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quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Poesia Albanesa

Luljeta Lleshanaku 
Já faz um tempo que descobri um blog muito sofisticado: 
Poesia & Lda., que  se propõe a divulgar a poesia produzida em diferentes culturas, inclusive, em culturas das quais dificilmente temos acesso à produção literária.

Hoje eu estava apreensivo com aquela gente linda do Greenpeace que continua presa na Rússia, inclusive com a brasileira Ana Paula, que se encontra entre eles!

Penso que  não por acaso, encontrei neste blog a poesia de LULJETA LLESHANAKU (ler Liublieta), que nasceu em Elbasan, na Albânia, em 1968.

É alguém da minha idade (eu nasci em 1967) e é uma mulher. 
Dois motivos mais do que suficientes para eu me identificar com sua poesia. ;-)

Este poema postado naquele blog por João Luís Barreto Guimarães tem como temática os diferentes modos de ser prisioneiro... 

Enquanto reflito nessa temática, mando as minhas mais sinceras e boas vibrações para que se tenha a melhor solução para o caso, dentre os resultados da audiência que aconteceu ontem em Hamburgo, na Alemanha, no Tribunal Internacional de Direito Marítimo.

Tal audiência ocorreu graças ao  governo holandês, diga-se de passagem, e que quer a libertação do navio Arctic Sunrise – de bandeira holandesa – bem como de toda a tripulação que estava a bordo da embarcação. Que assim seja!


PRISIONEIROS


Prisioneiros
culpados ou não
parecem sempre iguais quando são libertados –
patriarcas destronados.

Este acabou de passar cabisbaixo
pelo portão, apesar de não ser alto
seus gestos como os de um Beduíno
entrando na tenda
transportando às costas o dia inteiro.

Cortinas de algodão, paredes de pedra, o cheiro a cal queimada
levam-no de volta para o momento
em que a guerra fria terminou.

No outro dia, o seu lençol foi pendurado no pátio
como se a ostentar a mancha de sangue
depois da noite de núpcias.

Rostos manchados pelo sol
cercam-no, todos olhos e ouvidos:
"Com o que é que sonhaste a noite passada?"
Os sonhos de um prisioneiro
são pergaminhos
feitos sagrados pelas passagens em falta.

Sua irmã ainda está a descobrir os seus estranhos hábitos:

pedaços de pão escondidos nos bolsos, e sob a cama
o implacável corte da madeira para o inverno.

Porquê este medo?
O que pode ser pior do que a vida na prisão?

Ter escolhas
mas ser incapaz de escolher.
A brasileira Ana Paula é uma das 30 pessoas presas na Rússia após protesto pacífico contra exploração de petróleo no Ártico. Foto: © Dmitri Sharomov/Greenpeace

Você pode assinar a petição pela libertação dessa gente boníssima aqui.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

É melhor ser alegre que ser triste


Dois episódios distintos ocorreram comigo, em um intervalo bastante curto de tempo. Eu os achei tão instrutivos!
Ainda ontem, alguém me viu sorrindo. Na verdade eu estava sorrindo para essa pessoa, enquanto ela se aproximava. Ao se aproximar, então, ela disse:
- Josafá, por que você está alegre? O Brasil não está essa maravilha assim não, para você estar tão alegre!
Eu apenas respondi:
- É que eu sempre fico alegre quando te vejo!

Hoje, no elevador, encontrei duas colegas e uma delas elogiou-me, dizendo:
- Nossa Josafá, como você está elegante!
Eu respondi:
- Eu ia dizer o mesmo a respeito de vocês duas, mas você se adiantou e me elogiou primeiro. Obrigado!
E dei uma risada gostosa.
Então, a outra se manifestou:
- Josafá, eu gosto de você porque você é uma pessoa contente. Está sempre alegre, sorrindo.
Tive que comentar, rindo ainda mais:
- Obrigado! Você sabe que tem gente que não gosta de mim pelo mesmo motivo? Eu morro de rir, porque são resultados completamente diferentes e ambos se devem a uma mesma causa! Kkkkk

Deus conserve minha alegria genuína, então. Eu tenho certeza que tudo o que há de melhor em mim eu devo a Deus!

Esse assunto, lembrou-me também de uma professora de literatura na USP, com quem eu tive aulas, e que era uma simpatia. Ela era muito linda, charmosa e parte do seu charme se devia ao fato de dar gargalhadas sonoras durante as aulas. Nunca me esqueço da aula em que ela comentava um conto de Machado de Assis intitulado Uns braços. A começar pelo título ela já achava uma graça infinita naquilo e dizia:
 - O Machado é interessante porque ele é engraçado! Imaginem um conto que se chama Uns braços... kkkkk Ele poderia dar o nome que quisesse para essa história, mas ele resolveu ser metonímico e aí temos esse Uns braços nomeando o conto...kkkkk

Não tinha quem também não risse, sobretudo naquele contexto. A graça, a alegria e a beleza daquela mulher eram tão genuínos! Aliás, o bom do riso é que ele não tem uma lógica. O que é engraçado para uns pode não ser para outros, não é mesmo? Mas o melhor da marca do riso está na alegria que o provoca e que ele também sugere ao mundo. É exatamente como dizia Vinicius de Moraes: É melhor ser alegre que ser triste. Alegria é a melhor coisa que existe. É assim como a luz no coração...


terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Um chá com Amós Oz

É uma experiência de civilidade sem igual ler um romance de Amós Oz. Há sempre em seus livros um cuidado todo especial com a construção de personagens femininas, crianças e idosos. Um respeito por eles e que é quase transcendente em sua pureza. As questões políticas da sua obra, ao menos me parece, são sempre um pano de fundo para essa questão mais essencial do cuidado com o outro e que é o que assoma em primeiro plano.
E sempre há também poetas nos romances de Amós Oz.
Eu fico comovido até não mais poder: Qual seria a utilidade de se ler um romance se não fosse para alimentar em nós essa comoção d'Alma?
Não estudo mais literatura, há um bom tempo, e isso é uma desvantagem quando se trata de literatura. Seu estudo é tão rico! No entanto, essa mesma desvantagem possibilitou a mim uma espécie de compensação: posso apenas vivê-la como leitor e isso me traz um grande alívio, ou seja, o de quem está livre para amar desmesuradamente. Afinal, é possível que nos apaixonemos por um livro. Ora pois! Como não?
Por exemplo, compartilho com os leitores desse blog um trecho dessa minha atual leitura, a desse livro de Amós Oz e que tem estado em minha cabeceira.
Após a leitura do trecho quero que me responda: Isso não é apaixonante?

"Você quer me ajudar, Uri?"
Eu largava no mesmo instante as rolhas e os papéis dourados e prateados, suspendia o fogo em todas as frentes e acompanhava a Mãe até a cozinha. Eu gostava de ajudá-la a servir o chá. Gostava de arrumar tudo com cuidado no carrinho preto de vidro e de levar o carrinho para a sala: cinco xícaras com seus pires de vidro. Cinco pratos rasos para o bolo. Cinco garfos com um dente mais grosso e outros dois mais finos. Cinco colherinhas. Açúcar. Leite. Limão. Reforço de nozes e biscoitos. Logo a chaleira ia ferver a a Mãe serviria o chá. Enquanto isso minha tarefa era descer as escadas, atravessar a ruela, acordar o velho poeta de sua sesta vespertina de verão numa espreguiçadeira a um canto do maltratado jardim, entre os oleandros secos e os canteiros de espinhos, e, propor-lhe educadamente:
"Senhor Nechamkin! Desculpe! Senhor Nechamkin! Lá em casa vamos tomar chá, e estão perguntando se o senhor também virá tomar conosco, por favor?"
A princípio o velho não se mexia.Só abria os olhos azuis e olhava para mim espantado. Depois, em seu rosto de cágado se desenhava um sorriso cansado, como um sorriso que vem depois do desalento, e sua mão apontava com ternura para o pimenteiro, de entre cujos galhos se ouvia o alarido de passarinhos invisíveis que pareciam tomados de êxtase:
"O que é que há, garoto, o que está havendo lá, algum incêndio, Deus nos livre?"
E logo acrescentou:
"Menino Uriel. Sim. Abra a boca e me ilumine com suas palavras."
"Estão tomando chá, senhor Nechamkin, e conversando, e pediram muito que o senhor venha também."
"Nu. O quê. Sim. Até parece que tem um incêndio, Deus nos livre, mas felizmente não há fogo nenhum. E eu haverei de ir. Claro que irei. Melhor ainda, vamos os dois juntos, como um só homem: o poeta e o menino. Vamos indo, com muita alegria, e não ficaremos sem recompensa."
(...)
...Não minhas senhoras e meus senhores, não, não vou tomar um segundo copo. Não tem dinheiro no mundo que me faça beber mais, para que vocês não pensem que sou um glutão ou um beberrão. Eu me basto com um copo só. Fico satisfeito. Mas, por outro lado, minha senhora, por outro lado como posso recusar-lhe? Ao contrário, é uma satisfação beber com vocês mais uma vez. Contanto que não tenham muito trabalho. Depois vou ler para vocês alguns versos modestos, com sua licença, é claro, despedir-me e seguir em paz meu árduo caminho. Recebam meus agradecimentos e minhas bençãos, vocês foram muito amáveis comigo".

segunda-feira, 18 de abril de 2011

É preciso saber ler!

