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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O diário de Cecília

O diário de Cecília, de Sylvia Manzano, é um livro dirigido ao público infantil, mas àquele que teria a idade da personagem que dá nome ao livro, ou seja, meninas e meninos entre 12 e 14 anos (um pouco mais ou um pouco menos).

Cecília está às vésperas do seu aniversário de 13 anos e conta nesse diário o seu dia a dia, entre a convivência com a mãe (ela é órfã de pai), com suas tias, com as(os) colegas na escola, bem como com os garotos com os quais ela "fica" e, assim, vai naturalmente descobrindo a experiência de querer bem ao mundo e de se compreender como alguém que é única e diferente de todo mundo, ou seja, exatamente como se sente todo pré-adolescente.

O prazer suplementar dessa narrativa - que permite que qualquer pessoa leia o livro com prazer - é que ela tem a força da sinceridade de quem escreve num diário trancado a chave. Embora a mãe pareça ter livre acesso ao caderno. Tudo começou como um exercício escolar: uma professora descolada foi quem sugeriu a atividade. E Cecília embarcou de cabeça nessa circunstância encantadora que é a de se escrever para o "Meu querido Diário"!

Não faltam referências culturais nessa empreitada, pois Cecília é daquelas garotas que prestam atenção a sua volta. Também não faltará aquele temperamento adolescente que pode por vezes achar a mãe e os adultos pessoas chatas. Há ainda muito riso (gargalhadas) e lágrimas: Cecília demonstra sem vergonha todas as suas emoções, que são intensas e verdadeiras.

Enquanto eu lia o livro, fiquei pensando no talento dessa autora em colocar-se no lugar dessa garotinha! Deve haver ali muito da garota que vive dentro dela, é claro, mas há sobretudo essa generosidade própria dos artistas de se colocar no lugar do outro, imaginar-se uma garota do nosso tempo e ainda ofertar esse perfil eloquente ao mundo, ou seja, permitir que tantas outras garotas possam compartilhar desse segredo feminino e humano e que se revela, afinal, como o segredo de ser feliz naquele momento em que se perde uma certa inocência, mas se ganha a inquietação acerca de tudo o que ainda está por vir. Quando pela primeira vez perguntamos seriamente: O que será que vai acontecer?

Uma pergunta que, claro, continua pela vida afora.

Ah, também fiquei muito contente em ver esse livro publicado pela Paulinas, prova de que ali há um diretiva editorial bastante antenada com seu próprio tempo. Penso que o livro de Sylvia deve ser considerado arrojado, pois fala de tudo o que é importante que seja dito para a infância do nosso tempo, na linguagem e com a atitude que são comuns às nossas crianças.

Recomendo com fervor!

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Segredos de infância




Como sabem, eu estou lendo The Secret Garden by Frances Hodgson Burnett. E estou encantado com o livro e, claro, muito emocionado. Pois há passagens que são verdadeiras pérolas de espontaneidade infantil.

Lendo uma delas mergulhei tão fundo no sentido da descoberta ali expressa que, então, cheguei a pensar que sempre que me vejo muito empolgado, com literatura infantil ou com o universo da criança, sinto-me um pouco envergonhado com esse tipo de emoção que sinto, ou seja, por meio dessa identificação com a pureza expontânea que há na infância.

Explico-me melhor: o que primeiro me vem à mente é que tendo a achar que eu não deveria me emocionar tanto assim ou ser o alvo de uma identificação tão plena com essa mimesis da infância, na literatura ou na arte, e isso devido ao simples fato de que sou um adulto.

Por outro lado, tal vergonha logo passa, quando noto que há tanta coisa mais vergonhosa nas atitudes de um adulto, nas minhas próprias atitudes (ainda hoje e que são muito mais concretas!) do que a mera identificação com o que de puro e infantil sobrevive em mim e que, convenhamos, apenas comunga com um certo exagero de expressão. kkkkk

Sobretudo, quando a infância está em júbilo como nesta "cena" de O Jardim Secreto. Nela, as crianças veem a primavera chegar pela primeira vez.
Pois então, sim, Mary Lennox e Colin Craven, podemos ouvir com agradável surpresa soarem os trompetes dourados. Abram as janelas!

