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segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Sexo & Religião: o estudo de Dag Øistein Endsjø

O livro Sexo e religião: do baile de virgens ao sexo sagrado homossexual, do cientista da religião norueguês e professor da Universidade de Bergen, Dag Øistein Endsjø, propicia aos seus leitores um prazer bastante peculiar, o de acompanhar o desvelamento do vasto panorama que a obra situa em torno dos modos como a sexualidade humana é idealizada pelas principais religiões do mundo contemporâneo: Cristianismo, Judaísmo, Hinduísmo, Islamismo e Budismo. O livro já foi traduzido para sete idiomas e este ano se deu seu lançamento no Brasil, onde também assistimos ao debate em torno de temas polêmicos ligados à sexualidade, por exemplo, na agenda política, quando candidatos cristãos conservadores e candidatos pró-bandeiras do movimento LGBT se digladiaram, motivando ainda os desdobramentos acerca de tais manifestações entre usuários das principais redes sociais na internet. Portanto, encontrarmos este livro nas livrarias se reveste de um caráter de necessidade.

O interesse da obra de Dag Øistein Endsjø está justamente em questionar consensos. Nem sempre temas tabus a respeito da sexualidade humana foram assim considerados pelas religiões, ou antes, as origens de tais tabus ou mesmo do que hoje entendemos como preconceitos podem perfeitamente apontar para reflexões necessárias, sobretudo na direção da compreensão de que sexo e religião podem ser combinados de diferentes maneiras e de que, portanto, máximas como “O judaísmo sempre foi...” ou “O islã sempre foi...” não deixam de ter contrapontos muito produtivos, os quais a própria disciplina histórica revela e que dizem respeito à maioria das religiões na sua relação com a sexualidade.

Ao optar por não fazer uma abordagem cronológica e tampouco não tomando cada religião à parte para discorrer sobre o papel do sexo em cada uma, o pesquisador desperta ainda mais nosso interesse na leitura da obra, pois ele a organiza em capítulos temáticos, nos quais questões absolutamente contemporâneas são apresentadas a partir de uma pletora de informações sobre como as diferentes religiões viram ou veem os aspectos abordados. Assim, temos que alguns dos antecedentes, motivação e crenças gerais por trás da paisagem complexa de atitudes religiosas em relação ao sexo hoje, podem ser melhor compreendidos quando frente a uma análise mais detida sobre textos sagrados, mitos antigos, declarações doutrinais, material histórico, pesquisas de ontem e hoje sobre o comportamento sexual, além de uma grande variedade de outras fontes que o autor analisa.

No capítulo inicial sua intenção é compreender as fronteiras da própria religião: as religiões têm fronteiras e/ou limites? Uma vez que determinada religião espelha uma ampla gama de abordagens diante de diferentes tipos de sexo, até que ponto certas normas relativas à sexualidade podem ser circunscritas a ela? No capítulo seguinte, o desafio é o de compreender o que é o sexo para as religiões. A variação das definições do que se considera sexual obedece o que as diferentes comunidades de fiéis determinam, uma vez que, em essência, este é um fenômeno construído culturalmente. Isso é o que permite que conservadores do talibã considerem os tornozelos de uma mulher à mostra um crime que possa vir a ser punido, ou que, em determinados círculos cristãos, a masturbação mútua entre jovens solteiros possa vir a não ser considerada uma prática sexual propriamente.

O maior capítulo do livro é dedicado ao tema do sexo heterossexual, que traz o sugestivo título de Bençãos e maldições da heterossexualidade. Apesar de termos a falsa impressão de que o sexo heterossexual, por ser amplamente aceito, possa parecer mais livre, no contexto religioso, isso não é verdade. Segundo o autor, culpa, danação eterna e pena de morte são apenas alguns exemplos do que aguarda aqueles “que não lograram se ater ao parceiro heterossexual correto, ao contexto correto e aos orifícios corretos”. As sessões do capítulo são bastante elucidativas de até onde pode ir o cerceamento da liberdade do fiel heterossexual: sexo pré-conjugal, casamento como instituição, sexo obrigatório, sexo para fins de procriação, poligamia, sexo extraconjugal, divórcio e, ainda, demais proibições e orifícios corporais. Ou seja, após a análise de tal listagem, o que se conclui é que há poucas, senão nenhuma, áreas do comportamento sexual que a religião não tentou regular. Além disso, Endsjø considera que as regras para homens e mulheres são tão desiguais que mais correto seria tratar separadamente da heterossexualidade masculina e da feminina, ou seja, como categorias marcadamente distintas. Os homens sempre têm prerrogativas na condução de sua experiência sexual na maior parte das religiões.

No capítulo dedicado ao sexo homossexual, Endsjø declara que não há nada no fenômeno religioso como tal que forneça subsídios para que uma determinada religião seja homofóbica. Ele, aliás, elenca exemplos na tradição budista ancestral, além da experiência helênica, nas quais a homossexualidade foi amplamente abençoada. É evidente, no Cristianismo, que Jesus jamais proferiu palavra contra o sexo homossexual, embora as palavras de Paulo contra o mesmo sejam sempre lembradas de tempos em tempos para justificar a execução de homossexuais, além de, evidentemente, a narrativa de Sodoma e Gomorra no Antigo Testamento, que Endsjø nos esclarece foram condenadas muito mais pela falta de hospitalidade que exerciam, pois ela era um preceito importante no judaísmo de então. Os exemplos da perseguição aos homossexuais promovida pelos cristãos são inúmeros no capítulo, e que ocorreram ao longo de toda a história, apesar disso, talvez o mais chocante seja o do século passado, quando os ideais cristãos serviram como ponto de partida para a perseguição homossexual nazista e por que quem derrotou os nazistas foram os cristãos, um grande contingente de homens homossexuais não foram libertados dos campos de concentração, mas enviados para prisões para cumprir a pena a que os nazistas os condenaram, ou seja, embora não tenham sido o único grupo a que os nazistas perseguiram, foram o único cuja perseguição foi legitimada pelos aliados ao fim da guerra.

A verdade é que, segundo Endsjø, o reconhecimento religioso do casamento homossexual, o clamor pela pena de morte, uma liberalização maior dos costumes sociais, o surgimento de grupos religiosos homossexuais e um esforço crescente empreendido pelas religiões na manutenção da discriminação formam um quadro bem complexo. No entanto, o que se verifica também é que mesmo os mais conservadores são obrigados a recuar quando convivem com fiéis da mesma religião dotados de outra visão e, portanto, mais tolerantes em relação à homossexualidade. Além disso, embora a maioria dos cristãos homofóbicos, por exemplo, feche os olhos à trajetória sangrenta da perseguição aos homossexuais impingida pelo cristianismo durante séculos, quando se toma consciência de que aquilo que é condenado não são mais meras figuras abstratas, mas sim pessoas, nossos vizinhos, amigos, filhos e irmãos, o tradicional preconceito cristão deixa de ser assimilado tão facilmente. Contudo, a única conclusão possível deste capítulo é de que o leque de atitudes religiosas em relação à homossexualidade é mais amplo hoje do que jamais foi e de que não existe nenhuma visão da homossexualidade que não possa ser defendida sob uma perspectiva religiosa.

O livro vai fechando seu escopo de temáticas possíveis em torno do tema central da obra, em direção ao problema do racismo sexo-religioso entre outras formas de discriminação e também da visão do sexo, no contexto religioso, em cultos religiosos, sexo praticado com divindades, e até após a morte, afinal, a existência de vida após a morte é um tópico jamais contestado por nenhuma concepção religiosa (Endsjø acrescenta, “bem como jamais comprovado”) e, portanto, reflete algumas das mesmas ideias sexo-religiosas sobre as quais se fundamentam vários credos. Daí é que se originaram ideias como a de que sexólatras habitam regiões infernais dantescas ou ainda de que no arrependimento é possível alcançar o perdão de Deus, pois, de acordo com o Alcorão, o paraíso tem oito portas, enquanto o inferno tem apenas sete.

