Eu continuo na minha missão de leitor e que impus a mim mesmo. Ler todos os romances mais importantes da literatura universal, enquanto eu for vivo. Acho que será tarefa para uma vida inteira mesmo, ainda mais que nunca sabemos quando essa vida de agora termina. Assim sendo, eu só sabia que eu também precisaria ler On the Road - Pé na estrada, de Jack Kerouac. Uma amiga emprestou-me o livro, uma primeira edição da tradução brasileira publicada pela antiga editora brasiliense. Tal tradução é de Eduardo Bueno e Antonio Bivar: dois beatniks brasileiros. Aliás, concordo com o Bivar, acho que deve ter acontecido exatamente o que ele diz, em uma nota final da tradução: "Santo Kerouac do céu nos sorria aprovando a dupla perfeita para a tarefa.[da tradução] Peninha e eu: On the Roadies forever."
Eu sempre soube que o Kerouac é um escritor incrível, da geração beat etc. e tal... Mas, como é diferente quando a gente lê uma obra por conta própria e sem se preocupar com as referências críticas ou com a história “por trás” do romance ou do autor...
Simplesmente, porque desse modo, fico eu, sozinho, na companhia desse autor e da personagem que narra sua história e, portanto, observando essa louca aventura sem rumo e sem objetivo definido, e que é a vida dessa personagem. Tal personagem é alguém que sofre a condição humana e é feliz. É alguém que se permite experimentar o amor. É também alguém que não tem preconceitos, que está perdido, mas que se encontra consigo mesmo, o tempo todo, graças ao fato de que sente uma profunda admiração e compaixão por todas as pessoas que cruzam seu caminho. É, sobretudo, alguém solidário e, como vive essa solidariedade em verdade, permite-se também ser um filósofo.
Acho que nós outros, que vivemos nos nossos dias, não podemos mais ter a experiência riquíssima que tal personagem vive no romance, ela e alguns de seus companheiros, simplesmente porque estamos muito distantes do desprendimento necessário para isso. Mas resta-nos a alegria de ler esse registro histórico de toda uma geração, e de admirar o fato de que eles viveram, mais intensamente, do que todas as gerações anteriores e que também as posteriores poderiam viver.Como podem ver, estou tomado pelo livro! rsrsrs
Vejam lá se eu não tenho motivos para tanto, tão somente conhecendo esses excertos que selecionei durante a leitura para compartilhar com todos vocês:
Mas nesta época eles dançavam pelas ruas como piões frenéticos e eu me arrastava na mesma direção como tenho feito toda minha vida, sempre rastejando atrás de pessoas que me interessam, porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam e jamais dizem coisas comuns mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo centro fervilhante - pop - pode-se ver um brilho azul e intenso até todos "aaaaaaah!"...
Garotas e rapazes da América têm curtido momentos realmente tristes quando estão juntos; a artificialidade os força a se submeterem imediatamente ao sexo, sem os devidos diálogos preliminares. Nada de galanteios - mas sim um profundo diálogo de almas, pela vida que é sagrada e cada momento precioso...
A única coisa pela qual ansiamos em nossos dias de vida, e que nos faz gemer e suspirar e nos submetermos a todos os tipos de dóceis náuseas, é a lembrança de uma alegria perdida que provavelmente fora experimentada no útero e que somente poderá ser reproduzida (apesar de odiarmos admitir isso) na morte...
No Carro, enquanto dirigíamos de volta à sua velha casa, ele falou: “Algum dia a humanidade compreenderá que, na verdade, estamos em contato constante com os mortos e com o outro mundo, seja ele qual for; nesse exato instante, se tivéssemos força de vontade suficiente, poderíamos prever o que vai acontecer nos próximos cem anos e seríamos capazes de agir para evitar todas as espécies de catástrofes. Quando um homem morre, seu cérebro passa por uma mutação sobre a qual não sabemos nada agora mas que será bastante clara algum dia, se os cientistas se ligarem nisso. Só que por enquanto esses filhos da puta só estão interessados em descobrir como explodir o planeta...
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terça-feira, 5 de outubro de 2010
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Tolstói e Björk falam de amor
Quem acompanha esse blog sabe que eu estive lendo o romance Ana Karênina de Tolstói, e que, em determinadas passagens, não me contive de alegria e emoção e compartilhei-as por aqui. Agora, cheguei à última página e fiquei absolutamente emocionado e para sempre admirador absoluto da genialidade do romancista russo.
