esse trabalho muito simples, é verdade, mas ao mesmo tempo delicioso de apreciar, sobretudo, por sua inventividade. Na postagem de Alice você encontrará ainda um link de uma entrevista que ela fez com o artista. Veja lá e enjoy it!









terça-feira, 22 de maio de 2012

Epifanias em nossos desertos


Outro dia eu falei por aqui que eu descobrira muito recentemente que Mary Westmacott e Agatha Christie são a mesma pessoa.  É que eu lera, então, Filha é filha. Pois bem, agora li Ausência na primavera, romance acerca do qual a própria autora teria dito: O livro que eu sempre quis escrever.

Eu penso que ela estava coberta de razão por ter desejado escrever esse livro no qual acompanhamos uma dona de casa inglesa, bem provinciana, mas que ao voltar de Bagdá, onde fora visitar uma filha casada, encontra-se tendo que aguardar uma conexão de um trem, no meio do deserto, para que possa voltar à sua cidadezinha inglesa.
Embora essa pobre mulher tenha todos os defeitos comuns às mães e esposas que se acham muito dedicadas e corretas e ela ainda tenha os defeitos comuns àquelas que são perfeitamente inglesas, o fato é que, ao se deparar consigo mesma, no meio desse deserto, ela só pôde encontrar, como, aliás, aconteceria com qualquer outro cristão, seus próprios fantasmas.

E, então, como é rica e emocionante a experiência do exame de consciência que Agatha Christie descreve! Vamos combinar, que tal exame é sempre bonito quando autêntico e, diga-se de passagem, não é possível fugir dele a certa altura: para todo mundo em algum momento ele ocorrerá! Contudo, a oportunidade para que isso aconteça na vida de cada um é sempre misteriosa.  Por que comigo? É a primeira pergunta que fazemos. Para em seguida nos perguntarmos também: Por que agora e não antes? Por que, por que, por quê?

Trata-se também de um livro do qual não é possível fazer uma sinopse, pois como sintetizar toda uma vida que se conta em flashbacks, após uma epifania no meio do deserto!?

Para suscitar o interesse de vocês, vou apenas transcrever um trecho formidável e que se dá quando Joan, a protagonista, finalmente está voltando para casa e em companhia de sua companheira de cabine e que é uma aristocrata ótima! Na ocasião, elas têm esse diálogo:

- É verdade eu passei por uma experiência bastante perturbadora.
-Ach, é mesmo? O que foi? Um homem?
-Não, certamente não.
-Que bom. É tão comum ser um homem, e realmente no fim fica um pouco chato.
-Eu estava sozinha na pousada em Tell Abu Hami, um lugar horrível, cheio de moscas, latas e rolos de arame farpado, e muito sombrio e escuro no interior.
- Isso é necessário por causa do calor no verão, mas eu sei o que você quer dizer.
-Eu não tinha ninguém para conversar e logo em seguida terminei os livros e... e fiquei... de um jeito muito estranho.
- Sim, sim, isso poderia muito bem ocorrer. É interessante a sua história. Continue.
- Comecei a descobrir coisas a meu respeito. Coisas que nunca percebi antes. Ou melhor, coisas que sabia, mas nunca quis reconhecer. Não consigo explicar a você.
- Oh mas você consegue. É bem fácil. Eu vou compreender.
O interesse de Sasha era tão natural, tão despretensioso, que Joan se viu falando com impressionante falta de restrições. Já que falar sobre seus sentimentos e relações pessoais era tão natural para Sasha, começou a parecer natural para Joan.
Ela começou a falar com menos hesitação, a descrever seu desconforto, seus temores, e seu pânico final.
- Atrevo-me a dizer que isso parecerá absurdo, mas achei que estava perdida por completo, sozinha, que até mesmo Deus me havia abandonado.
- Sim, todos sentem isso em algum momento. Eu própria já me senti assim. É muito sombrio, muito terrível.

Não é maravilhoso que todo mundo possa se sentir assim, em algum momento, e que cada um de nós tenha que se resolver consigo mesmo? Podemos verificar que isso acontece, na verdade, em uma tradição de relatos e que remonta, só para ficar na modernidade ocidental, desde o que nos conta Dante Alighieri até, por que não?, esse de Mary Westmacott. 
;-)


segunda-feira, 21 de maio de 2012

Penelope Dullaghan

Penelope Dullaghan é uma ilustradora e é também uma instrutora de yoga.

Talvez por isso seja tão agradável olhar seus desenhos, afinal, um trabalho deve alimentar o outro e nós é que ganhamos com isso. ;-)

Ela nos conta no seu site que começou a trabalhar com ilustração, em 2004, e que fundou um site com um parceiro para divulgar artistas, ilustradores entre outros. Vejam que fofo o princípio da coisa toda: We believe that every person has a little creative bone in their body, and Illustration Friday just gives a no-pressure, fun excuse to use it [Acreditamos que cada pessoa tem um ossinho criativo em seu corpo, e o Illustration Friday, sem pressão, apenas dá uma desculpa divertida para você usá-lo].

Quem quiser adquirir originais de Penelope também pode fazê-lo por aqui.












quarta-feira, 16 de maio de 2012

Para onde um concerto me leva


Orchestre National du Capitole de Toulouse


Ver e ouvir um concerto na Sala São Paulo é sempre um momento especial da minha vida. É como eu sinto tal experiência, portanto, sempre que acontece de eu estar sentado naquela sala para experimentar esse tipo de deleite. Para além de sentir uma certa atmosfera do lugar, eu, talvez por ser muito idealista, fico ali imaginando todo o tempo que foi necessário para a humanidade chegar a esse tipo de excelência na experiência artística. 