Eu estou lendo um livro tão especial que o faço bem devagar. Ele é aquele tipo de livro que você desejaria não acabar nunca... E não é um livro de ficção, não é o Mil e uma noites... rsrsrs
Trata-se do livro A arte de ler ou como resistir à adversidade, no qual a antropóloga francesa Michèle Petit comenta as experiências de mediadores de leitura em situações de adversidade. Ela visitou diversos projetos de mediação de leitura nos países da América Latina, inclusive no Brasil e o livro resultou dessa investigação das diferentes maneiras pelas quais a forma narrativa pode atuar como educadora da sensibilidade e como um poderosíssimo instrumento de resistência ao caos interior e à exclusão social.

Em diversas passagens eu me identifiquei. Quando, por exemplo, ela conta que a leitura é um lenitivo para qualquer contexto de adversidade e de dor, incluindo aí a dor moral. Lembro-me que, em uma época (graças a Deus, já distante) da minha vida, fiquei um tempo desempregado. Como é horrível você ficar nessa situação. Eu refugiava-me na biblioteca do Centro Cultural São Paulo, na Vergueiro, e foi ali que li, por exemplo, A vida do Espírito, de Hanna Arendt, e como essa leitura me fortaleceu!

A autora nos conta que essa experiência, que eu já vivi na pele, também aconteceu nos anos 30 do século passado, nos EUA, quando a crise “levou milhares de norte-americanos para as bibliotecas." Nessa passagem, ela cita Martine Poulain:

Às vezes os desempregados buscavam na leitura uma oportunidade de se distanciar do real e de sua própria situação, esperando que ela lhes levasse para ‘fora do mundo’. Às vezes, esperavam o contrário, que lhes mantivesse ‘dentro do mundo’. A leitura dos jornais e periódicos era então a mais apreciada, seja porque a leitura de ‘notícias’ sancionava essa necessidade de se sentir parte de uma comunidade, seja porque a consulta das ofertas de emprego assinalava mais diretamente uma busca de reintegração.

E, assim, em várias momentos de tempos difíceis revela-se o poder da leitura. Segundo a autora, seja em contextos de guerra ou de repetidas violências, de deslocamentos de populações mais ou menos forçados, ou de vertiginosas recessões econômicas, crianças, adolescentes e adultos podem redescobrir o papel de reconstrução de si mesmos e a contribuição única da literatura e da arte para a atividade psíquica.

Esse livro é rico porque coteja a experiência prática, dos mediadores de leitura junto às populações necessitadas de apoio - para esse trabalho de reconstrução de suas próprias identidades, por meio da leitura e da literatura - com a bagagem da própria autora, seu repertório, a riqueza das citações de escritores e estudiosos de várias vertentes e que corroboram a riqueza dessa Arte de ler e que nos permite resistir às adversidades, e que são tantas, sobretudo para populações em situação de pobreza ou  sem escolaridade!

De todas as inúmeras e relevantes citações presentes no livro, eu destacaria aqui, para essa singela postagem, e com a sutil intenção de conclamá-los à leitura dessa preciosidade, essa aqui:

A ação de ler tem a virtude paradoxal de imprimir vigor a essa mesma vida da qual ela nos separa. (José Luis Polanco)

Ou ainda essa outra:

Ler tem a ver com a liberdade de ir e vir, com a possibilidade de entrar à vontade em um outro mundo e dele sair. (Thomas Pavel)

Boa leitura!

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Kar

Eu pensei em não falar desse livro que ora leio porque ele é um livro difícil de se falar about. Aliás, li essa resenha  do livro, em que o resenhista começa por dizer que finalmente tivera coragem de falar sobre esse livro, por que era isso mesmo, para falar desse livro é preciso ter coragem. rsrsrs Assim sendo, eu, aqui, vou apenas fazer o que, aliás, costumo fazer, quando se trata de falar dos meus livros em leitura, dar uma notícia, tão somente, de uma leitura que faço.
Fico também me perguntando como eu poderia falar da experiência intensa de ler um romance que trata de um universo tão peculiar, como esse sobre o qual no livro se narra em urdidura.

Bem, o romance Neve (Kar, em Turco) é um livro da literatura contemporânea da Turquia. E o que eu conheço da Turquia? Muito pouco, com exceção do que vim a saber por intermédio de um grande amigo catalão, e que sempre me fala de seus cantantes, músicos e grupos musicais. Para Enric, a cultura de todo o mediterrâneo é importantíssima e lhe é muito querida. Essa semana, aliás, Enric nos fala de uma banda de punk rock de Istambul, no seu excelente blog Bosphorus.
Penso que agora poderei, provavelmente, conhecer ainda um pouco mais da Turquia, e isso tão somente acompanhando a ótica dessa cultura tal como é exposta nesse romance do grande escritor turco, Orhan Pamuk, Prêmio Nobel de Literatura.
É que, em Neve, o autor situou suas personagens em uma cidade que parece representar bem o que ele deseja. Trata-se de Kars, na fronteira com a Geórgia, uma cidade outrora rica e que, na época em que se passa a história que ele narra, está abandonada a sua própria sorte e que, mesmo assim, ou por isso mesmo, vivencia conflitos que são bastante intensos: entre o Estado secularista e os representantes da tradição islâmica. Ambos se embatem ali e o que está por trás desse embate é a própria condição humana. Uma sinalizador disso, por exemplo, é o estopim do conflito e que se dá, penso que simbolicamente, pela notícia de moças que, impedidas de frequentarem a escola cobertas por seus véus de devoção religiosa, passaram, talvez por ou também por esse motivo, a cometer suicídio.
Portanto, há no livro, entre outras, essa questão, a dos homens que se organizam politicamente, e que também são representados na obra, muito profundamente, pela sua organização interna, seja ela filosófica ou religiosa. Portanto, nessa cidade iremos assistir à construção de um microcosmo dos conflitos raciais, políticos e étnicos da Turquia, bem como veremos nela, de modo suplementar, o palco de uma tragédia bem pessoal, ou seja, a do protagonista do romance: Ka, o poeta.
Durante a leitura, é impossível não pensarmos em que outro romance, senão em um romance cuja personagem protagonista seja um poeta, encontraríamos a alusão a um tipo de sentimento, como o que é expresso nessa passagem que ora cito:

Foi assim que Ka ouviu o chamado do fundo de si: o chamado que ele ouvia nos momentos de inspiração, o único som que podia fazê-lo feliz, o som de sua musa. Pela primeira vez em quatro anos, um poema vinha até ele. Embora ainda precisasse ouvir as palavras, ele sabia que já estava escrito; mesmo aguardando em seu lugar escondido, o poema irradiava a força e a beleza do destino. O coração de Ka se encheu de alegria.

Ou ainda:

"Aqui nós temos duas diversões. Falamos sobre tudo o que nos acontece e vemos televisão. E até conversamos enquanto vemos televisão. E enquanto conversamos, vemos televisão também. Minha irmã é muito bonita, você não acha?"
"Sim, ela é muito bonita", disse Ka num tom reverente. "Mas você também é bonita", acrescentou delicadamente. "E agora você vai contar isso para ela também?
"Não, não vou lhe contar. Vamos ter um segredo para partilhar. É a melhor maneira de iniciar uma amizade." E ela sacudiu a neve que se acumulara em sua comprida capa de chuva roxa.

