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terça-feira, 16 de outubro de 2012

Love Love Love



Leio Hard Times, de Charles Dickens, enquanto viajo de trem, retornando para casa. Olho nas faces dos passageiros e identifico em cada uma seu próprio segredo. Não que eu sabia do que se trata, mas é que ele está ali: seja na face, seja no corpo. Nos rastros, nas cicatrizes ou nos vincos da face, ou seja, por onde vemos o conjunto da história da pessoa. 

Quantas pessoas! Cansadas, contentes, insatisfeitas, transitoriamente satisfeitas, sociáveis, tímidas, fechadas, jovens de espírito ou semidestruídas.

O dia termina como todos os dias: coberto de noite. Ele pede a todos o merecido descanso, uma vez que cada qual a cada dia se permite tudo sentir intensamente.

Poucos demonstram consideração ao companheiro de jornada. Mas, o trem, que corre rumo ao seu destino, como que aponta uma verdade inexorável: que a viagem de ida e volta pode ser retomada, todos os dias.

É assim que nas existências, o que hoje é sina almeja um fim e/ou finalidade.

Curiosamente, no livro em que se narra tantos sofrimentos, só grifo, em amarelo cintilante, passagens de doçura:

He looked at her with disappointment in his face, but with a respectful and patient conviction that she must be right in whatever she did. The expression was not lost upon her; she laid her hand lightl y on his arm a moment as if to thank him for it.
[Ele a olhou demonstrando em seu rosto decepção, embora com uma convicção respeitosa e paciente de que ela devia estar certa em tudo o que fez. Tal expressão não lhe passou despercebida, pois ela pousou levemente a mão em seu ombro como se para agradecê-lo por isso.]

She went, whit her neat figure and her sober womanly step, down the dark street, and He stood looking after her until she turned into one of the small houses. There was not a flutter of her coarse shawl, perhaps, but had its interest in this man’s eyes; not a tone of her voice but had its echo in his innermost heart.
[Ela foi descendo a rua escura, com seu porte elegante e em seu sóbrio passo feminino, e ele ficou vigiando-a até que ela virou em direção a uma das pequenas casas. Talvez não houvesse uma vibração em seu grosso xale, mas isso interessava aos olhos daquele homem; nenhum tom em sua voz, mas ela ecoava no mais profundo do seu coração.] (tradução livre by me)

Insisto em encontrar nos Tempos Dificeis a prova de que não falta amor, mesmo durante tais momentos. Apenas precisamos ser mais corajosos e perseverantes, como, aliás, o é essa personagem do livro: Stephen Blackpool. Tal personagem, embora em sofrimento, possui ideias seguras e bastante distantes da retórica falaciosa de certos líderes do seu tempo.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Katherine Mansfield's poem


Chá de Camomila
Katherine Mansfield
(versão brasileira: Josafá Crisóstomo)


Lá fora o céu é luz das estrelas,
Há um profundo rugido vindo do mar.
E, ai! florzinhas de amêndoas,
O vento está chacoalhando a amendoeira.


O pouco que eu pensava, um ano atrás,
Na medonha cabana em Lee,
Era que ele e eu, então, deveríamos estar sentados
Tomando uma xícara de chá de camomila.

Leves como penas as bruxas voam.
Para um vaga-lume no junquilho
É fácil ver os chifres da lua.
Um duende brinda com um zangão.

Podemos ter cinquenta anos, podemos ter cinco,
Tão confortáveis, unidos e sábios estamos.
Debaixo da mesa,
Meu joelho pressiona o seu.

Nossas persianas estão fechadas, o fogo brando,
A torneira está pingando pacificamente;
As sombras das panelas na parede
São redondas e pretas e evidentes.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Um poema de Katherine Mansfield

Meu amor por Katherine Mansfield é tão verdadeiro!

Os grandes escritores sempre foram objeto de minha profunda admiração.
E, quando buscamos conhecer suas obras, tal estima apenas se reitera no tempo e espaço.
Hoje, descubro, para minha surpresa, um poema de autoria dessa famosa contista.

