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quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A maior autobiografia espiritual do século XX

Eu ganhei um livro magnífico de presente de aniversário. Insisto terminantemente, aqui, para o fato de que quem ainda não o leu deve fazê-lo: por tudo o que há de mais sagrado nesse mundo!
E posso falar isso porque seu autor, Benjamin Moser, considera a personagem da biografia que escreveu, simplesmente a autora de uma obra que é a maior autobiografia espiritual do século XX. Sim, eu ganhei o livro Clarice, [em português o título é esse mesmo, o primeiro nome da escritora seguido de uma vírgula; em inglês, o título original é Why this world].
Um tempo atrás, li matérias que falavam da descoberta do nosso bruxo Machado de Assis por uma estudiosa norte-americana, o que ajudou a fazer com que o nosso grande escritor brasileiro pudesse ter uma maior repercussão de sua obra pelo mundo. Com raras exceções, como um Guimarães Rosa que foi muito traduzido, ou Jorge Amado, ou ainda, o controverso Paulo Coelho, a literatura brasileira não ganha tanto status internacional porque ela acontece na língua portuguesa que não é tão falada pelo mundo afora quanto o inglês, o francês e o espanhol.
Então, de vez em quando, aparecem essas almas generosas que decidem anunciar aos quatro ventos um tesouro cultural brasileiro, sempre sem igual. É o caso de Clarice Lispector e, lendo o livro, eu sinto que nós admiradores brasileiros da grande escritora fomos, enfim, também resgatados junto com ela. Benjamin Moser fez o que todos nós gostaríamos de ter feito, ou seja, poder dizer ao mundo que, sim, Clarice é incompreensível apenas para quem não compreende que ser gente é isso mesmo: é poder ser o que ela foi para tantos, portanto, quase tudo. Como diz Moser:

A alma exposta em sua obra é a alma de uma mulher só, mas dentro dela encontramos toda a gama da experiência humana. Eis por que Clarice Lispector já foi descrita como quase tudo: nativa e estrangeira, judia e cristã, bruxa e santa, homem e lésbica, criança e adulta, animal e pessoa, mulher e dona de casa. Por ter descrito tanto de sua experiência íntima, ela poderia ser convincentemente tudo para todo mundo, venerada por aqueles que encontravam em seu gênio expressivo um espelho da própria alma. Como ela disse, “eu sou vós mesmos”.

O jovem escritor, aliás, é uma pessoa adorável. Há inúmeras entrevistas que ele concedeu na época do lançamento do livro. A que eu mais gosto é essa aqui, concedida para o programa Metrópolis da TV Cultura. Percebemos alguém que fala português muito bem, e isso faz compreendermos por que sua intimidade com a obra da escritora é tão intensa e também por que os resultados da pesquisa são tão ricos quando, por exemplo, ele situa o contexto histórico brasileiro a cada evento da vida da escritora. Aliás, eu gosto muito do olhar de fora para a nossa história, sobretudo quando é feito com tanto respeito.

Um aspecto tocante do livro é todo o seu início, contanto as origens de Clarice, e o sofrimento de sua família em fuga dos horrores da guerra e da pobreza. As revelações são absolutamente intensas e tão emocionantes que eu, sensível que sou, tenho de parar a leitura porque as lágrimas embaçam-me a visão.
Como os grandes livros, esse é um para não se ler em público, ele desnuda Clarice e, por conseguinte, também o leitor, que se vê tocado no fundo da alma por uma emoção que não é possível ficar muito exposta: os outros jamais entendem porque choramos em público!
Há também passagens engraçadas, porque a Clarice é o tipo trágico que também pode ser cômico. Ele conta, por exemplo, que certa feita ela dava uma entrevista e aconteceu o seguinte diálogo entre a escritora e a repórter:

- Você tem paz, Clarice?
- Nem pai, nem mãe.
- Eu disse “paz”.
- Que estranho, pensei que tivesse dito “pais”. Estava pensando em minha mãe alguns segundos antes. Pensei – mamãe – e então não ouvi mais nada. Paz? Quem é que tem?