E, então, já estou tomado de emoção antes mesmo das luzes da plateia se apagarem. Trata-se de uma emoção pura e que se deve ao que há de sublime em um aspecto essencial da condição humana, ou seja, sua capacidade de criação no universo da arte: não tenho dúvida alguma a esse respeito.

Ontem, apresentava-se na sala de concertos a Orchestre National du Capitole de Toulouse, sob a regência de Tugan Sokhiev, e que, segundo o amigo que me cedeu o ingresso, é muito reconhecida, sobretudo, na execução das peças de Berlioz, aliás, foi com uma sinfonia desse compositor que encerraram a apresentação.

Nijinski by Léon Bakst 
O programa iniciou-se com Claude Debussy e o seu Prélude à l’après midi d’un faune. Uma peça que, sempre que ouço, como aliás é o que deve acontecer com muita gente, sou remetido ao balé L'après-midi d'un faune, coreografado por Vaslav Nijinski para os Ballets Russes e que tinha por fundo exatamente essa delicada composição de Debussy. O mais interessante é que são, tanto a peça de Debussy quanto o balé de Nijinski, releituras do poema A Tarde de um Fauno, de Mallarmé.

As três peças do programa tinham em comum a presença da flauta e das arpas, instrumentos que não são comumente explorados em concertos e que fazem tanta falta na nossa vida! Talvez porque sempre nos relembram dessa atmosfera que nos dão os elementos  do vento e da água na natureza: tão reconfortantes, vivificantes!

Bertrand Chamayou
A segunda peça, o Concerto para piano e orquestra em sol maior, de Maurice Ravel, teve a graça, beleza e precisão do piano e que só foi possível que se desse desse modo por ser tocado pelo solista convidado: o pianista Bertrand Chamayou, natural de Toulouse, e já prestigiadíssimo, mesmo sendo ainda muito jovem. O movimento que mais me emocionou foi o segundo movimento do Concerto, o Adágio Assai, no qual o piano tocou sozinho em 33 compassos tudo o que é  doçura e passividade até que surgiu um oboé e que, embora em outra tonalidade,  nos soou absolutamente natural. Vejam só!


E o que dizer da Symphonie Fantastique, opus 14, de Hector Berlioz? Seu movimento final, Songe d’une nuit du Sabbat. Larghetto – Allegro assai, é simplesmente um espanto! Não há como não compreender, ouvindo-a, que os gênios são absolutamente contumazes em seus devaneios e paixões, e se sempre nos surpreendem é por nos remeter àquilo que nós também teríamos de potencial expressivo e de majestosa sublimação. Contudo, se não estivéssemos tão ocupados em atender as pequenas paixões cotidianas e que não podem ainda transcender nada. Tal circunstância acontece por nos faltar também  o mero reconhecimento de que poderemos criá-las, as paixões... recriando-as.  Isso poderá se dar quando assumirmos todo o nosso potencial de entrega ao que é em essência do universo espiritual. Até lá só nos resta aplaudir o exemplo do gênio, bem como o talento de seus intérpretes.

Um concerto na Sala São Paulo representa para mim, além da fruição do espetáculo, motivos e razões para  ser levado a pensar em tudo isso e um pouco mais. ;-) 

quinta-feira, 10 de maio de 2012

kinds of melancholy


Ontem eu fique um tanto melancólico,  não comigo mesmo, afinal, eu não tinha motivo pessoal algum para estar melancólico, graças a Deus! O motivo era tão somente saber que pessoas amigas passavam por dificuldades contra as quais eu não poderia nada fazer.

Há, de qualquer modo, um tênue liame entre você ser solidário com o outro em sua dor e tomar para si as tais dores dos outros, uma vez que você mesmo não teria motivo algum para alimentar tristeza, além dessa solidariedade natural.

Eu penso que isso é até um risco. Afinal, toda dor resulta de alguma causa, mas, às vezes, ela acontece por motivos desconhecidos imediatamente, no cenário visível. Nesse caso, é preciso ser maduro e apenas ter uma disposição de espírito favorável para que tudo se conforme da melhor maneira possível, sabendo sempre que os atores envolvidos diretamente na dificuldade é que poderão agir: somos expectadores atentos e solidários tão somente e evidentemente!

Uma melancolia alegre também existe. ;-)
           
Por exemplo, uma amiga me contou que ao dispor as bonequinhas de pano de minha mãe na vitrine de um bazar que promovia na páscoa passada, observou que senhoras muito humildes, provavelmente nascidas nos sertões brasileiros, passavam, na calçada, rumo ao hospital próximo dali e estancavam diante das bonequinhas. Pois bem, tais senhoras viam as bonequinhas e paravam diante delas estarrecidas, emocionadas, colocando a mão no peito e diziam não acreditar que viam ali as mesmíssimas bonequinhas ou que uma avó ou que uma mãe fizera na infância para as meninas que eram então naqueles tempos remotos, uma até lembrava: “a minha o cachorro malvado destruiu com os dentes!” e voltava a ser a menina indignada com tal violência irracional.

Minha amiga dizia que as cenas eram comoventes, de cortar o coração, e que até vendeu alguns exemplares a preços simbólicos, porque o que ela viu diante dela foram imagens muito concretas de comoções d’alma , resultantes de reminiscências femininas, ou seja, de um tipo de despertar próprio de uma memória afetiva sem igual. Experiência que só pode ser compreendida em seu âmago por quem é delicado nesse testemunhar, solidariamente, uma lembrança de amor.