E que poema!

Se você pode ler em inglês, vai entender do que estou falando, of course.
Se não, peço que aguarde, pois ainda estou preparando minha versão do poema em português que espero repostar aqui, em breve.

Por ora, vamos tomando um chá de camomila, mesmo que estejamos desacompanhados.
;-D


Camomile Tea 
Katherine Mansfield

Outside the sky is light with stars;
There's a hollow roaring from the sea.
And, alas! for the little almond flowers,
The wind is shaking the almond tree.

How little I thought, a year ago,
In the horrible cottage upon the Lee
That he and I should be sitting so
And sipping a cup of camomile tea.

Light as feathers the witches fly,
The horn of the moon is plain to see;
By a firefly under a jonquil flower
A goblin toasts a bumble-bee.

We might be fifty, we might be five,
So snug, so compact, so wise are we!
Under the kitchen-table leg
My knee is pressing against his knee.

Our shutters are shut, the fire is low,
The tap is dripping peacefully;
The saucepan shadows on the wall
Are black and round and plain to see.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Bliss or the pear tree


via World Trees

Não há motivo algum para se sentir infeliz, vamos combinar assim. Ainda que, por exemplo, sei lá... você descobrisse que seu namorado tem um envolvimento com outra pessoa. Ainda assim! Tampouco isso justificaria o sentimento de infelicidade mórbida que costuma acometer algumas pessoas, as quais eu conheço e talvez você mesmo também conheça.

A tal descoberta justifica, quando muito, o término da relação, justificaria também, quiçá, o perdão e o recomeço, mas não o sentimento de tristeza profunda e que acompanha tantas decepções amorosas.

Fiquei pensando nisso ao ler o conto Bliss, “Felicidade”, de Katherine Mansfield.

Bertha Young, Pearl Fulton e Harry vivem qualquer coisa que, afinal, não poderia ser catalogada em um nível comum de relação, mesmo aquela que já se esperaria de um triângulo, ou seja, quando o próprio "triângulo"  não é de fato desejado, ao menos por um dos três vértices.

Nesse conto há uma cumplicidade entre mais de um par: entre Bertha e Pearl e entre Pearl e Harry. E claro, uma cumplicidade em algum sentido mais profundo, para além da natural ou que já se esperaria, entre Bertha e Harry: o casal "oficial".

Mas, então, no ápice do que poderia ter sido uma situação que, entre os mortais comuns, decairia  para uma espécie de sofrimento imensurável, temos tão somente essa singela passagem:

Bertha correu para as janelas largas do jardim. "Deus! O que vai acontecer agora?".
Mas a pereira estava tão linda como sempre, tão imóvel e florida como sempre.
  
No fundo, é isso o que me interessou apreender nessa experiência de leitura: o fato de que essa linda pereira continua imóvel e florida como sempre.

Mesmo que a apropriação da metáfora possa parecer "brega", não vou me furtar a dizer que há, sim, uma pereira dentro de cada um de nós e é a isso que desejo também chamar felicidade, porque se trata daquela que não se dissipa por nenhum motivo da ordem dos anseios egoístas, menos ainda por um motivo que pretenda ser o oposto dessa beleza e desse desabrochar sem igual. Mesmo quando me desespero e clamo por Deus e/ou me pergunto acerca do futuro incerto.

Simplesmente assim ou ainda que não tão simplesmente! ;-)

quinta-feira, 31 de maio de 2012

The Secret Garden by Frances Hodgson Burnett

O tema da infância no abandono tem sido recorrente para mim nos últimos tempos.

Por exemplo, eu pude ver e escrever a respeito do filme Adorável Pivellina e foi tocante conhecer a personagem que encontrou uma pobre menina de 2 anos abandonada em um balanço de playground e vê-la sendo obrigada a fazer companhia e distrair uma criança perdida, portanto, a imagem mais flagrante da inocência, quando aguardam, ambas, por um longo tempo, uma mãe que não aparece.

E hoje eu estava nessa livraria e vi um exemplar muito charmoso de um livro que é um clássico da literatura infantil inglesa: The Secret Garden, de Frances Hodgson Burnett.