Tolstói contou-nos essa triste história de uma mulher para nos falar de amor, somente de amor. E não se trata tão somente do amor entre homem e mulher, mas do amor cáritas, que se revela pelo bem que façamos ao próximo.
A personagem Liêvin, marido de Kitty, é a que serve ao autor para que ele nos apresente a possibidade de viver esse amor, o que se dá pelo exercício do bem.
Ele tem como que uma epifania, depois de muito sofrer, quando compreende algo que não pode ter explicação lógica ou racional e essa descoberta, ele nos prova, é antes de mais nada possível quando agimos segundo o bem.
Não é preciso explicar tal descoberta aos outros, basta agir de acordo com essa disposição moral e essencial para viver no amor.
Compartilho essa passagem do romance de Tolstói e também um vídeo de Björk que um amigo compartilhou, por sua vez, ontem, pelo facebook. Acho que tanto o texto de Tolstói como o vídeo de Björk estão falando da mesma coisa. Não estranhem, por favor, mas eu sempre estabeleço relações entre coisas que, aparentemente, não teriam nada a ver uma com a outra! ;-D
“Eu bem sei que as estrelas não caminham”, prosseguiu, notando a mudança que se operara na posição de um planeta que subia por detrás de uma bétula. “No entanto, incapaz de imaginar a rotação da Terra ao ver as estrelas mudarem de lugar, tenho razão quando digo que elas caminham. Teriam os astrônomos chegado a compreender tudo isso, teriam chegado a calcular alguma coisa, se por ventura houvessem tomado em consideração movimentos da Terra tão variados e complicados? As surpreendentes conclusões a que eles chegaram sobre a distância, o peso, o movimento e as revoluções dos corpos celestes não terão por ponto de partida os movimentos aparentes dos astros em torno da Terra imóvel, estes mesmos movimentos de que eu sou testemunha, como milhões de homens o foram e o serão durante séculos e que sempre podem vir a ser verificados? Pela mesma razão que as conclusões dos astrônomos seriam vãs e inexatas se não fossem deduzidas das observações do céu aparente, em relação a um único meridiano e a um único horizonte, também as minhas deduções metafísicas se veriam privadas de sentido se eu as não fundamentasse neste conhecimento do bem inerente ao coração de todos os homens e de que eu tive, pessoalmente, a revelação, graças ao cristianismo, e que sempre me será dado verificar na minha alma. As relações das outras crenças com Deus continuarão para mim insondáveis, e eu não tenho o direito de as perscrutar.”
- Que, pois tu ainda estás aí? – disse, de súbito, a voz de Kitty, que voltava para o salão. – Não tens nada que te preocupe? – insistiu ela, procurando ler no rosto do marido, à claridade das estrelas. Um relâmpago que atravessou o espaço entremostrou-lho sereno e feliz.
“Ela compreende-me”, pensou Liêvin, vendo-a sorrir. “E bem sabe em que eu estou pensando. Devo dizer-lho? Sim.”
No momento em que ia falar, Kitty interrompeu-o.
- Faze-me o favor, Kóstia – disse ela –, vai dar uma olhadela ao quarto do Sérgio Ivánovitch. Estará tudo em ordem? Ter-lhe-iam posto um lavatório novo? A mim custa-me ir lá.
- Está bem, vou – respondeu Liêvin, beijando-a.
“Não, é melhor calar-me”, decidiu ele, enquanto a mulher entrava no salão. “Este segredo só tem importância para mim, e palavra alguma o poderia explicar. Este novo sentimento não me modificou, não me deslumbrou, nem me tornou feliz, como eu supunha. Sucedeu a mesma coisa com o amor paternal, que não foi acompanhado de surpresa ou de deslumbramento. Devo chamar-lhe fé? Não sei. Sei apenas que me penetrou na alma através do sofrimento e nela se implantou com toda a firmeza.
Continuarei, sem dúvida, a impacientar-me com o meu cocheiro Ivan, a discutir inutilmente, a exprimir mal as minhas próprias idéias. Sentirei sempre uma barreira entre o santuário da minha alma e a alma dos outros, mesmo a da minha própria mulher. Sempre tornarei Kitty responsável dos meus terrores, arrependendo-me logo em seguida. Continuarei a rezar sem saber por que rezo. Que importa? A minha vida não estará mais à mercê dos acontecimentos, cada minuto da minha existência terá um sentido incontestável. Agora possuirá o sentido indubitável do bem que eu lhe sou capaz de infundir.”
