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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Livro, um romance de José Luís Peixoto


Achei essa capa muito boa,
esse carrinho de bebê
abandonado no meio do nada!
 Livro é o nome do livro que ora leio e ele é uma grata surpresa em muitos sentidos.
Primeiramente, é um presente e que recebi de uma pessoa que não conheço pessoalmente, mas por quem nutro muito, muito carinho. Trata-se da minha amiga Renata Viana, brasileira, radicada em Portugal. Ela é alguém com quem venho, talvez a mais de um ano, tendo contado pelo facebook. Ela e seu marido, Antonio Castro, são pessoas gentis, inteligentes, sensíveis e com as quais aprendi a compartilhar muita coisa boa: além das postagens desse blog, dicas de cinema e também reflexões e relatos dos acontecimentos de um cotidiano que aos poucos vai sendo registrado por lá, no facebook.
Pois bem, Renata Viana chegou a ver uma postagem no Blog Lado B, da jornalista Rita Alves, na qual minha mãe fala de suas bonequinhas de pano e, como Renata Viana se interessou pelo trabalho, eu enviei-lhe uma linda bonequinha, via Correios.
Viana, muito educadamente, retribuiu o presente enviando-me, por sua vez, esse romance de José Luís Peixoto e que se chama Livro. Ela contou-me que o comprou motivada pelo fato de conhecer seu autor e porque achava que tinha que ser o livro e, quando encontrou esse recém-lançamento do autor, e ainda mais por chamar-se Livro, achou que tudo estava a contento.
Pois, então, eu a agradeço imensamente, aqui, em público, pois pude travar contato com um autor português contemporâneo, que eu não conhecia e que comecei a ler imediatamente. Apesar disso, a leitura está sendo lenta, porque há qualquer coisa, na escrita de Peixoto, que tem me surpreendido: a sua Língua Portuguesa não é como a dos demais autores, seus conterrâneos, aqueles que eu já travei contato. Penso que ele não se assemelha nem mesmo ao José Saramago (de quem, aliás, o aproximam, normalmente). Peixoto também não tem aquela poética comum, por exemplo, em um Mia Couto (o qual, aliás, também conheci muito recentemente). Achei-o mais contido e simples (no bom sentido do ser simples!) do que todos esses.
A língua portuguesa que encontro em Peixoto é muito próxima da que estou acostumado a ter contato no meu cotidiano (brasileiro!), as palavras mais comuns na língua são as que servem perfeitamente para demonstrar a realidade das pessoas que ele está a retratar e toda a subjetividade que cada uma concentra e, sim, também para nos emocionar.
No primeiro capítulo, temos uma mãe a abandonar seu filhinho de seis anos, no centro da praça do povoado, ao lado de uma fonte. Achei ab-so-lu-ta-men-te comovente esse início do romance, onde ele resgata o sublime que pode haver no sentimento de abandono. Nesse capítulo, o narrador descreve tudo o que acontece a partir do exato momento em que a mãe deixa o menino sozinho com sua malinha na praça, o que, inicialmente, foi descrito simplesmente assim:

Os olhos da mãe ficaram parados nos do filho até ao instante em que o seu corpo se virou e se afastou, regressando por onde tinha acabado de chegar. O Ilídio estava a pensar em qualquer coisa, talvez nos pássaros que vinham enfiar-se nas folhas de hera que cobriam o topo do muro da Dona Milú, à sua frente, pássaros da primavera. Asas ou folhas. E não se esforçou por ouvir os passos da mãe a afastarem-se até serem apenas um resto de som. Só o instinto. Quando lhe pareceu que já tinha passado muito tempo, sem mexer os pés, com as mãos atrás das costas, inclinou o tronco para a frente para ver a mãe lá ao fundo, lá ao fundo, a afastar-se, era a sua mãe e, depois, ui, a desaparecer, a dobrar a esquina. O Ilídio voltou com o corpo à sua posição. Longe, no adro, os sinos da igreja deram as sete da tarde. Essa hora espalhou-se por toda a vila. Com seis anos, o Ilídio sabia bem que, no adro, o toque dos sinos interrompia as conversas e os pensamentos.