Eu não leio em língua inglesa mais amiúde como gostaria, embora consiga fazê-lo bastante bem, sem precisar recorrer ao dicionário a cada palavra desconhecida do meu vocabulário individual naquela língua. Contudo, nunca é tão fácil ler em outro idioma, e, ainda assim, quando comecei a ler esse livro não consegui parar, pois é também essa, como foi assistir aquele filme, uma experiência adorável.

Já li dois capítulos do livro e foi igualmente comovente ver a protagonista, Mary Lennox, uma garotinha de apenas 9 anos de idade e que, no começo da história, vive na Índia, ela também abandonada pelos pais, mesmo que ainda morando com os mesmos! É que ambos mal conversam com ela e a deixam todo o tempo aos cuidados de uma aia. Assistimos ainda, logo nesse começo da história, todos os adultos da casa morrerem de cólera, quando, então, ela é encontrada sozinha no bangalô.

Eu não cheguei, portanto, a conhecer o tal jardim do título da obra, mas já sei que será um jardim de maravilhas, como costuma ser o que é do plano redentor de todo sofrimento. ;-)

De qualquer modo, importa aqui registrar essa minha solidariedade em relação ao abandono de um modo geral, que é realmente uma das realidades mais tristes na infância, para não falarmos na realidade ainda mais triste do abandono de pais na velhice (na verdade, não dá para pensar no que seja pior entre ambas circunstâncias). Essa última, entretanto, é mais comum do que imaginamos... São nesses dois extremos da vida, quando as pessoas mais precisariam de cuidados, que, muitas vezes, elas são abandonadas.

Tais expressões dessa dolorosa realidade humana, quando desenvolvidas em obras de arte, podem até nos chocar, mas ao mesmo tempo nesse contexto nos consolam, porque ali já há a elaboração da experiência em um grau superior e que nos permite imaginar uma saída mais honrosa para tanta tristeza. Pois, então, ela geralmente se revela pela solidariedade dos justos: o que nem sempre encontramos na vida real, lamentavelmente.

Que esses modelos exemplares, idealizados na arte, possam nutrir mais esperança para o nosso plano comum, a saber: o da realidade cotidiana. Oxalá!

O Jardim Secreto de Frances Hodgson Burnett

Capa da primeira edição

terça-feira, 22 de maio de 2012

Epifanias em nossos desertos


Outro dia eu falei por aqui que eu descobrira muito recentemente que Mary Westmacott e Agatha Christie são a mesma pessoa.  É que eu lera, então, Filha é filha. Pois bem, agora li Ausência na primavera, romance acerca do qual a própria autora teria dito: O livro que eu sempre quis escrever.

Eu penso que ela estava coberta de razão por ter desejado escrever esse livro no qual acompanhamos uma dona de casa inglesa, bem provinciana, mas que ao voltar de Bagdá, onde fora visitar uma filha casada, encontra-se tendo que aguardar uma conexão de um trem, no meio do deserto, para que possa voltar à sua cidadezinha inglesa.
Embora essa pobre mulher tenha todos os defeitos comuns às mães e esposas que se acham muito dedicadas e corretas e ela ainda tenha os defeitos comuns àquelas que são perfeitamente inglesas, o fato é que, ao se deparar consigo mesma, no meio desse deserto, ela só pôde encontrar, como, aliás, aconteceria com qualquer outro cristão, seus próprios fantasmas.

E, então, como é rica e emocionante a experiência do exame de consciência que Agatha Christie descreve! Vamos combinar, que tal exame é sempre bonito quando autêntico e, diga-se de passagem, não é possível fugir dele a certa altura: para todo mundo em algum momento ele ocorrerá! Contudo, a oportunidade para que isso aconteça na vida de cada um é sempre misteriosa.  Por que comigo? É a primeira pergunta que fazemos. Para em seguida nos perguntarmos também: Por que agora e não antes? Por que, por que, por quê?