Perto do término do livro, no capítulo dedicado às Prioridades Sexuais da Religião, o autor nos apresenta uma rigorosa análise do problema central a que as religiões se veem atreladas: se os fieis não mais seguirem suas regras pertinentes à vida sexual e, portanto, na vida real e privada, esses mesmos fiéis podem passar a suspeitar de que não acreditam naquilo que professam, pois se sequer se comportam como suas crenças tradicionalmente exigem que eles se comportem! Mas, afinal, quais são as estratégias comuns adotadas pelos líderes religiosos para aproximar as normas sexo-religiosas da vida real? Em primeiro lugar é possível mudar as regras completamente, caso dos cristãos em relação, por exemplo, ao racismo-sexual, que sempre caracterizou parcelas consideráveis do cristianismo, mas cuja alteração é um exemplo de uma modificação de tal sorte que leigos, e até o próprio clero, acreditam que o modo como é hoje seja na verdade o modo original da doutrina. Também é possível coagir as pessoas a fazerem o que a doutrina determina. Essa foi a estratégia mais adotada no passado e há inúmeros países que a empregam até hoje e sem nenhum pudor. É evidente que esta estratégia é uma afronta direta aos direitos humanos e, portanto, condenada pela ONU entre outras organizações. Outra possibilidade que as religiões encontram como estratégia é a da simples expulsão das pessoas que não se comportam como as regras determinam. Endsjø é irônico ao falar dela, pois nos diz que o problema aqui é que talvez, nesse caso, as religiões tivessem que promover expulsões em massa de fiéis. Por fim, é possível também a esses religiosos tão somente ignorar as discrepâncias entre preceitos sexo-religiosos e comportamento, mas, como já vimos, isso estabelece a dúvida a todo o complexo das crenças: se não preciso realmente obedecer tal preceito, posso pôr em dúvida todos os outros.


Após percorrer do modo mais abrangente os interstícios do tema a que se propôs tratar, Endsjø é claro e taxativo ao nos lembrar que há três palavras que, ao menos na realidade de um mundo democrático, precisam ser sempre consideradas: livre-arbítrio, consentimento e respeito mútuos. Quando tais princípios são levados em conta, dá-se ao indivíduo o direito de decidir até que ponto ele será ou não governado por códigos de conduta sexo-religiosa e não teremos como determinante o fenômeno de que alguns queiram controlar a vida sexual alheia. Simples assim.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Das emoções do que se vê e do que se entrevê em Victor Hugo

                                           Deep Sea Flower by TylerXy

Uma grande emoção que tenho vivido, desde a última quinzena, tem sido a leitura do romance Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo. Tenho compartilhado com meus amigos, no facebook, minhas impressões de tal leitura, bem como trechos dessa obra.
Isso tem sido ótimo!
Outro dia, inclusive, encontrei uma moça no elevador da empresa em que trabalho, com quem tenho pouco contato na vida real, e ela comentou comigo:

- Nossa! Dá uma vontade de também ler o livro, quando a gente lê os trechos que você tem postado no face!

Fiquei contente, porque esse autor é tão pouco lido nos nossos dias! E ele foi, sem dúvida alguma, genial.
Uma das coisas que mais tem acontecido comigo, durante essa experiência de leitura, é eu ficar com os olhos marejados e ter que interrompê-la. Como apenas leio o livro durante o trajeto para o trabalho ou do trabalho para casa, faço a leitura em público, nos vagões dos trens da CPTM ou do Metrô de São Paulo. Hoje também aproveitei para ler o romance na fila de um banco, local em que fui obrigado a aguardar pelo atendimento por mais de uma hora. Que bom que eu estava com o livro. Jamais se aventure a frequentar uma fila durante tanto tempo sem ter um livro para ler!

De qualquer modo, seja no interior de vagões ou em filas, o constrangimento é sempre o mesmo, ter de verter lágrimas, durante a leitura, e perceber que as outras pessoas ficam se perguntando:

- Afinal, o que faz esse homem chorar? O que este livro pode conter de tão triste ou de tão emocionante?

Bem, nesse livro (eu ia dizer filme! hahaha) a história se passa a maior parte do tempo no mar. Em lugares inabitados ou mesmo hostis à presença humana. Lendo o capítulo XIII da obra,  O QUE SE VÊ E O QUE SE ENTREVÊ, deparei-me com um trecho com o qual me emocionei, especialmente, porque tive uma sensação que me pareceu antiquíssima: a de visitar um ambiente que é muitíssimo familiar à nossa espécie, apesar de tudo, de todo o estranhamento aparente... Afinal, sim, não podemos esquecer que todos viemos do mar.

Bonne lecture et bonne relecture!

Debaixo dessas vegetações escondiam-se e mostravam-se ao mesmo tempo as mais raras joias do escrínio do oceano, os martins, as mitras, os elmos, as púrpuras, os búzios, os estrutiolários, as conchas univalves. As campanas de lapas, semelhantes a barracas microscópicas, aderiam ao rochedo e grupavam-se em aldeias em cujas ruas rolavam as multivalves, esses escarabeus da vaga. Não podendo os seixos de mariscos entrar facilmente nessa grota, aí se refugiavam as conchas. As conchas são grandes fidalgos que, bordados e paramentados, evitam o rude e incivil contato do populacho das pedras. A fúlgida reunião das conchas fazia debaixo da água, em certos lugares, inefáveis irradiações através das quais entrevia-se um grupo de azuis e vermelhos, e todos os reflexos da água.
Na parede da caverna, um pouco acima da linha de flutuação da maré, uma planta magnífica e singular prendia-se como um debrum à tapeçaria do sargaço, continuava-o e terminava-o. Essa planta, fibrosa, vasta, inextrincavelmente dobrada, e quase negra, oferecia ao olhar largas toalhas embaraçadas e obscuras, ornadas em toda a extensão de numerosas florinhas cor de lápis-lazúli. Na água parecia que essas flores acendiam-se, e cuidava-se ver brasas azuis. Fora da água eram flores, dentro da água eram safiras, de modo que a onda, subindo e inundando o esvazamento da grota, revestia essas plantas e cobria o rochedo de carbúnculos.

A cada enchimento da vaga túmida como um pulmão, essas flores banhadas resplandeciam, a cada abaixamento apagavam-se; melancólica semelhança com o destino. Era a aspiração, que é a vida; era a expiração, que é a morte.
(HUGO, Victor. Os Trabalhadores do Mar. Trad. Machado de Assis. São Paulo: Nova Cultural, 2002, p. 220-221)

terça-feira, 10 de setembro de 2013

A Tulipa Negra

No mês passado, eu postei a imagem de um canteiro de tulipas na minha página do facebook. Algumas pessoas, sensibilizadas por tanta beleza, curtiram ou mesmo comentaram a postagem, algumas dizendo o quanto amavam a flor. Uma tia querida disse-me ainda que, não sabia o motivo ao certo, mas sempre sentira a tulipa como se ela fosse mesmo uma flor romântica. Disse que talvez isso se desse por influência de uma leitura que ela fizera de um romance de Alexandre Dumas, A Tulipa Negra.
Eu, imediatamente, fiquei com vontade de ler o livro. Eu sou assim, não posso ouvir falar em um clássico da literatura que lamento não o ter lido e, encontrando o livro, corrijo imediatamente a falta.
Pois bem, foi em um sebo no centro da cidade que encontrei uma edição do romance francês, em português. A edição que li, portanto, foi esta preparada para a FTD, com tradução e adaptação de Francisco Balthar Peixoto e que contém lindas ilustrações de Alexandre Camanho.
O autor de Os três mosqueteiros escreveu esta história fascinante e que se passa na Holanda do século XVII. Entre o início de 1672 e 15 de maio de 1673, mais precisamente. Injustamente acusado de traição, Cornélius van Baerle, médico e cultivador de tulipas, é preso, e habitando a cela de uma prisão se apaixona por Rosa, a bela filha do carcereiro.
Então, teremos a conjunção de um amor praticamente impossível , bem como a necessidade do prisioneiro de cultivar a tulipa negra. É que era essa a intenção de van Baerle, desde antes de ser preso injustamente: participar do desafio que a Associação Hortícola de Haarlem propusera, bem como receber o prêmio concedido àquele que conseguisse produzir a tal tulipa.
Dumas partiu inicialmente de fatos históricos verdadeiros, o do assassinato dos irmãos De Witt, políticos influentes no reinado do príncipe Guilherme de Orange e que são considerados traidores do reino (no romance, um deles é padrinho do protagonista), bem como o do crescimento da especulação econômica em torno da planta. Ele entrelaça tais fatos com uma belíssima história de amor e de aventura.

