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sexta-feira, 7 de março de 2014

Das emoções do que se vê e do que se entrevê em Victor Hugo

                                           Deep Sea Flower by TylerXy

Uma grande emoção que tenho vivido, desde a última quinzena, tem sido a leitura do romance Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo. Tenho compartilhado com meus amigos, no facebook, minhas impressões de tal leitura, bem como trechos dessa obra.
Isso tem sido ótimo!
Outro dia, inclusive, encontrei uma moça no elevador da empresa em que trabalho, com quem tenho pouco contato na vida real, e ela comentou comigo:

- Nossa! Dá uma vontade de também ler o livro, quando a gente lê os trechos que você tem postado no face!

Fiquei contente, porque esse autor é tão pouco lido nos nossos dias! E ele foi, sem dúvida alguma, genial.
Uma das coisas que mais tem acontecido comigo, durante essa experiência de leitura, é eu ficar com os olhos marejados e ter que interrompê-la. Como apenas leio o livro durante o trajeto para o trabalho ou do trabalho para casa, faço a leitura em público, nos vagões dos trens da CPTM ou do Metrô de São Paulo. Hoje também aproveitei para ler o romance na fila de um banco, local em que fui obrigado a aguardar pelo atendimento por mais de uma hora. Que bom que eu estava com o livro. Jamais se aventure a frequentar uma fila durante tanto tempo sem ter um livro para ler!

De qualquer modo, seja no interior de vagões ou em filas, o constrangimento é sempre o mesmo, ter de verter lágrimas, durante a leitura, e perceber que as outras pessoas ficam se perguntando:

- Afinal, o que faz esse homem chorar? O que este livro pode conter de tão triste ou de tão emocionante?

Bem, nesse livro (eu ia dizer filme! hahaha) a história se passa a maior parte do tempo no mar. Em lugares inabitados ou mesmo hostis à presença humana. Lendo o capítulo XIII da obra,  O QUE SE VÊ E O QUE SE ENTREVÊ, deparei-me com um trecho com o qual me emocionei, especialmente, porque tive uma sensação que me pareceu antiquíssima: a de visitar um ambiente que é muitíssimo familiar à nossa espécie, apesar de tudo, de todo o estranhamento aparente... Afinal, sim, não podemos esquecer que todos viemos do mar.

Bonne lecture et bonne relecture!

Debaixo dessas vegetações escondiam-se e mostravam-se ao mesmo tempo as mais raras joias do escrínio do oceano, os martins, as mitras, os elmos, as púrpuras, os búzios, os estrutiolários, as conchas univalves. As campanas de lapas, semelhantes a barracas microscópicas, aderiam ao rochedo e grupavam-se em aldeias em cujas ruas rolavam as multivalves, esses escarabeus da vaga. Não podendo os seixos de mariscos entrar facilmente nessa grota, aí se refugiavam as conchas. As conchas são grandes fidalgos que, bordados e paramentados, evitam o rude e incivil contato do populacho das pedras. A fúlgida reunião das conchas fazia debaixo da água, em certos lugares, inefáveis irradiações através das quais entrevia-se um grupo de azuis e vermelhos, e todos os reflexos da água.
Na parede da caverna, um pouco acima da linha de flutuação da maré, uma planta magnífica e singular prendia-se como um debrum à tapeçaria do sargaço, continuava-o e terminava-o. Essa planta, fibrosa, vasta, inextrincavelmente dobrada, e quase negra, oferecia ao olhar largas toalhas embaraçadas e obscuras, ornadas em toda a extensão de numerosas florinhas cor de lápis-lazúli. Na água parecia que essas flores acendiam-se, e cuidava-se ver brasas azuis. Fora da água eram flores, dentro da água eram safiras, de modo que a onda, subindo e inundando o esvazamento da grota, revestia essas plantas e cobria o rochedo de carbúnculos.

A cada enchimento da vaga túmida como um pulmão, essas flores banhadas resplandeciam, a cada abaixamento apagavam-se; melancólica semelhança com o destino. Era a aspiração, que é a vida; era a expiração, que é a morte.
(HUGO, Victor. Os Trabalhadores do Mar. Trad. Machado de Assis. São Paulo: Nova Cultural, 2002, p. 220-221)

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Henry James e as Crianças

Henry James sempre pôde falar com propriedade do assunto que lhe aprouvesse tratar. Afinal, ele alçava qualquer tema ao grau de importância que tinha para ele a própria condição humana. 

Ao menos para mim é visível que na obra de James a condição humana e suas expressões são revestidas daquela dignidade que somente um artista refinado como ele lhes podia conferir.

Ao ir conhecendo suas obras, por exemplo, notamos que a educação das crianças foi um tema de certa predileção do autor. É possível, sem dúvida, observar sua preocupação com essa temática em The Turn of the Screw [A Volta do Parafuso]. Mas, como o chamado "sobrenatural" ali reina, tal circunstância toma praticamente toda a cena,  deixando em segundo plano, por assim dizer, o problema de que aquelas crianças estão mesmo abandonadas a sua própria sorte e dependem daquele amor de empréstimo dos  empregados da mansão.

Em What Maisie Knew [Pelos Olhos de Maisie] temos essa mesma questão posta no palco dos acontecimentos narrativos, mas agora para antecipar algo que mais tarde será muito comum e que ainda hoje o é, a saber: o drama das crianças que passam a ter dois lares depois do divórcio dos pais.
Maisie, por decisão do juiz, viverá com o pai e a mãe (que se odeiam), alternadamente, por períodos de seis meses, portanto, passando metade do ano com um, metade com outro.

Evidentemente, a ironia que perpassa o texto é refinadíssima, em se tratando de um autor como Henry James. Além disso, a observação dos acontecimentos é descrita, sempre pelos olhos de Maisie ou a partir daquilo que ela podia saber, no sentido comum e no sentido figurado da expressão, proporcionando assim algo entre a objetividade própria da inocência de um tal observador, mas associada à compaixão de um narrador que, não sendo piegas, alcança a medida exata da expressão de tal sentimento.

Ele nos desenha um ser humano ainda em formação, mas tendo que aprender a sofrer,  inexoravelmente, porque isto lhe fora posto viver naquelas circunstâncias.