Outra passagem, entre tantas magníficas do livro:

Com uma amiga [na infância], ela [Clarice] roubava rosas dos jardins dos recifenses mais endinheirados: “Era uma rua onde não passavam bondes e raro era o carro que aparecia. No meio do meu silêncio e do silêncio da rosa, havia o meu desejo de possuí-la como coisa só minha.” Ela e uma amiga entravam correndo no jardim, colhiam uma rosa e fugiam. “Foi tão bom que simplesmente passei a roubar rosas. O processo era sempre o mesmo: a menina vigiando, eu entrando, eu quebrando o talo e fugindo com a rosa na mão. Sempre com o coração batendo e sempre com aquela glória que ninguém me tirava.”

Eu trouxe para cá essa passagem, porque eu já vivi isso na minha infância, eu também roubava rosas e penso que essa é apenas uma das inúmeras passagens dessa biografia que é antes de tudo acerca dessa autobiografia espiritual e que sempre possibilitou que sentíssemos Clarice como alguém que é cada um de nós ou pode estar em cada um de nós também, seja como pessoa que ela foi, e como espírito que é.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Clarice Lispector Só para mulheres. Eu li.

Sexta-feira passada, eu estava visitando um grande amigo. Como é bom ter amigos, como é bom conversar e rir com alguém que compartilha dos mesmos gostos e aprecia o que também apreciamos. Ele me mostrou um livro que ganhou de presente de aniversário. Trata-se de Clarice Lispector - Só para mulheres. A publicação dá prosseguimento ao resgate da obra jornalística de Clarice Lispector, iniciado em 2006, com o livro Correio feminino. Essa nova coletânea – organizada por Aparecida Maria Nunes, doutora em literatura brasileira pela USP – recupera as colunas femininas assinadas pela escritora sob os pseudônimos de Tereza Quadros e Helen Palmer, e como ghost-writer da atriz Ilka Soares, para o tablóide Comício e os jornais Correio da Manhã e Diário da Noite, nas décadas de 50 e 60.
Fica evidente que a Clarice escreveu para esses suplementos femininos porque precisava de grana. Mas também fica evidente o seu amor e respeito pelas leitoras. Essas leitoras não seriam as mesmas leitoras e leitores de seus romances, pelo menos não a maioria. As exigências de pauta conduziram os temas dos textos muito curtos. Mas quão grandiosa é Clarice que, mesmo falando de maquilagem, de culinária, do que seja... é ela mesma o tempo todo. Eu e meu amigo nos divertimos a valer. Ríamos, ríamos e ríamos no começo, no meio e no fim de cada trecho do livro. Era o riso franco de quem se encontrou entre os iguais e que compreende a sabedoria disfarçada em simplicidade absoluta. Que, diga-se de passagem, talvez seja essa a verdadeira sabedoria: saber dizer a qualquer um o que é importante que seja dito.
O meu amigo só tinha esse primeiro volume, mas já ouvi falar que são três.
Não resisto e trago alguns trechos para cá. Vejam se não é uma leitura deliciosamente agradável:

Pode-se amar sem admirar?
Pode-se dar amor natural, comum. Pode-se ter pena da pessoa ou ser fisicamente atraída por ela, e enganar-se pensando que essa reação é amor. Mas para que o amor real exista é preciso que você admire alguma coisa nele ou nela. Theodore Reik acha que o "amor só é possível quando você atribui um valor mais alto à pessoa do que a você, quando você vê nela ou nele uma personalidade que, pelo menos em algum sentido, é superior à sua."

Quem muito agrada, desagrada.
Nunca ouvi esse provérbio, acho que inventei agora mesmo. Mas você vai ver se esse provérbio, inventado ou não, não se aplica a pessoa que você conhece: Às que querem agradar a todo o preço. Então tornam-se "encantadoras". Procuram advinhar os mínimos desejos dos outros. Procuram elogiar de qualquer modo. Começam também a mostrar que fazem sacrifícios a cada momento. Esse tipo encantador pesa na alma dos outros. Em uma palavra: desagrada. Se a pessoa consegue ser e ficar à vontade, ela deixa os outros serem e ficarem à vontade.

Já se foi o tempo...
...Em que era considerado delicado deixar sempre um pouco de comida no prato. Hoje é perfeitamente educado comer toda a porção de que a pessoa se serviu.
...em que se pegava numa xícara de chá ou de café... erguendo o dedo mínimo. Hoje é gesto afetado, deselegante, de mau gosto.
...em que era de praxe recusar várias vezes uma gentileza antes de aceitá-la. Quando o convidarem para um jantar, agradeça, aceite, e não faça um drama "do trabalho que vai dar"... em que, ao sentar à mesa, dizia-se aos outros: "bom apetite!" Não é mais "fino" dizê-lo.
...em que a pessoa que tocava piano se achava no dever de recusar uma pequena audição, várias vezes, antes de aceitar. Se você, não quer realmente tocar, diga-o de um modo suave mas firme, o que em geral encerra o assunto. Mas se pretende terminar tocando, toque, por favor!

