quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Notícia antiga, brincadeira atualíssima!

Hoje, navegando pela web, encontrei no guardian.co.uk uma notícia já antiga.
Nela, falavam de uma mostra que aconteceu, até agosto passado, no The London Transport Museum. O museu que abriga uma das mais importantes coleções mundiais de artes gráficas pedira a ilustradores que desenhassem as relações entre o ciclismo na capital londrina e as questões do meio ambiente, saúde e diversão. No link acima, o do guardian, você pode ver um pouco do resultado desse pedido, cujos trabalhos foram selecionados entre mil participantes. Trouxe para cá os que mais gostei!
Eu gosto de bicicletas e, na minha opinião, no lugar de serem motoristas, as pessoas todas deviam ser ciclistas. Os motivos para essa minha predileção são óbvios: é um exercício saudável, trata-se de um veículo não poluente, mas a verdade mesmo é que é muito divertido andar de bike e, como podem ver, os artistas revelaram bastante essa faceta da atividade. Enjoy it!






terça-feira, 19 de outubro de 2010

Quando o bom trabalho é um bem

Outro dia, Laurie Anderson se perguntava de onde veio a ideia de que você é um homem de bem se você trabalha. E também comentou que São Paulo e New York são muito semelhantes por propagarem essa mesma ideia... Eu lembro-me que compreendi e também admirei seu questionamento. Evidentemente, ser um “homem de bem”, nesse sentido clichê da expressão, é até mesmo lamentável. Faz pensar, por exemplo, que poderíamos estabelecer que um desempregado não seja, então, um homem de bem se ele não pode trabalhar? Ou que as pessoas de bem só o possam ser assim se forem esse horror que a palavra inglesa tão bem define: workaholics?
Por outro lado, a mesma Laurie disse que chegou a trabalhar em uma lanchonete do Mc Donald’s: porque queria experimentar ser alguém diferente. Todos nós podemos imaginar o que seja a experiência de alguém que trabalhe no Mc Donald’s, não é mesmo? Não podemos dizer que essa seria uma experiência fácil e, sim, eu conheci pessoas de bem e do bem que viveram essa mesma experiência, inclusive Laurie Anderson! ;-)
O trabalho pode não fazer homens de bem, mas as pessoas do bem, em geral, trabalham. E muito. O melhor que podemos fazer para o nosso bem e para o bem geral é justamente... trabalhar.
Trabalhar estando e sentindo-se bem, trabalhar com o bem, para o bem.
Hoje eu tive um dia de muito trabalho e como eu desejei que tudo se resolvesse bem, e,  quando a tarefa foi considerada cumprida, eu me senti tão bem!
A verdade é que pode ser muito prazeroso você trabalhar e entregar-se à tarefa do trabalho de uma maneira que a representação total do que seja esse trabalho transcenda a própria tarefa.
Então, eu diria, que não precisamos ser artistas para nos realizarmos no trabalho, precisamos encontrar nesse trabalho, qualquer que seja ele, o sentido de uma existência que transcenda o próprio trabalho, esse pelo qual em seu feliz resultado é já parte dessa transcendência, e que, embora poucos possam supor, é a que permite que o nosso trabalho resulte como parte de uma felicidade que já poderia estar lá sempre e para o próprio bem, que é o bem de todos. Isso, aliás, é arte pura! ;-D
E, por falar nisso, a ilustração desse post faz parte de uma exposição que será aberta no próximo dia 23 de outubro, na Caixa Cultural da Praça da Sé, em São Paulo. Trata-se de um trabalho de xilogravura do artista Rubem Grilo (1985-2010). Quando eu visitar a exposição falarei dela por aqui. Eu adoro esse trabalho e esse artista!

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Deep in thought

Essa semana foi plena de emoção. Sobretudo com o resgate dos mineiros do Chile. O mundo inteiro ficou emocionado com aquele resgate. Aliás, de fato, as grandes tragédias nos irmanam a todos e a essa irmandade na tragédia vem somar-se a irmandade na alegria, como a que assistimos nesse evento, por fim.