Sim, meus caros, o mais delicioso nesse livro é que ele é ambientado e construído considerando um tema presente e que nos parece sempre atual em se tratando da Turquia e mesmo do que hoje chamamos de mundo globalizado, mas o livro extrapola o mesmo e o faz pelas frestas das questões atemporais: essas que não carecem de globalização política ou econômica porque pertencem à condição humana em todo tempo e lugar.
Acerca do estilo do romancista eu ainda não poderia me referir como conviria, uma vez que estou tateando por ele. Apenas gostaria de chamar a atenção para a organização dos capítulos, o modo como cada um deles, em seus títulos (isso mesmo, cada capítulo tem dois títulos), nos são apresentados. O primeiro título é apresentado em tipos maiores, e trata-se da citação de um trecho presente no interior do próprio capítulo e, na linha inferior e em tipos menores e em itálico, aparece, então, aquele que seria o título do capítulo, simplesmente, sem ser uma citação do corpo do texto, sendo também o que consta no Sumário. Isso resulta, já de antemão, em uma certa tônica do livro: o tempo todo permeado de diálogos profundos. Vejam que lindos exemplos:

O Silêncio da Neve
A viagem para Kars

Não estou tomando muito tempo do Senhor?
A primeira e última conversa entre o assassino e sua vítima

O que faz a beleza deste poema?
Neve e felicidade

Na Europa eles têm um Deus diferente?
Ka com o sheik efêndi

Como ainda leio o livro e estou apenas na página 132, não posso mais me estender, quero ainda apenas dizer que se trata de um livro muito sofisticado desde o princípio, uma vez que conta, por exemplo, com epígrafes que foram escolhidas com muita precisão e penso que para nos dar, também de antemão, aquilo que poderíamos chamar de o “tom” da história que vamos ouvir. É bem o caso dessa primeira, e citando-a paro de falar nessa experiência de leitura por demais densa e prazerosa!

Nosso interesse vai para a perigosa fímbria das coisas.
O ladrão honesto, o assassino delicado.
O ateu supersticioso.
                       Robert Browning, “Bishop Blougram’s Apology”

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Uma certa paz by Amós Oz

A semana passada eu postei no Facebook que eu tinha ganho tantos presentes por ocasião do meu aniversário que estava até constrangido! rsrsrs
Bem, um deles eu já falei aqui, foi o livro Clarice, de Benjamin Moser. O mais engraçado é que eu li o livro, que tem mais de 500 páginas, em 5 dias e os amigos queridos que me deram a biografia de presente ficaram chocados! As pessoas pensam que eu leio muito rápido! A verdade, porém, é que eu leio desde a mais tenra idade e isso estabelece um ritmo próprio de leitura, penso eu. Ainda mais um livro que emociona e que é bem escrito: não queremos mais largá-lo, não é mesmo?
Ontem, comecei a leitura de um outro livro que também ganhei de presente, agora de duas amigas, lá mesmo na data do meu aniversário.
Já aconteceu um episódio também de observação dessa minha presente leitura. Eu tenho por hábito ler em qualquer lugar. Por exemplo, ontem, enquanto aguardava um amigo, em um barzinho, abri o livro e continuava lendo-o. O rapaz do balcão, que me conhece de frequentar o lugar, é um jovem nordestino e que me perguntou:

- Você gosta de ler? Como é que você lê? Você lê com a mente ou em voz alta?

Eu tive que pensar rápido (com a mente rsrsrs) para responder:

- Com a mente.

Na verdade, ele estava se referindo àquilo que na infância a professora do primário pedia-nos para fazermos em sala de aula, ou seja, a velha e boa "leitura silenciosa"... Isso é o contrário de ler em voz alta, é ler em silêncio, apenas com os olhos e... com a mente rsrsrs
Eu, no entanto, adoro ler em voz alta. Quando estou em casa, dependendo do trecho do livro em prosa, preciso lê-lo em voz alta para ouvir melhor a cadência, a poesia que pode também haver por ali.
No novo livro que ora leio, de Amós Oz, há um trecho em que isso ocorreu, ou seja, precisei lê-lo em voz alta. Sugiro que você também o faça. Só para contextualizar, o protagonista da história é um jovem que mora em um kibutz e está bastante contrariado com a vida que leva ali. O New York Times Book Review considerou essa "a obra mais poderosa de Amós Oz". Esse livro é anterior a um outro do autor e que eu também já li e que é o mais conhecido ou cultuado, ou seja, A Caixa Preta. Nesse que estou lendo, intitulado Uma certa paz, o conflito dessa personagem, em sua desilusão, contrasta fortemente com a esperança que motiva a geração de judeus imediatamente anterior, como a de seu pai, por exemplo. Assim, reproduz-se na vida familiar todas aquelas tensões que antecederam o conflito bélico, por ali iminente, do Estado de Israel.
O trecho que me comoveu e que eu acho que caracteriza bem o primor do estilo de Amós Oz é esse:

Tinha pena de se despedir dos aromas, dos sons e das cores que o tinham acompanhado desde pequeno. Amava o cheiro que baixava lentamente sobre os gramados aparados, nos últimos dias de verão: junto aos oleandros, três cães vira-latas lutam furiosamente pelos restos de um sapato despedaçado. Um velho pioneiro com um boné na cabeça lê um jornal, de pé no meio do caminho em pleno crepúsculo, e seus lábios se movem como se rezasse. Por ele passa uma chaverá idosa - que não o cumprimenta nem com um aceno de cabeça por causa de uma briga antiga - levando um balde azul carregado de verduras, ovos e pão fresco. Ionatan [esse é o nome do protagonista da história], ela diz suavemente olha as margaridas ali no canteiro na beira do gramado, tão brancas e imaculadas, como a neve que caía em nossa Lupatin no inverno. E da direção das casas das crianças ouve-se o som de flautas doces entre muitos gritos de pássaros, e mais longe, no oeste, além do pomar de cítricos e junto ao pôr do sol, passa um trem de carga e a locomotiva apita duas vezes. Ionatan lamentava por seus pais. E pelas vésperas de shabat e de festas judaicas, quando a maioria dos homens, mulheres e crianças se reuniam na casa de cultura, quase todos vestindo camisas de shabat, brancas e passadas, e cantavam canções antigas. Também lamentava pelo barracão de lata no meio do pomar, onde às vezes se escondia por vinte minutos roubados do trabalho para ler o jornal de esportes. E por Rimona. E pelo espetáculo do nascer do sol, como um banho de sangue num dia de verão às cinco da manhã entre as pedregosas colinas a leste e entre as ruínas de Sheikh-Dahar, a aldeia árabe abandonada. Por todos os passeios de sábado àquelas mesmas colinas e ruínas, ele com Rimona, ou ele com Rimona e Udi com Anat, e às vezes sozinho.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Que prazer ler On the Road!

Eu continuo na minha missão de leitor e que impus a mim mesmo. Ler todos os romances mais importantes da literatura universal, enquanto eu for vivo. Acho que será tarefa para uma vida inteira mesmo, ainda mais que nunca sabemos quando essa vida de agora termina. Assim sendo, eu só sabia que eu também precisaria ler On the Road - Pé na estrada, de Jack Kerouac. Uma amiga emprestou-me o livro, uma primeira edição da tradução brasileira publicada pela antiga editora brasiliense. Tal tradução é de Eduardo Bueno e Antonio Bivar: dois beatniks brasileiros. Aliás, concordo com o Bivar, acho que deve ter acontecido exatamente o que ele diz, em uma nota final da tradução: "Santo Kerouac do céu nos sorria aprovando a dupla perfeita para a tarefa.[da tradução] Peninha e eu: On the Roadies forever."