'It's so beautiful!' she said, a little breathless with her speed. 'You never saw anything so beautiful! It has come! I thought it had come that other morning, but it was only coming. It is here now! It has come, the Spring! Dickon says so!'
'Has it?' cried Colin, and thought he really knew nothing about it he felt his heart beat. He actually sat up in bed.
'Open the window!' He added, laughing half with joyful excitement and half at his own fancy. 'Perhaps we may hear golden trumpets!'






sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Um livro para o irmãozinho ou a irmãzinha

Eu tenho uma sobrinha linda e que tem apenas três aninhos de idade. A Amanda, como ela se chama, nasceu educada. No último fim de semana, eu a presenteei com 4 livrinhos infantis, de contos da carochinha... Ela ficou muito feliz, pediu para eu ler repetidas vezes a mesma história. rsrsrs
E, quando teve que ir embora, me disse:
- Muito obrigada pelos livros, titio!
Pois bem, essa minha sobrinha tem uma irmãzinha de apenas 1 ano de idade, e, outro dia, ela estava reclamando... da irmãzinha!
Eu fiquei comovido e porque conheço bem essa história, eu também tenho um irmão apenas dois anos mais novo do que eu e, lembro-me que, na infância, foi muito triste para mim quando ele apareceu em cena. rsrsrs
Houve até um tempo em que eu não concordava com os casais que têm filhos, seguidamente, muito provavelmente por conta desse trauma.
Mas, hoje, eu sei que os filhos podem vir mediante um planejamento, como podem vir de qualquer modo. E, então, por favor, também há mistério aí...
Pois bem, para os casais que já têm um filho e que programaram ou não a vinda de um segundo, e para o caso de ele vir de qualquer modo, para essa nave que é o planeta terra: bem, saibam que é sempre bom preparar, para essa tal novidade, aquele que veio antes, ou seja, que chegou por aqui primeiro.
Um livro infantil muito adequado para esse momento é o de Letícia Wierzchowski. A autora é mais conhecida pela sua obra A Casa das Sete Mulheres, que já foi levada às telas da Rede Globo de Televisão. Mas ela também escreve para crianças. E, agora, acaba de lançar Semente de Gente, pela série Galerinha, da Editora Record. Ela começa o livro de uma maneira bastante singela:

Era uma vez um menino
vendo crescer uma semente.
 Não era semente de planta,
era semente de gente.

Daí até o final, acompanhamos a espera da mãe, dos pais e do menino até a chegada do bebê. Há muita expectativa e muita lição de como é possível aprender a dividir as coisas e a multiplicar o amor.
Uma outra passagem que nos dá bem o tom do livro:

O menino acordou assustado
pensando na semente que crescia:
não precisava ser muito avançada,
com design europeu
e outras ousadias.
Era melhor um bebê básico,
com dois braços, duas pernas,
uma cabeça e dois olhos.
parecido com ele:
era isso que o menino queria.

E eu quase acrescentaria: e era isso que ele teria. rsrsrs
As ilustrações do livro são de autoria do artista plástico Virgilio Neves e são de uma riqueza sem igual. E, por isso mesmo, eu resolvi trazer alguns desses quadros para cá.

Enjoy it!







 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

terça-feira, 25 de maio de 2010

Andy Stanton & David Tazzyman

Ontem ganhei de uma amiga querida um livro infantil e comecei a ler no trajeto para casa. Não consegui parar de ler! É muito bom. Você tem filhos? Sobrinhos? Amiguinhos de 8, 9, 10 anos? Então, presentei-os com o Sr. Gum e os Goblins de Andy Stanton e ilustrado por David Tazzyman. Esses dois jovens pais ingleses são sensacionais. Eles estão em uma sintonia absolutamente positiva para escrever para crianças.




Andy vive no norte de Londres. Ele estudou inglês em Oxford, mas eles o expulsaram. rsrsrs David vive no sul de Londres. Gosta de futebol, críquete, biscoitos, música e desenhar. Não gosta de aipo. rsrsrs
Eles não são nada caretas e são pessoas boas, boníssimas. Só gente assim escreve para crianças com tamanha liberdade, alegria e verdadeiras boas intenções! O livro é escrito para crianças dessa geração que chegou ao mundo ainda ontem. É essa geração que já conhece o Harry Potter, não é mesmo? Eles brincam com tudo, inclusive com essa famosa personagem, quando, por exemplo, os heróis caem no poço eles dizem que só alguém como Harry Potter poderia sair dalí, não é o caso dos nossos heróis. É lógico! O livro é melhor que o do Harry Potter justamente porque deixa a magia no plano da imaginação, e, no final, a criança irá se dar conta de que o que vale na vida é tão somente saber que, como diz a personagem Sexta-Feira O’Leary: A VERDADE É UM MERENGUE DE LIMÃO!

Há algumas passagens que são hilárias:

não havia nada pior do que o Sr. Gum, nem mesmo cair acidentalmente em um vulcão cheio de professores de Matemática.

Um lugar onde a neve cai como a capa de Frankestein e o vento uiva como Drácula quando dá uma topada com o dedão do pé na mesa de centro.

Na descrição dos Goblins: Uns fedorentos, outros limpos, não, mentira, todos são fedorentos.

Um dos Goblins que tinha duas cabeças, estava lá sentado, discutindo sem parar consigo mesmo, não foi ele, foi ele sim, não foi ele.

