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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Entre Yehoshua e Verdi


Esta manhã, no trem, vindo para o trabalho, eu comecei a leitura de um romance de A. B. Yehoshua: Fogo Amigo.

No primeiro e segundo capítulos, encontramos as personagens principais sendo apresentadas: o casal Yaári e Daniela. Ele está se despedindo da esposa no aeroporto, pois ela vai visitar o cunhado Yirmiyáhu, que ficou viúvo há apenas um ano. Daniela quer ir só, mas no primeiro capítulo ainda não saberemos exatamente o porquê. Já o marido está apreensivo por ela viajar sozinha. Haverá uma conexão no voo e ele explica-lhe que não quer que ela saia do aeroporto: “Daniela querida, lá é a África, não a Europa. Nada por lá é muito claro nem muito estável. E se você for à cidade poderá perder a hora ou se perder pelo caminho.”

Ela, claro, acha tudo exagerado. Ao que ele responde: “Só porque o meu amor por você é exagerado.” Então, ela lhe diz: “Quanto tem aí de amor e quanto de controle é algo que vamos ter de esclarecer um dia.”
Somos informados pelo narrador que o marido está preocupado devido ao fato de ela já ter quase 60 anos, sofrer de pressão alta e, sobretudo, porque nunca viajara sem sua companhia. Depois, ele vai para o trabalho e acompanhamos um pouco de sua rotina.

No segundo capítulo, encontramos Daniela em um free shop do aeroporto, distraída com a vendedora de batons, quando será conduzida pelo comissário de bordo até o avião. Quando ela ocupa o lugar que lhe pertence, ficamos sabendo o motivo íntimo dessa viajem:

“(...) ela está à procura de palavras precisas, e fatos olvidados ou talvez novos, que avivem a dor e o luto pela irmã mais velha, que ao morrer levou consigo parte da infância da irmã caçula. Sim, ela sente agora o desejo bem nítido de avivar o sentimento de perda e fender a casca de esquecimento que começou a envolvê-la. É esse o motivo pelo qual almeja passar alguns dias perto de alguém que ela conhece desde a infância, e cujo amor e lealdade para com a irmã nada ficavam a dever aos dela mesma.”

Quando, no início do terceiro capítulo, o cunhado fica sabendo, por meio do telefonema do marido, que Daniela está indo só ao seu encontro, admira-se, não porque acredite que ela não possa viajar sozinha:
“É claro que ela consegue, gracejou de Dar es Salaam a voz querida e familiar, e se for por apenas sete dias e não mais, ela vai resistir muito bem aqui sem você. Mas será que você vai aguentar? Vai mesmo aceitar a separação sem se arrepender na última hora e se juntar a ela?”

Nesse momento da minha leitura, a apresentadora do programa Manhã Cultura, da rádio Cultura FM, anunciou-me pelo fone de ouvido: Agora, ouviremos La donna è mobile (A mulher é voluvel), ária do terceiro ato da ópera Rigoletto, criada por Giuseppe Verdi. Gravação da interpretação do tenor que realizou a primeira performance dessa ária, em 1951: Raffaele Mirate.”

La Donna è móbile
Qual piuma al vento,
muta d'accento e di pensiero.
Sempre un amabile,
leggiadro viso,
in pianto o in riso, è menzognero.

La donna è mobil'.
Qual piuma al vento,
muta d'accento e di pensier!
e di pensier'!
e di pensier'!

via classic luggage
È sempre misero
chi a lei s'affida,
chi le confida mal cauto il cuore!
Pur mai non sentesi
felice appieno
chi su quel seno non liba amore!

La donna è mobil'
Qual piuma al vento,
muta d'accento e di pensier!
e di pensier'!
e di pensier'!

Não sei se porque eu já estava imbuído dessa história de uma relação em que temos um homem tão frágil diante de seu amor por uma mulher, fiquei deveras emocionado com essa ária que, no entanto, já ouvira tantas vezes, e que é tão singela e mesmo popular!

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

É melhor ser alegre que ser triste


Dois episódios distintos ocorreram comigo, em um intervalo bastante curto de tempo. Eu os achei tão instrutivos!
Ainda ontem, alguém me viu sorrindo. Na verdade eu estava sorrindo para essa pessoa, enquanto ela se aproximava. Ao se aproximar, então, ela disse:
- Josafá, por que você está alegre? O Brasil não está essa maravilha assim não, para você estar tão alegre!
Eu apenas respondi:
- É que eu sempre fico alegre quando te vejo!

Hoje, no elevador, encontrei duas colegas e uma delas elogiou-me, dizendo:
- Nossa Josafá, como você está elegante!
Eu respondi:
- Eu ia dizer o mesmo a respeito de vocês duas, mas você se adiantou e me elogiou primeiro. Obrigado!
E dei uma risada gostosa.
Então, a outra se manifestou:
- Josafá, eu gosto de você porque você é uma pessoa contente. Está sempre alegre, sorrindo.
Tive que comentar, rindo ainda mais:
- Obrigado! Você sabe que tem gente que não gosta de mim pelo mesmo motivo? Eu morro de rir, porque são resultados completamente diferentes e ambos se devem a uma mesma causa! Kkkkk

Deus conserve minha alegria genuína, então. Eu tenho certeza que tudo o que há de melhor em mim eu devo a Deus!