Estamos no mundo para nos ajudarmos, para nos socorrermos, mutuamente, fica sendo essa a lição de todo esse episódio, of course.

Eu, hoje, desejando trazer beleza para esse blog, saí destemido pelo mar imenso da web. Que surpresa feliz senti ao deparar-me com os trabalhos de uma ilustradora que vive em Los Angeles, seu nome é Christina Song. Aliás, o nome Cristina, eu tenho uma amiga que se chama assim, é quase uma canção, não é mesmo?
Os trabalhos de colagem dessa ilustradora resgatam o que mais aprecio em uma pessoa adulta: o seu respeito pela criança que carrega em si mesma!

E, assim, como naquelas imagens dos homens adultos resgatados do útero da terra, do renascimento que cada um experimentou ao subir por aquela cápsula (tão apertada!), ficam também aqui essas imagens de Song, que remetem ao contato humanizado com a superfície do globo terrestre, com a natureza que recobre essa crosta e, sim, com a fragilidade inerente à nossa condição de humanos.

Have a nice weekend!

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Cocoon Dance de Berlim e o espaço da Dança em São Paulo

Vejam que interessante: acabei de saber que um coletivo de dança da Alemanha, a Companhia de dança contemporânea Cocoon Dance irá contribuir artisticamente para a revitalização de um teatro em São Paulo, o Teatro Mars, na Bela Vista.
A Cocoon Dance, sediada em Berlim, participa a partir de amanhã de três pólos importantes para as artes do corpo em São Paulo, ou seja, simultaneamente, a responsabilidade da apresentação cênica do espetáculo Dating Your Enemy, a revitalização do Teatro Mars, e ainda a pesquisa e montagem de novo espetáculo, com a participação de artistas brasileiros e que integra um projeto de colaboração de artistas das duas cidades envolvidas, ou seja, o Cocoon Dance em São Paulo - Projeto 2011, que promoverá um trabalho, nos anos de 2010/2011, com a participação de performers e apresentação dos dois países. O elenco brasileiro será formado, através de Audições, seguidas de Oficinas, com as técnicas e metodologias utilizadas durante os processos de criação da companhia. Tal projeto ocorre em parceria com o Goethe-Institut São Paulo, bem como com o Teatro Mars.
Dating Your Enemy é uma releitura da peça Na Selva das Cidades - Im Dickcht der Städte -escrita em 1924, pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht. O Brasil conheceu uma montagem dessa peça, em 1969, by José Celso Martinez Correa, do Teatro Oficina. Para mim, essas referências são mais do que suficientes para querer ver o espetáculo!
A Companhia de dança contemporânea Cocoon Dance foi fundada em 2000, por ocasião do Festival Off em Avignon, por Rafaële Giovanola e Rainald Endrass. Trata-se de um ensemble de artistas vindos de grandes companhias como Ballet Frankfurt William Forsythe e Tanztheater Wuppertal Pina Bausch. É uma característica do grupo emprestar sua criatividade e personalidade em produções mais independentes.
No release que recebi, fui informado que serão duas as apresentações do espetáculo, nos dias 15 e 16 de Outubro (Sexta-Feira e Sábado), às 21 horas. Esse espetáculo simboliza o início do projeto de revitalização do Teatro Mars, na Bela Vista, devolvendo à cidade de São Paulo, um espaço destinado ao estudo, à pesquisa, a experimentação e a performance das diversas manifestações da dança.