Vejam como esta passagem demonstra isso tudo:

Henry James quando Jovem
Não era, em absoluto, novidade para Maisie que as perguntas feitas pelos pequenos constituem uma curiosa fonte de divertimento para os grandes: com exceção dos assuntos referentes a sua boneca, Lisette, não havia quase nenhuma questão na casa de sua mãe que fosse esclarecida com uma expressão séria no rosto. Nada lhe era tão fácil quanto arrancar uma explosão de gargalhadas das senhoras que lá costumavam reunir-se, e Maisie poderia ter explorado à grande esta sua faculdade se tivesse uma natureza calculista. Por trás de tudo sempre havia algo oculto: a vida era como um corredor compridíssimo com uma sequência de portas fechadas. A menina aprendera que não era uma boa ideia bater a essas portas – se o fazia, vinham detrás delas ruídos zombeteiros. Pouco a pouco, porém, foi entendendo mais e mais, pois aprendia muito com as perguntas de Lisette, que reproduziam o efeito das perguntas que ela própria fazia sobre as senhoras por ela representadas perante a opacidade de Lisette. Pois não era impagável a inocência da boneca? Diante dela, Maisie muitas vezes imitava as senhoras deliciadas. De qualquer modo, havia certas coisas que ela não podia contar nem mesmo a uma boneca francesa. Tudo que lhe era possível fazer era passar adiante suas lições e tentar produzir em Lisette a impressão de que sua vida continha mistérios, ao mesmo tempo que se perguntava se estava mesmo conseguindo dar a impressão, como sua mãe, de esvaecer-se nas brumas do incognoscível. 

terça-feira, 10 de setembro de 2013

A Tulipa Negra

No mês passado, eu postei a imagem de um canteiro de tulipas na minha página do facebook. Algumas pessoas, sensibilizadas por tanta beleza, curtiram ou mesmo comentaram a postagem, algumas dizendo o quanto amavam a flor. Uma tia querida disse-me ainda que, não sabia o motivo ao certo, mas sempre sentira a tulipa como se ela fosse mesmo uma flor romântica. Disse que talvez isso se desse por influência de uma leitura que ela fizera de um romance de Alexandre Dumas, A Tulipa Negra.
Eu, imediatamente, fiquei com vontade de ler o livro. Eu sou assim, não posso ouvir falar em um clássico da literatura que lamento não o ter lido e, encontrando o livro, corrijo imediatamente a falta.
Pois bem, foi em um sebo no centro da cidade que encontrei uma edição do romance francês, em português. A edição que li, portanto, foi esta preparada para a FTD, com tradução e adaptação de Francisco Balthar Peixoto e que contém lindas ilustrações de Alexandre Camanho.
O autor de Os três mosqueteiros escreveu esta história fascinante e que se passa na Holanda do século XVII. Entre o início de 1672 e 15 de maio de 1673, mais precisamente. Injustamente acusado de traição, Cornélius van Baerle, médico e cultivador de tulipas, é preso, e habitando a cela de uma prisão se apaixona por Rosa, a bela filha do carcereiro.
Então, teremos a conjunção de um amor praticamente impossível , bem como a necessidade do prisioneiro de cultivar a tulipa negra. É que era essa a intenção de van Baerle, desde antes de ser preso injustamente: participar do desafio que a Associação Hortícola de Haarlem propusera, bem como receber o prêmio concedido àquele que conseguisse produzir a tal tulipa.
Dumas partiu inicialmente de fatos históricos verdadeiros, o do assassinato dos irmãos De Witt, políticos influentes no reinado do príncipe Guilherme de Orange e que são considerados traidores do reino (no romance, um deles é padrinho do protagonista), bem como o do crescimento da especulação econômica em torno da planta. Ele entrelaça tais fatos com uma belíssima história de amor e de aventura.

Assim sendo, há obviamente um invejoso vizinho que também cultivava papoulas e que se torna o vilão da história. E, por mais que nós saibamos que ninguém é totalmente mal, assim como ninguém é bom, completamente, ainda assim, quando uma literatura como a de Dumas nos apresenta esses tipos puros e que correspondem ao arquétipo dessa duplicidade que há em nós, penso que, da mesma maneira que queremos nos melhorar, nós também desejamos, na história e pela história, que o bem e o amor vençam por fim.

Há maior alegria do que ter esse desejo completamente satisfeito?

terça-feira, 20 de agosto de 2013

O Caráter Revolucionário by Erich Fromm


Quando eu tinha 16 anos, eu lia muito Erich Fromm. Obviamente, por vezes, eu achava tudo muito profundo e não tinha uma compreensão plena do que estava lendo. Mas eu me lembro de me identificar com muito do que ele sempre disse por meio de suas obras. Naquele tempo, eu nem sabia o que tinha sido a psicanálise para a história e tampouco o que ela seria para mim mesmo, 15 anos mais tarde.

A verdade é que eu fiz análise durante um tempo e foi tão bom! Por conta dessa experiência, eu me sinto muito grato a estes caras que pensaram a psique humana, e, aliás, penso que todos nós, em sã consciência, deveríamos nos sentir gratos.
Hoje minha vibe não é a de aceitar prontamente o discurso psicanalítico ou ao menos um aspecto dele e que tende a promover a desconstrução da metafísica, ou ao menos pretende desconstruir o que assim se costuma chamar, ou seja, qualquer interpretação ou vivência transcendente da vida humana no planeta.
Erich Fromm apresenta-nos a vantagem de ser um livre pensador e humanista. Eu tendo a confiar muito mais neste tipo de intelectual e cientista.


Emprestei esta semana, na Biblioteca Mário de Andrade, para matar saudades, seu livro: O dogma de Cristo e outros ensaios sobre Religião, Psicologia e Cultura. 2ª ed., Trad. Waltensir Dutra, Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1965.
No ensaio intitulado “O Caráter Revolucionário”, ele chega a conclusões deliciosas e que eu preciso compartilhar com vocês! Enjoy it!

(...) entendo como caráter revolucionário não um conceito ético, mas um conceito dinâmico. Não se é “revolucionário” nesse sentido caracterológico porque se pronunciem frases revolucionárias ou se participe de uma revolução. O revolucionário, nesse sentido, é o homem que se emancipou dos laços de sangue e solo, da mãe e do pai, das lealdades para com o Estado, classe, raça, partido, religião. O caráter revolucionário é humanista no sentido de que se sente parte de toda a humanidade, e nada que seja humano lhe é estranho. Ama e respeita a vida. É um cético e um homem de fé.

É cético porque suspeita das ideologias como disfarce de realidades indesejáveis. É um homem de fé porque acredita no que existe potencialmente, embora ainda não tenha nascido. Pode dizer “não” e ser desobediente precisamente porque pode dizer “sim” e obedecer a princípios genuinamente seus. Não está semi-adormecido, mas plenamente acordado para as realidades pessoais e sociais que o cercam. É independente, e o que é deve aos seus esforços. É livre, e não o servo de ninguém.