Impossível?
A maioria das coisas "impossíveis" são impossíveis apenas porque não foram tentadas. Quanta coisa você não faz apenas por timidez ou por medo...
Você já experimentou pintar paredes? Pois, acredite ou não, não é necessário tirar "curso" (só um pouco de "confiança-em-si-mesma" ajudaria, pois confiança é o que lhe falta).
A tinta, você compra. O pincel, também. A parede, você tem. Por incrível que pareça, você é dona dos instrumentos necessários. O que falta mais? Um pouco de ousadia e vontade de se divertir. (E de economizar).

Não lhes disse que era o máximo? São postagens de um blog de Clarice de 60, 50 anos atrás. ;-D

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

A Alegria de Clarice Lispector


Eu acho que nunca falei aqui de Clarice Lispector. Aliás, minto, falei o ano passado quando lia Um livro diferente de Clarice Lispector. Sim, é lógico que eu também amo Clarice como toda gente que sabe ser gente e, então, admira o ser gente dessa grande escritora brasileira.

Eu hoje estava com saudades dela. Faz um tempão que não leio seus escritos. E encontrei na web um textinho que espero, de verdade, seja de sua autoria. rsrsrs Penso que é porque é a cara dela. Nesse texto, ela descreve uma sensação que muitas vezes também sinto: a de uma alegria que parece gratuita e que só nos faz querer compartilhá-la.

Vejam que coisa mais linda! E comecemos essa primeira semana de 2010, assim, anunciando e buscando aqueles com quem possamos compartilhar uma alegria tão forte, tão extremada. ;-D

Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.




quinta-feira, 18 de junho de 2009

Quero ouvir Jacques Klein



Jacques Klein é um brasileiro ilustre e cearense de Aracati.
Ele simplesmente foi um dos pianistas brasileiros de maior prestígio e sua carreira foi, sim, de irradiação internacional.
Pelo São Google, fiquei sabendo que seu nome passou a ser reverenciado internacionalmente, em 1953, quando cursava o Conservatório de Música de Viena e conquistou por unanimidade o primeiro lugar do Concurso Internacional de Execução Musical, de Genebra, que, desde 1948, não elegia vencedores.
Mas se procurei saber de Klein, foi porque Clarice Lispector (vide post anterior) apresentou-me o artista, em uma daquelas conversas saborosas registradas no livro Entrevistas.
Klein contou a Clarice Lispector a respeito daquele epísódio de Genebra, ao responder sua pergunta Como voltou à música clássica? (Isso porque ele teve um período inicial de sua carreira como músico de intensa dedicação ao Jazz):

