terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Relendo Brontë


Eu sempre tive a dádiva de em momentos de desalento poder ler. A literatura sempre me salvou. Quando mais jovem, minhas crises eram mais constantes e essa espécie de bálsamo que eu encontro até hoje nos textos literários, então, eu tinha mais urgência em sorvê-lo.

Em geral sentimos assim quando há um prazer renovado na relação que estabelecemos com esses textos que dizem tanto de nós, não dizendo exatamente nada de concreto acerca de ninguém a não ser, quiça, de seu autor, mas apenas após a sua experiência ter sido coberta com este véu da abstração com o qual o fazer artístico cobre o que é da ordem do pessoal e indiviso.

Evidentemente, isso acontece mais amiúde - tal componente  realmente salvador que toda leitura tem - quando notamos aquele prazer que surge por ocorrer uma perfeita coincidência de gostos, sentimentos e princípios e que a obra, ou autor, ou as personagens em questão manifestam.

Estou relendo Jane Eyre, de Charlote Brontë – ganhei o livro de uma amiga querida no meu aniversário e, embora eu já o lera em inglês, acho que é sempre bom ler também uma boa tradução.  Assim sendo, vou reproduzir aqui uma passagem do romance. Nela sinto que aconteceu tudo isso que eu falava mais acima e um pouco mais.

Durante a leitura, passagens assim me comovem porque são parte de mim. No sentido de que a coincidência é plena daquele gosto a que chamo bom gosto, bem como dos bons sentimentos e mesmo princípios, sobretudo em relação ao que deve ser exaltado e louvado na minha opinião e evidentemente também na opinião da própria Brontë, autora da mensagem. ;-)

Enjoy it!

Miss Temple tinha sempre um ar de serenidade no porte,de nobreza no semblante, de refinada precisão na linguagem, que impedia o ardor excessivo. Um controlado senso de reverência que dava prazer aos que a ouviam. Era o que eu sentia naquele momento. Mas fiquei paralisada de espanto com Helen Burns.
A saborosa refeição, o fogo brilhante, a beleza e a bondade de nossa amada professora ou, talvez, mais do que essas coisas juntas, alguma virtude da sua mente única, despertou-lhe  as energias. E essas energias se agitavam. Primeiro, surgiram na brilhante cor de sua face, que até agora eu só vira pálida e exangue. Depois brilharam nos seus olhos, que adquiriram uma beleza ainda mais singular que os de Miss Temple. Uma beleza que não repousava na cor da pele, nem nos longos cílios, nem nas sobrancelhas, mas na intenção, no movimento e na vivacidade. Depois foi a alma que pousou nos lábios e as palavras fluíram, não sei dizer de qual fonte. Como pode uma menina de quatorze anos ter um coração grande e vigoroso o suficiente para manter a mais pura, vívida e fervente eloquência? Tal era a característica das palavras de Helen nessa noite, para mim, memorável. Seu espírito parecia ávido por viver, num breve espaço de tempo, mais do que muitos vivem durante uma prolongada existência.
by Paul Chin
Elas falaram de coisas que eu nunca ouvira. De povos e eras passadas. De países distantes. De segredos da natureza, conhecidos ou suspeitados. Falaram de livros, e quantos elas haviam lido! Quanto conhecimento acumulado possuíam! Pareciam tão familiarizadas com palavras e autores franceses! Mas o meu espanto chegou ao máximo quando ouvi Miss Temple perguntar se Helen às vezes dedicava um tempo a recordar o latim que o pai lhe ensinara. Pegando um livro da estante pediu-lhe que lesse um trecho de Virgílio, Helen obedeceu, e meu assombro crescia a cada linha. Mal tinha terminado quando soou o sino anunciando a hora de dormir. Ali não se admitiam atrasos. Miss Temple abraçou-nos e disse, do fundo do coração:
- Deus as abençoe, crianças.

(Charlote Brontë. Jane Eyre. trad. Doris Goettems. São Paulo: Ed. Landmark, 2010, p. 56-57)

2 comentários:

  1. Você é fera!! Sou muito pequenino no meu saber para saber comentar os textos do seu riquíssimo Blog. Só posso deixar aqui, os meus parabéns.! E eu vou continuar lendo tudo o que você posta. Me engrandece.

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