Esse sumário pode sugerir que descrevi a saúde mental e o bem-estar, e não o conceito do caráter revolucionário. Na realidade, a descrição dada reproduz a pessoa sadia, viva, mentalmente sã. Minha afirmação é a de que a pessoa sadia num mundo insano, o ser humano plenamente desenvolvido num mundo aleijado, a pessoa plenamente desperta num mundo semi-adormecido – é precisamente o caráter revolucionário. Quando todos estiverem acordados, não haverá mais profetas ou caracteres revolucionários – haverá apenas seres humanos plenamente desenvolvidos.

A maioria das pessoas, naturalmente, jamais teve caráter revolucionário. Mas a razão pela qual não vivemos mais nas cavernas é precisamente por ter havido sempre um número suficiente de caracteres revolucionários na história romana para nos tirar das cavernas e de seus equivalentes. Há, porém, muitos outros que pretendem ser revolucionários quando na verdade são rebeldes, autoritários ou oportunistas políticos. Creio que os psicólogos têm uma função importante no estudo das diferenças de caráter entre esses vários tipos de ideólogos políticos. Mas para isso é preciso, receio, ter algumas das qualidades que procuramos descrever aqui: devem ter um caráter revolucionário. 

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Declaração de Amor em 12 de junho

Estou lendo um romance de Henry James: Lady Barberina. Minto. Esse é o segundo livro do mesmo autor que leio na mesma semana. Terminei, anteontem, de ler A Outra volta do Parafuso ou apenas A Volta do Parafuso [The Turn of Screw]. Falarei aqui dessa obra, depois que eu assistir à ópera de Benjamin Britten, The Turn of Screw, no próximo dia 22, no Theatro São Pedro, evento que me motivou a reler esse romance de James.
Mas, como hoje é dia dos namorados, eu quero apenas registrar esta linda passagem do romance Lady Barberina. A cena se passa durante uma recepção em uma mansão inglesa entre o final do XIX e início do XX, quando acontece um diálogo em que um jovem americano se declara a uma moça inglesa.

Dedico esta passagem aos que são sensíveis a declarações de amor sinceras.


Vamos combinar que a expressão do amor que envolve duas pessoas é mesmo uma coisa muito boa de se sentir e de se viver, mesmo que sua lembrança só possa por ora nos vir assim, por meio de personagens fictícias.

                De qualquer maneira, eu sou uma pessoa que acredito demais no amor!

– Não creio que eu devesse permanecer aqui – observou Lady Barberina, olhando em volta.
– Não se retire até eu lhe dizer que a amo – murmurou o jovem.
                A moça não soltou exclamação alguma, nem sequer estremeceu; ele nem mesmo pôde perceber qualquer alteração em sua fisionomia. Lady Barberina acolheu essa confissão com nobre simplicidade, a cabeça ereta e os olhos baixos.
– Não creio que tenha o direito de dizer-me isso.
– Por que não? – perguntou Jackson Lemon. – Desejo ter esse direito. Desejo que você mo dê.
– Não posso... Não o conheço. Você mesmo disse.
– Não pode confiar um pouco? Isso ajudará a nos conhecermos melhor. É horrível essa falta de oportunidade; mesmo em Pasterns quase não podia passear com você. Mas tenho a maior confiança em você. Sei que a amo e que não poderei deixar de amá-la depois desses seis meses. Amo sua beleza, amo-a da cabeça aos pés. Não se mova; por favor, não se mova.
                Ele baixara o tom da voz; tudo ia diretamente ao ouvido dela, e é de crer que havia naquele tom certa eloquência. Quanto a ele, depois de ouvir a si próprio pronunciar aquelas palavras, sentiu uma vibração que lhe percorria o ser. Era um prazer falar-lhe da própria beleza; isso o levava para mais perto dela, como nunca estivera. Mas o rosto dela se ruborizara, e isso pareceu lembrar-lhe que a beleza não era tudo.
– Tudo em você é doce e nobre – continuou . – Tudo em você me é precioso. Sei que você é bondosa. Não sei o que pensa de mim. Pedi a Lady Beauchemin que me dissesse, e ela mandou que eu mesmo julgasse. Pois bem, julgo você igual a mim. Não terei o direito de admitir isso até que se prove o contrário? Posso falar com seu pai? É o que desejo saber. Venho esperando isso; mas, agora, por que deveria esperar mais tempo? Desejo poder dizer-lhe que você me deu alguma esperança. Suponho que você deva falar com ele primeiro. Queria falar amanhã; mas, hoje à noite, pensei em conversar antes com você. Em meu país, isso não importaria muito. Lá, você própria teria de considerar tudo. Se me disser que não fale com seu pai, não falarei. Esperarei. Mas prefiro pedir-lhe licença para falar com ele dói que pedir a ele licença para falar com você.
  
              Sua voz passara a sair quase num murmúrio, e, embora tremesse, a emoção dava-lhe uma intensidade peculiar; mantinha entretanto a mesma atitude, os polegares nos bolsos das calças, a cabeça levantada e o sorriso que lhe transparecia muito natural nos lábios; ninguém teria imaginado o que estava dizendo. Ela escutara-o sem se mover, e, quando ele terminou, ergueu os olhos. Pousou-os nos dele um momento. Ele lembrou-se, muito tempo depois, da expressão que passara aquele olhar.
– Pode dizer tudo o que queira a meu pai, mas não quero ouvir mais coisa alguma. Você falou muito, considerando-se o muito pouco que me deu a entender, antes.
– É que estive observando-a – confessou Jackson Lemon.
                Lady Barberina ergueu mais ainda a cabeça e fitou-o nos olhos. Disse, depois, com seriedade:
– Não gosto de ser observada.
– Não devia, então, ser tão bonita. Não vai me dar uma palavra de esperança? – acrescentou ele.

(JAMES, Henry. Lady Barberina; A outra volta do parafuso. Traduções de Leônidas Gontijo de Carvalho e Brenno Silveira. São Paulo: Abril Cultural, 1983)

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Entre Yehoshua e Verdi


Esta manhã, no trem, vindo para o trabalho, eu comecei a leitura de um romance de A. B. Yehoshua: Fogo Amigo.