Trata-se também de um livro do qual não é possível fazer uma sinopse, pois como sintetizar toda uma vida que se conta em flashbacks, após uma epifania no meio do deserto!?

Para suscitar o interesse de vocês, vou apenas transcrever um trecho formidável e que se dá quando Joan, a protagonista, finalmente está voltando para casa e em companhia de sua companheira de cabine e que é uma aristocrata ótima! Na ocasião, elas têm esse diálogo:

- É verdade eu passei por uma experiência bastante perturbadora.
-Ach, é mesmo? O que foi? Um homem?
-Não, certamente não.
-Que bom. É tão comum ser um homem, e realmente no fim fica um pouco chato.
-Eu estava sozinha na pousada em Tell Abu Hami, um lugar horrível, cheio de moscas, latas e rolos de arame farpado, e muito sombrio e escuro no interior.
- Isso é necessário por causa do calor no verão, mas eu sei o que você quer dizer.
-Eu não tinha ninguém para conversar e logo em seguida terminei os livros e... e fiquei... de um jeito muito estranho.
- Sim, sim, isso poderia muito bem ocorrer. É interessante a sua história. Continue.
- Comecei a descobrir coisas a meu respeito. Coisas que nunca percebi antes. Ou melhor, coisas que sabia, mas nunca quis reconhecer. Não consigo explicar a você.
- Oh mas você consegue. É bem fácil. Eu vou compreender.
O interesse de Sasha era tão natural, tão despretensioso, que Joan se viu falando com impressionante falta de restrições. Já que falar sobre seus sentimentos e relações pessoais era tão natural para Sasha, começou a parecer natural para Joan.
Ela começou a falar com menos hesitação, a descrever seu desconforto, seus temores, e seu pânico final.
- Atrevo-me a dizer que isso parecerá absurdo, mas achei que estava perdida por completo, sozinha, que até mesmo Deus me havia abandonado.
- Sim, todos sentem isso em algum momento. Eu própria já me senti assim. É muito sombrio, muito terrível.

Não é maravilhoso que todo mundo possa se sentir assim, em algum momento, e que cada um de nós tenha que se resolver consigo mesmo? Podemos verificar que isso acontece, na verdade, em uma tradição de relatos e que remonta, só para ficar na modernidade ocidental, desde o que nos conta Dante Alighieri até, por que não?, esse de Mary Westmacott. 
;-)


terça-feira, 27 de março de 2012

Solar, de Ian McEwan




Quando uma amiga minha emprestou-me sua edição do romance Solar, de Ian MacEwan, não curti muito no começo. Mas, depois da página 50, penso que comecei a entender o que está, afinal, acontecendo por ali...rsrsrs 
Agora já estou na página 170 e estou curtindo muito!!! kkkk 
Por isso, achei que eu devia procurar a carinha do romancista no Google Imagens. Sim, ele é um escritor famoso, respeitado na Inglaterra e no mundo, é importante que o conheçamos, embora o melhor modo de fazê-lo será mesmo lendo seus livros. ;-) 




by Murdo MacLeod
Ainda assim, encontrei essa imagem dele no blog bibliotecariodebabel.com, que reproduzia ainda uma versão integral de uma entrevista que o escritor concedeu ao suplemento Actual, do semanário Expresso, de Portugal.
O que me convenceu a continuar lendo seu livro, com ainda mais interesse, foi essa resposta que ele deu naquela entrevista:





Expresso: Há uns tempos, andou com o seu filho pela rua, no centro de Londres, a oferecer livros que tinha em duplicado na sua biblioteca. Todas as mulheres com que se cruzou aceitaram a oferta, enquanto todos os homens (menos um) a recusaram. Num texto publicado pelo The Guardian, a sua conclusão foi: «Quando as mulheres pararem de ler, o romance estará morto.» Será mesmo assim?