José Luís Peixoto
 Os capítulos não são numerados, apenas o que acontece, na presente edição, é o aparecimento da ilustração de uma malinha encimando cada novo capítulo, isso é um signo que dá conta do contexto da história narrada e que diz respeito à saga da emigração portuguesa para França. Portanto, a história se passa entre uma vila do interior de Portugal e Paris, a capital francesa. Haverá, então, encontros e despedidas e como sói acontecer em histórias de deslocamentos, também um elemento comum: a reunião das dimensões pertinentes ao enlevo do sonho e à crueza da realidade.

Também achei poeticamente singela essa descrição dessa atitude de uma personagem importante do povoado, a matriarca e idosa Dona Milú:

Adormecia cedo, em lençóis frescos, mas havia dores que lhe cresciam dentro do corpo. A Dona Milú duvidava que as parreiras sentissem dores nas articulações, mas resignava-se. Nas passeatas pelo jardim, avançava devagar, com a bengala firmada à frente. De manhã, quando ninguém estava a olhar, descalçava-se e ficava parada sobre a terra, como um arbusto. Essa era uma imagem inusitada, que ninguém via.

Meu Deus! Como é bela a imagem dessa idosa descalça na terra, como um arbusto, em intimidade indevassável!
Muito obrigado Renata. Como é bom ter amigos que nos proporcionam oportunidade de vivenciar emoções dessa natureza. Fica aqui minha sugestão a todos aqueles que pertencem à categoria "homens [mulheres] de boa vontade": façam amizade com desconhecidos, utilizem o facebook para isso mesmo, dêem livros de presente para esses novos amigos. E leiam tais livros! Simples assim! Enjoy it!

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

José e Pilar

Na última sexta-feira, tive uma experiência como diria um amigo meu Catalão, “comovedora” de cinema. Fui assistir ao filme José e Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes.

Era uma exibição especial, com a presença do diretor português e também do diretor brasileiro Fernando Meireles, que representava a O2 Filmes, a co-produtora do documentário.
O filme, embora seja um documentário que registra o cotidiano do casal José Saramago e Pilar del Rio, sua companheira, não se parece em quase nada com um documentário. Há, na verdade, a história dos últimos anos do prêmio nobel, de suas inúmeras andanças pelo mundo e do cotidiano de amor do casal, seu dia a dia em Lanzarote, onde viviam. A ilha, aliás, é incrível, muito surreal, um lugar de isolamento quase que completo. Uma paisagem árida e eu diria que até mesmo inóspita. Mas, ali eles viviam bastante bem, bem com o lugar e, sobretudo, bem um com o outro.
O diretor, muitíssimo simpático, é um jovem muito verdadeiro e simples. Ele nos falou que a sua intenção ao rodar o filme era tão somente estar perto do grande escritor, o filme foi uma desculpa para isso! Eu achei essa sua fala absolutamente sincera, ora pois.
Além disso, ele também nos falou que foram mais de 400 horas de filmagem e que transformar isso tudo em 2 horas de filme foi um trabalho tão árduo que ele não deseja o mesmo nem para o seu pior inimigo. rsrsrs