No primeiro e segundo capítulos, encontramos as personagens principais sendo apresentadas: o casal Yaári e Daniela. Ele está se despedindo da esposa no aeroporto, pois ela vai visitar o cunhado Yirmiyáhu, que ficou viúvo há apenas um ano. Daniela quer ir só, mas no primeiro capítulo ainda não saberemos exatamente o porquê. Já o marido está apreensivo por ela viajar sozinha. Haverá uma conexão no voo e ele explica-lhe que não quer que ela saia do aeroporto: “Daniela querida, lá é a África, não a Europa. Nada por lá é muito claro nem muito estável. E se você for à cidade poderá perder a hora ou se perder pelo caminho.”

Ela, claro, acha tudo exagerado. Ao que ele responde: “Só porque o meu amor por você é exagerado.” Então, ela lhe diz: “Quanto tem aí de amor e quanto de controle é algo que vamos ter de esclarecer um dia.”
Somos informados pelo narrador que o marido está preocupado devido ao fato de ela já ter quase 60 anos, sofrer de pressão alta e, sobretudo, porque nunca viajara sem sua companhia. Depois, ele vai para o trabalho e acompanhamos um pouco de sua rotina.

No segundo capítulo, encontramos Daniela em um free shop do aeroporto, distraída com a vendedora de batons, quando será conduzida pelo comissário de bordo até o avião. Quando ela ocupa o lugar que lhe pertence, ficamos sabendo o motivo íntimo dessa viajem:

“(...) ela está à procura de palavras precisas, e fatos olvidados ou talvez novos, que avivem a dor e o luto pela irmã mais velha, que ao morrer levou consigo parte da infância da irmã caçula. Sim, ela sente agora o desejo bem nítido de avivar o sentimento de perda e fender a casca de esquecimento que começou a envolvê-la. É esse o motivo pelo qual almeja passar alguns dias perto de alguém que ela conhece desde a infância, e cujo amor e lealdade para com a irmã nada ficavam a dever aos dela mesma.”

Quando, no início do terceiro capítulo, o cunhado fica sabendo, por meio do telefonema do marido, que Daniela está indo só ao seu encontro, admira-se, não porque acredite que ela não possa viajar sozinha:
“É claro que ela consegue, gracejou de Dar es Salaam a voz querida e familiar, e se for por apenas sete dias e não mais, ela vai resistir muito bem aqui sem você. Mas será que você vai aguentar? Vai mesmo aceitar a separação sem se arrepender na última hora e se juntar a ela?”

Nesse momento da minha leitura, a apresentadora do programa Manhã Cultura, da rádio Cultura FM, anunciou-me pelo fone de ouvido: Agora, ouviremos La donna è mobile (A mulher é voluvel), ária do terceiro ato da ópera Rigoletto, criada por Giuseppe Verdi. Gravação da interpretação do tenor que realizou a primeira performance dessa ária, em 1951: Raffaele Mirate.”

La Donna è móbile
Qual piuma al vento,
muta d'accento e di pensiero.
Sempre un amabile,
leggiadro viso,
in pianto o in riso, è menzognero.

La donna è mobil'.
Qual piuma al vento,
muta d'accento e di pensier!
e di pensier'!
e di pensier'!

via classic luggage
È sempre misero
chi a lei s'affida,
chi le confida mal cauto il cuore!
Pur mai non sentesi
felice appieno
chi su quel seno non liba amore!

La donna è mobil'
Qual piuma al vento,
muta d'accento e di pensier!
e di pensier'!
e di pensier'!

Não sei se porque eu já estava imbuído dessa história de uma relação em que temos um homem tão frágil diante de seu amor por uma mulher, fiquei deveras emocionado com essa ária que, no entanto, já ouvira tantas vezes, e que é tão singela e mesmo popular!

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Relendo Brontë


Eu sempre tive a dádiva de em momentos de desalento poder ler. A literatura sempre me salvou. Quando mais jovem, minhas crises eram mais constantes e essa espécie de bálsamo que eu encontro até hoje nos textos literários, então, eu tinha mais urgência em sorvê-lo.

Em geral sentimos assim quando há um prazer renovado na relação que estabelecemos com esses textos que dizem tanto de nós, não dizendo exatamente nada de concreto acerca de ninguém a não ser, quiça, de seu autor, mas apenas após a sua experiência ter sido coberta com este véu da abstração com o qual o fazer artístico cobre o que é da ordem do pessoal e indiviso.

Evidentemente, isso acontece mais amiúde - tal componente  realmente salvador que toda leitura tem - quando notamos aquele prazer que surge por ocorrer uma perfeita coincidência de gostos, sentimentos e princípios e que a obra, ou autor, ou as personagens em questão manifestam.

Estou relendo Jane Eyre, de Charlote Brontë – ganhei o livro de uma amiga querida no meu aniversário e, embora eu já o lera em inglês, acho que é sempre bom ler também uma boa tradução.  Assim sendo, vou reproduzir aqui uma passagem do romance. Nela sinto que aconteceu tudo isso que eu falava mais acima e um pouco mais.

Durante a leitura, passagens assim me comovem porque são parte de mim. No sentido de que a coincidência é plena daquele gosto a que chamo bom gosto, bem como dos bons sentimentos e mesmo princípios, sobretudo em relação ao que deve ser exaltado e louvado na minha opinião e evidentemente também na opinião da própria Brontë, autora da mensagem. ;-)

Enjoy it!

Miss Temple tinha sempre um ar de serenidade no porte,de nobreza no semblante, de refinada precisão na linguagem, que impedia o ardor excessivo. Um controlado senso de reverência que dava prazer aos que a ouviam. Era o que eu sentia naquele momento. Mas fiquei paralisada de espanto com Helen Burns.
A saborosa refeição, o fogo brilhante, a beleza e a bondade de nossa amada professora ou, talvez, mais do que essas coisas juntas, alguma virtude da sua mente única, despertou-lhe  as energias. E essas energias se agitavam. Primeiro, surgiram na brilhante cor de sua face, que até agora eu só vira pálida e exangue. Depois brilharam nos seus olhos, que adquiriram uma beleza ainda mais singular que os de Miss Temple. Uma beleza que não repousava na cor da pele, nem nos longos cílios, nem nas sobrancelhas, mas na intenção, no movimento e na vivacidade. Depois foi a alma que pousou nos lábios e as palavras fluíram, não sei dizer de qual fonte. Como pode uma menina de quatorze anos ter um coração grande e vigoroso o suficiente para manter a mais pura, vívida e fervente eloquência? Tal era a característica das palavras de Helen nessa noite, para mim, memorável. Seu espírito parecia ávido por viver, num breve espaço de tempo, mais do que muitos vivem durante uma prolongada existência.
by Paul Chin
Elas falaram de coisas que eu nunca ouvira. De povos e eras passadas. De países distantes. De segredos da natureza, conhecidos ou suspeitados. Falaram de livros, e quantos elas haviam lido! Quanto conhecimento acumulado possuíam! Pareciam tão familiarizadas com palavras e autores franceses! Mas o meu espanto chegou ao máximo quando ouvi Miss Temple perguntar se Helen às vezes dedicava um tempo a recordar o latim que o pai lhe ensinara. Pegando um livro da estante pediu-lhe que lesse um trecho de Virgílio, Helen obedeceu, e meu assombro crescia a cada linha. Mal tinha terminado quando soou o sino anunciando a hora de dormir. Ali não se admitiam atrasos. Miss Temple abraçou-nos e disse, do fundo do coração:
- Deus as abençoe, crianças.