Os nomes dos Goblins são todos absurdos do tipo Grifo, Sr. Galgo, Gargarejo, Gosmento e, de repente aparece um que se chama André Guilherme. Eu achei engraçadíssimo isso...

Só mais uma passagem: E eu devo ir armado somente com pensamentos puros, uma língua sincera e um coração cheio de coragem. Além de uma espada, no caso de todas estas coisas não funcionarem.

É leitura para a criançada chorar de rir. Claro, se as crianças forem tão legais como a Polly, a garota heroina do livro! Ela lembrou-me uma amiga que se chama... Poly!
Recomendo muito muito esse livro. É pura educação. Aliás, a educação é mesmo o pano de fundo do livro, como de todo bom livro. Os autores sugerem que as crianças (para não virarem monstrinhos...) abandonem a Escola de Tédio Doutor Chatice e frequentem a Escola Santo Pterodátilos para Pobres. Essa última é muito melhor do que a primeira, of course. Eu ainda não disse, mas esses personagens todos vão virar desenho animado do canal Nichelodeon. Achei muito bom: os desenhos do David parecem as garatujas infantis e tão cheios de vida! O livro faz parte da Coleção Galera, da Record e foi traduzido por Luiz Antonio Aguiar, acho que já é possível encontrar nas livrarias.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Shaun Tan

Anteontem, eu falava aqui da questão da condição da solidão humana e hoje falo de um livro a respeito desse mesmo assunto só que pensado para crianças. Trata-se de "A árvore vermelha", de Shaun Tan, traduzido por Isa Mesquita, com ilustrações do autor, lançado pela Edições SM.

A menina ruiva, personagem do livro, é conduzida em meio a imagens que são puro sonho, a partir do despertar em mais um dia sem promessas. Assim, passa a errar por uma cidade surreal e catastrófica, e vê sua esperança esvanecer-se sem explicação. Quando, no fim do dia, volta a seu quarto sombrio, ela testemunha o milagre da vida: um minúsculo broto que, graças à luz, num virar de página, se transforma em uma grande árvore vermelha!

Visitando o site do autor, descobri que ele é um artista completo.
Vejam a "versão brasileira" que elaborei a partir das informações que encontrei por lá, em inglês:

Shaun Tan nasceu em 1974 e cresceu nos subúrbios de Perth, Austrália.
Na escola, ele era conhecido com um "bom desenhista" o que compensava parcialmente o fato de ser sempre o mais baixinho da turma. Ele graduou-se com distinção na universidade de WA, em 1995, simultaneamente, em Artes e Literatura Inglesa e, atualmente, trabalha o tempo todo como um artista freelance e autor, em Melbourne.
Shaun começou desenhando e pintando imagens para histórias de terror e ficção científica em revistas de pequena tiragem, quando ainda adolescente, e, desde então, tem sido mais conhecido pelos livros ilustrados que tratam de temas sociais, políticos e históricos, através de um imaginário surreal e fantástico.

Livros como The Rabbits, The Red Tree (A Árvore Vermelha, único título lançado no Brasil), The Lost Thing e o aclamado romance sem palavras The Arrival, têm sido bastante traduzidos na Europa, Ásia e América do Sul e apreciados por leitores de todas as idades. Ele também trabalha como cenógrafo e  trabalhou no cinema para as produções Horton Hears a Who e Wall-E da Pixar. Atualmente, está dirigindo um curta com a Passion Pictures Australia. Seu livro mais recentemente publicado é o Tales from Outer Suburbia.

Ele diz que todo o seu trabalho como ilustrador é baseado, tanto direta quanto indiretamente, na observação pessoal da vida. Ele utiliza a maior parte do tempo possível produzindo uma única pintura, às vezes semiabstrata, mas quase sempre ele desenha coisas bem conhecidas: ruas, parques, praias, pessoas familiares, ou lugares que visitou muitas vezes. Ele é da opinião de que os limites entre "ilustração" e "pintura" são frequentemente tênues. Considera que talvez a principal diferença é que a pintura é mais autossuficiente como ideia pessoal, ou seja, ela é exterior a qualquer outra narrativa.


Agora é com você checar essas informações todas: o site de Shaun Tan é uma delícia de visitar.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Wendy Wonsuk Lee








Se eu escrevesse um livro infantil, pediria para Wendy Wonsuk Lee, essa ilustradora que vive no Queens, em New York, ilustrá-lo.
Acho que há nesse trabalho sonho, delicadeza, força (que está sobretudo nos cabelos das personagens) e muita imaginação: graças a essa capacidade tão rara de desprendimento do real. É como se um mundo próprio pudesse ser construído, sem culpa ou temor, ou quase...
Conheça outros trabalhos e converse com ela, se desejar: http://wendywlee.com/work20.html