Ian McEwan: Bom, a verdade é que são as mulheres as principais consumidoras de romances. Por quê? Talvez porque as mulheres têm um interesse maior nas pessoas do que em coisas. Há sempre um risco, ao abordar este tema, de cair em generalizações, mas a minha experiência diz-me que as mulheres têm uma capacidade mais fina de interacção pessoal. O radar delas é mais exacto. E os romances são quase sempre sobre interacções pessoais. Independentemente do que os modernistas possam ter dito no início do século XX, o romance voltou, em minha opinião, a reclamar o que acontece na vida privada. 




Pareceu-me tão acertada essa sua  visão da situação - não só no que diz respeito ao romance como também ao papel da mulher enquanto leitora - que fiquei bem mais interessado pelo autor e por sua obra. 
Vamos combinar que nossas "interacções" com romancistas e romances podem também se dar por uma notícia que se tenha, para além da própria obra ou daquilo que os "entendidos" possam dizer de tal autor. Ou seja, elas podem se dar também por essa espécie de aceno que o próprio autor nos dê acerca de sua conduta e/ou visão de mundo e ainda que desse modo, ou seja, por um acaso... 
Não tenho me arrependido de continuar lendo o romance de MacEwan.


Tal leitura tem sido no mínimo instigante, uma vez que sua personagem protagonista é um cientista, um Prêmio Nobel de Física, mas um homem tão ordinariamente comum, que se revela um tanto confuso, "atrapalhado" mesmo, ao ponto de, por fim, nos comover. Há uma espécie de senilidade precoce que vai tomando conta desse homem, o qual, no entanto, ainda gostaria de estar no controle da situação. 


Nesse romance, encontramos uma abordagem absolutamente crítica do problema da falência do que tanto querem chamar de desenvolvimento sustentável, ou seja, um modo completamente novo de tratar do futuro do planeta. Para MacEwan, esse futuro está conectado a um modo muito subjetivo de ser, de cada um de nós, e, necessariamente, isso é o que há de espantoso! Eu  também vejo nesse romance um flerte do autor com toda uma tradição de contos policiais e também com a ópera bufa, e até com uma certa tradição de comédias do cinema americano: mas talvez isso tudo seja maluquice da minha cabeça...rsrsrs


Contudo, o mais importante é que há uma sensibilidade própria de um homem que busca compreender o ser humano, em termos globais, e isso, tão somente contando uma história, ou seja, por meio do exercício de construção/compreensão do que ele está chamando de interações da vida privada. E, sim, será nessa experiência de vida que encontraremos a mulher sempre como uma presença, no mínimo, instigante. É o que  posso observar na fabulação dessa vida em questão.


E, claro, tal personagem também tem seus momentos de epifania, vejam:


Beard pensou que, se algum dia viajasse para outra galáxia, logo sentiria uma falta mortal daqueles irmãos e irmãs à sua frente, de todo mundo, até mesmo das ex-mulheres. Fora invadido pela doce ilusão de que gostava das pessoas. Perfeitamente desculpáveis, todas elas. Um pouco cooperativas, um pouco egoístas, às vezes cruéis e, acima de tudo, engraçadas. Os skidoos passavam pela ravina estreita, de altas paredes, que havia sido o cenário de sua vergonha, um momento para ser enterrado e esquecido. Preferia relembrar como escapara friamente do urso assassino. A verdade, porém, era que sentia um estranho carinho para com a humanidade. Achou até que ela poderia vir a gostar dele. Todo mundo, todos nós , como indivíduos, naturalmente tínhamos de confrontar o esquecimento sem reclamar muito. Como espécie não éramos a melhor imaginável, mas sem dúvida a melhor, ou a mais interessante, que existia.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Sherlock Holmes again

Sábado passado, tive a alegria de encontrar em uma livraria essa edição da Zahar de As aventuras de Sherlock Homes, de Arthur Conan Doyle. Trata-se de uma tradução de The new annotated Sherlock Holmes, v.1: The adventures of Sherlock Holmes; The memoirs of Sherlock Holmes. A edição é bastante bem cuidada, como costumam ser a de qualquer livro publicado por essa editora, já a tradução ficou a cargo de Maria Luiza X. de A. Borges e há ainda uma riqueza complementar: suas páginas contém as ilustrações originais das histórias, ou seja, de quando elas foram publicadas pela primeira vez na The Strand Magazine.