E que 2 horas preciosas ele nos legou! Nelas assistimos a um Saramago muito coerente até o fim, nas suas convicções, sobretudo em uma das principais delas que era a de ele ser ateu.
Eu fiquei um pouco penalizado, porque não sou ateu... Sinto sempre uma compaixão por quem não consegue acreditar em Deus, mas ao contrário das pessoas que professam suas religiões com ardor e fanatismo, eu não consigo julgar os ateus. Eles apenas me comovem. Deve ser tristíssimo, doloroso mesmo, viver uma vida inteira crendo que após a morte só restarão as cinzas do corpo físico e o espírito, simplesmente, deixará de existir. Era assim que Saramago pensava e no caso dele, como de tantos outros, isso é absolutamente respeitável. Afinal, Saramago é o autor que me comoveu com a sua prosa absolutamente poética e ele é quem escreveu O Evangelho segundo Jesus Cristo, um livro que, quando eu terminei de ler, me fez exclamar: Foi Jesus Cristo mesmo quem escreveu esse livro! Esse é o verdadeiro evangelho! ;-)
No filme, tudo é intenso. Os últimos anos da vida desse homem foram demaseado intensos! Um prêmio nobel é um pop star! O assédio, as viagens intermináveis e as homenagens, tudo muito desgastante, mas Saramago queria viver muito tudo isso! E viveu!
E Pilar: que mulher incrível! A melhor parte da sua atuação, ao menos para mim, é quando dando uma entrevista para um repórter português ela foi absolutamente assertiva, o que ao que parece é mesmo uma característica da brava gente de Espanha, no caso, da gente Basca!
Os homossexuais não poderem se casar em Espanha [antes disso ser permitido por lei] era um deficit democrático, meu Senhor!
É possível ver nessa história os ensaios entre José Saramago e o ator Gael García Bernal para a estreia da leitura a duas vozes das “Intermitências da morte”; o casamento de José e Pilar, que aconteceu em Castril, Espanha; o momento em que o Fernando Meireles foi mostrar a José Saramago, em Lisboa, o seu filme Ensaio Sobre a Cegueira. É ainda bastante emocionante quando o filme mostra o momento em que José Saramago adoeceu gravemente e também sua recuperação, o que possibilitou que ele pudesse concluir o livro A Viagem do Elefante, vindo depois a São Paulo, para o lançamento mundial da obra.
Miguel Mendes nos explicou que as falas de Saramago no filme e que surgem em diversas passagens, são gravações de trechos do Caderno de Lanzarote, as quais o diretor selecionou e pediu para Saramago ler e gravar. Ele nos disse que procurou selecionar trechos dessa obra que fossem os mais universais e atemporais. É exatamente por isso que elas combinam tão bem com as passagens do filme em que aparecem. E, assim sendo, o filme tornou-se uma história também ficcional da “verdadeira” vida de uma grande homem e de uma grande mulher, e, sobretudo, de um amor. Mas, sendo a questão da morte muito cara ao diretor, ele é ainda, sobretudo no meu modo de compreender esse recorte temático, uma profunda reflexão sobre a imortalidade da alma, coisa que, sabemos, Saramago não acreditava e tampouco o diretor!

Eu, de minha parte, agora, rezo todos os dias pelo espírito de José Saramago e peço também para que esse jovem diretor continue nos proporcionando, no futuro, tanta emoção nas telas. ;-)
Ah, o diretor pediu que divulguemos o filme, ele precisa desesperadamente de público, e eu espero que todos que leiam essa postagem possam ir aos cinemas e, principalmente, queiram conferir esse trabalho que o público considerou o melhor documentário nacional da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

sábado, 15 de agosto de 2009

O tempo e a paciência


As circunstâncias do meu convívio exigiram que eu exercitasse a virtude da paciência esta semana. Tenho para mim que a vivi como aos seres humanos sói viver suas virtudes, assim como seus vícios: com o seu quinhão de alegria e de dor.
Sobretudo a paciência é uma virtude difícil de ser conquistada, porque sua expressão mais comum se liga ao tempo, ou seja, somos impacientes quando não esperamos o tempo necessário para que cada coisa tome o seu lugar devido, quando nos desesperamos somos impacientes.
Quando meu pai estava muito doente, tomado pela dor e sofrimento ele se desesperava e se asperejava, ou seja, era violento. Nesses momentos, eu, enfermeiro principiante, sempre pensava que aos doentes de leito de hospital se chamam pacientes porque é essa a virtude última e única que se pede a quem sofre nessa condição. Mas então, é que, sim, a coisa toda é dificílima. Aos moribundos, no entanto, é preciso dar consolo, e, por essa razão, desejamos que os médicos, enfermeiros e parentes sejam, por sua vez, pacientes com o paciente.

Mas o que dizer da paciência necessária com aqueles que nos aborrecem?