It is so cut. Beautiful! Beautiful! Beautiful!
The Comet Song
With our fingers we make million holes
We run and we fall into pot holes
On a mission to savor the world, oh!
We peek at the sky through tree holes
Comet! Oh, damn it!
The comet comes hurtling down
On a precious plot of earth
Like the bugs in mother's flower bed
We walk on long legs over the sea bed
On our mission to save the world, oh!
We need milk and cakes and a warm bed
Comet! Oh, damn it!
The comet comes hurtling down
On a precious plot of earth
Grey leaves are too much
For any mother to handle
A father must pull
His black hat down over the eyes
Tolstói contou-nos essa triste história de uma mulher para nos falar de amor, somente de amor. E não se trata tão somente do amor entre homem e mulher, mas do amor cáritas, que se revela pelo bem que façamos ao próximo.
A personagem Liêvin, marido de Kitty, é a que serve ao autor para que ele nos apresente a possibidade de viver esse amor, o que se dá pelo exercício do bem.
Ele tem como que uma epifania, depois de muito sofrer, quando compreende algo que não pode ter explicação lógica ou racional e essa descoberta, ele nos prova, é antes de mais nada possível quando agimos segundo o bem.
Não é preciso explicar tal descoberta aos outros, basta agir de acordo com essa disposição moral e essencial para viver no amor.
Compartilho essa passagem do romance de Tolstói e também um vídeo de Björk que um amigo compartilhou, por sua vez, ontem, pelo facebook. Acho que tanto o texto de Tolstói como o vídeo de Björk estão falando da mesma coisa. Não estranhem, por favor, mas eu sempre estabeleço relações entre coisas que, aparentemente, não teriam nada a ver uma com a outra! ;-D
“Eu bem sei que as estrelas não caminham”, prosseguiu, notando a mudança que se operara na posição de um planeta que subia por detrás de uma bétula. “No entanto, incapaz de imaginar a rotação da Terra ao ver as estrelas mudarem de lugar, tenho razão quando digo que elas caminham. Teriam os astrônomos chegado a compreender tudo isso, teriam chegado a calcular alguma coisa, se por ventura houvessem tomado em consideração movimentos da Terra tão variados e complicados? As surpreendentes conclusões a que eles chegaram sobre a distância, o peso, o movimento e as revoluções dos corpos celestes não terão por ponto de partida os movimentos aparentes dos astros em torno da Terra imóvel, estes mesmos movimentos de que eu sou testemunha, como milhões de homens o foram e o serão durante séculos e que sempre podem vir a ser verificados? Pela mesma razão que as conclusões dos astrônomos seriam vãs e inexatas se não fossem deduzidas das observações do céu aparente, em relação a um único meridiano e a um único horizonte, também as minhas deduções metafísicas se veriam privadas de sentido se eu as não fundamentasse neste conhecimento do bem inerente ao coração de todos os homens e de que eu tive, pessoalmente, a revelação, graças ao cristianismo, e que sempre me será dado verificar na minha alma. As relações das outras crenças com Deus continuarão para mim insondáveis, e eu não tenho o direito de as perscrutar.”
- Que, pois tu ainda estás aí? – disse, de súbito, a voz de Kitty, que voltava para o salão. – Não tens nada que te preocupe? – insistiu ela, procurando ler no rosto do marido, à claridade das estrelas. Um relâmpago que atravessou o espaço entremostrou-lho sereno e feliz.
“Ela compreende-me”, pensou Liêvin, vendo-a sorrir. “E bem sabe em que eu estou pensando. Devo dizer-lho? Sim.”
No momento em que ia falar, Kitty interrompeu-o.
- Faze-me o favor, Kóstia – disse ela –, vai dar uma olhadela ao quarto do Sérgio Ivánovitch. Estará tudo em ordem? Ter-lhe-iam posto um lavatório novo? A mim custa-me ir lá.
- Está bem, vou – respondeu Liêvin, beijando-a.
“Não, é melhor calar-me”, decidiu ele, enquanto a mulher entrava no salão. “Este segredo só tem importância para mim, e palavra alguma o poderia explicar. Este novo sentimento não me modificou, não me deslumbrou, nem me tornou feliz, como eu supunha. Sucedeu a mesma coisa com o amor paternal, que não foi acompanhado de surpresa ou de deslumbramento. Devo chamar-lhe fé? Não sei. Sei apenas que me penetrou na alma através do sofrimento e nela se implantou com toda a firmeza.
