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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

É melhor ser alegre que ser triste


Dois episódios distintos ocorreram comigo, em um intervalo bastante curto de tempo. Eu os achei tão instrutivos!
Ainda ontem, alguém me viu sorrindo. Na verdade eu estava sorrindo para essa pessoa, enquanto ela se aproximava. Ao se aproximar, então, ela disse:
- Josafá, por que você está alegre? O Brasil não está essa maravilha assim não, para você estar tão alegre!
Eu apenas respondi:
- É que eu sempre fico alegre quando te vejo!

Hoje, no elevador, encontrei duas colegas e uma delas elogiou-me, dizendo:
- Nossa Josafá, como você está elegante!
Eu respondi:
- Eu ia dizer o mesmo a respeito de vocês duas, mas você se adiantou e me elogiou primeiro. Obrigado!
E dei uma risada gostosa.
Então, a outra se manifestou:
- Josafá, eu gosto de você porque você é uma pessoa contente. Está sempre alegre, sorrindo.
Tive que comentar, rindo ainda mais:
- Obrigado! Você sabe que tem gente que não gosta de mim pelo mesmo motivo? Eu morro de rir, porque são resultados completamente diferentes e ambos se devem a uma mesma causa! Kkkkk

Deus conserve minha alegria genuína, então. Eu tenho certeza que tudo o que há de melhor em mim eu devo a Deus!

Esse assunto, lembrou-me também de uma professora de literatura na USP, com quem eu tive aulas, e que era uma simpatia. Ela era muito linda, charmosa e parte do seu charme se devia ao fato de dar gargalhadas sonoras durante as aulas. Nunca me esqueço da aula em que ela comentava um conto de Machado de Assis intitulado Uns braços. A começar pelo título ela já achava uma graça infinita naquilo e dizia:
 - O Machado é interessante porque ele é engraçado! Imaginem um conto que se chama Uns braços... kkkkk Ele poderia dar o nome que quisesse para essa história, mas ele resolveu ser metonímico e aí temos esse Uns braços nomeando o conto...kkkkk

Não tinha quem também não risse, sobretudo naquele contexto. A graça, a alegria e a beleza daquela mulher eram tão genuínos! Aliás, o bom do riso é que ele não tem uma lógica. O que é engraçado para uns pode não ser para outros, não é mesmo? Mas o melhor da marca do riso está na alegria que o provoca e que ele também sugere ao mundo. É exatamente como dizia Vinicius de Moraes: É melhor ser alegre que ser triste. Alegria é a melhor coisa que existe. É assim como a luz no coração...


quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A maior autobiografia espiritual do século XX

Eu ganhei um livro magnífico de presente de aniversário. Insisto terminantemente, aqui, para o fato de que quem ainda não o leu deve fazê-lo: por tudo o que há de mais sagrado nesse mundo!
E posso falar isso porque seu autor, Benjamin Moser, considera a personagem da biografia que escreveu, simplesmente a autora de uma obra que é a maior autobiografia espiritual do século XX. Sim, eu ganhei o livro Clarice, [em português o título é esse mesmo, o primeiro nome da escritora seguido de uma vírgula; em inglês, o título original é Why this world].
Um tempo atrás, li matérias que falavam da descoberta do nosso bruxo Machado de Assis por uma estudiosa norte-americana, o que ajudou a fazer com que o nosso grande escritor brasileiro pudesse ter uma maior repercussão de sua obra pelo mundo. Com raras exceções, como um Guimarães Rosa que foi muito traduzido, ou Jorge Amado, ou ainda, o controverso Paulo Coelho, a literatura brasileira não ganha tanto status internacional porque ela acontece na língua portuguesa que não é tão falada pelo mundo afora quanto o inglês, o francês e o espanhol.
Então, de vez em quando, aparecem essas almas generosas que decidem anunciar aos quatro ventos um tesouro cultural brasileiro, sempre sem igual. É o caso de Clarice Lispector e, lendo o livro, eu sinto que nós admiradores brasileiros da grande escritora fomos, enfim, também resgatados junto com ela. Benjamin Moser fez o que todos nós gostaríamos de ter feito, ou seja, poder dizer ao mundo que, sim, Clarice é incompreensível apenas para quem não compreende que ser gente é isso mesmo: é poder ser o que ela foi para tantos, portanto, quase tudo. Como diz Moser:

A alma exposta em sua obra é a alma de uma mulher só, mas dentro dela encontramos toda a gama da experiência humana. Eis por que Clarice Lispector já foi descrita como quase tudo: nativa e estrangeira, judia e cristã, bruxa e santa, homem e lésbica, criança e adulta, animal e pessoa, mulher e dona de casa. Por ter descrito tanto de sua experiência íntima, ela poderia ser convincentemente tudo para todo mundo, venerada por aqueles que encontravam em seu gênio expressivo um espelho da própria alma. Como ela disse, “eu sou vós mesmos”.