Eu sempre soube que o Kerouac é um escritor incrível, da geração beat etc. e tal... Mas, como é diferente quando a gente lê uma obra por conta própria e sem se preocupar com as referências críticas ou com a história “por trás” do romance ou do autor...
Simplesmente, porque desse modo, fico eu, sozinho, na companhia desse autor e da personagem que narra sua história e, portanto, observando essa louca aventura sem rumo e sem objetivo definido, e que é a vida dessa personagem. Tal personagem é alguém que sofre a condição humana e é feliz. É alguém que se permite experimentar o amor. É também alguém que não tem preconceitos, que está perdido, mas que se encontra consigo mesmo, o tempo todo, graças ao fato de que sente uma profunda admiração e compaixão por todas as pessoas que cruzam seu caminho. É, sobretudo, alguém solidário e, como vive essa solidariedade em verdade, permite-se também ser um filósofo.
Acho que nós outros, que vivemos nos nossos dias, não podemos mais ter a experiência riquíssima que tal personagem vive no romance, ela e alguns de seus companheiros, simplesmente porque estamos muito distantes do desprendimento necessário para isso. Mas resta-nos a alegria de ler esse registro histórico de toda uma geração, e de admirar o fato de que eles viveram, mais intensamente, do que todas as gerações anteriores e que também as posteriores poderiam viver.Como podem ver, estou tomado pelo livro! rsrsrs

Vejam lá se eu não tenho motivos para tanto, tão somente conhecendo esses excertos que selecionei durante a leitura para compartilhar com todos vocês:

Mas nesta época eles dançavam pelas ruas como piões frenéticos e eu me arrastava na mesma direção como tenho feito toda minha vida, sempre rastejando atrás de pessoas que me interessam, porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam e jamais dizem coisas comuns mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo centro fervilhante - pop - pode-se ver um brilho azul e intenso até todos "aaaaaaah!"...

Garotas e rapazes da América têm curtido momentos realmente tristes quando estão juntos; a artificialidade os força a se submeterem imediatamente ao sexo, sem os devidos diálogos preliminares. Nada de galanteios - mas sim um profundo diálogo de almas, pela vida que é sagrada e cada momento precioso...


A única coisa pela qual ansiamos em nossos dias de vida, e que nos faz gemer e suspirar e nos submetermos a todos os tipos de dóceis náuseas, é a lembrança de uma alegria perdida que provavelmente fora experimentada no útero e que somente poderá ser reproduzida (apesar de odiarmos admitir isso) na morte...


No Carro, enquanto dirigíamos de volta à sua velha casa, ele falou: “Algum dia a humanidade compreenderá que, na verdade, estamos em contato constante com os mortos e com o outro mundo, seja ele qual for; nesse exato instante, se tivéssemos força de vontade suficiente, poderíamos prever o que vai acontecer nos próximos cem anos e seríamos capazes de agir para evitar todas as espécies de catástrofes. Quando um homem morre, seu cérebro passa por uma mutação sobre a qual não sabemos nada agora mas que será bastante clara algum dia, se os cientistas se ligarem nisso. Só que por enquanto esses filhos da puta só estão interessados em descobrir como explodir o planeta...

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Li um grande garoto: Nick Hornby

Na sexta feira passada, uma amiga querida emprestou-me um livro dizendo: esse autor é muuuuuuito booooooom. Ele é um jornalista inglês e que escreveu Alta fidelidade, que virou filme e tem um filme desse livro aqui também: O grande garoto (About a Boy, no original). Ela estava falando de Nick Hornby. Já, na orelha do livro, não escreveram que ele é jornalista, mas que nasceu em 1957 e que trabalhava como professor antes de tornar-se escritor em tempo integral, que escreveu Pique febril, um ensaio memorialístico sobre as torcidas de futebol, e Alta fidelidade, seu primeiro romance já publicado também pela Rocco (como esse que eu li), e que obtiveram sucesso absoluto de público e crítica. Somos informados também que o autor mora na zona norte de Londres.
No começo, eu não estava gostando de uma das personagens, o Will Freeman, um homem de 36 anos que não faz nada da vida, pois vive de rendimentos de uma famosa canção que o seu pai compusera. Mas era puro preconceito meu. Depois, você entende que ele é uma personagem muito importante para o conjunto da história e que ele tem aquela característica humana peculiar às boas personagens de romance: ele se transforma e isso porque tinha tudo dentro de si para transformar-se. Para tanto, só faltava mesmo a ele encontrar Marcus, o garoto de 12 anos que é o “grande garoto” do título. É claro que o livro nos ensina que todo mundo é “garoto”, no final das contas. O que está em questão é que somos todos kids e isso foi o mais agradável de descobrir, ao sermos auxiliados pelos comportamentos tocantes da miríade de personagens com as quais convivemos durante a leitura do livro.
Ontem, enquanto eu lia o livro no meu quarto, eu dava imensas gargalhadas, a ponto de chorar de rir. (minha mãe teve que ir até meu quarto para saber o que estava acontecendo, imaginem!). Essa é uma qualidade absolutamente difícil de se ver em um romance sério: fazer a gente rir. O humor é aquele mesmo que podemos esperar de um escritor britânico, é o humor absolutamente inglês. E que eu adoro!
Vou reproduzir aqui um dos trechos que me fizeram gargalhar. Nesse caso, é óbvio que é preciso considerar que a essa altura você tem bastante intimidade com as personagens, lá pela página 166, mas penso que leitores sensíveis poderão compreender tudo, porque o tom da prosa é por si só revelador.
Apenas para que entendam o contexto: É véspera de Natal e Will foi convidado pelo garoto, Marcus, a passar o natal na casa dele. Estão reunidos a mãe do garoto (Fiona), o ex-marido e pai do garoto (Clive), sua atual esposa (Lindsey), e a sua sogra. Chegam uma amiga da mãe do garoto (Suzie), com sua filhinha e que conhecera Will, quando ele estava fingindo ser pai solteiro para conquistar mães solteiras num grupo de apoio a pais solteiros. rsrsrs A garotinha pega um presente na árvore e o entrega ao Will, que estava constrangido com a presença de Suzie – era a primeira vez que eles se viam depois que sua mentira fora desmascarada:

- Brinca com ela – disse Suzie – Meu Deus, dá para ver quem não tem filhos aqui.
- Vamos fazer o seguinte – disse Will – Você brinca com ela – jogou o brinquedo para Suzie. – Já que eu sou tão ignorante.
- Talvez você pudesse ser menos ignorante – disse Suzie.
- Para quê?
- Eu diria que no seu campo profissional talvez fosse vantajoso saber brincar com crianças.
- Qual é o seu campo profissional? – perguntou Lindsey educadamente, como se aquilo fosse uma conversa normal entre um grupo normal de pessoas.
- Ele não faz nada – disse Marcus – O pai dele compôs uma música de Natal de sucesso e ele ganha um milhão de libras por minuto.
- Ele finge que tem um filho a fim de frequentar grupos de pais solteiros e cantar mães solteiras – disse Suzie.
- É, mas ele não é pago por isso. – disse Marcus.
Will levantou-se novamente, mas desta vez não se sentou de novo.
- Obrigado pelo almoço e tudo o mais – disse ele. – Estou indo.
- A Suzie tem o direito de expressar a raiva dela, Will – disse Fiona.
- É, e já expressou, de modo que agora eu tenho o direito de ir para casa. – Começou a abrir caminho por entre os presentes, os copos e as pessoas em direção à porta.
- Ele é meu amigo – disse Marcus subitamente. – Fui eu que convidei ele. Eu é que devia dizer a ele quando ir para casa.
- Acho que não é bem assim que funciona esse negócio de hospitalidade – disse Will.
- Mas eu não quero que ele vá ainda – disse Marcus. – Isso não é justo. Como é que a mãe da Lindsey ainda está aqui, se ninguém convidou ela, e o meu único convidado está indo embora porque todo mundo está tratando ele mal?
- Em primeiro lugar – disse Fiona – a mãe da Lindsey é minha convidada, e aqui também é a minha casa. E nós não tratamos o Will mal. A Suzie está com raiva do Will, tem todo o direito de estar, e está dizendo isso a ele.
Marcus teve a impressão de estar numa peça teatral. Ele estava de pé, Will estava de pé, e aí Fiona também pô-se de pé; mas Lindsey, a mãe e Clive estavam enfileirados no sofá assistindo de boca aberta.
- A única coisa que ele fez foi inventar um filho durante umas duas semanas. Meu Deus. Isso não é nada. E daí? Quem se importa? A garotada da escola faz muito pior do que isso todo dia.
- O problema, Marcus, é que o Will já saiu da escola há muito tempo. Já devia ter crescido e parado de inventar gente a essa altura.
- É, mas ele se comportou melhor depois, não foi?
- Eu já posso ir? – disse Will, mas ninguém lhe deu atenção.
- Por quê? O que foi que ele fez? – perguntou Suzie.
- Ele não me queria lá no apartamento todo dia. E eu continuei indo. E ele me comprou aqueles sapatos, e pelo menos escuta quando eu digo que estou com problemas na escola.Você simplesmente dizem para eu me acostumar com isso. E ele sabia quem era o Kirk O’Bane.
- Kurt Cobain – disse Will.
- E não é como se vocês todos também nunca fizessem nada de errado, é? – disse Marcus. – Quer dizer... – Precisava tomar cuidado com aquilo. Sabia que não podia falar demais, e talvez quase nada, sobre o troço do hospital. – Quer dizer, como foi que eu conheci o Will em primeiro lugar?
- Basicamente porque você jogou uma porcaria de uma baguete na cabeça de um mareco e matou ele – disse Will.
Marcus quase não acreditou que Will tivesse mencionado aquilo naquele momento. O assunto era para ser o fato de todo mundo também fazer coisas erradas, e não que ele matara o marreco. Mas aí Suzie e Fiona começaram a rir, e Marcus percebeu que Will sabia o que estava fazendo.