Dating Your Enemy
Bailarinos: Joris Camelin, Martin Inthamoussú.
Coreografia e Direção: Rafaële Giovanola.
Vídeo: Ralph Goertz
Desenho de Luz: Marc Brodeur.
Concepção: Rainald Endraß

Teatro Mars – Rua João Passalacqua, 80 – Bela Vista.
Tel:. (11) 3105 8950
Reservas por e-mail: info @spdance.com.br
Lotação: 200 lugares
Duração: 50 min.
Ingresso: R$40,00 e R$20,00
Importante:
Quem não puder ir à noite ao teatro, mas estiver visitando a Bienal, vai poder conferir uma performance desse mesmo grupo na 29ª Bienal de São Paulo. Será o Cocoondance para os Terreiros da Bienal.
O ponto de invenção e reunião de Roberto Loeb e Kboco - Dito, Não Dito, Interdito e o labirinto dos frágeis mecanismos de representação de Carlos Teixeira - O Outro, o Mesmo, serão o palco de duas versões deste embate brechtiniano nos Terreiros da Bienal.

29ª Bienal de Artes de São Paulo
Parque do Ibirapuera/ Portão 3.
Sábado - 16 de outubro de 2010
Duas Apresentações: às 13 horas e às 17 horas.
Terreiros: O Dito, Não dito, Interdito e O Outro, o Mesmo.
Entrada Grátis.
Informações:
bienalsp@fbsp.org.br
(55 11) 5576 7600
http://www.bienalsp.org.br/

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Laurie Anderson said: No rules!