Sim, trata-se das lindas ilustrações de Sidney Paget, afinal, o responsável, desde a era vitoriana, pela popularização da figura esguia e charmosa do detetive, essa mais popular, e que ficou. Dizem até que esse ilustrador influenciou o cinema noir, uma vez que algumas histórias do detetive eram sombrias e ele buscava recriar esse clima em suas ilustrações, o que mais tarde foi transposto para o cinema, ou seja, seu trabalho serviu praticamente de "storybord" para tal cinema, o que, aliás, faz todo o sentido.


Eu estou apreciando muito ler esses contos, porque eu só lera de Conan Doyle dois romances em que Sherlock Holmes também atua: O Signo dos Quatro e O Cão dos Baskervilles e isso, há muito tempo, quando eu era muito jovem. Agora, estou notando que minha percepção está mais atenta e, claro, não vejo ali apenas a diversão e distração que tantos sempre viram nas histórias do detetive. Noto as sutilezas e até mensagens cifradas! Veja você se não se trata disso mesmo nesses trechos do conto Um caso de identidade com o qual travei contato nessa manhã:


"Meu caro companheiro", disse Sherlock Holmes quando estávamos sentados, a lareira entre um e outro, em seus aposentos em Baker Street, "a vida é infinitamente mais estranha que tudo que a mente humana seria capaz de inventar. Não ousaríamos conceber coisas que, na realidade, não passam de lugares-comuns da existência. Se pudéssemos sair voando de mãos dadas por aquela janela, pairar sobre esta grande cidade, remover suavemente os telhados e espreitar as esquisitices que estão acontecendo, as estranhas coincidências, as maquinações, os quiproquós, os maravilhosos encadeamentos de fatos, que atravessam gerações e conduzem aos resultados mais estapafúrdios, toda a ficção, com suas convenções e conclusões previsíveis, pareceria extremamente batida e inútil." (...)


(...) "Para produzir um efeito realístico, é preciso exercer certa seleção e discernimento", observou Holmes. "Falta isso ao noticiário policial, em que se dá mais ênfase, talvez, às platitudes pronunciadas pelo juiz do que aos detalhes, que, para um observador, contém a essência vital de toda a questão. Acredite, não há nada tão aberrante quanto o lugar-comum."(...)


(...)Na verdade, descobri que em geral é em assuntos sem importância que há campo para a observação e a análise rápida de causa e efeito que faz o encanto de uma investigação. Os crimes maiores tendem a ser mais simples, pois quanto maior é o crime, mais óbvio, em regra, é o motivo.(...)


(...) ela lançava olhares furtivos, nervosos e hesitantes para nossas janelas, enquanto seu corpo balançava para frente e para trás e os dedos remexiam nos botões da luva. De repente, num mergulho, como o do nadador que salta da margem, atravessou a rua num átimo e ouvimos o som estridente da campainha. 
"Já vi esses sintomas antes", disse Holmes, jogando o cigarro no fogo. "Hesitação na calçada significa um affaire de coeur. Ela deseja um conselho, mas teme que a questão seja delicada demais para ser revelada. Mas mesmo num caso desse tipo podemos fazer uma distinção. Quando uma mulher foi seriamente maltratada por um homem, ela já não hesita, e o sintoma usual é uma corda de campainha arrebentada. Podemos presumir que este é um caso de amor, mas que a donzela em questão está menos enraivecida que perplexa, ou magoada. Mas aí vem ela em pessoa para esclarecer nossas dúvidas." (...)


Eu não tinha toda razão, quando dizia outro dia aqui que mais vale a pena ser um Sherlock Holmes que um agente 007?

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A taça de ouro. Você já ouviu falar nesse romance?

Estou lendo um livro bastante sofisticado.

Eu gosto da literatura de Henry James porque ela nos provoca na medida justíssima do que desejamos apreender ou compreender acerca daquelas sutilezas que há em toda relação humana.

No romance A Taça de Ouro, por exemplo, e que agora leio, é isso mesmo o que acontece...