Eu espero que essa passagem tenha feito você rir também! ;-)
Agora quero ver o filme, com Hugh Grant. Uma pequena curiosidade: quando eu lia a descrição da personagem Will Freeman e acompanhava sua atuação no livro, eu ficava imaginando alguém exatamente como o Hugh Grant, e nem sabia que fora ele quem vivenciara a personagem no cinema. rsrsrs

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Quando o sentimento é amor II

Hoje, eu pretendia falar de um livro que terminei de ler, hoje mesmo, e que trata de futebol. Mas vou deixar para falar desse livro na segunda-feira, porque é um livro muito especial e sua leitura foi uma revelação, em muitos sentidos, então, ainda estou elaborando para saber como falar dele. Nesse meio tempo, retomei a leitura de Ana Karenina, o livro que eu estou saboreando aos bocados e que é imenso, em número de páginas e na riqueza do aprendizado que nos proporciona.
Uma coisa que eu gosto muito quando estou lendo é compartilhar a leitura com alguém. Enfim, trechos supreendentes, algo que me causou uma emoção especial, durante a leitura, isso porque sempre senti que compartilhar a leitura esse é também um dos prazeres especiais do ato de ler.
Tolstói tem um estilo único of course. Ele consegue, em um livro que trata do drama de uma mulher que não vive o amor no casamento, sofrendo as mazelas de sua condição de mulher casada e que se apaixona por outro homem, no final do XIX, pois bem, ele consegue falar com a profundidade necessária do que acontece com um outro casal, no romance, e que se ama de verdade. Como eu já disse na minha última postagem about Kitty e Liêvin se reencontraram. Agora, casados, estão em lua de mel.

Vejam se não é linda essa descrição de um incidente que acontece logo no começo da nova vida de casados. Tolstói está falando de algo fundamental e que aprendemos... quando o sentimento é amor.

A primeira discussão veio certo dia em que Liêvin fora de visita a uma granja nova e se atrasou meia hora, pois se perdera num atalho. Voltava para casa a pensar em Kitty, só em Kitty, no seu amor, na sua felicidade, e quanto mais se aproximava tanto maior era nele a ternura que sentia por ela. Entrou em casa a correr, tanto ou mais emocionado que no dia em que entrara em casa dos Tchierbástski para pedir a mão de Kitty. Esta, porém, acolhera-o com uma expressão tão carrancuda como nunca lhe vira. Quis beijá-la e ela repeliu-o.
- Que tens tu?
- Diverte-te... - disse Kitty, procurando mostrar-se tranquila e mordaz.
Quando, finalmente, falou, foi um nunca acabar de censuras por causa de uns absurdos ciúmes e pelo que sofrera naquela meia hora sentada, imóvel, junto à janela, à espera dele. Só então Liêvin compreendeu pela primeira vez o que não compreendera quando a levara da igreja depois da boda. Compreendeu que não só lhe queria muito, como ignorava, mesmo, onde terminava ela e onde principiava ele, tão dolorosa a sensação de desdobramento que sentira naquele momento. Ao princípio, pareceu magoado, mas não tardou a compreender que Kitty o não podia magoar, visto ser parte dele próprio. Era como quando sucede sentirmos de repente nas costas uma dor aguda e ao voltarmo-nos, com a impressão de que alguém nos feriu, verificarmos tratar-se apenas de uma pancada acidental e não termos outro remédio senão sofrer calados o mal do que no fim de contas só nós próprios somos responsáveis.
Nunca, depois, tornaria a sentir tão intensamente essa impressão.
Custou-lhe encontrar o equilíbrio. Queria demonstrar a Kitty a sua injustiça, mas ao provar-lhe que era ela quem estava em erro, irritá-la-ia ainda mais. Um sentimento natural o compelia a arredar de si próprio a culpa, atribuindo-a a ela, e outro, mais forte ainda, a reparar o sucedido o mais breve possível para não se agravar o desacordo. Ser vítima de uma injustiça era cruel, irritá-la com o pretexto de uma justificação, pior ainda. Muitas vezes acontece lutar um homem que dorme com um sofrimento de que desejaria libertar-se, verificando, ao acordar, que é no fundo dele próprio que o sofrimento reside. Eis como Liêvin teve de reconhecer que o melhor remédio era a paciência.

Não é genial em Tolstói essa capacidade para dizer tão lindamente o que vai dentro da alma de seu personagem e isso que aí vai não é o que há de mais belo no ser humano?

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Lendo Tolstói

Hoje, entrei no metrô, sentei-me e abri o livro Ana Karênina, de LeonTolstói, no Capítulo XXVI, para dar continuidade a minha leitura do romance. Quando dei por mim estava em lágrimas e, evidentemente, envergonhado dos meus vizinhos de assento, tratei de procurar um lenço de papel...
;-D

Ler um romance do século XIX, um clássico da literatura, escrito por um autor imortal, para mim, é isso: é mergulhar intensamente em uma história escrita com amor, paixão e talento imensuráveis e, por conseguinte, na vida de personagens que, embora não tenham existência no que chamamos de "realidade concreta", nos ensinam muito do que é ser gente de verdade nesse mundo.
Não vou aqui trazer notícia da personagem que dá nome ao romance, mas de uma personagem "coadjuvante" ( é melhor chamá-la assim do que "secundária", afinal, estou achando tal personagem cabal para o equilíbrio do painel de tipos humanos no romance) e que é apaixonante: Constantin Liêvin.
Apenas para que vocês entendam o trecho que reproduzo abaixo e que me levou às lágrimas: essa personagem é um homem feito, solteiro e que, embora rico, vive no campo, daí sua flagrante timidez diante da cosmopolita Moscou e que visitara, tão somente, para pedir a mão de Kitty, irmã da cunhada de Ana Karênina. A jovem, no entanto, já tinha um rapaz lhe cortejando, o desenvolto e charmoso Vronski.
Liêvin, enjeitado, fica muito aborrecido e volta para casa. No início desse capítulo a que me referi, ele está chegando, de volta a sua casa:

No dia seguinte pela manhã, Constantino Liêvin saía de Moscou e chegava a casa ao fim da tarde. Durante o trajeto entabulou conversa com os companheiros, falou de política, de estradas de ferro, e, tal qual como em Moscou, não tardou a sentir-se submerso no caos das opiniões, descontente consigo próprio e envergonhado sem que soubesse muito bem por quê. Mas , quando, à luz indecisa que se derramava das janelas da estação, viu Ignat, o cocheiro estrábico, a gola do cafetã levantada, depois o trenó coberto de peles e os cavalos com seus arreios bem-tratados, e aquele lhe contou, enquanto ele se instalava, as novidades da aldeia - que chegara um comprador e que a Pava tivera o seu bom sucesso -, Liêvin sentiu que toda aquela confusão de idéias se esclarecia e que a vergonha e o descontentamento se dissipavam. Entretanto, essa impressão ele a teve apenas com o ver Ignat e os cavalos, quando se embrulhou no tulup - um casaco de pele de carneiro, feito de maneira que os pêlos ficassem na parte de dentro, como forro - que o cocheiro tivera o cuidado de lhe trazer e se sentou bem abrigado, no trenó, que se pôs a andar, pensou nas ordens que teria de dar logo que chegasse a casa e, examinando um dos cavalos, o seu preferido para montar - um velho cavalo do Don, já gasto, mas ainda veloz -, pôs-se a ver de maneira muito diferente o que lhe acontecera. Deixou de querer ser outro que não ele próprio e apenas desejou ser melhor do que fora até ali. Em primeiro lugar, decidiu que daí por diante não poria as suas esperanças numa felicidade extraordinária, como a que esperara do casamento, e que, por conseguinte, não iria menosprezar tanto o momento presente; depois, que nunca mais se deixaria conduzir por uma baixa paíxão, como acontecera na véspera, antes de se decidir a declarar-se. E, lembrando-se do irmão, resolveu nunca mais o esquecer nem o perder de vista, para assim poder ajudá-lo sempre que ele precisasse. Pressentia que isso iria acontecer dentro de pouco. Em seguida pensou na conversa que tivera com o irmão sobre o comunismo e que tão superficialmente encarara na oportunidade. Considerava absurda a reforma das condições econômicas, mas sempre se dera conta da injustiça que representava o muito que tinha em comparação com a miséria do povo. Para se sentir completamente justo, apesar de que sempre trabalhara muito, vivendo sem luxo algum, tomou a resolução de trabalhar cada vez mais e de levar uma vida ainda mais simples. Tudo lhe parecia tão fácil de realizar que pensar nisso foi a coisa mais agradável que lhe ocorreu durante o trajeto. Quando chegou a casa, por volta das nove da noite, sentiu que uma vida nova, uma vida mais bela, começava para ele. Uma réstia de luz se filtrava nas janelas de Agáfia Mikháilovna, a sua velha ama, agora governanta da casa. A velha ainda não dormia. Acordou Kuzmá, que, estremunhado e descalço, veio até ao alpendre. Também Laska, a cadela, apareceu, e por pouco não derrubava Kuzmá, ladrando e esfregando-se nas pernas de Liêvin, sem ousar pôr-lhe as patas dianteiras no peito.

Não vou resistir e vou reproduzir também um trecho em que temos uma reação de Ana Karênina a uma circunstância e que eu achei hilária (tive que conter a gargalhada dentro do metrô... ;-p)

Pois bem, depois de praticamente roubar o coração de Vronski e tornar-se "rival" de Kitty. Karênina está, praticamente, em fuga dessa nova paixão, e ao chegar em sua cidade:

Mal desembarcou do trem, o primeiro rosto que encontrou foi o do marido: "Meu Deus! Por que lhe terão crescido tanto as orelhas?", pensou ela, mirando-lhe a arrogante e fria figura e sobretudo as cartilagens das orelhas, que lhe chamavam a atenção, nas quais, dir-se-ia, vinham pousar as abas do chapéu.

Literatura é um universo amplo: a se perder de vista. Todos os elementos que constituem a literatura são importantes, uma vez que por eles ela nos educa, propicia o exercício de traquejo com a língua, cria o hábito salutar da leitura, permitindo-nos aprender a filosofar, além do treino da sensibilidade para a compreensão da psicologia dos mortais e tanta coisa mais! Mas o mais delicioso de tudo é o quanto ela nos emociona e ainda pode ser divertida, com humor.








                                                    Anton Chejov e Leon Tolstoi

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Tributo

Leia Goethe.

Estou lendo Goethe. Estou até mesmo tomado de emoção por conta dessa experiência nova. Tal iniciativa se deve a uma disposição que me ocorreu, por conta de que eu, somente agora, compreendo que não é preciso saber alemão para ler o autor. O que precisamos é confiar que o exercício de tradução daqueles que se empenharam em verter uma obra para outro idioma é um exercício de entrega que por si só merece reconhecimento.
Todo grande autor e, por conseguinte, toda grande obra, como é caso do Fausto de Goethe, são aureolados por uma mística da perfeição que se por um lado colabora para a sua boa propagação, por outro enevoa o autor e a obra, distanciando-os dos comuns mortais.
Eu cai muitas vezes nessa armadilha e deixei de ler alguns livros, pensando que não seriam para mim. Mas como não? Sou alfabetizado, tenho uma formação até que não de todo desprezível, eu mereço ler Proust, Joyce, Goethe. E ler a esses autores de peito aberto. Meu conhecimento de Inglês, embora nem tão desprezível, não me permite ler o Ulisses no original, ao menos não sem grandes dificuldades. E Proust e Goethe, no original, também não posso. Então, vamos contar com a ajuda dos bravos tradutores para o acesso a essa experiência de vida.

Sim, a leitura permite uma experiência de vida sem igual, que não é aquela de todo dia, mas aquela que nos alimenta para viver melhor o dia a dia.

No caso do Fausto, devo confessar que fiquei ressabiado com a tradução que tenho em mãos, uma edição impressa. Embora eu não tenha nenhuma informação sobre sua origem, sobre quem é esse corajoso senhor que se permitiu traduzir um clássico. Assim sendo, fui procurar outro texto. Descobri uma tradução de domínio público e que estou achando excelente. Trata-se de um tradutor português do século XIX:  António Feliciano de Castilho (1800-1875).
Agora leio as duas. São tão distintas que me parece até que leio dois livros, escrito mesmo por dois autores! (Espero que por 3, ou seja, que Goethe também esteja aí implicado) Vou reproduzir o comecinho do livro para que vocês percebam o tipo de aventura a que estou me entregando. Como entendo a leitura como algo muito muito pessoal, compreendo que essa distinção imensa das variadas versões está valendo.
 
A verdade é que Goethe e seu Fausto são tão humanos que cada um dos seus leitores irá se reconhecer do lugar em que se encontra na múltipla e eterna variação da existência. Simples assim. ;-D

QUADRO I
[Prólogo no Céu]


O Empíreo. Ao meio o Senhor, no trono. À roda a corte celestial, com as suas jerarquias: anjos, arcanjos, querubins, serafins, tronos, potestades, dominações, virtudes, e coros.


CENA ÚNICA

O SENHOR, a sua corte, logo depois MEFISTÓFELES
(Acercam-se do trono os três Arcanjos)


RAFAEL (cantando)

No coro sideral o sol vai prosseguindo,
qual na origem lho hás dado, o curso harmonioso.
Tonitruante baixo em teu concerto infindo,
só mandando-lho tu, Senhor, terá repouso.
Sua luz dobra a nossa, enchendo-nos de espanto
não podermos sondar-lhe a portentosa essência.
Como o fora a princípio, ó sacra Omnipotência,
teu sol é hoje ainda enigma, assombro, encanto.

GABRIEL (cantando)

E da terráquea esfera a máquina esplendente
segue em seu torvelino, eterno, arrebatado;
por que ora à luz dos céus florido Éden se ostente,
ora descanse envolta em negro véu bordado.
O mar espuma, troa, investe as brutas fragas,
que o repulsam desfeito, em nunca finda guerra.
Mas na perpétua luta, as rochas como as vagas
sempre juntas, sem termo, o volutear da terra.

MIGUEL (cantando)

Dos solos contra o mar, do oceano aos continentes,
jogam-se os temporais com ímpeto profundo;
zona de assolasses e criações potentes,
que desfaz e refaz perpetuamente o mundo.
Ígnea precede a morte ao trovejante horror.
Mas nós, os cortesãos da tua imensidade,
gozamos luz e paz por toda a eternidade.
Bendito sejas tu, Senhor! Senhor! Senhor!

OS TRÊS (juntos)

As tuas criações enchem os céus de espanto;
nem o arcanjo lhes sonda a portentosa essência.
Como o fora a princípio, ó sacra Omnipotência,
teu mundo é hoje ainda enigma, assombro, encanto.

MEFISTÓFELES (cortejando ao Padre Eterno)

Inda enfim cá tornei. Visto quereres
saber por mim o que lá vai no mundo,
pronto; que antigamente (inda me lembra)
gostavas de me ouvir. É só por isso
que me tornas a ver entre esta súcia.
Tem paciência! Eu, retóricas sublimes,
é coisa que não gasto; e mesmo escuso
deste augusto congresso expor-me às vaias.
Co’o meu patos tu próprio te ririas,
a não teres perdido esse costume.
Sei cá palavrear de sois! de mundos!
Toda a minha sabença é perder homens.
O deusito da terra está na mesma:
parvo como ab initio. Melhor fora
(digo eu cá) não lhe teres infundido
o raio dessa luz, que lá se chama
Razão, e que na prática só presta
para o tornar mais bruto que os mais brutos.
Com licença da Tua Majestade,
o que ele me parece, é gafanhoto
pernilongo, com mescla de cigarra,
já voador, já saltão, já num relvado
co’a sua solfa velha a estrugir tudo.
E vá lá, se da erva não saísse
inda era meio mal; mas tem o sestro
de se andar sempre à cata de imundícies.