Faz três dias que não posto nada por aqui. Mas é que tivemos feriado ontem, no Brasil, e eu estava em trânsito desde 6ª-feira. ;-)
Ontem, o feriado de Nossa Senhora Aparecida e o Dia das crianças contou, em São Paulo, com a abertura da exposição de Laurie Anderson, I in You, que já andei divulgando por aqui. Foi no CCBB.
A artista chegou e preparou-se, calçando uns patins e que tinham na base de cada pé uma pedra de gelo. Ajudaram-na a subir no palco e ela manteve-se equilibrada nessa base, que foi derretendo durante o tempo em que ela tocava uma peça recente ao violino, em referência a uma de suas performances mais clássicas, Duets on Ice (dueto sobre o gelo), executada em Nova York, nos anos 70. Ela tocava seu violino, enquanto também comandava uma mesa de som.
Para os fãs que estavam no hall do CCBB, cerca de 500 pessoas, foi sensacional ouvir ao vivo uma lenda da criação, uma artista que tem muito claro seu próprio conceito de arte e do que é ser artista. Ela mostrou a que veio de imediato: quando o gelo derreteu (mais ou menos 20 minutos, após iniciado o concerto), ela se desequilibrou no palco, a apresentação terminara. Então, nos disse carinhosamente: Brasil!
No centro do hall, fora instalada um mesa imensa com banquinhos distribuídos ao redor, nos quais o público pôde sentar-se, em volta da mesa, e com os cotovelos apoiados, em pequenos orifícios também cobertos de madeira na mesa. A partir de então, cada qual devia tampar os ouvidos com as mãos. O efeito dessa operação simples de circunspecção é a audição distante de um som que se assemelha ao efeito do som de concha, propriamente, um som que lembra a música natural das águas marítimas, de canto de baleia (ao menos foi isso o que eu ouvi...) e que passa vibrando pelo seu corpo!
Às 18 horas, fomos todos - nós que havíamos agendado, cerca de 40 pessoas - ouvi-la falar em uma pequena sala do CCBB.
Ela respondia às perguntas divagando extensamente, o que, sem dúvida, foi muito bom, uma vez que alguns dos presentes estavam travando um primeiro contato com a artista. De tudo o que nos disse, fiquei particularmente interessado no fato de que, para ela, seu trabalho procura responder a questões importantes como: O que você faz? De que maneira você quer viver? Ela deu o exemplo das reticências, os três pontinhos, esse sinal gráfico no final de uma sentença. Para ela, ele representa a resposta de como passamos o tempo. Essa preocupação está presente na exposição, podemos ler em um dos escritos na parede: Minha teoria sobre pontuação. Ao invés de um ponto final no fim de cada sentença, deveria haver um pequeno relógio indicando quanto tempo foi gasto ao escrever a sentença.
E também, evidentemente, essa preocupação em questionar o que estamos fazendo, de que maneira estamos vivendo, como quando lemos em outra parede: Aqueles dias. Todos aqueles dias. Para que servem os dias.
Depois, a conversa foi em direção à experiência que Laurie Anderson teve com a NASA, como artista residente convidada. Ela contou-nos que o modo como o convite se deu foi curioso: alguém da NASA ligou-lhe e ela não acreditando que falava com alguém da NASA desligou na cara da pessoa... rsrsrs
A experiência em si foi fascinante, segundo ela, porque ela pôde conhecer os cientistas, conversar com pessoas especialistas em nanotecnologia, em robótica. Ela contou-nos, por exemplo, que foi uma emoção quando o robô, que foi enviado para marte, chegou em marte, e, na medida em que suas funções foram sendo executadas, cada equipe de cientistas, que participaram do projeto, puderam aplaudir e dizer "Ah que bom, então, isso funciona..." Ou seja, isso evidencia que a ciência, ainda mais quando em um experimento espacial, é toda uma emoção de variáveis muito distintas e que podem ou não dar certo. A arte e a vida são exatamente assim. O robô andando em marte e cumprindo as funções para as quais foi criado, tudo isso foi uma surpresa! Tudo funcionou. Ele começou a tirar fotos... Ah, os seres humanos fizeram isso!
Para Laurie, artistas e cientistas têm algo em comum, eles não sabem o que estão procurando. ;-)
Portanto, para ela, esses projetos todos são uma ilusão, mas são também uma realização.
E mesmo acerca dos objetos que estão nessa sua exposição: ela nos explicou que eles não são importantes como objetos estáticos, mas como aquilo que abre para novas possibilidades. O que ela deseja que façamos (uma vez que ela já o faz, não é mesmo? rsrsrs) é que vejamos o mundo de uma outra maneira.
Algo que achei, absolutamente, coerente com toda a sua obra, foi o que ela disse sobre o trabalho!
Por exemplo, ela lembrou-nos que há uma regra que diz: você é uma boa pessoa, se você trabalha. "De onde veio essa ideia?”, pergunta-se Laurie. Aliás, ela comentou que São Paulo e New York são muito semelhantes, nesse sentido, por serem centros difusores desse princípio. Por outro lado, quando alguém na plateia perguntou se ela trabalhava em outra coisa que não só com a música, ou, enfim, tão somente com sua produção artística, ela disse que é sempre difícil ser um músico e que é bom ter outro trabalho ao mesmo tempo... Ela, por exemplo, trabalhou no Mac Donald’s: para experimentar o que era ser de uma maneira diferente. Trocar de trabalho de vez em quando é muito bom e, portanto, não só fazer música em tempo integral.
Vejam só que curioso: ela, sendo a excelente artista que é, não é artista em "tempo integral", o que, muito provavelmente, paradoxalmente, constribui para que ela seja uma artista em tempo integral.
Depois, Laurie voltou a nos conceder mais um pouco de apresentação da sua música, agora tão somente sobre os patins, sem o gelo. Foi quando eu chorei, porque a música de Laurie fala na alma, ela tem um eco dos cantos do povo nativo americano, dos índios, tem chuva, tem natureza... E assim, ela é alguém que pode dizer que quando vê a majestade de uma árvore ou olha a beleza do céu, tudo isso soa dentro de si. Aliás, ela nos disse ser uma pessoa que, desde criança, já tinha sua própria religião, sua religião particular: ela via tudo isso (árvores, céu...) e via liberdade em tudo.
E, portanto, ela nos disse tudo: No rules.
Enfim, foi emocionante ver essa forte e, ao mesmo tempo, frágil criatura se equilibrando naqueles patins, tocando seu violino e olhando com carinho para cada um de nós.

Thank you Laurie Anderson for all!