Continuarei, sem dúvida, a impacientar-me com o meu cocheiro Ivan, a discutir inutilmente, a exprimir mal as minhas próprias idéias. Sentirei sempre uma barreira entre o santuário da minha alma e a alma dos outros, mesmo a da minha própria mulher. Sempre tornarei Kitty responsável dos meus terrores, arrependendo-me logo em seguida. Continuarei a rezar sem saber por que rezo. Que importa? A minha vida não estará mais à mercê dos acontecimentos, cada minuto da minha existência terá um sentido incontestável. Agora possuirá o sentido indubitável do bem que eu lhe sou capaz de infundir.”
It is so cut. Beautiful! Beautiful! Beautiful!
The Comet Song
With our fingers we make million holes
We run and we fall into pot holes
On a mission to savor the world, oh!
We peek at the sky through tree holes
Comet! Oh, damn it!
The comet comes hurtling down
On a precious plot of earth
Like the bugs in mother's flower bed
We walk on long legs over the sea bed
On our mission to save the world, oh!
We need milk and cakes and a warm bed
Comet! Oh, damn it!
The comet comes hurtling down
On a precious plot of earth
Grey leaves are too much
For any mother to handle
A father must pull
His black hat down over the eyes
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
J.M. Coetzee e seu Homem lento
Enquanto vivo, leio. Há muitas atividades prazerosas nessa vida. As que dizem respeito ao prazer físico são imediatamente identificáveis: comer, dormir etc. Nesse etc. cabe uma pletora de atividades, não é mesmo? Mas, eu tenho para mim, as atividades intelectuais são ainda mais prazerosas. O físico participa dessas últimas como instrumento. Afinal, eu preciso sentir-me bem, fisicamente, para ler, por exemplo. Não devo estar com sono, ou com fome, ou cansado. No entanto, ontem eu estava em luta noturna com meu sono. E isso porque eu estava lendo Homem lento, de J.M.Coetzee e já era mais de meia-noite. Mas como eu poderia abandonar Paul Rayment e Marianna justamente naquela hora!? São as personagens desse livro.
Coetzee é prêmio Nobel e, sim, eu não sabia disso e nem o conhecia, uma vez que nunca lera nada desse premiadíssimo escritor sul-africano e que, atualmente, mora na Australia. A história do romance, inclusive, se passa nesse país. No início do livro, temos a cena do atropelamento de Paul Rayment, um homem com mais de sessenta anos e que, por conta disso (ter sido atropelado e ter mais de sessenta nos), tem uma perna amputada. Solitário, passa a viver essa nova experiência, com todas as agruras de quem é obrigado a mudar o modo de viver, a partir de uma fatalidade. Qualquer outra pessoa criando uma história, tendo como princípio esse tipo de situação, poderia pecar por excesso: de sentimentalismo, ou de pieguice e sabe-se lá do que mais! Nesse caso, não. Coetzee consegue prender o leitor o tempo todo na teia de reflexões e experiências cotidianas da personagem. O melhor de tudo é o foco narrativo do texto, pois temos um narrador em 3a pessoa, que conta a história, mas há momentos que já não sabemos mais quem está falando: ocorre as tais focalizações, em seus desvios. Então, ora é a personagem quem está falando em meio à fala do narrador, ora quem fala é o próprio narrador como se fosse a personagem, ou ainda por ela, ou seja, contar uma história torna-se uma variada combinação de enunciadores na teia narrativa.
O tal trecho que não me deixava fechar os olhos para o prazer físico do sono era quando Rayment com os olhos vendados (por exigência da parceira) se encontra com Marianna, que, por sua vez, é deficiente visual, para a primeira experiência sexual, após o acidente. Conheçam esse excerto e vejam se eu não tenho razão de permanecer acordado e lendo Coetzee:
Quanto tempo faz que ela perdeu a visão? Será decente perguntar? E será decente passar para a próxima pergunta: se fez amor desde que aconteceu?Foi a experiência que ensinou a ela que seus olhos devastados aniquilarão o desejo de um homem?