Assim sendo, há obviamente um invejoso vizinho que também cultivava papoulas e que se torna o vilão da história. E, por mais que nós saibamos que ninguém é totalmente mal, assim como ninguém é bom, completamente, ainda assim, quando uma literatura como a de Dumas nos apresenta esses tipos puros e que correspondem ao arquétipo dessa duplicidade que há em nós, penso que, da mesma maneira que queremos nos melhorar, nós também desejamos, na história e pela história, que o bem e o amor vençam por fim.

Há maior alegria do que ter esse desejo completamente satisfeito?

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Entre Yehoshua e Verdi


Esta manhã, no trem, vindo para o trabalho, eu comecei a leitura de um romance de A. B. Yehoshua: Fogo Amigo.

No primeiro e segundo capítulos, encontramos as personagens principais sendo apresentadas: o casal Yaári e Daniela. Ele está se despedindo da esposa no aeroporto, pois ela vai visitar o cunhado Yirmiyáhu, que ficou viúvo há apenas um ano. Daniela quer ir só, mas no primeiro capítulo ainda não saberemos exatamente o porquê. Já o marido está apreensivo por ela viajar sozinha. Haverá uma conexão no voo e ele explica-lhe que não quer que ela saia do aeroporto: “Daniela querida, lá é a África, não a Europa. Nada por lá é muito claro nem muito estável. E se você for à cidade poderá perder a hora ou se perder pelo caminho.”

Ela, claro, acha tudo exagerado. Ao que ele responde: “Só porque o meu amor por você é exagerado.” Então, ela lhe diz: “Quanto tem aí de amor e quanto de controle é algo que vamos ter de esclarecer um dia.”
Somos informados pelo narrador que o marido está preocupado devido ao fato de ela já ter quase 60 anos, sofrer de pressão alta e, sobretudo, porque nunca viajara sem sua companhia. Depois, ele vai para o trabalho e acompanhamos um pouco de sua rotina.

No segundo capítulo, encontramos Daniela em um free shop do aeroporto, distraída com a vendedora de batons, quando será conduzida pelo comissário de bordo até o avião. Quando ela ocupa o lugar que lhe pertence, ficamos sabendo o motivo íntimo dessa viajem:

“(...) ela está à procura de palavras precisas, e fatos olvidados ou talvez novos, que avivem a dor e o luto pela irmã mais velha, que ao morrer levou consigo parte da infância da irmã caçula. Sim, ela sente agora o desejo bem nítido de avivar o sentimento de perda e fender a casca de esquecimento que começou a envolvê-la. É esse o motivo pelo qual almeja passar alguns dias perto de alguém que ela conhece desde a infância, e cujo amor e lealdade para com a irmã nada ficavam a dever aos dela mesma.”

Quando, no início do terceiro capítulo, o cunhado fica sabendo, por meio do telefonema do marido, que Daniela está indo só ao seu encontro, admira-se, não porque acredite que ela não possa viajar sozinha:
“É claro que ela consegue, gracejou de Dar es Salaam a voz querida e familiar, e se for por apenas sete dias e não mais, ela vai resistir muito bem aqui sem você. Mas será que você vai aguentar? Vai mesmo aceitar a separação sem se arrepender na última hora e se juntar a ela?”

Nesse momento da minha leitura, a apresentadora do programa Manhã Cultura, da rádio Cultura FM, anunciou-me pelo fone de ouvido: Agora, ouviremos La donna è mobile (A mulher é voluvel), ária do terceiro ato da ópera Rigoletto, criada por Giuseppe Verdi. Gravação da interpretação do tenor que realizou a primeira performance dessa ária, em 1951: Raffaele Mirate.”

La Donna è móbile
Qual piuma al vento,
muta d'accento e di pensiero.
Sempre un amabile,
leggiadro viso,
in pianto o in riso, è menzognero.

La donna è mobil'.
Qual piuma al vento,
muta d'accento e di pensier!
e di pensier'!
e di pensier'!

via classic luggage
È sempre misero
chi a lei s'affida,
chi le confida mal cauto il cuore!
Pur mai non sentesi
felice appieno
chi su quel seno non liba amore!

La donna è mobil'
Qual piuma al vento,
muta d'accento e di pensier!
e di pensier'!
e di pensier'!

Não sei se porque eu já estava imbuído dessa história de uma relação em que temos um homem tão frágil diante de seu amor por uma mulher, fiquei deveras emocionado com essa ária que, no entanto, já ouvira tantas vezes, e que é tão singela e mesmo popular!

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A Little Princess

Faz pouco tempo, eu descobri um outro livro de Frances Hodgson Burnett, A Little Princess. Ela é a mesma autora do livro The Secret Garden do qual eu já tive o prazer de falar a respeito aqui. Fiquei superfeliz de descobrir que eu poderia novamente adentrar nesse universo sofisticado de uma infância mágica e delicada, que a autora traz à tona, quando os bons sentimentos são exercitados com todo o frescor e vigor de uma vida quintessenciada: mais espiritualizada, portanto.

Pois bem, comprei pela internet essa versão do romance (graças a uma dica de um amigo do facebook, aliás, dois amigos sofisticados que tenho por ali conheciam a obra e fizeram coro comigo de que ela merecia ser lida!) Tal versão, na verdade, é uma adaptação assinada por Eliza Warren. Não achei, portanto, a versão originalíssima. Mas, creio que tal adaptação foi feita para aproximar essa história da linguagem das crianças de nossos dias, posto que a autora escrevia entre o final do XIX e começo do XX. A ver.

Pois saibam que eu passei um pouco de vergonha com esse livro nas mãos, durante as viagens que faço do trabalho para casa, de metrô e de trem. É que ele é tão emocionante que a gente não se furta a derramar lágrimas.

Vejam vocês se eu não tenho razão!

Trouxe abaixo um excerto de uma passagem memorável do romance. Ah, é sempre bom lembrar que a vida pode mesmo apresentar tais circunstâncias e, sim, devemos então aprender, com tais percalços, a arte de bem viver, fazendo o bem sempre! Essa é a principal lição de Mrs Burnett, of course!


As he looked across the street, he saw Sara standing on the wet pavement looking at him wistfully. He thought her eyes looked hungry because she had had nothing to eat for a long time. What Sara was really hungry for was the happy home life Guy Clarence enjoyed with his family.

However, Guy Clarence knew only that this poor girl had big eyes, a thin face and legs, and shabby clothes. So Guy put his hand in his pocket and walked right up to her.

“Here, poor little girl,” he Said. “Here is a sixpence. I would like give it to you.”