As fotos dessa postagem são de autoria de Luis Carlos, o artista que tem link cativo logo aí na lateral desse blog. Thank you too.

sábado, 9 de outubro de 2010

Emmas Glück

Ontem, estive no Belas Artes, que promove toda segunda sexta-feira do mês o melhor evento de cinema na cidade. O Noitão Belas Artes. O público paga um ingresso e vê da meia-noite em diante, até três filmes. Dois deles são declarados na programação do Noitão e um é sempre um filme surpresa. O tema do Noitão de ontem foi "Revelações da Mostra". Quando cheguei ao cinema, meu amigo que é o programador do Noitão disse-me: Você já assistiu ao filme A Alegria de Emma? É de um diretor alemão chamado Sven Taddicken. Veja. Você vai gostar é um filme em que, no começo, as pessoas são feias e que no final se tornam lindas.
Eu interessei-me, de imediato, pareceu-me que, então, seria um filme que tratava de transformação.
E, sim, é disso mesmo que se trata.
O filme nos convida a refletir acerca das infinitas possibilidades que a vida apresenta quando estamos encurralados, postos diante de uma situação extrema.
Por exemplo, quando sabemos que é certo que vamos morrer. Na verdade, todos já sabemos disso, mas acontece que  Max (Jürgen Vogel), o personagem principal do filme, fica sabendo que tem uma doença e, então, a morte está próxima.
Algo assim assusta, uma vez que nos faz entrar em desespero.
Nas circunstâncias do filme sua inconsequência faz com que ele entre na vida de Emma, uma moça que vive sozinha em uma fazenda, com seus animais.
Ela tem um vizinho citadino que é policial e apaixonado por ela e que representa a voz que também traz uma circunstância de situação limite: ela terá que perder a fazenda pois está assoberbada de dívidas.
Quando o personagem principal, literalmente, despenca no seu quintal com todo o dinheiro que roubou de um amigo. Inicialmente, Emma (Jördis Triebel)  parece ser estrategista: salva o rapaz do acidente, acha o dinheiro e o esconde, põe fogo no carro...
Mas a vida é o tempo todo uma surpresa e somos nós que nos conduzimos por meio de nossas ações em meio a essas surpresas.
Não haverá dinheiro no mundo que devolva a vida! Nós somos feitos para amar! Então, um casal se faz, e a mulher pode ser forte porque ama, o homem pode ser frágil porque mortal. O amigo pode perdoar. O policial pode esperar.
O mais importante de tudo: morrer não é o fim, é uma continuidade que se entrelaça pelo lugar cativo no coração de quem cuidou e amou até o fim para sempre.
Quando o filme acabou, eu e todos na sala de cinema estávamos enlevados de emoção.
Desconfio que esse público era o público-alvo do filme: inteligente e sensível.
Eu, particularmente, senti que tinha entendido tudo e para para além da minha própria compreensão. Quando sai no saguão do cinema, falei para o meu amigo: Cinema de verdade é isso, e não podemos contar com o que não é um cinema assim: o de Alegria de Emma. Eu lamento tanto que mais pessoas não tenham visto!
Meu amigo disse que aquela era uma oportunidade rara para conhecer tal obra.
A primeira vez que ele foi apresentado no Brasil foi na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo , depois foi lançado nos cinemas, com apenas uma única cópia e que percorreu algumas poucas capitais brasileiras. Ele não foi lançado em DVD. Ou seja, é uma obra-prima e que quase não foi vista. ;-(
Eu desconfio que eu precisava ter visto, e isso se deu ontem como que por acaso, portanto, eu agradeço ao Belas Artes pela oportunidade. Eu agradeço aos meus amigos todos. Eu desejo que um dia vocês todos que lêem esse post possam saber do que eu estou falando. ;-)

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A aproximação possível

Acho muito importante compreender que ainda temos muito a aprender.

Aprender, por exemplo, a nos relacionarmos melhor, e viver, portanto, a apreensão de um dos sentidos da existência: o da compreensão profunda de que as pessoas são diferentes umas das outras, definitivamente.