Esse assunto, lembrou-me também de uma professora de literatura na USP, com quem eu tive aulas, e que era uma simpatia. Ela era muito linda, charmosa e parte do seu charme se devia ao fato de dar gargalhadas sonoras durante as aulas. Nunca me esqueço da aula em que ela comentava um conto de Machado de Assis intitulado Uns braços. A começar pelo título ela já achava uma graça infinita naquilo e dizia:
 - O Machado é interessante porque ele é engraçado! Imaginem um conto que se chama Uns braços... kkkkk Ele poderia dar o nome que quisesse para essa história, mas ele resolveu ser metonímico e aí temos esse Uns braços nomeando o conto...kkkkk

Não tinha quem também não risse, sobretudo naquele contexto. A graça, a alegria e a beleza daquela mulher eram tão genuínos! Aliás, o bom do riso é que ele não tem uma lógica. O que é engraçado para uns pode não ser para outros, não é mesmo? Mas o melhor da marca do riso está na alegria que o provoca e que ele também sugere ao mundo. É exatamente como dizia Vinicius de Moraes: É melhor ser alegre que ser triste. Alegria é a melhor coisa que existe. É assim como a luz no coração...


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Sentir-se enlevado


Quando o sol incandesce a paisagem o meu desejo se renova e a primeira vontade que tenho é a de cantar um cântico de louvor ou uma canção de amor, que, afinal, são a mesmíssima coisa.
Fico, no entanto, procurando por essa canção que não foi sequer criada, pois embora jubilosa e exaltada ela deverá ser também serena.
Quero tornar público que eu sempre desejei o equilíbrio, mesmo quando isso não era ainda possível.
Aprendi a difícil lição de que começamos a valorá-lo depois que conhecemos o horror do surto. Assim, uma vez transpassado o ensaio da loucura, humílimos, reconhecemos a possibilidade e a necessidade do equilíbrio.
Isso tudo pensei, vejam só, na manhã de hoje, enquanto ouvia a composição Doce de Coco, de Jacob do Bandolim, pelo rádio, durante o trajeto para o trabalho.
Percebi, por fim, que essa obra parece evocar de algum modo esse equilíbrio que eu desejo viver: algo doce e prenhe de bondade. 
Trata-se, portanto, de uma experiência de prazer. Mas, uma espécie de prazer que alcança em seu socorro essa sensatez do equilíbrio das emoções, quando se revela o que chamamos de enlevo.  


terça-feira, 14 de junho de 2011

The world is nothing without a woman or a girl


Ontem, alguém me falava acerca da importância de não ouvirmos música ruim: de baixa qualidade. Por exemplo, com mensagens nas letras das canções que só convidam à discórdia e/ou ao desamor. Ou ainda que insistam na vulgaridade, na devassidão: quando, por exemplo, há um elogio ao descontrole da libido, considerado banal, e cujos resultados, sobretudo para a juventude, são sempre de dor. No Brasil, a coisa tem desandado nesse sentido e todo mundo já percebeu não é mesmo?
Então, lembrei-me imediatamente que, quando a arte é de um nível superlativo, o desenvolvimento desse mesmo instrumento, a canção, é completamente diferente e com finalidades opostas e isso justificava a minha ansiedade para ver, no domingo, o show de Sharon Jones e The Dap-Kings.
Eu e meus amigos chegamos ao local da apresentação, o Auditório Ibirapuera, quando a banda já se encontrava toda no palco e no momento exato em que entrava no palco, vestindo um vestido todo dourado, a cantora. Sharon Jones vibrava pela sua voz a condição feminina que ela representa por excelência: intensa, verdadeira, sedutora, talentosa e amorosa.
Ela cantava todo o tempo, desde o início e até o fim, sem intervalo, sem qualquer interrupção, sequer para falar, uma vez que quando precisava explicar qualquer coisa ao público [como quando quis ficar descalça ou até mesmo quando precisou calçar novamente as sandálias] ela justificava tudo o que fazia cantando... E também dançava, como alguém muito jovem, de grande vitalidade! [ela que não é nenhuma mocinha]
Aliás, algo que me tocou profundamente foi ver a plateia que se formou também quase toda ela composta de gente jovem. Jovialidade atrai juventude! Alguns sequer conheciam a cantora, mas se tornaram fãs absolutos naquele momento! E cantavam e dançavam e aplaudiam! Uma jovem perto de mim perguntou para outra: “Como é o nome dela mesmo? Sara Jane?” “Não, é Sara Jones!”
Eu não pude corrigi-las porque nesse momento Sharon Jones iria cantar o hit mais incrível que alguém pode ter no seu curriculum:

100 days, 100 nights
To know a man's heart
100 days, 100 nights
To know a man's heart
And a little more
Before he knows his own

E o que dizer da sua performance no bis? Depois dessa interpretação eu precisei ir embora, imediatamente, por que aquele momento pedia que fosse muito bem guardado no meu coração.
Ela cantou para o público em êxtase:

This is a man's world, this is a man's world
But it wouldn't be nothing, nothing without a woman or a girl.

Aliás, podemos dizer que nessa frase se resume toda a lição musical do último domingo, dia dos namorados, em São Paulo. O show de Sharon Jones é, em muitos sentidos, um convite ao entendimento do quanto a mulher deve ser respeitada, integralmente, e, sobretudo, do quanto o machismo é algo degradante. A liberdade e a força de expressão da artista não deixam de ser um libelo disso mesmo.