All at once Sara realized how long it had been since her father had died and Miss Minghin had banished her to the attic. She realized that she now looked exactly like the poor children she used to see in the London streets, straining for a glimpse of her, as she got into her own fancy carriage. Her face turned red and then pale. For a second she felt as if she could not accept the coin.

“Oh no!” she said. “Oh, no, thank you. I couldn’t take that.”

Her voice was so unlike that of an ordinary street child and her manner so like that of a well brought-up girl that Veronica Eustacia (whose real name was Janet) and Rosalind Gladys (who was really called Nora) leaned forward in the carriage to listen.

Guy Clarence would not take no for an aswer. Immediately, He shoved the sixpence into Sara’s hand. “Yes, you must take it,” He insisted. “You can buy a lot to eat with this. It’s a whole sixpence.”

“Thank you,” she said.  “You are very kind.”

As he scrambled happily back into his carriage, Sara went on her way, trying to smile, although she felt tears welling in her eyes. She had thought she might look Odd and disheveled, but she’s lost track of how long she’d been living up in the attic of Miss Minchin’s. Until now she hadn’t realized that she’d come to look like a beggar.

[Quando o olhar dele cruzou a rua, viu Sara em pé na calçada molhada, olhando-o melancolicamente. Ele achou que seus olhos pareciam famintos, porque ela não comia há muito. Sara, no entanto, estava realmente faminta era daquela vida feliz em um lar e que Guy Clarence desfrutava com sua família.
No entanto, Guy Clarence apenas sabia que esta pobre menina tinha olhos grandes, um rosto fino, assim como suas pernas, e roupas surradas. Então, Guy colocou a mão no bolso e caminhou até ela.

"Aqui, pobre menina," disse ele. “tenho seis tostões e quero dá-los a você.”

De repente, Sara compreendeu quão longo tempo se passara desde que seu pai tinha falecido e a senhorita Minghin a tinha banido para o sotão. Esforçando-se por vislumbrar a si, transportando-se como se vestisse uma fantasia de si mesma, ela percebeu que agora se parecia exatamente como as crianças pobres que ela costumava ver nas ruas de Londres, e que buscavam vislumbrá-la enquanto ela tomava sua própria sofisticada carruagem. Seu rosto ficou vermelho e depois pálido. Por um segundo, ela sentiu como se não pudesse aceitar a moeda.

"Oh, não!" disse. "Oh, não, obrigada. Eu não poderia aceitar."

Sua voz era tão diferente daquela comum a uma criança de rua e seu jeito tão parecido com o de uma menina bem nascida que Verônica Eustácia (cujo nome verdadeiro era Janet) e Rosalind Gladys (que na verdade era chamada de Nora) a fim de ouvi-la se inclinaram para a frente no carro.

Guy Clarence não aceitaria um não como resposta. Imediatamente, ele empurrou a moeda na mão de Sara. "Sim, você deve aceitar", insistiu. "Você pode comprar um monte de comida com isso. São seis tostões!"

“Obrigada,” disse ela. “Você é muito gentil.”

Assim como ele ao voltar para a carruagem, Sara seguiu seu caminho mexida, tentando sorrir, embora sentisse as lágrimas brotando em seus olhos. Ela achava que pudesse parecer estranha, despenteada, mas perdera a noção de quanto tempo já vivia no sótão da senhorita Minghin. Até então, não tinha percebido que pudesse ser vista como uma mendiga.]

Liesel Matthews is Sara Crewe in A Little Princess (1995)
directed by Alfonso Cuarón




segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Aqui está Nova York (Ali está São Paulo)


Que grata surpresa a leitura desse livro!

Afinal, Nova York sempre estará no nosso imaginário citadino. Se você vive em uma cidade como São Paulo – também ela uma megalópole – será inevitável fazer aproximações entre ambas.

Pois veja só: tal aproximação é absolutamente possível independentemente do fator temporal em que a vida nessas cidades seja representada! 
Sobretudo, se pensarmos no aspecto mais poético dessa possível representação. Ao menos é o que pude perceber lendo essa espécie de homenagem que o jornalista E.B. White, um dos pilares da revista The New Yorker, escreveu  no final da década de 40 e publicou  em forma de artigo na revista Holiday e, depois ainda no formato de um livrinho.
A tradução é de Ruy Castro na edição brasileira publicada pelo José Olympio Editora.


Vejam se não é possível pensar o mesmo mutatis mutandi acerca de Sampa, mesmo que ele esteja falando da realidade de uma Nova York de setenta anos atrás:

Nova York combina a dádiva da privacidade com o excitamento da participação; e, mais que a maioria das comunidades densas, logra insular o indivíduo (se ele o quiser, e quase todo mundo quer ou precisa disso) contra tudo de enorme, violento e maravilhoso que acontece a cada minuto.

(...) Para quem vem de fora, uma estada em Nova York pode ser (e com frequência é) uma sucessão de pequenos embaraços, desconfortos e desapontamentos: não entender o garçom, não saber distinguir entre uma armadilha para otários e um lugar amistoso, tomar o metrô errado, ser esbofeteado pelo motorista de ônibus por ter feito uma pergunta inocente e passar noites sem dormir porque os ruídos da cidade vazam para dentro do quarto do hotel (...) Mas não é incomum, em Nova York, encontrar os desiludidos – um jovem casal, ostensivamente de visita, quem sabe recém-casado, para quem o sonho colorido evaporou-se. A cidade foi demais para eles; pode-se vê-los, sentados e desmilinguidos, almoçando em silêncio num restaurante barato.

Mas, sem dúvida, o mais incrível foi o tom profético que essa mensagem alcançou nessa passagem (impossível não pensar no 11 de setembro):

A mudança mais sutil em Nova York refere-se a algo de que as pessoas não falam mas que está na cabeça de todo mundo. A cidade, pela primeira em sua história, ficou destrutível. Uma simples revoada de aviões pouco maiores do que gansos pode rapidamente acabar com essa ilha da fantasia, queimar as torres, desmoronar as pontes, transformar as galerias do metrô em câmaras letais, cremar milhões. A suspeita da mortalidade faz parte agora de Nova York: no som dos jatos sobre nossas cabeças, nas manchetes pretas da última edição.

E, por fim, seleciono um excerto que representa um traço de profunda delicadeza e humanidade dessa prosa:

(...) Nos cortiços há pobreza e péssima moradia, mas também uma tranquilizante sobriedade e segurança da vida familiar. Sigo para leste, ao longo do Rivington. Tudo é alegre, sujo e superlotado. As lojinhas transbordam para a calçada, deixando  apenas meia largura para os transeuntes. À luz das lâmpadas nuas, brilham melancias e peças de lingerie. As famílias fugiram dos quartos quentes dos andares superiores e vieram para a rua. Sentam-se em caixas de laranja, fumando, relaxadas, afins umas às outras. (...)

Não deixe de ler na íntegra. ;-)

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Que ventura quando somos polidos!


Henri Bergson
Foi inevitável ouvir minha mãe, que é uma senhora de 75 anos de idade, conversando ao telefone com uma amiga. Então, mamãe dizia a certa altura:
- É, às vezes, a gente dá uma de ignorante...
Imediatamente, eu pensei:
- No seu caso só se for puro fingimento mesmo! kkkk 
Acredito que, muito provavelmente, ela estava apenas querendo concordar com a tal amiga, que, por sua vez, devia estar contando que, enfim, fora grosseira em alguma ocasião.
A verdade é que minha mãe é completamente o oposto do que seria uma pessoa "ignorante", ou seja, no sentido de ser alguém que teria atitudes grosseiras ou que se comportaria de maneira mal educada, com impolidez.