O elogio à diferença não é uma atitude fácil de se ter, ou mesmo algo que pudesse ser apreendido tão somente racionalmente, e, portanto, que se resolveria apenas porque eu sei que as pessoas são diferentes e eu tenho que respeitá-las como são. Não.

Penso que eu, por exemplo, preciso, para aceitá-las completamente, vê-las e pensar: eu também poderia ser assim, talvez eu já tenha sido assim, ou se eu não souber ao certo quem eu quero ser, posso, inclusive, vir a ser assim mesmo.

Essa aproximação lenta em direção à pessoa tão diferente assim de mim, já seria suficiente para eu não julgá-la em erro, por não ser igual a mim.

Como eu desejaria viver isso e com uma tamanha verdade que isso até me assustasse só por não ser possível, a-pa-ren-te-men-te.

Oh, obrigado por eu existir e estar buscando alcançar isso mesmo - a aproximação que não fere e nem mata, a aproximação possível, aquela que só pode ter como nome: amor.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Que prazer ler On the Road!

Eu continuo na minha missão de leitor e que impus a mim mesmo. Ler todos os romances mais importantes da literatura universal, enquanto eu for vivo. Acho que será tarefa para uma vida inteira mesmo, ainda mais que nunca sabemos quando essa vida de agora termina. Assim sendo, eu só sabia que eu também precisaria ler On the Road - Pé na estrada, de Jack Kerouac. Uma amiga emprestou-me o livro, uma primeira edição da tradução brasileira publicada pela antiga editora brasiliense. Tal tradução é de Eduardo Bueno e Antonio Bivar: dois beatniks brasileiros. Aliás, concordo com o Bivar, acho que deve ter acontecido exatamente o que ele diz, em uma nota final da tradução: "Santo Kerouac do céu nos sorria aprovando a dupla perfeita para a tarefa.[da tradução] Peninha e eu: On the Roadies forever."

Eu sempre soube que o Kerouac é um escritor incrível, da geração beat etc. e tal... Mas, como é diferente quando a gente lê uma obra por conta própria e sem se preocupar com as referências críticas ou com a história “por trás” do romance ou do autor...
Simplesmente, porque desse modo, fico eu, sozinho, na companhia desse autor e da personagem que narra sua história e, portanto, observando essa louca aventura sem rumo e sem objetivo definido, e que é a vida dessa personagem. Tal personagem é alguém que sofre a condição humana e é feliz. É alguém que se permite experimentar o amor. É também alguém que não tem preconceitos, que está perdido, mas que se encontra consigo mesmo, o tempo todo, graças ao fato de que sente uma profunda admiração e compaixão por todas as pessoas que cruzam seu caminho. É, sobretudo, alguém solidário e, como vive essa solidariedade em verdade, permite-se também ser um filósofo.
Acho que nós outros, que vivemos nos nossos dias, não podemos mais ter a experiência riquíssima que tal personagem vive no romance, ela e alguns de seus companheiros, simplesmente porque estamos muito distantes do desprendimento necessário para isso. Mas resta-nos a alegria de ler esse registro histórico de toda uma geração, e de admirar o fato de que eles viveram, mais intensamente, do que todas as gerações anteriores e que também as posteriores poderiam viver.Como podem ver, estou tomado pelo livro! rsrsrs

Vejam lá se eu não tenho motivos para tanto, tão somente conhecendo esses excertos que selecionei durante a leitura para compartilhar com todos vocês:

Mas nesta época eles dançavam pelas ruas como piões frenéticos e eu me arrastava na mesma direção como tenho feito toda minha vida, sempre rastejando atrás de pessoas que me interessam, porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam e jamais dizem coisas comuns mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo centro fervilhante - pop - pode-se ver um brilho azul e intenso até todos "aaaaaaah!"...