(Charlote Brontë. Jane Eyre. trad. Doris Goettems. São Paulo: Ed. Landmark, 2010, p. 56-57)

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O diário de Cecília

O diário de Cecília, de Sylvia Manzano, é um livro dirigido ao público infantil, mas àquele que teria a idade da personagem que dá nome ao livro, ou seja, meninas e meninos entre 12 e 14 anos (um pouco mais ou um pouco menos).

Cecília está às vésperas do seu aniversário de 13 anos e conta nesse diário o seu dia a dia, entre a convivência com a mãe (ela é órfã de pai), com suas tias, com as(os) colegas na escola, bem como com os garotos com os quais ela "fica" e, assim, vai naturalmente descobrindo a experiência de querer bem ao mundo e de se compreender como alguém que é única e diferente de todo mundo, ou seja, exatamente como se sente todo pré-adolescente.

O prazer suplementar dessa narrativa - que permite que qualquer pessoa leia o livro com prazer - é que ela tem a força da sinceridade de quem escreve num diário trancado a chave. Embora a mãe pareça ter livre acesso ao caderno. Tudo começou como um exercício escolar: uma professora descolada foi quem sugeriu a atividade. E Cecília embarcou de cabeça nessa circunstância encantadora que é a de se escrever para o "Meu querido Diário"!

Não faltam referências culturais nessa empreitada, pois Cecília é daquelas garotas que prestam atenção a sua volta. Também não faltará aquele temperamento adolescente que pode por vezes achar a mãe e os adultos pessoas chatas. Há ainda muito riso (gargalhadas) e lágrimas: Cecília demonstra sem vergonha todas as suas emoções, que são intensas e verdadeiras.

Enquanto eu lia o livro, fiquei pensando no talento dessa autora em colocar-se no lugar dessa garotinha! Deve haver ali muito da garota que vive dentro dela, é claro, mas há sobretudo essa generosidade própria dos artistas de se colocar no lugar do outro, imaginar-se uma garota do nosso tempo e ainda ofertar esse perfil eloquente ao mundo, ou seja, permitir que tantas outras garotas possam compartilhar desse segredo feminino e humano e que se revela, afinal, como o segredo de ser feliz naquele momento em que se perde uma certa inocência, mas se ganha a inquietação acerca de tudo o que ainda está por vir. Quando pela primeira vez perguntamos seriamente: O que será que vai acontecer?

Uma pergunta que, claro, continua pela vida afora.

Ah, também fiquei muito contente em ver esse livro publicado pela Paulinas, prova de que ali há um diretiva editorial bastante antenada com seu próprio tempo. Penso que o livro de Sylvia deve ser considerado arrojado, pois fala de tudo o que é importante que seja dito para a infância do nosso tempo, na linguagem e com a atitude que são comuns às nossas crianças.

Recomendo com fervor!

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A Little Princess

Faz pouco tempo, eu descobri um outro livro de Frances Hodgson Burnett, A Little Princess. Ela é a mesma autora do livro The Secret Garden do qual eu já tive o prazer de falar a respeito aqui. Fiquei superfeliz de descobrir que eu poderia novamente adentrar nesse universo sofisticado de uma infância mágica e delicada, que a autora traz à tona, quando os bons sentimentos são exercitados com todo o frescor e vigor de uma vida quintessenciada: mais espiritualizada, portanto.

Pois bem, comprei pela internet essa versão do romance (graças a uma dica de um amigo do facebook, aliás, dois amigos sofisticados que tenho por ali conheciam a obra e fizeram coro comigo de que ela merecia ser lida!) Tal versão, na verdade, é uma adaptação assinada por Eliza Warren. Não achei, portanto, a versão originalíssima. Mas, creio que tal adaptação foi feita para aproximar essa história da linguagem das crianças de nossos dias, posto que a autora escrevia entre o final do XIX e começo do XX. A ver.

Pois saibam que eu passei um pouco de vergonha com esse livro nas mãos, durante as viagens que faço do trabalho para casa, de metrô e de trem. É que ele é tão emocionante que a gente não se furta a derramar lágrimas.

Vejam vocês se eu não tenho razão!

Trouxe abaixo um excerto de uma passagem memorável do romance. Ah, é sempre bom lembrar que a vida pode mesmo apresentar tais circunstâncias e, sim, devemos então aprender, com tais percalços, a arte de bem viver, fazendo o bem sempre! Essa é a principal lição de Mrs Burnett, of course!


As he looked across the street, he saw Sara standing on the wet pavement looking at him wistfully. He thought her eyes looked hungry because she had had nothing to eat for a long time. What Sara was really hungry for was the happy home life Guy Clarence enjoyed with his family.

However, Guy Clarence knew only that this poor girl had big eyes, a thin face and legs, and shabby clothes. So Guy put his hand in his pocket and walked right up to her.

“Here, poor little girl,” he Said. “Here is a sixpence. I would like give it to you.”

All at once Sara realized how long it had been since her father had died and Miss Minghin had banished her to the attic. She realized that she now looked exactly like the poor children she used to see in the London streets, straining for a glimpse of her, as she got into her own fancy carriage. Her face turned red and then pale. For a second she felt as if she could not accept the coin.

“Oh no!” she said. “Oh, no, thank you. I couldn’t take that.”

Her voice was so unlike that of an ordinary street child and her manner so like that of a well brought-up girl that Veronica Eustacia (whose real name was Janet) and Rosalind Gladys (who was really called Nora) leaned forward in the carriage to listen.

Guy Clarence would not take no for an aswer. Immediately, He shoved the sixpence into Sara’s hand. “Yes, you must take it,” He insisted. “You can buy a lot to eat with this. It’s a whole sixpence.”