Por falar em seu oposto, tal incidente - eu ouvir a tal conversa - fez com que eu me lembrasse que emprestara um livro de uma amiga e que trata dessa virtude que é a polidez [há quem pense que não é bem uma virtude, mas...]. Lembrei-me também que já passou da hora de eu devolver o livro. Então, eu o retirei da estante para deixá-lo mais próximo de mim e, assim, não me esquecer de devolvê-lo à dona.

Ao fazê-lo, no entanto, não pude resistir a abrir o tal livro que é uma coletânea. Por um acaso o abri em um texto de Henri Bergson chamado Da Polidez.

É tão lindo o que ele diz que vou compartilhar uns excertos com todos vocês:

O homem do mundo ideal sabe falar às pessoas sobre aquilo que as interessa; olha do ponto de vista do outro sem por isso adotá-lo sempre; entende tudo sem por isso tudo desculpar. O que nos agrada nele é a facilidade com a qual circula entre os sentimentos e as idéias; talvez também a sua arte, quando nos fala, de nos fazer pensar que não seria o mesmo com todas as pessoas; pois é peculiar a esse homem extremamente polido preferir cada um de seus amigos aos outros, e conseguir mesmo assim amar a todos igualmente. Logo, um juiz demasiado severo poderia colocar em dúvida sua sinceridade e sua franqueza. Não se deixem enganar contudo; sempre haverá entre essa polidez refinada e a hipocrisia obsequiosa a mesma distância que há entre o desejo de servir as pessoas e a arte de se servir delas.
(...)
Parece, portanto, que a polidez sob todas as suas formas, polidez do espírito, polidez das maneiras e polidez do coração, nos introduz numa república ideal, verdadeira cidade dos espíritos, onde a liberdade seria a libertação das inteligências, a igualdade uma divisão equitativa da consideração e a fraternidade uma delicada simpatia pelos sofrimentos da sensibilidade. Seria o prolongamento da justiça e da caridade além do mundo tangível; acrescentaria à vida de todos os dias, em que relações úteis se estabelecem entre os homens, o charme sutil de uma obra de arte. A polidez assim concebida reclama o concurso do espírito e do coração; ou seja, ela é pouco ensinada; mas se alguma coisa a predispusesse ao ensino, seriam os estudos desinteressados, e principalmente os que vocês fazem aqui, jovens estudantes, os estudos clássicos. 
(...)
TIZIANO Vecellio
Man with a Glove (1520-22)
Sem ir tão longe, não se poderia dizer que a melhor preparação para essa polidez do espírito é ainda a leitura dos autores antigos? Os antigos devotaram às ideias um amor mais puro do que o nosso, pois eles as amavam por elas próprias, ao passo que nós as amamos por aquilo que elas nos dão. A ideia é para nós sobretudo um princípio de ação; era objeto de contemplação para os antigos. Lembrem-se de algumas páginas dos diálogos de Platão, e da deliciosa inutilidade daquelas conversações em que Sócrates e seus discípulos pareciam menos preocupados em afirmar seus pensamentos do que em fazer deles um espetáculo, e mesmo brincar com eles. Temos pressa em atingir nossos objetivo, e nossa caça às ideias parece uma corrida; para os antigos era um passeio, e demoravam-se de bom grado ao longo do caminho porque achavam-no belo. Enfim, se nossa moral é mais profunda do que a moral antiga, se nossa justiça é mais rigorosa e nossa caridade mais generosa, se compreendemos melhor o que faz a seriedade, a gravidade e, para resumir, a importância da vida, os antigos perceberam melhor seu encanto. Foi amando a vida que se tornaram amáveis, e a amavam porque sabiam descobrir nela a beleza, e, como diria Platão, resolver as questões em ideias. Sigamos seu exemplo, e se não dispomos mais das mesmas possibilidades para nos entregarmos à contemplação do belo, aprendamos ao menos, na sua escola, a polidez do espírito e a arte de considerar a vida amável (...).

[BERGSON, Henri, Da Polidez In: A polidez: virtude das aparências, organização de Régine Dhoquois, tradução de Moacyr Gomes Jr. Porto Alegre: L&PM, 1993.]

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Livro, um romance de José Luís Peixoto


Achei essa capa muito boa,
esse carrinho de bebê
abandonado no meio do nada!
 Livro é o nome do livro que ora leio e ele é uma grata surpresa em muitos sentidos.
Primeiramente, é um presente e que recebi de uma pessoa que não conheço pessoalmente, mas por quem nutro muito, muito carinho. Trata-se da minha amiga Renata Viana, brasileira, radicada em Portugal. Ela é alguém com quem venho, talvez a mais de um ano, tendo contado pelo facebook. Ela e seu marido, Antonio Castro, são pessoas gentis, inteligentes, sensíveis e com as quais aprendi a compartilhar muita coisa boa: além das postagens desse blog, dicas de cinema e também reflexões e relatos dos acontecimentos de um cotidiano que aos poucos vai sendo registrado por lá, no facebook.
Pois bem, Renata Viana chegou a ver uma postagem no Blog Lado B, da jornalista Rita Alves, na qual minha mãe fala de suas bonequinhas de pano e, como Renata Viana se interessou pelo trabalho, eu enviei-lhe uma linda bonequinha, via Correios.
Viana, muito educadamente, retribuiu o presente enviando-me, por sua vez, esse romance de José Luís Peixoto e que se chama Livro. Ela contou-me que o comprou motivada pelo fato de conhecer seu autor e porque achava que tinha que ser o livro e, quando encontrou esse recém-lançamento do autor, e ainda mais por chamar-se Livro, achou que tudo estava a contento.
Pois, então, eu a agradeço imensamente, aqui, em público, pois pude travar contato com um autor português contemporâneo, que eu não conhecia e que comecei a ler imediatamente. Apesar disso, a leitura está sendo lenta, porque há qualquer coisa, na escrita de Peixoto, que tem me surpreendido: a sua Língua Portuguesa não é como a dos demais autores, seus conterrâneos, aqueles que eu já travei contato. Penso que ele não se assemelha nem mesmo ao José Saramago (de quem, aliás, o aproximam, normalmente). Peixoto também não tem aquela poética comum, por exemplo, em um Mia Couto (o qual, aliás, também conheci muito recentemente). Achei-o mais contido e simples (no bom sentido do ser simples!) do que todos esses.
A língua portuguesa que encontro em Peixoto é muito próxima da que estou acostumado a ter contato no meu cotidiano (brasileiro!), as palavras mais comuns na língua são as que servem perfeitamente para demonstrar a realidade das pessoas que ele está a retratar e toda a subjetividade que cada uma concentra e, sim, também para nos emocionar.
No primeiro capítulo, temos uma mãe a abandonar seu filhinho de seis anos, no centro da praça do povoado, ao lado de uma fonte. Achei ab-so-lu-ta-men-te comovente esse início do romance, onde ele resgata o sublime que pode haver no sentimento de abandono. Nesse capítulo, o narrador descreve tudo o que acontece a partir do exato momento em que a mãe deixa o menino sozinho com sua malinha na praça, o que, inicialmente, foi descrito simplesmente assim:

Os olhos da mãe ficaram parados nos do filho até ao instante em que o seu corpo se virou e se afastou, regressando por onde tinha acabado de chegar. O Ilídio estava a pensar em qualquer coisa, talvez nos pássaros que vinham enfiar-se nas folhas de hera que cobriam o topo do muro da Dona Milú, à sua frente, pássaros da primavera. Asas ou folhas. E não se esforçou por ouvir os passos da mãe a afastarem-se até serem apenas um resto de som. Só o instinto. Quando lhe pareceu que já tinha passado muito tempo, sem mexer os pés, com as mãos atrás das costas, inclinou o tronco para a frente para ver a mãe lá ao fundo, lá ao fundo, a afastar-se, era a sua mãe e, depois, ui, a desaparecer, a dobrar a esquina. O Ilídio voltou com o corpo à sua posição. Longe, no adro, os sinos da igreja deram as sete da tarde. Essa hora espalhou-se por toda a vila. Com seis anos, o Ilídio sabia bem que, no adro, o toque dos sinos interrompia as conversas e os pensamentos.