Garotas e rapazes da América têm curtido momentos realmente tristes quando estão juntos; a artificialidade os força a se submeterem imediatamente ao sexo, sem os devidos diálogos preliminares. Nada de galanteios - mas sim um profundo diálogo de almas, pela vida que é sagrada e cada momento precioso...


A única coisa pela qual ansiamos em nossos dias de vida, e que nos faz gemer e suspirar e nos submetermos a todos os tipos de dóceis náuseas, é a lembrança de uma alegria perdida que provavelmente fora experimentada no útero e que somente poderá ser reproduzida (apesar de odiarmos admitir isso) na morte...


No Carro, enquanto dirigíamos de volta à sua velha casa, ele falou: “Algum dia a humanidade compreenderá que, na verdade, estamos em contato constante com os mortos e com o outro mundo, seja ele qual for; nesse exato instante, se tivéssemos força de vontade suficiente, poderíamos prever o que vai acontecer nos próximos cem anos e seríamos capazes de agir para evitar todas as espécies de catástrofes. Quando um homem morre, seu cérebro passa por uma mutação sobre a qual não sabemos nada agora mas que será bastante clara algum dia, se os cientistas se ligarem nisso. Só que por enquanto esses filhos da puta só estão interessados em descobrir como explodir o planeta...

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Laurie Anderson - I in U / Eu em Tu

Hoje, descobri algo sen-sa-ci-o-nal. Que haverá uma exposição com trabalhos de Laurie Anderson, no CCBB de São Paulo. Aqui, ao lado de onde eu trabalho, no centro da cidade. Será a primeira exposição individual da artista no Brasil.

Descobri essa informação no site da Globo News. A repórter Bianca Ramoneda foi até o estúdio de Laurie Anderson, em Manhattan, e estrevistou a artista.

Se ainda existe alguém no mundo que não conheça Laurie Anderson, então, que esse alguém corra para lá, primeiro ao site, para ver e ouvir a entrevista e, claro, depois ao CCBB para ver a exposição. Laurie Anderson é uma artista multimídia, desde muito antes de as pessoas imaginarem que isso pudesse existir. Ela desenha, fotografa, cria instalações sonoras, objetos e. lógico, faz música. O violino é um companheiro inseparável de suas performances por que Laurie acha que esse é o instrumento que mais se aproxima da voz feminina. Ela se considera uma contadora de histórias e a tecnologia é um instrumento para que ela possa contar essas histórias todas que tem para contar.
Algumas passagens do depoimento da artista, nessa entrevista, emocionaram-me, particularmente. Cito, a minha maneira, dois momentos:
1) Quando ela diz que os EUA são um país muito apocalíptico. Para Laurie, as pessoas falam muito em fim do mundo, por lá, mas não falam em fim do capitalismo... Sobretudo, isso de fim do mundo é incansável, porque eles são muito fundamentalistas, acreditam em céu e inferno, e, então, crêem no fim do mundo: em Cristo descendo à terra, de corpo e alma, e determinando o fim do mundo. Eu concordo com a atriz que não há nada mais patético do que isso. Ela também disse que o consumismo: essa coisa de querer possuir uma casa, um computador etc. e etc.é a tônica contemporânea, ninguém fala em ajudar ao outro, por exemplo, mas em possuir para si. Enquanto que, quando ela era jovem, seus amigos não pensavam em possuir nada, mas pensavam apenas em criar.
2) Também achei emocionante ela dizer que está casada há 19 anos com Lou Reed e que ela o acha mais generoso do que ela própria, pois quando vão ao teatro, por exemplo, ela, às vezes, não gosta da peça, fala mal de uma determinada interpretação no 2º ato... e ele diz: mas o ator que fazia o papel do avô era muito bom. Além disso, ela não se lembrava de uma única vez que ele pudesse tê-la aborrecido, nesses 19 anos, o que é um privilégio uma vez que há pessoas que são aborrecidas estando apenas há 10 minutos conosco! rsrsrs

Eu fiquei emocionado por que ela é uma artista que se manteve coerente em relação a toda a sua carreira e seu trabalho. É alguém que continua afirmando o que há de melhor em ser artista: fazer esse mesmo trabalho. Ela, aos 64 anos, continua verdadeira e jovem. Prometa-me que você irá até o site da Globo News e verá a entrevista toda!