Foi do modo mais inesperado. Fui assistir a um filme como outro qualquer - e esse filme mudou toda a minha vida. Nele tocavam o Segundo Concerto de Rachmaninov, fiquei maravilhado. A vontade de tocá-lo fez com que eu procurasse um professor e começasse a ler de novo música, porque até isso eu já não sabia mais. Estudei com Dona Lúcia Branco, fui aos Estados Unidos estudar, voltei para cá e decidi que o piano era muito difícil e que eu deveria voltar-me ao estudo para a carreira diplomática. Essa resolução só durou seis meses. Voltei a Nova York onde estudei com um grande pianista americano, William Kapell. Depois fui a Viena, tive um período de estudos com Bruno Seidhofer, de onde saí para competir no Concurso Internacional de Genebra, naquela época o concurso mais importante da Europa. E para a minha surpresa - surpresa mesmo - tirei o primeiro lugar entre os 114 concorrentes. Esse concurso era anual, mas o primeiro prêmio já havia cinco anos não era concedido a ninguém. Aí vi que estava perdido (ri), não havia como escapar, eu tinha que seguir a carreira de pianista.
E seguiu!
Em meio a turnês na Europa, África do Sul e Israel, recebeu em 1955 a Medalha Harriet Cohen, em Londres, como melhor pianista do ano.
Foi solista de orquestras como a Filarmônica e a New Philharmonia de Londres, a Orquestra Nacional de Paris, a Sinfônica de Viena, a Filarmônica de Budapeste, a Orquestra Santa Cecília de Roma, a Filarmônica de Oslo, a Concertgebouw de Amsterdã, a do Mozarteum de Salzburgo, a Filarmônicas de Nova York e de Buenos Aires e as principais formações brasileiras, percorreu mais de 30 países e notabilizou-se como grande intérprete de Beethoven, tendo tocado os cinco concertos para piano e orquestra sob a regência de Kurt Masur e todas as sonatas diante de platéias exigentes como as de Frankfurt, Londres e Amsterdã.
Ele também foi alguém preocupado em tirar a música clássica do gueto, e, por isso, lecionou no Conservatório Brasileiro de Música, na Escola de Música da UFRJ e na Universidade de Miami.
Como dedicou sua carreira às audições públicas em concertos e recitais, deixou escassos registros em disco.
Mesmo tendo precocemente falecido, Jacques Klein nos deixou um importante legado através dos alunos que orientou. Entre os que tiveram o privilégio de estudar com ele, estão Arnaldo Cohen, Lílian Barreto, Ilze Trindade e Luiz Fernando Benedini. Faleceu aos 52 anos, em pleno apogeu artístico, quando dirigia a Sala Cecília Meireles pela segunda vez, em 23 de outubro de 1982, um mês depois de se apresentar pela última vez, no Rio, com a Orquestra de Câmara de Moscou.
Eu queria tanto ouvir um desses raros registros! Devo procurar um meio. A ver.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Um livro diferente de Clarice Lispector


Quem sabe que a vida é Mistério e dos mais absolutos, quem já amou ou sofreu, quem tem compaixão pelos loucos de verdade (os de mentira não contam), porque sabe que a loucura nos ronda o tempo todo, essas pessoas amam o artista e, portanto, amam Clarice Lispector. São os seus leitores e admiradores eternos.
Com muita simplicidade quero dizer que leio e admiro Clarice.
Uma época morei em Brasília, com um amigo que trabalhava no Itamaraty. Como ele já faleceu posso expor o que ele contou-me certa feita. Ele disse-me que conhecera uma funcionária que trabalhava há anos naquela casa e que, por sua vez, convivera com Clarice quando ela frequentava o Itamaraty pois fora casada com um diplomata. A funcionária, dizia o meu amigo, falou mal de Clarice, ela a achava uma pessoa difícil de lidar, intratável mesmo. Eu ouvi essa história com desconfiança. Não conheci a mulher, assim sendo, não pude julgar de todo a procedência desse depoimento. Mas pensei com meus botões: Clarice deve ter sofrido tendo que lidar com esses burocratas de Brasília. Eu, verdade seja dita, conheci gente boníssima no lugar, mas eu não convivia diretamente com os burocratas de plantão e sim com os universitários. E tenho comigo uma convicção: um artista jamais poderá ser compreendido por um burocrata.
Estou a falar de Clarice Lispector porque leio um livro surpreendente: Clarice Lispector - Entrevistas. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.
Como sabemos, Clarice trabalhou no meio jornalístico. Pois bem, foi nesse período que entrevistou grandes personalidades, escritores, músicos, artistas plásticos, atores. E todas essas entrevistas estão reunidas nesse livro que é um deleite.
Apenas para que vocês saibam a delícia de conversa que se podia ter com Clarice, reproduzo aqui algumas perguntas que ela fez para Nelson Rodrigues e suas respostas:

- Nelson, qual é a coisa mais importante do mundo?
É o amor.
- Qual é a coisa mais importante para uma pessoa como indivíduo?
É a solidão.
- O que é o amor, Nelson?
Eu sou um romântico num sentido quase caricatural. Acho que todo amor é eterno e, se acaba, não era amor. Para mim o amor continua além da vida e além da morte. Digo isso e sinto que se insinua nas minhas palavras um ridículo irresistível, mas vivo a confessar que o ridículo é uma das minhas dimensões mais válidas.

Não vou resistir e vou reproduzir também um trechinho da entrevista com Zagallo:

- Qual é o santo de sua devoção?
Santo Antonio e o seu?
Nos momentos difíceis Zagallo, eu me agarro a Santo Antonio, Santa Rita de Cássia e São Judas Tadeu.


Pois eu também, como Clarice, sou devoto de São Judas Tadeu.