José Luís Peixoto
 Os capítulos não são numerados, apenas o que acontece, na presente edição, é o aparecimento da ilustração de uma malinha encimando cada novo capítulo, isso é um signo que dá conta do contexto da história narrada e que diz respeito à saga da emigração portuguesa para França. Portanto, a história se passa entre uma vila do interior de Portugal e Paris, a capital francesa. Haverá, então, encontros e despedidas e como sói acontecer em histórias de deslocamentos, também um elemento comum: a reunião das dimensões pertinentes ao enlevo do sonho e à crueza da realidade.

Também achei poeticamente singela essa descrição dessa atitude de uma personagem importante do povoado, a matriarca e idosa Dona Milú:

Adormecia cedo, em lençóis frescos, mas havia dores que lhe cresciam dentro do corpo. A Dona Milú duvidava que as parreiras sentissem dores nas articulações, mas resignava-se. Nas passeatas pelo jardim, avançava devagar, com a bengala firmada à frente. De manhã, quando ninguém estava a olhar, descalçava-se e ficava parada sobre a terra, como um arbusto. Essa era uma imagem inusitada, que ninguém via.

Meu Deus! Como é bela a imagem dessa idosa descalça na terra, como um arbusto, em intimidade indevassável!
Muito obrigado Renata. Como é bom ter amigos que nos proporcionam oportunidade de vivenciar emoções dessa natureza. Fica aqui minha sugestão a todos aqueles que pertencem à categoria "homens [mulheres] de boa vontade": façam amizade com desconhecidos, utilizem o facebook para isso mesmo, dêem livros de presente para esses novos amigos. E leiam tais livros! Simples assim! Enjoy it!

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Nullus dies sine linea

Acaba de passar por aqui, na redação, um jornalista querido, amigo, e que é um erudito. Ele provavelmente iria rir de mim, caso eu lhe dissesse isso, que eu o considero um erudito. No entanto, é como de fato eu o considero, uma vez que do meu círculo de relações, trata-se da única pessoa que conheço pessoalmente e que pode traduzir, por exemplo, São João Crisóstomo, diretamente do Latim.
Assim sendo, acho que posso chamá-lo de erudito. :-)
Pois bem, ele me contou, en passant, que Beauchêne, fundador de uma importante editora francesa dizia: Nullus dies sine linea (Nenhum dia sem uma linha). “Linha” aqui está para texto, uma página de texto escrito ao menos, e, portanto, trata-se de um eufemismo. :-)
Que maravilha seria se levássemos o conselho do editor em conta, pois assim, estaríamos em exercício constante da escrita e se escrevêssemos, todos os dias, uma página, no final do ano teríamos um livro de 300 páginas!
A questão é que é preciso ter o que dizer, ou ao menos saber o que se pretende escrevendo. Não acho necessário que se tenha, necessariamente, um projeto consistente como foram os projetos todos dos grandes escritores e aos quais seremos, por isso mesmo, gratos leitores por toda a eternidade.
Penso que é muito importante ao menos escrever para si mesmo, em um primeiro momento, uma vez que há um Outro em nós que precisa ser conhecido. Afinal, não escrevemos uma linha sequer que não resulte em uma oportunidade de autoconhecimento.
Por exemplo, sempre que vivi crises sérias no meu relacionamento comigo mesmo, ou com amigos, ou com amantes (eu já tive amantes, que estranho! rsrsrs) ou apenas com pessoas da minha convivência, foi escrevendo a respeito que eu resolvi verdadeiros dilemas presentes nessas relações.
O que é a vida senão a busca de solução para algum dilema (algo constante em qualquer relação)?
O que chamo aqui de dilema é algo ainda desconhecido até que o vivenciemos na tal relação, ele se dá tão somente enquanto ainda não podemos aprender a amar como se deve, ou seja, do único modo possível: querendo bem e intensamente, a cada dia, quando, então, a solidariedade na convivência suplanta a desigualdade da disputa.
Estou apostando que isso só se dá pela convivência pacífica, ou seja, depois que todas as diferenças foram compreendidas como constituintes inevitáveis daquilo de que fazemos parte desde a Cosmogonia.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A taça de ouro. Você já ouviu falar nesse romance?

Estou lendo um livro bastante sofisticado.

Eu gosto da literatura de Henry James porque ela nos provoca na medida justíssima do que desejamos apreender ou compreender acerca daquelas sutilezas que há em toda relação humana.

No romance A Taça de Ouro, por exemplo, e que agora leio, é isso mesmo o que acontece...

Você é provocado a desejar compreender o que aquelas pessoas de uma classe social elevadíssima, naquele tempo e lugar determinados, ou seja, no final do XIX, começo do XX, na Inglaterra, estão vivenciando em termos de sentimentos e de interesses.

A focalização do narrador é a determinação de para onde podemos ir nessa compreensão, ou seja, no sentido de até onde...

Isso tudo por que podemos entender o que nos é dito como vontade de uma determinação da própria autoria, mas também de sua narratologia,  portanto, como uma construção do desejo de conceder liberdade a cada personagem, naquilo que determinaria o fator da exposição de cada qual, e, ainda, como aquilo que pode  ser vivenciado dentro de uma certa liberdade do leitor, que lhe é concedida, para que possa elaborar seus próprios julgamentos. Contudo,  esses últimos só podem ocorrer no momento a posteriori, ainda que, inicialmente, isso pareça acontecer simultaneamente...

Pois bem, não acho que eu esteja me fazendo compreender, embora isso não seja um problema aqui, afinal essa postagem não é uma aula de literatura. É apenas um impressão de leitura. rsrsrs

Assim sendo, quero registrar, de todo modo, que ler um romance assim não é uma experiência fácil,  porque todo esse exercício exige uma certa disponibilidade, e que, em nosso tempo, dependerá, sobretudo, de uma certa dose de generosidade. Afinal, nessa experiência será necessária a intenção subjacente de um aproveitamento absoluto do próprio tempo dedicado à leitura.

Vejam o trecho abaixo: ele não é um exemplo disso tudo que eu tentava dizer mais acima?

- Parece-me que tivemos dias tão lindos juntos que espero não ser um choque para ti quando perguntar se poderia me ver, com alguma satisfação, como esposo - Como se soubesse que ela não poderia, obviamente não poderia, nem um pouco graciosamente, e fosse ou não responder apressada, ele dissera um pouco mais; quase como se sentisse que deveria ir pensando antecipadamente. Colocara a questão da qual não havia como recuar e que portanto representava o sacrifício de suas embarcações, e o que mais disse significava o impulso redobrado da chama que tornaria certa a combustão.  - Isto não é súbito de minha parte, e em alguns momentos eu me perguntei se tu não achavas que eu estava em vias de fazê-lo. Estou assim desde que saímos de Fawns, realmente comecei quando estávamos lá. - Ele falava devagar, dando-lhe, como desejava, tempo para pensar; ainda mais porque isso a estava fazendo olhá-lo atentamente, e fazendo-a também, num grau notável, parecer "bem" enquanto fazia isso; uma consequência grande e, até agora, feliz. De qualquer modo ela não estava chocada, coisa que ele vira apenas como uma humildade bonita, e Adam Verver lhe daria tantos minutos quantos ela quisesse. - Tu não deves pensar que estou esquecendo que não sou jovem.
- Ah, não é isso. Eu é que sou velha. O senhor é jovem. - Foi o que ela respondeu a princípio; e num tom que indicava ter aproveitado seus minutos. A resposta não fora exatamente ao ponto, mas foi gentil: o que ele mais desejava. E nas palavras seguintes ela manteve a gentileza, manteve a voz clara e baixa e o rosto sem franzir. - Também acho que estes dias foram lindos. Eu não deveria ser grata a eles se não pudesse, mais ou menos, imaginar que iriam nos trazer a isto. - Pareceu a Adam Verver que ela havia avançado um passo para encontrá-lo, e que ao mesmo tempo continuava imóvel. Mas sem dúvida isso apenas significava que Charlotte estava, séria e razoavelmente, pensando - exatamente o que ele desejara que ela pensasse. Se ela pensasse apenas o bastante, provavelmente pensaria em concordar com ele. - Parece-me - prosseguiu ela - que é o senhor que precisa ter certeza.
- Ah mas eu tenho certeza. Em questões importantes eu nunca falo quando não tenho. Então, se consegues encarar tal união, não precisas se preocupar nem um pouco.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Que prazer ler On the Road!