Acredito que um bom combustível para se ter paciência com esse aborrecido é ter a profunda certeza de nossa própria inocência, ou seja, não tomar para si toda a culpa que o jogo das relações bem ou mal nos impõe. É também necessário ausentar-se em espírito quando ouvir uma calúnia, o que corresponde a viver a prece, dirigida ao além do além do além, em que tão somente se solicita: “Fecha meus ouvidos a toda calúnia/Guarda minha língua de toda maldade.” E, por ainda não pertencermos à categoria dos Santos, dar também umas boas risadas durante a situação vexatória.
Na verdade, estou a contar esse episódio banal e cotidiano apenas como pretexto, pois o que tal situação lembrou-me foi de uma crônica linda de José Saramago e que nos fala com todo o poder de sua literatura premiadíssima justamente acerca da relação entre o tempo e a paciência.

Acho que todo o mundo deveria conhecer esse texto:

O Tempo e a Paciência - José Saramago

Se alguém me perguntar o que é o tempo, declaro logo a minha ignorância: não sei. Agora mesmo ouço o bater do relógio de pêndulo, e a resposta parece estar ali. Mas não é verdade. Quando a corda se lhe acabar, o maquinismo fica no tempo e não o mede: sofre-o. E se o espelho me mostra que não sou já quem era há um ano, nem isso me dirá o que o tempo é. Só o que o tempo faz.
Que me sejam perdoadas estas falsas profundezas. Nada em mim se dispunha a coxear atrás do Einstein se não fosse aquela notícia de França: no rio Saône toda a fauna se extinguiu por acção de produtos tóxicos acidentalmente derramados nele, e cinco anos serão necessários para que essa fauna se reconstitua. O mesmo tempo que envelhece, gasta, destrói e mata (boas noites, espelho), vai purificar as águas, povoá-las pouco a pouco de criaturas, até que cinco anos passados o rio ressuscite da fossa comum dos rios mortos, para glória e triunfo da vida. (E depois casaram, e tiveram muitos afluentes.)
Não iria longe esta crónica se não fosse a providência dos cronistas, a qual é (aqui o confesso) a associação de ideias. Vai levando o rio Saône a sua corrente envenenada, e é neste momento que uma gota de água se me desenha na memória, como uma enorme pérola suspensa, que devagar vai engrossando e tarda tanto a cair, e não cai enquanto a olho fascinado. Rodeia-me um fantástico amontoado de rochas. Estou no interior do mundo, cercado de estalactites, de brancas toalhas de pedra, de formações calcárias que têm a aparência de animais, de cabeças humanas, de secretos órgãos do corpo - mergulhado numa luz que do verde ao amarelo se degrada infinitamente.
A gota de água recebe a luz de um foco lateral e é transparente como o ar, ali suspensa sobre uma forma redonda que lembra um bolbo vegetal. Cairá não sei quando, da altura de seis centímetros, e vai escorregar na superfície lisa, deixando uma infinitesimal película calcária que tornará mais breve a próxima queda. E porque nós parámos a olhar a gota de água, o guarda de Aracena disse: "Daqui a duzentos anos as duas pedras estarão juntas."
É esta a paciência do tempo. Na gruta imensa, o tempo está aproximando duas pedras insignificantes e promete a silenciosa união para daqui a duzentos anos. À hora a que escrevo, pela noite adentro, a caverna está decerto em escuridão profunda. Ouve-se o pingar das águas soltas sobre os lagos sem peixes - enquanto em silêncio a montanha verte a gota vagarosa da promessa.
A paciência do tempo. Duzentos anos a fabricar pedra, a construir uma pequena coluna, um mísero toco em que ninguém reparará depois. Duzentos anos de trabalho monótono e aplicado, indiferente às maravilhas que cobrem as paredes altíssimas da gruta e fazem rebentar flores de pedra do chão. Duzentos anos assim, só porque assim tem de ser.
Falo do tempo e de pedras e, contudo, é em homens que penso. Porque são eles a verdadeira matéria do tempo, a pedra de cima e a pedra de baixo, a gota de água que é sangue e é também suor. Porque são eles a paciente coragem, e a longa espera, e o esforço sem limites, a dor aceita e recusada - duzentos anos, se assim tiver de ser.