Ontem, estive nesse templo da música de qualidade indiscutível que é a Sala São Paulo. Foi a abertura da Temporada 2010 da Sociedade de Cultura Artística. Um grande amante da música erudita que conheço não pôde ir e fez a gentileza de ceder a mim o ingresso o que me deixou bastante grato e até mesmo comovido.
Inicialmente, o concerto seria de Vadim Repin no violino e Itamar Golan no piano, mas o violinista cancelou sua vinda ao Brasil por motivos de saúde. Deus ajude! Assim sendo, tivemos uma substituição de altíssimo nível: o pianista húngaro, Dezsö Ránki.
O programa da noite incluia uma Sonata para Piano, em Mi bemol maior, Hob.XVI/52, de Franz Josef Haydn, a Fantasia em Dó maior, opus 17 de Robert Schumann e a Sonata para Piano, em Si menor, S.178 de Franz Liszt. Para mim, que há muito não ia a concertos, ele foi um programa perfeito porque a primeira Sonata de Haydn era de curta duração nos seus movimentos: um Allegro e um Adagio, com um Finale: presto. Como esse compositor é do período do Classicismo a composição era muito equilibrada como um todo, somente acenando, ao final, para um espírito mais alerta, como diz J. Jota de Moraes, no comentário do programa impresso. Achei importante esse início porque pude ir me ambientando e acalmando as fortes emoções que me tomavam, a saber: estar diante de um pianista talentoso e que se apresenta nos palcos mais conceituados do mundo, portanto, de alguém que estudou todos os anos de sua vida para tornar-se o virtuose que demonstrava ser. Além disso, por ter a oportunidade de ouvir os compositores que outrora viviam em cortes e cultivavam uma música refinada e elaborada até o limite do gênio humano e, por fim, por estar na Sala São Paulo, pela primeira vez (confissão vergonhosa, eu sei, mas aqui vale o "antes tarde do que nunca") e isso por si só já seria uma sensação sui generis.
E, então, a peça terminou e, após os aplausos ainda comedidos, Ránki iniciou a Fantasia de Schumann. Eu logo apreciei, porque o espirito romântico tomou o ar nas vibrações sonoras do piano tocado com muita naturalidade, precisão e vivacidade. Acho que Schumann ficaria feliz se pudesse ver aquela execução dos movimentos que criou nessa peça: Com fantasia e paixão - Em tom lendário; Moderado. Com energia - Um pouco mais lento - Bem agitado; Lento. Sempre suave - Mais agitado. A descrição desses movimentos são apropriadíssimas para a Fantasia que ouvimos graças ao talentoso pianista húngaro e, sobretudo, no que diz respeito ao que ela concretiza, segundo aquele comentarista: os dois estados anímicos que dominavam a alma do artista (Schumann) bipolar e em constante oscilação - a depressão e a euforia; ou, como se dizia, então, a melancolia e a felicidade.
Após o intervalo, foi a vez de ouvirmos a Sonata de Franz Liszt em seus generosos movimentos. Foi então, que tivemos a prova da virtuosidade absoluta do pianista. Próximo ao final, quando terminado o movimento Prestissimo, após ter sido tocado vigorosamente, notou-se que seu empenho foi tão intenso, com demonstração de tamanhas força e velocidade que, ao final, ao levantar os braços, suas mãos ficaram no alto, mas o piano ainda soava as notas de cada uma das teclas, que lentamente se acomodaram até se instaurar o silêncio que antecipou o retorno das mãos às teclas para o início delicado e lento do Andante sostenuto.
Não há, na linguagem verbal, palavras que possam verbalizar o sentimento dos corações ao alto a que se assistiu em toda a imensa e bela Sala São Paulo.
Quem ainda puder ir, hoje, às 21h, para a Série Azul, saiba que terão mais uma apresentação desse artista que, ao final, quando aplaudido com entusiasmo (nós pobres mortais só podemos aplaudir), generosamente, retorna ao palco para um bis.