Eu continuo na minha missão de leitor e que impus a mim mesmo. Ler todos os romances mais importantes da literatura universal, enquanto eu for vivo. Acho que será tarefa para uma vida inteira mesmo, ainda mais que nunca sabemos quando essa vida de agora termina. Assim sendo, eu só sabia que eu também precisaria ler On the Road - Pé na estrada, de Jack Kerouac. Uma amiga emprestou-me o livro, uma primeira edição da tradução brasileira publicada pela antiga editora brasiliense. Tal tradução é de Eduardo Bueno e Antonio Bivar: dois beatniks brasileiros. Aliás, concordo com o Bivar, acho que deve ter acontecido exatamente o que ele diz, em uma nota final da tradução: "Santo Kerouac do céu nos sorria aprovando a dupla perfeita para a tarefa.[da tradução] Peninha e eu: On the Roadies forever."

Eu sempre soube que o Kerouac é um escritor incrível, da geração beat etc. e tal... Mas, como é diferente quando a gente lê uma obra por conta própria e sem se preocupar com as referências críticas ou com a história “por trás” do romance ou do autor...
Simplesmente, porque desse modo, fico eu, sozinho, na companhia desse autor e da personagem que narra sua história e, portanto, observando essa louca aventura sem rumo e sem objetivo definido, e que é a vida dessa personagem. Tal personagem é alguém que sofre a condição humana e é feliz. É alguém que se permite experimentar o amor. É também alguém que não tem preconceitos, que está perdido, mas que se encontra consigo mesmo, o tempo todo, graças ao fato de que sente uma profunda admiração e compaixão por todas as pessoas que cruzam seu caminho. É, sobretudo, alguém solidário e, como vive essa solidariedade em verdade, permite-se também ser um filósofo.
Acho que nós outros, que vivemos nos nossos dias, não podemos mais ter a experiência riquíssima que tal personagem vive no romance, ela e alguns de seus companheiros, simplesmente porque estamos muito distantes do desprendimento necessário para isso. Mas resta-nos a alegria de ler esse registro histórico de toda uma geração, e de admirar o fato de que eles viveram, mais intensamente, do que todas as gerações anteriores e que também as posteriores poderiam viver.Como podem ver, estou tomado pelo livro! rsrsrs

Vejam lá se eu não tenho motivos para tanto, tão somente conhecendo esses excertos que selecionei durante a leitura para compartilhar com todos vocês:

Mas nesta época eles dançavam pelas ruas como piões frenéticos e eu me arrastava na mesma direção como tenho feito toda minha vida, sempre rastejando atrás de pessoas que me interessam, porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam e jamais dizem coisas comuns mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo centro fervilhante - pop - pode-se ver um brilho azul e intenso até todos "aaaaaaah!"...

Garotas e rapazes da América têm curtido momentos realmente tristes quando estão juntos; a artificialidade os força a se submeterem imediatamente ao sexo, sem os devidos diálogos preliminares. Nada de galanteios - mas sim um profundo diálogo de almas, pela vida que é sagrada e cada momento precioso...


A única coisa pela qual ansiamos em nossos dias de vida, e que nos faz gemer e suspirar e nos submetermos a todos os tipos de dóceis náuseas, é a lembrança de uma alegria perdida que provavelmente fora experimentada no útero e que somente poderá ser reproduzida (apesar de odiarmos admitir isso) na morte...


No Carro, enquanto dirigíamos de volta à sua velha casa, ele falou: “Algum dia a humanidade compreenderá que, na verdade, estamos em contato constante com os mortos e com o outro mundo, seja ele qual for; nesse exato instante, se tivéssemos força de vontade suficiente, poderíamos prever o que vai acontecer nos próximos cem anos e seríamos capazes de agir para evitar todas as espécies de catástrofes. Quando um homem morre, seu cérebro passa por uma mutação sobre a qual não sabemos nada agora mas que será bastante clara algum dia, se os cientistas se ligarem nisso. Só que por enquanto esses filhos da puta só estão interessados em descobrir como explodir o planeta...

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Lendo Tolstói

Hoje, entrei no metrô, sentei-me e abri o livro Ana Karênina, de LeonTolstói, no Capítulo XXVI, para dar continuidade a minha leitura do romance. Quando dei por mim estava em lágrimas e, evidentemente, envergonhado dos meus vizinhos de assento, tratei de procurar um lenço de papel...
;-D

Ler um romance do século XIX, um clássico da literatura, escrito por um autor imortal, para mim, é isso: é mergulhar intensamente em uma história escrita com amor, paixão e talento imensuráveis e, por conseguinte, na vida de personagens que, embora não tenham existência no que chamamos de "realidade concreta", nos ensinam muito do que é ser gente de verdade nesse mundo.
Não vou aqui trazer notícia da personagem que dá nome ao romance, mas de uma personagem "coadjuvante" ( é melhor chamá-la assim do que "secundária", afinal, estou achando tal personagem cabal para o equilíbrio do painel de tipos humanos no romance) e que é apaixonante: Constantin Liêvin.
Apenas para que vocês entendam o trecho que reproduzo abaixo e que me levou às lágrimas: essa personagem é um homem feito, solteiro e que, embora rico, vive no campo, daí sua flagrante timidez diante da cosmopolita Moscou e que visitara, tão somente, para pedir a mão de Kitty, irmã da cunhada de Ana Karênina. A jovem, no entanto, já tinha um rapaz lhe cortejando, o desenvolto e charmoso Vronski.
Liêvin, enjeitado, fica muito aborrecido e volta para casa. No início desse capítulo a que me referi, ele está chegando, de volta a sua casa:

No dia seguinte pela manhã, Constantino Liêvin saía de Moscou e chegava a casa ao fim da tarde. Durante o trajeto entabulou conversa com os companheiros, falou de política, de estradas de ferro, e, tal qual como em Moscou, não tardou a sentir-se submerso no caos das opiniões, descontente consigo próprio e envergonhado sem que soubesse muito bem por quê. Mas , quando, à luz indecisa que se derramava das janelas da estação, viu Ignat, o cocheiro estrábico, a gola do cafetã levantada, depois o trenó coberto de peles e os cavalos com seus arreios bem-tratados, e aquele lhe contou, enquanto ele se instalava, as novidades da aldeia - que chegara um comprador e que a Pava tivera o seu bom sucesso -, Liêvin sentiu que toda aquela confusão de idéias se esclarecia e que a vergonha e o descontentamento se dissipavam. Entretanto, essa impressão ele a teve apenas com o ver Ignat e os cavalos, quando se embrulhou no tulup - um casaco de pele de carneiro, feito de maneira que os pêlos ficassem na parte de dentro, como forro - que o cocheiro tivera o cuidado de lhe trazer e se sentou bem abrigado, no trenó, que se pôs a andar, pensou nas ordens que teria de dar logo que chegasse a casa e, examinando um dos cavalos, o seu preferido para montar - um velho cavalo do Don, já gasto, mas ainda veloz -, pôs-se a ver de maneira muito diferente o que lhe acontecera. Deixou de querer ser outro que não ele próprio e apenas desejou ser melhor do que fora até ali. Em primeiro lugar, decidiu que daí por diante não poria as suas esperanças numa felicidade extraordinária, como a que esperara do casamento, e que, por conseguinte, não iria menosprezar tanto o momento presente; depois, que nunca mais se deixaria conduzir por uma baixa paíxão, como acontecera na véspera, antes de se decidir a declarar-se. E, lembrando-se do irmão, resolveu nunca mais o esquecer nem o perder de vista, para assim poder ajudá-lo sempre que ele precisasse. Pressentia que isso iria acontecer dentro de pouco. Em seguida pensou na conversa que tivera com o irmão sobre o comunismo e que tão superficialmente encarara na oportunidade. Considerava absurda a reforma das condições econômicas, mas sempre se dera conta da injustiça que representava o muito que tinha em comparação com a miséria do povo. Para se sentir completamente justo, apesar de que sempre trabalhara muito, vivendo sem luxo algum, tomou a resolução de trabalhar cada vez mais e de levar uma vida ainda mais simples. Tudo lhe parecia tão fácil de realizar que pensar nisso foi a coisa mais agradável que lhe ocorreu durante o trajeto. Quando chegou a casa, por volta das nove da noite, sentiu que uma vida nova, uma vida mais bela, começava para ele. Uma réstia de luz se filtrava nas janelas de Agáfia Mikháilovna, a sua velha ama, agora governanta da casa. A velha ainda não dormia. Acordou Kuzmá, que, estremunhado e descalço, veio até ao alpendre. Também Laska, a cadela, apareceu, e por pouco não derrubava Kuzmá, ladrando e esfregando-se nas pernas de Liêvin, sem ousar pôr-lhe as patas dianteiras no peito.

Não vou resistir e vou reproduzir também um trecho em que temos uma reação de Ana Karênina a uma circunstância e que eu achei hilária (tive que conter a gargalhada dentro do metrô... ;-p)

Pois bem, depois de praticamente roubar o coração de Vronski e tornar-se "rival" de Kitty. Karênina está, praticamente, em fuga dessa nova paixão, e ao chegar em sua cidade:

Mal desembarcou do trem, o primeiro rosto que encontrou foi o do marido: "Meu Deus! Por que lhe terão crescido tanto as orelhas?", pensou ela, mirando-lhe a arrogante e fria figura e sobretudo as cartilagens das orelhas, que lhe chamavam a atenção, nas quais, dir-se-ia, vinham pousar as abas do chapéu.

Literatura é um universo amplo: a se perder de vista. Todos os elementos que constituem a literatura são importantes, uma vez que por eles ela nos educa, propicia o exercício de traquejo com a língua, cria o hábito salutar da leitura, permitindo-nos aprender a filosofar, além do treino da sensibilidade para a compreensão da psicologia dos mortais e tanta coisa mais! Mas o mais delicioso de tudo é o quanto ela nos emociona e ainda pode ser divertida, com humor.








                                                    Anton Chejov e Leon Tolstoi

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Clarice Lispector Só para mulheres. Eu li.

Sexta-feira passada, eu estava visitando um grande amigo. Como é bom ter amigos, como é bom conversar e rir com alguém que compartilha dos mesmos gostos e aprecia o que também apreciamos. Ele me mostrou um livro que ganhou de presente de aniversário. Trata-se de Clarice Lispector - Só para mulheres. A publicação dá prosseguimento ao resgate da obra jornalística de Clarice Lispector, iniciado em 2006, com o livro Correio feminino. Essa nova coletânea – organizada por Aparecida Maria Nunes, doutora em literatura brasileira pela USP – recupera as colunas femininas assinadas pela escritora sob os pseudônimos de Tereza Quadros e Helen Palmer, e como ghost-writer da atriz Ilka Soares, para o tablóide Comício e os jornais Correio da Manhã e Diário da Noite, nas décadas de 50 e 60.
Fica evidente que a Clarice escreveu para esses suplementos femininos porque precisava de grana. Mas também fica evidente o seu amor e respeito pelas leitoras. Essas leitoras não seriam as mesmas leitoras e leitores de seus romances, pelo menos não a maioria. As exigências de pauta conduziram os temas dos textos muito curtos. Mas quão grandiosa é Clarice que, mesmo falando de maquilagem, de culinária, do que seja... é ela mesma o tempo todo. Eu e meu amigo nos divertimos a valer. Ríamos, ríamos e ríamos no começo, no meio e no fim de cada trecho do livro. Era o riso franco de quem se encontrou entre os iguais e que compreende a sabedoria disfarçada em simplicidade absoluta. Que, diga-se de passagem, talvez seja essa a verdadeira sabedoria: saber dizer a qualquer um o que é importante que seja dito.
O meu amigo só tinha esse primeiro volume, mas já ouvi falar que são três.
Não resisto e trago alguns trechos para cá. Vejam se não é uma leitura deliciosamente agradável:

Pode-se amar sem admirar?
Pode-se dar amor natural, comum. Pode-se ter pena da pessoa ou ser fisicamente atraída por ela, e enganar-se pensando que essa reação é amor. Mas para que o amor real exista é preciso que você admire alguma coisa nele ou nela. Theodore Reik acha que o "amor só é possível quando você atribui um valor mais alto à pessoa do que a você, quando você vê nela ou nele uma personalidade que, pelo menos em algum sentido, é superior à sua."

Quem muito agrada, desagrada.
Nunca ouvi esse provérbio, acho que inventei agora mesmo. Mas você vai ver se esse provérbio, inventado ou não, não se aplica a pessoa que você conhece: Às que querem agradar a todo o preço. Então tornam-se "encantadoras". Procuram advinhar os mínimos desejos dos outros. Procuram elogiar de qualquer modo. Começam também a mostrar que fazem sacrifícios a cada momento. Esse tipo encantador pesa na alma dos outros. Em uma palavra: desagrada. Se a pessoa consegue ser e ficar à vontade, ela deixa os outros serem e ficarem à vontade.

Já se foi o tempo...
...Em que era considerado delicado deixar sempre um pouco de comida no prato. Hoje é perfeitamente educado comer toda a porção de que a pessoa se serviu.
...em que se pegava numa xícara de chá ou de café... erguendo o dedo mínimo. Hoje é gesto afetado, deselegante, de mau gosto.
...em que era de praxe recusar várias vezes uma gentileza antes de aceitá-la. Quando o convidarem para um jantar, agradeça, aceite, e não faça um drama "do trabalho que vai dar"... em que, ao sentar à mesa, dizia-se aos outros: "bom apetite!" Não é mais "fino" dizê-lo.
...em que a pessoa que tocava piano se achava no dever de recusar uma pequena audição, várias vezes, antes de aceitar. Se você, não quer realmente tocar, diga-o de um modo suave mas firme, o que em geral encerra o assunto. Mas se pretende terminar tocando, toque, por favor!

Impossível?
A maioria das coisas "impossíveis" são impossíveis apenas porque não foram tentadas. Quanta coisa você não faz apenas por timidez ou por medo...
Você já experimentou pintar paredes? Pois, acredite ou não, não é necessário tirar "curso" (só um pouco de "confiança-em-si-mesma" ajudaria, pois confiança é o que lhe falta).
A tinta, você compra. O pincel, também. A parede, você tem. Por incrível que pareça, você é dona dos instrumentos necessários. O que falta mais? Um pouco de ousadia e vontade de se divertir. (E de economizar).

Não lhes disse que era o máximo? São postagens de um blog de Clarice de 60, 50 anos atrás. ;-D