I in U / Eu em Tu - Laurie Anderson
Mostra restrospectiva da artista norte-americana, elaborada exclusivamente para o CCBB.

Conjunto de obras originais composto de instalações, fotografias, desenhos, vídeos, músicas e documentações de performances e criações produzidas desde os anos 70 até os dias atuais.
Curador: Marcello Dantas
Local: CCBB - Rua Álvares Penteado, 112 - Centro - São Paulo
Período: 12 de outubro a 26 de dezembro
terça a domingo
10h às 20h

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A criança e o chocolate

-Moço, posso te perguntar uma coisa?

- Pode.
- Qual a capital da França?
- Paris.
- Então, compra um chocolate para me deixar feliz.

Esse diálogo ocorreu entre mim e um garotinho com idade em torno dos seus 7, 8 anos de idade, muito muito pequenino, negro, descalço, muito muito sujinho e absolutamente abandonado.
Comprei a barra de chocolate. E, quando eu disse que achei muito inteligente, além de meigo, o recurso por ele utilizado para seduzir seu cliente, ele, continuou:
- Ah, tem outra: Qual é a capital do Brasil?
- Brasília.
- Então, compra um chocolate para eu ajudar minha família.
Aqui cabe um parêntese: eu não estou mentindo, é verdade, ele utilizou, corretamente, o pronome pessoal reto da primeira pessoa do singular (eu), antes do verbo no infinitivo (ajudar), e não o pronome pessoal oblíquo não reflexivo, tônico (mim) que é o que todo mundo faz! Eu, na verdade, não faço mais isso, desde a adolescência, quando um amigo superculto chamou-me a atenção em relação a isso e severamente! rsrsrs
Imediatamente, senti uma empatia absoluta por aquele garotinho. Ele era inteligente, sensível e sabia criar algo difícil entre os seres humanos e que é a cumplicidade. Eu ri. Porque, então, pareceu-me muito claro que eu e ele estávamos falando de algo que D.H. Hymes, num artigo chamado The ethnography of speaking, chama de competência comunicativa e que, para o especialista, é um conhecimento conjugado de normas de gramática e de normas de uso e que regula, sobretudo, a apropriação contextual das condutas.
Sim, estávamos ambos nos apropriando do contexto de nossas condutas. Ele, obedecendo a sua necessidade, seduzia por um jogo de linguagem, ao lançar mão da função da linguagem mais encantadora: a função poética. Ele o fez pelo aproveitamento da rima apropriada, tanto no par Paris/feliz como no par Brasília/família. Eu também apropriei-me da minha conduta de receptor da mensagem, ao deixar-me seduzir. Assim, achei apropriadíssimo, na atividade linguageira ali em funcionamento, rimar Paris com feliz ou Brasília com família, e, sobretudo, isso resultar da conduta de uma criança que, abandonada pelos adultos, optou por ganhar seus trocados usando o recurso de seduzir com palavras aqueles que poderiam ajudá-lo.
Nesse momento, ao menos para mim, a revelação dessa conduta do menino foi o mais importante.
Sim, eu conheço gente que optaria por dizer que isso era um absurdo, ou seja, uma criança estar abandonada, que essa criança deveria estar na escola, que os pais, blá, blá, blá e que, ainda, depois desse discurso todo, não compraria o chocolate, portanto, não deixaria a criança feliz...
Eu, de minha parte, continuo amando as criaturas humanas por essa capacidade de poder seduzir pelas palavras e também por elas permitirem-se ser um pouco mais feliz, em qualquer circunstância, por exemplo, estando abandonada em São Paulo e não em férias em Paris. ;-)