Eros. Por que a visão do belo chama à vida? Por que o espetáculo do horrendo estrangula o desejo? Será que a relação com o belo nos eleva, nos torna pessoas melhores, ou será abraçando os doentes, os mutilados, os repulsivos que melhoramos a nós mesmos? Que perguntas! Será por isso que Costello juntou os dois: não pela comédia vulgar de um homem e uma mulher com partes do corpo ausentes fazendo o possível para se encaixar, mas a fim de, uma vez removida a questão sexual, poderem ter uma aula de filosofia, deitados um nos braços do outro discursando sobre a beleza, o amor e a bondade?
E, de uma forma ou de outra, em meio a tudo isso - o constrangimento, o evitar, o filosofar, para não falar de uma tentativa dele de desatar o nó da gravata, que começou a sufocá-lo (por que está de gravata?) -, de alguma forma, desajeitados, mas não tão desajeitados quanto poderiam ser, envergonhados, mas não tão envergonhados a ponto de se paralisarem, eles conseguem deslizar para o ato físico ao qual se comprometeram vacilantes, um ato que embora não o ato de sexo conforme entendido no geral é assim mesmo um ato de sexo e que, apesar do membro truncado de um lado e do olho perdido do outro, se desenrola com alguma prontidão do começo para o meio e para o fim, quer dizer, em todas as suas partes naturais.
Não é belíssimo?
Coetzee é prêmio Nobel e, sim, eu não sabia disso e nem o conhecia, uma vez que nunca lera nada desse premiadíssimo escritor sul-africano e que, atualmente, mora na Australia. A história do romance, inclusive, se passa nesse país. No início do livro, temos a cena do atropelamento de Paul Rayment, um homem com mais de sessenta anos e que, por conta disso (ter sido atropelado e ter mais de sessenta nos), tem uma perna amputada. Solitário, passa a viver essa nova experiência, com todas as agruras de quem é obrigado a mudar o modo de viver, a partir de uma fatalidade. Qualquer outra pessoa criando uma história, tendo como princípio esse tipo de situação, poderia pecar por excesso: de sentimentalismo, ou de pieguice e sabe-se lá do que mais! Nesse caso, não. Coetzee consegue prender o leitor o tempo todo na teia de reflexões e experiências cotidianas da personagem. O melhor de tudo é o foco narrativo do texto, pois temos um narrador em 3a pessoa, que conta a história, mas há momentos que já não sabemos mais quem está falando: ocorre as tais focalizações, em seus desvios. Então, ora é a personagem quem está falando em meio à fala do narrador, ora quem fala é o próprio narrador como se fosse a personagem, ou ainda por ela, ou seja, contar uma história torna-se uma variada combinação de enunciadores na teia narrativa.
O tal trecho que não me deixava fechar os olhos para o prazer físico do sono era quando Rayment com os olhos vendados (por exigência da parceira) se encontra com Marianna, que, por sua vez, é deficiente visual, para a primeira experiência sexual, após o acidente. Conheçam esse excerto e vejam se eu não tenho razão de permanecer acordado e lendo Coetzee:
Quanto tempo faz que ela perdeu a visão? Será decente perguntar? E será decente passar para a próxima pergunta: se fez amor desde que aconteceu?Foi a experiência que ensinou a ela que seus olhos devastados aniquilarão o desejo de um homem?
Eros. Por que a visão do belo chama à vida? Por que o espetáculo do horrendo estrangula o desejo? Será que a relação com o belo nos eleva, nos torna pessoas melhores, ou será abraçando os doentes, os mutilados, os repulsivos que melhoramos a nós mesmos? Que perguntas! Será por isso que Costello juntou os dois: não pela comédia vulgar de um homem e uma mulher com partes do corpo ausentes fazendo o possível para se encaixar, mas a fim de, uma vez removida a questão sexual, poderem ter uma aula de filosofia, deitados um nos braços do outro discursando sobre a beleza, o amor e a bondade?
E, de uma forma ou de outra, em meio a tudo isso - o constrangimento, o evitar, o filosofar, para não falar de uma tentativa dele de desatar o nó da gravata, que começou a sufocá-lo (por que está de gravata?) -, de alguma forma, desajeitados, mas não tão desajeitados quanto poderiam ser, envergonhados, mas não tão envergonhados a ponto de se paralisarem, eles conseguem deslizar para o ato físico ao qual se comprometeram vacilantes, um ato que embora não o ato de sexo conforme entendido no geral é assim mesmo um ato de sexo e que, apesar do membro truncado de um lado e do olho perdido do outro, se desenrola com alguma prontidão do começo para o meio e para o fim, quer dizer, em todas as suas partes naturais.
Não é belíssimo?
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