“Thank you,” she said.  “You are very kind.”

As he scrambled happily back into his carriage, Sara went on her way, trying to smile, although she felt tears welling in her eyes. She had thought she might look Odd and disheveled, but she’s lost track of how long she’d been living up in the attic of Miss Minchin’s. Until now she hadn’t realized that she’d come to look like a beggar.

[Quando o olhar dele cruzou a rua, viu Sara em pé na calçada molhada, olhando-o melancolicamente. Ele achou que seus olhos pareciam famintos, porque ela não comia há muito. Sara, no entanto, estava realmente faminta era daquela vida feliz em um lar e que Guy Clarence desfrutava com sua família.
No entanto, Guy Clarence apenas sabia que esta pobre menina tinha olhos grandes, um rosto fino, assim como suas pernas, e roupas surradas. Então, Guy colocou a mão no bolso e caminhou até ela.

"Aqui, pobre menina," disse ele. “tenho seis tostões e quero dá-los a você.”

De repente, Sara compreendeu quão longo tempo se passara desde que seu pai tinha falecido e a senhorita Minghin a tinha banido para o sotão. Esforçando-se por vislumbrar a si, transportando-se como se vestisse uma fantasia de si mesma, ela percebeu que agora se parecia exatamente como as crianças pobres que ela costumava ver nas ruas de Londres, e que buscavam vislumbrá-la enquanto ela tomava sua própria sofisticada carruagem. Seu rosto ficou vermelho e depois pálido. Por um segundo, ela sentiu como se não pudesse aceitar a moeda.

"Oh, não!" disse. "Oh, não, obrigada. Eu não poderia aceitar."

Sua voz era tão diferente daquela comum a uma criança de rua e seu jeito tão parecido com o de uma menina bem nascida que Verônica Eustácia (cujo nome verdadeiro era Janet) e Rosalind Gladys (que na verdade era chamada de Nora) a fim de ouvi-la se inclinaram para a frente no carro.

Guy Clarence não aceitaria um não como resposta. Imediatamente, ele empurrou a moeda na mão de Sara. "Sim, você deve aceitar", insistiu. "Você pode comprar um monte de comida com isso. São seis tostões!"

“Obrigada,” disse ela. “Você é muito gentil.”

Assim como ele ao voltar para a carruagem, Sara seguiu seu caminho mexida, tentando sorrir, embora sentisse as lágrimas brotando em seus olhos. Ela achava que pudesse parecer estranha, despenteada, mas perdera a noção de quanto tempo já vivia no sótão da senhorita Minghin. Até então, não tinha percebido que pudesse ser vista como uma mendiga.]

Liesel Matthews is Sara Crewe in A Little Princess (1995)
directed by Alfonso Cuarón




terça-feira, 16 de outubro de 2012

Love Love Love



Leio Hard Times, de Charles Dickens, enquanto viajo de trem, retornando para casa. Olho nas faces dos passageiros e identifico em cada uma seu próprio segredo. Não que eu sabia do que se trata, mas é que ele está ali: seja na face, seja no corpo. Nos rastros, nas cicatrizes ou nos vincos da face, ou seja, por onde vemos o conjunto da história da pessoa. 

Quantas pessoas! Cansadas, contentes, insatisfeitas, transitoriamente satisfeitas, sociáveis, tímidas, fechadas, jovens de espírito ou semidestruídas.

O dia termina como todos os dias: coberto de noite. Ele pede a todos o merecido descanso, uma vez que cada qual a cada dia se permite tudo sentir intensamente.

Poucos demonstram consideração ao companheiro de jornada. Mas, o trem, que corre rumo ao seu destino, como que aponta uma verdade inexorável: que a viagem de ida e volta pode ser retomada, todos os dias.

É assim que nas existências, o que hoje é sina almeja um fim e/ou finalidade.

Curiosamente, no livro em que se narra tantos sofrimentos, só grifo, em amarelo cintilante, passagens de doçura:

He looked at her with disappointment in his face, but with a respectful and patient conviction that she must be right in whatever she did. The expression was not lost upon her; she laid her hand lightl y on his arm a moment as if to thank him for it.
[Ele a olhou demonstrando em seu rosto decepção, embora com uma convicção respeitosa e paciente de que ela devia estar certa em tudo o que fez. Tal expressão não lhe passou despercebida, pois ela pousou levemente a mão em seu ombro como se para agradecê-lo por isso.]

She went, whit her neat figure and her sober womanly step, down the dark street, and He stood looking after her until she turned into one of the small houses. There was not a flutter of her coarse shawl, perhaps, but had its interest in this man’s eyes; not a tone of her voice but had its echo in his innermost heart.
[Ela foi descendo a rua escura, com seu porte elegante e em seu sóbrio passo feminino, e ele ficou vigiando-a até que ela virou em direção a uma das pequenas casas. Talvez não houvesse uma vibração em seu grosso xale, mas isso interessava aos olhos daquele homem; nenhum tom em sua voz, mas ela ecoava no mais profundo do seu coração.] (tradução livre by me)

Insisto em encontrar nos Tempos Dificeis a prova de que não falta amor, mesmo durante tais momentos. Apenas precisamos ser mais corajosos e perseverantes, como, aliás, o é essa personagem do livro: Stephen Blackpool. Tal personagem, embora em sofrimento, possui ideias seguras e bastante distantes da retórica falaciosa de certos líderes do seu tempo.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Aqui está Nova York (Ali está São Paulo)


Que grata surpresa a leitura desse livro!

Afinal, Nova York sempre estará no nosso imaginário citadino. Se você vive em uma cidade como São Paulo – também ela uma megalópole – será inevitável fazer aproximações entre ambas.

Pois veja só: tal aproximação é absolutamente possível independentemente do fator temporal em que a vida nessas cidades seja representada! 
Sobretudo, se pensarmos no aspecto mais poético dessa possível representação. Ao menos é o que pude perceber lendo essa espécie de homenagem que o jornalista E.B. White, um dos pilares da revista The New Yorker, escreveu  no final da década de 40 e publicou  em forma de artigo na revista Holiday e, depois ainda no formato de um livrinho.
A tradução é de Ruy Castro na edição brasileira publicada pelo José Olympio Editora.


Vejam se não é possível pensar o mesmo mutatis mutandi acerca de Sampa, mesmo que ele esteja falando da realidade de uma Nova York de setenta anos atrás:

Nova York combina a dádiva da privacidade com o excitamento da participação; e, mais que a maioria das comunidades densas, logra insular o indivíduo (se ele o quiser, e quase todo mundo quer ou precisa disso) contra tudo de enorme, violento e maravilhoso que acontece a cada minuto.