Você é provocado a desejar compreender o que aquelas pessoas de uma classe social elevadíssima, naquele tempo e lugar determinados, ou seja, no final do XIX, começo do XX, na Inglaterra, estão vivenciando em termos de sentimentos e de interesses.

A focalização do narrador é a determinação de para onde podemos ir nessa compreensão, ou seja, no sentido de até onde...

Isso tudo por que podemos entender o que nos é dito como vontade de uma determinação da própria autoria, mas também de sua narratologia,  portanto, como uma construção do desejo de conceder liberdade a cada personagem, naquilo que determinaria o fator da exposição de cada qual, e, ainda, como aquilo que pode  ser vivenciado dentro de uma certa liberdade do leitor, que lhe é concedida, para que possa elaborar seus próprios julgamentos. Contudo,  esses últimos só podem ocorrer no momento a posteriori, ainda que, inicialmente, isso pareça acontecer simultaneamente...

Pois bem, não acho que eu esteja me fazendo compreender, embora isso não seja um problema aqui, afinal essa postagem não é uma aula de literatura. É apenas um impressão de leitura. rsrsrs

Assim sendo, quero registrar, de todo modo, que ler um romance assim não é uma experiência fácil,  porque todo esse exercício exige uma certa disponibilidade, e que, em nosso tempo, dependerá, sobretudo, de uma certa dose de generosidade. Afinal, nessa experiência será necessária a intenção subjacente de um aproveitamento absoluto do próprio tempo dedicado à leitura.

Vejam o trecho abaixo: ele não é um exemplo disso tudo que eu tentava dizer mais acima?

- Parece-me que tivemos dias tão lindos juntos que espero não ser um choque para ti quando perguntar se poderia me ver, com alguma satisfação, como esposo - Como se soubesse que ela não poderia, obviamente não poderia, nem um pouco graciosamente, e fosse ou não responder apressada, ele dissera um pouco mais; quase como se sentisse que deveria ir pensando antecipadamente. Colocara a questão da qual não havia como recuar e que portanto representava o sacrifício de suas embarcações, e o que mais disse significava o impulso redobrado da chama que tornaria certa a combustão.  - Isto não é súbito de minha parte, e em alguns momentos eu me perguntei se tu não achavas que eu estava em vias de fazê-lo. Estou assim desde que saímos de Fawns, realmente comecei quando estávamos lá. - Ele falava devagar, dando-lhe, como desejava, tempo para pensar; ainda mais porque isso a estava fazendo olhá-lo atentamente, e fazendo-a também, num grau notável, parecer "bem" enquanto fazia isso; uma consequência grande e, até agora, feliz. De qualquer modo ela não estava chocada, coisa que ele vira apenas como uma humildade bonita, e Adam Verver lhe daria tantos minutos quantos ela quisesse. - Tu não deves pensar que estou esquecendo que não sou jovem.
- Ah, não é isso. Eu é que sou velha. O senhor é jovem. - Foi o que ela respondeu a princípio; e num tom que indicava ter aproveitado seus minutos. A resposta não fora exatamente ao ponto, mas foi gentil: o que ele mais desejava. E nas palavras seguintes ela manteve a gentileza, manteve a voz clara e baixa e o rosto sem franzir. - Também acho que estes dias foram lindos. Eu não deveria ser grata a eles se não pudesse, mais ou menos, imaginar que iriam nos trazer a isto. - Pareceu a Adam Verver que ela havia avançado um passo para encontrá-lo, e que ao mesmo tempo continuava imóvel. Mas sem dúvida isso apenas significava que Charlotte estava, séria e razoavelmente, pensando - exatamente o que ele desejara que ela pensasse. Se ela pensasse apenas o bastante, provavelmente pensaria em concordar com ele. - Parece-me - prosseguiu ela - que é o senhor que precisa ter certeza.
- Ah mas eu tenho certeza. Em questões importantes eu nunca falo quando não tenho. Então, se consegues encarar tal união, não precisas se preocupar nem um pouco.