O SENHOR

Parece-se contigo. O teu regalo
é esse: acusar sempre. Então no mundo
nada há bom?

Por essa fala até mesmo singela de Deus, segundo Goethe, já é possível perceber que quem se permite o tipo de negógio no qual Fausto se meteu é porque compartilha com Mefistófeles desse orgulho e soberba imensos, e isso inevitavelmente  tem como consequência nutrir esse desgosto pela vida. Penso que o que nos falta, quando estamos nessa vib, e nisso concordo com Goethe e com Deus, é ver o que no mundo há de bom. ;-D

sexta-feira, 16 de abril de 2010

May you always do for others and let others do for you

Hoje, sexta-feira, graças a Deus!

Na minha hora do almoço, sai em direção à Mercearia Godinho queria comer algo muito gostoso e, depois de comer, subi em direção à Praça do Patriarca. O sol estava brilhante, o céu azul, cruzei os mortais todos: animados com a sexta-feira.

Ao chegar à Praça, parei em frente à vitrine da Livraria Martins Fontes. Quantos livros sensacionais!

Mas o que mais me chamou a atenção foi o de Bob Dylan. Belíssima capa. Eu o queria tanto! Mas nem perguntei o preço: era um livro imenso (depois descobri que não é tão caro assim, como eu pensara... rsrsrs).
Agora, lembrei-me do livro, e encontrei esse delicado vídeo no Youtube about it.
Se eu não ganhar o livro, penso em comprá-lo para dar de presente a alguém muito querido. Sou assim mesmo: gosto de compartilhar. Daí esse blog e etc. e tal.




May God bless and keep you always
May your wishes all come true
May you always do for others
And let others do for you
May you build a ladder to the stars
And climb on every rung
May you stay forever young
Forever young, forever young
May you stay forever young.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Do bom e do belo em Thomas Mann

Quem já leu o Doutor Fausto, de Thomas Mann, sabe que o livro é uma obra-prima e que também é um livro dolorido naquilo que exprime da natureza máxima e verdadeira de uma amizade, bem como na comoção que é assistir, como amigo, à perda gradual dessa amizade para o abismo absoluto da loucura, no conjunto muito complexo de uma vida, que no livro, atrevo-me a dizer, será expresso muito simplesmente como o desperdício de talento por excesso de ambição. Claro que se trata de um paradigma de ambos, tanto do talento quanto da ambição...
Estou falando dessa obra porque hoje não fui trabalhar (precisei acertar minha situação com o Cartório Eleitoral). Assim sendo, agora à noite, fiquei em casa de boa, curtindo a vida. E, agora há pouco, fui passando os olhos pelos meus livros na estante e vi o exemplar do Doutor Fausto, na tradução de Herbert Caro, da edição da Nova Fronteira. Abri o livro ao acaso e vi que grifara, na época em que o li, diversos trechos. Gosto disso porque é como se eu deixasse daquela leitura a marca do que mais me impressionara numa ou noutra passagem do livro, para que assim, relendo-o no futuro, pudesse fazer uma arqueologia daquela minha passagem pela história ali narrada.

Lembro-me que o narrador é, dentre outras coisas, uma personagem boníssima e em certo capítulo ele conta que duas irmãs, talvez em uma recepção e estando interessadas num pretendente... Enfim, eu teria que reler todo o capítulo para relembrar o contexto, mas fiquemos com isso: a personagem e narrador inspira a confiança de duas moças numa espécie de conluio amoroso. Seja como confidente, seja como alguém que possa expressar uma opinião confiável.

É quando ele, então, nos diz:

Ambas as irmãs confiavam em mim, quer dizer, pareciam atribuir a mim o valor que me capacitasse e me conferisse o direito de julgar outras pessoas. É bem verdade que, para completar a confiança, será necessário que o confidente se encontre, em certo sentido, fora do jogo e assuma uma posição de plácida neutralidade. Tal papel é sempre ao mesmo tempo reconfortante e penoso, já que somente o desempenhamos sob a condição de não estarmos envolvidos nos acontecimentos. Mas, como eu dizia muitas vezes de mim para mim, é preferível inspirar confiança ao mundo e não instigar as paixões dele. Bem melhor é que nos reputem "bom" e não "belo"!

segunda-feira, 15 de março de 2010

Maurice Blanchot e a questão do Direito Autoral

Todos sabemos que está em discussão a questão do direito autoral no Brasil, por conta de que há um novo texto da Lei dos Direitos Autorais em estudo. O Alessandro, do Blog Livros e Afins, divulgou uma cópia em PDF da lei, que ele recebera da Denise Bottman.
Sem dúvida, é bom que todos conheçam o texto e participem do debate.
Penso que a questão dos direitos autorais, hoje, é bastante complexa, em tempos de Internet e, portanto, de acesso praticamente ilimitado a tudo o que se produz em termos de texto, música, filmes etc.

Só para que entendamos, no entanto, que tal celeuma não é de hoje, vou divulgar um post que eu descobri em um blog de um pessoal da Galícia (Espanha). Trata-se do blog Cineclube de Compostela. Os tais galegos, por exemplo, defendem que "Compartir non e delito". O post estava escrito em Galego e o meu amigo catalão do blog Bosphorus é quem fez a tradução do galego para o português, eu apenas revisei o texto. Thank you Enric! \o/

Trata-se de um posicionamento a respeito, de ninguém menos do que Maurice Blanchot, o grande escritor e teórico da literatura, francês, que faleceu no início dessa década.

Eu achei muito sofisticado o nível do argumento, como só poderia ser, vindo de Blanchot.

Vejam o original aqui e abaixo a tradução by Enric:



CARTA A UM CINEASTA MOÇO


Em 1986, um jovem cineasta de Orleans, Dominique Emard, realizou J, um filme de vinte minutos de duração, adaptação de um trecho de L’Arrêt de mort (A interrupção da morte), de Maurice Blanchot. Escreveu ao autor através da Gallimard (a Editora), e pediu-lhe licença para difundi-lo em circuitos não comerciais. Esta é a réplica que recebeu pelo correio. O envelope levava um selo datado de 16 de agosto. O título é obra da redação (de Trafic).


"Estimado senhor,
O recente livro de Deleuze sobre Foucault lembrou-me um antigo texto (que, sem dúvida, está na obra L'entretien infini - O entretenimento infinito) intitulado Parler, ce n'est pas voir (Falar, isso não é ver).
Daí minha ansiedade ao ver o texto passar ao visível (a ser uma realidade?). Inclusive a sua leitura em voz alta me dá medo. No mesmo momento em que esse texto veio à luz, faz uns quarenta anos, France Culture me propôs dá-lo a um ator para que o lesse. Eu recusei, a despeito de ser um amigo quem o pedia.
Com meus livros, houve exceções, mas não autorizadas. E a ORTF (Oficina de radiodifusão da televisão de França) fez um pequeno filme a partir de Thomas l’Obscur (La Mort d’Anne), com fotografia colorida e voz de Lonsdale. Eu fiz minha queixa em vão. Daí em diante, soube que eu não era o dono daqueles textos, e que, como autor, não tinha nenhum direito sobre eles, só a condição, justamente, de que não me peçam permissão.
Acerca dessa obra, não me pergunte. Faça como se houvesse transcorrido muito tempo de minha morte e eu fosse incapaz de dar uma opinião de além túmulo.
Caso contrário, você deve falar com a editora Gallimard, possuidora do copyright, e, além disso, da metade dos direitos autorais. Não se preocupe, faça como se eu tivesse, se não os dotes, pelo menos a idade de Homero.
Maurice Blanchot"
(Publicado em Trafic, nº 49, primavera 2004)

Também encontrei aqui, quando procurava uma imagem de Blanchot, a seguinte citação do autor, que me parece tocar na questão primeira com o que devemos nos preocupar, de verdade: Lê-se muito pouco. Eis o fato que nos dissimula a enorme difusão de livros e autores.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Eliane Lage é a homenageada da II Flipiri

Quando eu morei em Brasília, eu cheguei a ir algumas vezes, para Pirinópolis, cidade goiana situada a cerca de 140 km da capital federal. O lugar é magnífico com aquele cerrado nativo, suas cachoeiras de beleza exuberante, igrejas antigas, museus, artesanato popular, comidas típicas, um lugar que exala a cultura local e que tem aquele aconchego muito característico das cidades históricas brasileiras.