(...) Para quem vem de fora, uma estada em Nova York pode ser (e com frequência é) uma sucessão de pequenos embaraços, desconfortos e desapontamentos: não entender o garçom, não saber distinguir entre uma armadilha para otários e um lugar amistoso, tomar o metrô errado, ser esbofeteado pelo motorista de ônibus por ter feito uma pergunta inocente e passar noites sem dormir porque os ruídos da cidade vazam para dentro do quarto do hotel (...) Mas não é incomum, em Nova York, encontrar os desiludidos – um jovem casal, ostensivamente de visita, quem sabe recém-casado, para quem o sonho colorido evaporou-se. A cidade foi demais para eles; pode-se vê-los, sentados e desmilinguidos, almoçando em silêncio num restaurante barato.

Mas, sem dúvida, o mais incrível foi o tom profético que essa mensagem alcançou nessa passagem (impossível não pensar no 11 de setembro):

A mudança mais sutil em Nova York refere-se a algo de que as pessoas não falam mas que está na cabeça de todo mundo. A cidade, pela primeira em sua história, ficou destrutível. Uma simples revoada de aviões pouco maiores do que gansos pode rapidamente acabar com essa ilha da fantasia, queimar as torres, desmoronar as pontes, transformar as galerias do metrô em câmaras letais, cremar milhões. A suspeita da mortalidade faz parte agora de Nova York: no som dos jatos sobre nossas cabeças, nas manchetes pretas da última edição.

E, por fim, seleciono um excerto que representa um traço de profunda delicadeza e humanidade dessa prosa:

(...) Nos cortiços há pobreza e péssima moradia, mas também uma tranquilizante sobriedade e segurança da vida familiar. Sigo para leste, ao longo do Rivington. Tudo é alegre, sujo e superlotado. As lojinhas transbordam para a calçada, deixando  apenas meia largura para os transeuntes. À luz das lâmpadas nuas, brilham melancias e peças de lingerie. As famílias fugiram dos quartos quentes dos andares superiores e vieram para a rua. Sentam-se em caixas de laranja, fumando, relaxadas, afins umas às outras. (...)

Não deixe de ler na íntegra. ;-)

terça-feira, 24 de julho de 2012

Refinamentos da percepção


Deve ser difícil colher a flor do Cardo sem se machucar
 via Flora da Serra da Arrábida







- Você precisa tomar muito cuidado para não achar que tudo o que falam a sua volta diz respeito a você!

- Sim, pois isso demonstraria demasiada autocentralidade... kkkk Mas, por exemplo, mesmo que não diga respeito diretamente a mim aquilo que alguém está dizendo em público, ainda que na minha presença... Mas, o que pensar quando o dito denota uma opinião já arraigada e que demonstra um preconceito? Ainda assim, não teríamos que responder ao que sentimos, por exemplo, como um insulto?

- Acho que precisamos de um exemplo aqui.

- Pois bem, outro dia, dois homens conversavam na minha presença. Um deles, bem mais jovem que seu interlocutor. Ele dizia que a mãe não tinha gostado do fato de que um dos filhos (um irmão desse que falava) tivesse resolvido usar brincos (veja que bobagem!). O jovem contou que ela até chorou quando viu o que o tal filho fizera. Então, esse irmão, o que contava ao amigo o ocorrido, disse que naquela oportunidade falou para a sua mãe: “Calma, mãe, não precisa chorar: ele não virou veado...” Imediatamente, senti-me autorizado a questionar: Quer dizer que, se ele tivesse “virado” veado, ela podia chorar à vontade?

- E aí?

- Bem, e aí que ele me pediu desculpas, embora não pudesse apagar o que havia dito. Parece que o que acontece em semelhante situação é que o preconceito está tão arraigado na pessoa que ela simplesmente esquece que está insultando alguém, quando apenas descreve tal preconceito, “inocentemente”, ou seja, em meio a uma fala, contando uma história ou fazendo uma anedota.

- Isso me fez lembrar o que li certa vez em um livro de um psicanalista, o Alain Didier-Weill. Acho que foi no livro Os Três Tempos da Lei: o mandamento siderante, a injunção do supereu e a invocação musical. Era um livro dificílimo, como costumam ser os textos de psicanálise em geral e eu guardei pouca coisa do que ele trata. Talvez a questão da sideração tenha ficado bem entendida, afinal foi o primeiro lugar em que ouvi falar nesse conceito. Mas houve uma outra passagem que eu nunca vou esquecer!

Trata-se de quando ele explica a diferença que há entre Injúria e Insulto. Não era exatamente com essas palavras que vou utilizar aqui, claro, mas ele dava, entre outros, esse mesmo exemplo que eu vou dar. Na Injúria você tem uma situação em que o ofendido pode revidar, imediatamente, pois de fato ele não é aquilo de que você o acusa, quando tem a intenção de rebaixá-lo; já no insulto, o insultado fica sem resposta imediata - ao menos para um protesto que possa ser a negação da sua condição - pois ele não pode negar aquilo de que você essencialmente o chama. Até porque o problema não está em ele ser aquilo, mas em você não aceitá-lo como tal ou considerar que, assim sendo, ele lhe é inferior. Portanto, você o considera inferior por ele ser o que é e daí o termo pejorativo para designar tal condição, etc. e tal.

Vemos isso na diferença, por exemplo, entre chamar de "filho da puta" alguém cuja mãe não é prostituta, e chamar também assim aquele que realmente é o filho de uma prostituta: o primeiro foi injuriado, ou seja, sofreu uma injúria, você o acusa, ainda que com a intenção de ofendê-lo, de ser o que ele de fato não é. Já o segundo foi insultado, porque você, ao apontar aquilo que ele é, julgou-o indigno por isso mesmo, quis de qualquer modo ofendê-lo, rebaixá-lo na sua condição e, assim, o insultou.

O que nos faz pensar que em nossos julgamentos, ou seja, quando somos muito judiciosos em relação aos outros, acerca do que são ou deixam de ser, tudo isso nos expõe ao patético de proporcionar demasiado sofrimento! 


Por que isso é patético? 

Evidentemente, porque irá gerar uma cadeia de sofrimentos que podem ser incessantes ou que sobrevivem em uma longa faixa de tempo: isso cria inimizades; ódios; mais a entrada no círculo das paixões baixas, por parte daqueles que são o alvo de tais injúrias ou insultos, como aquelas associadas ao sentimento de vingança. A inimizade é algo que vai até tão longe no tempo e no espaço! 

