
Estou tendo uma experiência muito sofisticada de leitura: leio o mais recente romance de Chico Buarque publicado: Leite Derramado.A personagem principal, por sua vez, está no leito de um hospital e sua fidalguia, a que tanto alude, é tão somente uma sombra que recobre todo o seu passado, como também o passado do Brasil, tão cheio de fidalgos outrora...
Assim, temos demonstrada uma visão muito crítica da nossa história e também muito humana da história da personagem. Sentimos e compreendemos quais são seus excessos e, ao mesmo tempo, percebemos que o que se está a tratar é da própria condição humana, ali exacerbada em sua mortalidade tão latente.
Compartilho um trecho que gostei de ler, porque, por um acaso, ele alude ao ciúmes e eu tenho com a personagem e narrador uma cumplicidade em relação a essa visão possível acerca desse sentimento:
Com o tempo aprendi que o ciúme é um sentimento para proclamar de peito aberto, no instante mesmo de sua origem. Porque ao nascer , ele é realmente um sentimento cortês, deve ser logo oferecido à mulher, como uma rosa, senão , no instante seguinte ele se fecha em repolho, e dentro dele todo o mal fermenta. O ciúmes é então a espécie mais introvertida das invejas, e mordendo-se todo, põe nos outros a culpa da sua feiura. Sabendo-se desprezível, apresenta-se com nomes supostos, e como exemplo cito a minha própria avó, que conhecia seu ciúmes como reumatismo.
Não é ótimo isso?! \o/
Eu penso que aqueles que não curtem Chico Buarque como romancista são invejosos, ou seriam ciumentos do talento alheio? Não, nesse caso é inveja mesmo! A inveja pura e simples nunca poderia ser oferecida como flor, em nenhum dos seus estágios.