O jovem escritor, aliás, é uma pessoa adorável. Há inúmeras entrevistas que ele concedeu na época do lançamento do livro. A que eu mais gosto é essa aqui, concedida para o programa Metrópolis da TV Cultura. Percebemos alguém que fala português muito bem, e isso faz compreendermos por que sua intimidade com a obra da escritora é tão intensa e também por que os resultados da pesquisa são tão ricos quando, por exemplo, ele situa o contexto histórico brasileiro a cada evento da vida da escritora. Aliás, eu gosto muito do olhar de fora para a nossa história, sobretudo quando é feito com tanto respeito.

Um aspecto tocante do livro é todo o seu início, contanto as origens de Clarice, e o sofrimento de sua família em fuga dos horrores da guerra e da pobreza. As revelações são absolutamente intensas e tão emocionantes que eu, sensível que sou, tenho de parar a leitura porque as lágrimas embaçam-me a visão.
Como os grandes livros, esse é um para não se ler em público, ele desnuda Clarice e, por conseguinte, também o leitor, que se vê tocado no fundo da alma por uma emoção que não é possível ficar muito exposta: os outros jamais entendem porque choramos em público!
Há também passagens engraçadas, porque a Clarice é o tipo trágico que também pode ser cômico. Ele conta, por exemplo, que certa feita ela dava uma entrevista e aconteceu o seguinte diálogo entre a escritora e a repórter:

- Você tem paz, Clarice?
- Nem pai, nem mãe.
- Eu disse “paz”.
- Que estranho, pensei que tivesse dito “pais”. Estava pensando em minha mãe alguns segundos antes. Pensei – mamãe – e então não ouvi mais nada. Paz? Quem é que tem?

Outra passagem, entre tantas magníficas do livro:

Com uma amiga [na infância], ela [Clarice] roubava rosas dos jardins dos recifenses mais endinheirados: “Era uma rua onde não passavam bondes e raro era o carro que aparecia. No meio do meu silêncio e do silêncio da rosa, havia o meu desejo de possuí-la como coisa só minha.” Ela e uma amiga entravam correndo no jardim, colhiam uma rosa e fugiam. “Foi tão bom que simplesmente passei a roubar rosas. O processo era sempre o mesmo: a menina vigiando, eu entrando, eu quebrando o talo e fugindo com a rosa na mão. Sempre com o coração batendo e sempre com aquela glória que ninguém me tirava.”

Eu trouxe para cá essa passagem, porque eu já vivi isso na minha infância, eu também roubava rosas e penso que essa é apenas uma das inúmeras passagens dessa biografia que é antes de tudo acerca dessa autobiografia espiritual e que sempre possibilitou que sentíssemos Clarice como alguém que é cada um de nós ou pode estar em cada um de nós também, seja como pessoa que ela foi, e como espírito que é.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Migalhas de Machado de Assis

Uma coisa muito boa desse época do ano, de festejos natalinos, é que ganhamos presentes. Eu, particularmente, adoro dar presentes. Esse ano, no entanto, mais ganhei do que dei, o que me faz pensar que talvez eu tenha merecido. Quero acreditar nisso!
;-D
Sobretudo isso faz-me acreditar que foi um ano no qual fiz novas e boníssimas amizades.
Uma nova amiga, por exemplo, deu-me hoje de presente um mimo de livro, a começar pelo título Migalhas de Machado de Assis, de Miguel Matos. Ele reuniu aforismos machadianos que extraiu da obra do velho bruxo.
Estou adorando. É livro de ficar na cabeceira, ou na mesinha de centro da sala de estar ou mesmo no banheiro. Irá proporcionar momentos de enlevo, do prazer de leitura rápida e esparsa e ao mesmo tempo leitura fortíssima e profunda como sói ser a leitura de tudo o que Machado escreveu.
Trago para cá alguns desses aforismos:

Há entre os suicidas um excelente costume que é de não deixar a vida sem dizer o motivo e as circunstâncias que os armam contra ela.

Depois da invenção do fumo não há solidão possível. É a melhor companhia desse mundo. Demais, o charuto é um verdadeiro Memento homo: convertendo-se pouco a pouco em cinzas, vai lembrando ao homem o fim real e infalível de todas as cousas: é o aviso filosófico, é a sentença fúnebre que nos acompanha em toda parte.