Isso tudo é muito triste.

-Ah, é verdade. Eu acho que todo mundo precisa saber quando está injuriando ou insultando, pois precisamos de qualquer modo parar com tudo isso!

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Bliss or the pear tree


via World Trees

Não há motivo algum para se sentir infeliz, vamos combinar assim. Ainda que, por exemplo, sei lá... você descobrisse que seu namorado tem um envolvimento com outra pessoa. Ainda assim! Tampouco isso justificaria o sentimento de infelicidade mórbida que costuma acometer algumas pessoas, as quais eu conheço e talvez você mesmo também conheça.

A tal descoberta justifica, quando muito, o término da relação, justificaria também, quiçá, o perdão e o recomeço, mas não o sentimento de tristeza profunda e que acompanha tantas decepções amorosas.

Fiquei pensando nisso ao ler o conto Bliss, “Felicidade”, de Katherine Mansfield.

Bertha Young, Pearl Fulton e Harry vivem qualquer coisa que, afinal, não poderia ser catalogada em um nível comum de relação, mesmo aquela que já se esperaria de um triângulo, ou seja, quando o próprio "triângulo"  não é de fato desejado, ao menos por um dos três vértices.

Nesse conto há uma cumplicidade entre mais de um par: entre Bertha e Pearl e entre Pearl e Harry. E claro, uma cumplicidade em algum sentido mais profundo, para além da natural ou que já se esperaria, entre Bertha e Harry: o casal "oficial".

Mas, então, no ápice do que poderia ter sido uma situação que, entre os mortais comuns, decairia  para uma espécie de sofrimento imensurável, temos tão somente essa singela passagem:

Bertha correu para as janelas largas do jardim. "Deus! O que vai acontecer agora?".
Mas a pereira estava tão linda como sempre, tão imóvel e florida como sempre.
  
No fundo, é isso o que me interessou apreender nessa experiência de leitura: o fato de que essa linda pereira continua imóvel e florida como sempre.

Mesmo que a apropriação da metáfora possa parecer "brega", não vou me furtar a dizer que há, sim, uma pereira dentro de cada um de nós e é a isso que desejo também chamar felicidade, porque se trata daquela que não se dissipa por nenhum motivo da ordem dos anseios egoístas, menos ainda por um motivo que pretenda ser o oposto dessa beleza e desse desabrochar sem igual. Mesmo quando me desespero e clamo por Deus e/ou me pergunto acerca do futuro incerto.

Simplesmente assim ou ainda que não tão simplesmente! ;-)

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Nossa reverência


Eu passei, faz pouco tempo é verdade, a admirar todos os seres humanos. Tenho a sensação de que o que temos, ao ver o mundo habitado, é sempre uma variação infinita do mesmo tema, isso mesmo! Sobretudo, quando se trata de seres humanos e seus comportamentos: seus feitos, suas alegrias e tristezas, seus limites ou  genialidade.

Notamos isso que estou tentando descrever, por exemplo, ao ler uma biografia. Mesmo que em tal livro se conte, necessariamente, a vida de alguém cujos feitos foram considerados importantes e, assim sendo, tornou-se também imprescindível que o conjunto de acontecimentos dessa vida fosse conhecido pela posteridade.

No momento, leio acerca da vida de Beethoven, uma biografia escrita por Bernard Fauconnier e traduzida por Paulo Neves. Aqui fica evidente, ao que me pareceu, que ser genial é uma condição a ser alçada somente por alguns poucos, pois isso não poderia ser para todos e ao mesmo tempo, ou seja, esse vir a ser em meio à humanidade, fazendo notar essa capacidade de estar à frente do próprio tempo: um dos segredos da genialidade humana em qualquer área do conhecimento.

E, ao lermos essa história, algo muito importante também fica comprovado: o que determina uma genialidade não é a condição aparente em que esse ser genial vive sua experiência. Por exemplo, o grande músico era filho de um pai alcoólatra e de uma mãe tuberculosa e era cercado de irmãos ineptos e, mesmo assim, não se submeteu a essas condições, não se tornou um medíocre.
Beethoven, aliás, nasceu num período que acabara de conhecer o gênio de Mozart, e precisou, mesmo que em meio a muitas vicissitudes, impor o seu próprio gênio aos seus contemporâneos.

Algumas passagens muito interessantes desse livro que ora leio:

Diante do majestoso Reno, nessa natureza amável e poderosa, ele descobriu o sentimento profundo da realidade do mundo e de suas forças telúricas, concebeu o desejo de ser amado por sua música, de tornar-se através do trabalho, da virtude, da doação de si a seus semelhantes, aquilo que o seu pai não soube ser: um grande artista.

Posso dizer que levo uma vida miserável. Há quase dois anos evito encontros em sociedade, pois não posso dizer às pessoas: sou surdo. Se eu tivesse outra profissão, ainda seria possível; mas na minha é uma situação terrível. E o que diriam meus inimigos, que não são poucos? – Para te dar uma ideia dessa estranha surdez, direi que no teatro devo me colocar junto à orquestra para compreender os atores. Não ouço os tons elevados dos instrumentos e das vozes quando me coloco um pouco distante.

Beethoven é contemporâneo do nascimento e dos primeiros passos do piano moderno. Ele conheceu o cravo, depois o pianoforte, de som ainda áspero, vagamente desafinado, digam o que disserem os “puristas”, os esnobes, os defensores de uma “autenticidade musical” imaginária: com frequência Beethoven se queixou de que o instrumento com o qual sonhava, e para o qual compunha, ainda não existia!

Príncipe o que o senhor é, o é pelo acaso do nascimento. O que eu sou, o sou por mim. Príncipes existem e sempre existirão aos milhares. Mas só há um Beethoven.

Por volta das quatro da tarde, o céu escureceu e caiu uma tempestade, “uma tempestade formidável, acompanhada de granizo e neve”, escreve Gerhard von Breuning. Beethoven ergue a mão, cerra o punho como se quisesse desafiar o céu, conta Hüttenbrenner, enfeitando talvez a cena. E acrescenta: “Quando a mão caiu sobre o leito, os olhos estavam semifechados. Com a mão direita ergui sua cabeça, apoiando a esquerda sobre o peito. Nenhum sopro saía dos seus lábios, o coração havia parado de bater. Fechei seus olhos, sobre os quais depus um beijo, assim como na testa, na boca, nas mãos.”