Somente hoje, descobri que está acontecendo, desde ontem, neste lugar encantador, a II Festa Literária de Pirenópolis – Literatura e Cinema - a II FliPiri. A abertura da festa foi ontem, 11 de março, no Teatro de Pirenópolis, quando aconteceram palestras dos escritores brasileiros Moacir Scliar, Ignácio de Loyola Brandão e André Neves.

No Estadão, Ignácio de Loyola falou-nos, hoje, da homenagem à escritora Eliane Lage da qual ele participará amanhã, dia 13 de março, às 20h, no Cine-Teatro Pirineus. A crônica do Ignácio é emocionante porque ele fala da importância da atriz de Sinhá Moça e ainda lamenta a não presença, no evento, do grande Anselmo Duarte, já falecido. Recomendo a leitura.

A atriz e escritora franco-brasileira Eliane Lage, autora da autobiografia Ilhas, Veredas e Buritis (ed. Brasiliense/2005), após uma longa experiência de vida e suas inúmeras viagens pelo mundo, escolheu Pirenópolis como sua cidade. Quem conhece o lugar sabe que ela tem toda razão de querer viver essa, que provavelmente pode estar sendo uma ainda melhor idade, na melhor cidade para se viver no centro do Brasil.





II FLIPIRI, Festa Literária de Pirenópolis - Literatura e Cinema
Cidade de Pirenópolis – Centro Histórico - GO.
De 11 a 14 de março de 2010.
Das 8 às 22h.
Entrada gratuita.
Classificação Indicativa: Livre para todos os públicos.
Informações: http://www.pirenopolis.go.gov.br/

quinta-feira, 4 de março de 2010

Você precisa ouvir Tula Pilar e aplaudi-la

Uma amiga querida que leu o post anterior enviou-me um link de uma entrevista que a escritora e poetisa Tula Pilar deu para a Rádio Unesp. A minha amiga disse: Veja como um sarau pode mudar a vida de alguém. E é verdade, Tula Pilar conta que foi participando de saraus em Taboão da Serra que ela começou a ter a coragem necessária para mostrar sua produção escrita e que sempre existiu na sua vida.
A entrevista é emocionante porque ela tem um modo muito doce e agradável de revelar o quanto a esperança e a perseverança são importantes, sobretudo quando as condições materiais não são favoráveis, quando se é uma mulher negra, e tendo três filhos e criando as crianças sozinha.

Tula Pilar é mineira e uma passagem que eu achei bastante reveladora foi o que ela nos contou da sua experiência como empregada doméstica em Minas e, depois, em São Paulo. Ela conta que achou muito diferente o modo das famílias abastadas que contratam empregados domésticos tratar seus empregados, aqui em São Paulo, em relação ao modo como essas famílias se relacionam com seus empregados lá em Minas Gerais. Uma coisa que era um horror e que assistiu, quando viveu essa experiência, é que aqui em São Paulo se a empregada doméstica fica doente ela é simplesmente mandada embora do emprego. Ela também observou que os ricos paulistanos preferem jogar fora o que está sobrando do que dar para que a empregada leve para casa, para sua família. Eu tenho predileção pelos mineiros e sei muito bem do que Pilar estava falando. Ela própria é mineira e só podia ser: eu, paulistano, acho que quem é de Minas Gerais já está a meio caminho do céu. rsrsrsr

Outra passagem que eu achei comovente: quando ela contou-nos que um grupo de sarau organizado estava viajando a pé, de São Paulo para Curitiba (gente destemida!), e eles iam parando nos lugares, nas cidades do interior dos dois estados. Ela disse que foi uma comoção quando, depois de uma apresentação de seus poemas, uma criança de apenas 6 anos a abraçou e a elogiou, Pilar ficou toda emocionada e satisfeita. A educadora é dessas pessoas abençoadas que sabem dar importância para o que de verdade tem importância nessa vida: o poder das palavras, a comunhão das pessoas, em torno de eventos positivos, e as delicadezas insuspeitas...

E o rap que ela fez para o filho de apenas 12 anos, então? É de chorar de emoção. Absoluta Lição de Vida  essa Tula Pilar. Não deixem de ouvir a entrevista aqui. Eu não preciso dizer mais nada, ela é quem tem a dizer. ;-D

segunda-feira, 1 de março de 2010

Muita Luz na Vila Industrial faz mover um Girassol

Nesse último sábado, após uma semana de muito trabalho e até mesmo aborrecimentos, tive uma experiência muito marcante. Fui convidado para ir a um Sarau. O mesmo amigo que me convidara de outra feita levou-me a uma Comunidade, na Vila Industrial, Zona Leste da cidade de São Paulo, onde uma moradora chamada Maria Augusta, juntamente com outros educadores, desenvolve uma experiência muito rica na Ong a que chamaram Girassol.


O meu amigo Laudecir mandou-nos hoje um e-mail em que ele descreve seus sentimentos em relação a essa experiência que vivenciamos juntos. Faço minhas suas palavras:

O que está acontecendo na Comunidade Girasol é inacreditável, mágico, havia uma disputa acirrada das crianças e adolescentes para ver quem dançava melhor (ao mesmo tempo percebia-se uma harmonia entre eles, claro, tiveram que se preparar através de ensaios, horas e horas, para poderem chegar àquelas coreografias), e para quem tinha coragem de fazer uso do microfone e ler um poema, houve fila para isso. Eles vibravam com aplausos, gritos de alegria, pelos colegas que tinham coragem de se expor; exigiam silêncio...
Fazia tempo que não vivia uma experiência assim... Algum adolescente gritou: ''lá na escola niguém lê!!!" Não é interessante essa fala !!!!??? Experiências como essa deveriam se multiplicar por aí, nos mais diferentes espaços.... Meu amigo Josafá e eu (Lau) comentávamos do reflexo positivo dessa experiência cultural na vida daquelas crianças e adolescentes... Que continuem!!!!
Ah, nossa amiga Maria Augusta estava radiante, senti tanto orgulho dela... Sabe, agora, escrevendo esse texto, sinto vontade de chorar de alegria pelo que vi e senti.
É claro que muitas outras pessoas estão envolvidas no trabalho daquela comunidade, parabenizo a todos na pessoa dessa nossa Graaaande mulher, mãe, amiga queridíssima, líder nata..... Maria Augusta!!!!

É isso mesmo. Eu só quero ainda ressaltar o trecho em que ele nos conta da fala do jovem que nos lembrou que na escola ninguém lê. O rapaz tinha toda a razão. Eu creio que isso de fato acontece, em muitas escolas (Deus nos livre que isso venha a acontecer em todas - a generalização aqui seria péssima, afinal, ainda que em menor número há professores boníssimos trabalhando em muitas escolas públicas). De qualquer modo, isso pode acontecer quando a escola não cria aquele ambiente de espontaneidade, respeito mútuo, e que propicia, a partir daquilo que o jovem gosta - no caso era evidente o prazer e o amor dos jovens da Girassol pela street dance - sim, esse é sempre o mote para que a poesia, a literatura e todas as outras referências culturais que ajudam a nos formar tenham também o seu espaço de fruição.

Uma outra coisa bastante marcante, que mostrou essa disposição sincera das crianças e jovens presentes para participar, aconteceu quando, após o intervalo, no qual tomamos um caldo verde - que umas irmãs gentilíssimas, portuguesas e de uma instituição católica, tinham oferecido ao evento - eu disse que cantaria um fado português, que eu aprendera ouvindo Ney Matogrosso e Kátia Guerreiro, a fadista que eu conhecera graças a um amigo Catalão, e que eu conheci por intermédio do meu blog.
Quando terminei de me apresentar os jovens aplaudiram entusiasmados e pediram "mais um", assim como pediram também "mais um" para a performance magnífica de Laudecir.
Eu fiquei muito emocionado porque a verdade é que todas as crianças e jovens do mundo precisam e têm sede de conhecer mais e mais. Todos nós desejamos isso, naturalmente. No entanto, a experiência do conhecimento tem de ser como essa que tivemos no último sábado: um encontro de alegria e paz, por exemplo, em torno da emoção da expressão artística e não naquela opressão que ocorre amiúde entre os muros da escola.