Quando a gente se aborrece dos homens toma sempre a afeição dos animais, que têm a vantagem de não discorrer, nem intrigar.

Os infelizes são apenas infelizes.

Ser feliz à vista de todos é repartir a felicidade.

terça-feira, 24 de março de 2009

Revisitando o bondoso Machado


Iniciei-me nos estudos literários quando eu era adolescente e o fiz, em parte, auxiliado pela escola (ainda que muito pouco auxiliado por ela) e, evidentemente, a partir da literatura brasileira. Foi quando conheci Machado de Assis. Nessa oportunidade, pude ler quase toda a obra do nosso bruxo.

Depois, quando iniciei o curso de letras na USP, reli suas obras principais, para a disciplina ministrada pelos Professores José Miguel Wisnik e Nádia Batella Gotlib. Mais adiante no tempo, ainda tive oportunidade de trabalhar alguns textos de Machado com os meus próprios alunos, quando lecionei para o Ensino Médio.

Já faz algum tempo que não retomo Machado e, por essa razão, hoje senti muitas saudades de seus escritos. Fui procurá-los na sua casa. Ao entrar no site da ABL, deparei-me com um link que remetia aos discursos que Machado proferira em vida. Selecionei esse trecho de um discurso que ele proferiu no Passeio Público da capital da República, ao ser inaugurado um busto do Poeta Gonçalves Dias, aos 2 de junho de 1901:

Dizem que os cariocas somos pouco dados aos jardins públicos. Talvez este busto emende o costume; mas, supondo que não, nem por isso perderão os que só vierem contemplar aquela fronte que meditou paginas tão magníficas. A solidão e o silêncio são asas robustas para os surtos do espirito. Quem vier a este canto do jardim, entre o mar e a rua, achará o que se encontra nas capelas solitárias, uma voz interior, e dirá pelo rosário da memória as preces em verso que ele compôs e ensinou aos seus compatrícios.

Quando os discursos do próprio Machado terminam naquela página, então, encontramos um de Rui Barbosa a que chamaram "Oração fúnebre proferida a 30 de setembro de 1908, na câmara ardente do escritor [Machado de Assis], na sede da Academia Brasileira de Letras, ao partir o enterro", aqui chamarei a atenção para esse trecho:

Não é o clássico da língua; não é o mestre da frase; não é o árbitro das letras, não é o filósofo do romance; não é o mágico do conto; não é o joalheiro do verso, o exemplar, sem rival entre os contemporâneos, da elegância e da graça, do aticismo e da singeleza no conceber e no dizer; é o que soube viver intensamente da arte, sem deixar de ser bom. Nascido com uma destas predestinações sem remédio ao sofrimento, a amargura do seu quinhão nas expiações da nossa herança o não mergulhou no pessimismo dos sombrios, dos mordazes, dos invejosos, dos revoltados. A dor lhe aflorava ligeiramente aos lábios, lhe roçava ao de leve a pena, lhe reçumava sem azedume das obras, num ceticismo entremeio de timidez e desconfiança, de indulgência e receio, com os seus toques de malícia a sorrirem, de quando em quando, sem maldade, por entre as dúvidas e as tristezas do artista.

O ressaltar da bondade de Machado irá também aparecer nessa Crônica de Euclides da Cunha, e que aparece na sequência, intitulada "A Última Visita". A ABL informa que ela foi publicada no Jornal do Commercio, em 30 de setembro de 1908, e que foi reproduzida no dia 1 de outubro, por ter saído com incorreções. A referência à sua bondade surge nesse trecho:

Realmente, na fase aguda de sua moléstia, Machado de Assis, se por acaso traía com um gemido e uma contração mais viva o sofrimento, apressava-se em pedir desculpas aos que o assistiam, na ânsia e no apuro gentilíssimo de quem corrige um descuido ou involuntário deslize.
Timbravam em sua primeira e última dissimulação: a dissimulação da própria agonia, para não nos magoar com o reflexo de sua dor. A sua infinita delicadeza de pensar, de sentir, e de agir, que no trato vulgar dos homens se exteriorizava em timidez embaraçadora e recatado retraimento, transfigurava-se em fortaleza tranqüila e soberana.

E gentilissimamente bom durante a vida, ele se tornava gentilmente heróico na morte...

Que coisa muito boa eu ter matado minhas saudades e ter encontrado no seu exemplo, lembrado por tais testemunhos, forças para alimentar, também em mim, o desejo de ser bom.