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quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Like this. Rumi by Tilda Swinton


Se alguém lhe pergunta
Como pareceria a perfeita satisfação
de todo o nosso desejo sexual,
levante-lhe o rosto e diga:
Assim.

Quando alguém menciona a graça
do céu noturno, suba no telhado
e dance e diga:
Assim.

Se alguém quer saber o que o "espírito" é ,
ou o que  significa a "essência de Deus",
incline a cabeça em direção a ele ou ela.
Mantenha seu rosto colado ali:
Assim.

Quando alguém cita a batida imagem poética
De nuvens que passam e descobrem a lua ,
Afrouxe lentamente, laço por laço, as fitas de seu robe:
Assim.

Se alguém se pergunta como Jesus ressuscitou os mortos,
não tente explicar o milagre.
Beije-me nos lábios:
Assim. Assim.

Quando alguém perguntar o significado de
"morrer por amor ", aponte
aqui.

Se alguém perguntar o quão alto eu sou, feche a cara
e indique com seus dedos o espaço
entre os vincos de sua testa .
Esta altura.

A alma, por vezes, deixa o corpo, os retornos.
Quando alguém não acredita nisso ,
Retorna à minha casa .
Assim.

Quando os amantes gemem,
eles estão contando nossa história.
Assim.

Eu sou um céu onde vivem espíritos .
Olhe fixamente para este azul que se aprofunda,
Enquanto a brisa diz um segredo.
Assim.

Quando alguém pergunta o que há para fazer ,
acenda uma vela nas mãos dele
Assim.

Como o cheiro de José chegava até Jacó ?

Huuuuu

Como voltou a visão de jacó ?

Huuuuu

Um sopro limpa os olhos.
Assim.

Quando Shams voltar de Tabriz,
Fará sua cabeça aparecer no vão
da porta para nos surpreender

Assim.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Poesia Albanesa

Luljeta Lleshanaku 
Já faz um tempo que descobri um blog muito sofisticado: 
Poesia & Lda., que  se propõe a divulgar a poesia produzida em diferentes culturas, inclusive, em culturas das quais dificilmente temos acesso à produção literária.

Hoje eu estava apreensivo com aquela gente linda do Greenpeace que continua presa na Rússia, inclusive com a brasileira Ana Paula, que se encontra entre eles!

Penso que  não por acaso, encontrei neste blog a poesia de LULJETA LLESHANAKU (ler Liublieta), que nasceu em Elbasan, na Albânia, em 1968.

É alguém da minha idade (eu nasci em 1967) e é uma mulher. 
Dois motivos mais do que suficientes para eu me identificar com sua poesia. ;-)

Este poema postado naquele blog por João Luís Barreto Guimarães tem como temática os diferentes modos de ser prisioneiro... 

Enquanto reflito nessa temática, mando as minhas mais sinceras e boas vibrações para que se tenha a melhor solução para o caso, dentre os resultados da audiência que aconteceu ontem em Hamburgo, na Alemanha, no Tribunal Internacional de Direito Marítimo.

Tal audiência ocorreu graças ao  governo holandês, diga-se de passagem, e que quer a libertação do navio Arctic Sunrise – de bandeira holandesa – bem como de toda a tripulação que estava a bordo da embarcação. Que assim seja!


PRISIONEIROS


Prisioneiros
culpados ou não
parecem sempre iguais quando são libertados –
patriarcas destronados.

Este acabou de passar cabisbaixo
pelo portão, apesar de não ser alto
seus gestos como os de um Beduíno
entrando na tenda
transportando às costas o dia inteiro.

Cortinas de algodão, paredes de pedra, o cheiro a cal queimada
levam-no de volta para o momento
em que a guerra fria terminou.

No outro dia, o seu lençol foi pendurado no pátio
como se a ostentar a mancha de sangue
depois da noite de núpcias.

Rostos manchados pelo sol
cercam-no, todos olhos e ouvidos:
"Com o que é que sonhaste a noite passada?"
Os sonhos de um prisioneiro
são pergaminhos
feitos sagrados pelas passagens em falta.

Sua irmã ainda está a descobrir os seus estranhos hábitos:

pedaços de pão escondidos nos bolsos, e sob a cama
o implacável corte da madeira para o inverno.

Porquê este medo?
O que pode ser pior do que a vida na prisão?

Ter escolhas
mas ser incapaz de escolher.
A brasileira Ana Paula é uma das 30 pessoas presas na Rússia após protesto pacífico contra exploração de petróleo no Ártico. Foto: © Dmitri Sharomov/Greenpeace

Você pode assinar a petição pela libertação dessa gente boníssima aqui.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Eryn Green's poem

Hoje é o dia mundial da poesia! Como é necessário existir esse dia, por favor!

Essa semana, coincidentemente, eu descobri um jovem poeta americano e esse seu poema.
Um verdadeiro presente das musas.

Eu tentei fazer uma transcrição em português do poema, em uma tradução muito livre e que não ficou boa!
Mas foi como eu consegui entender sua poesia, afinal.

Feliz dia da poesia para todos os poetas e para todos nós! ;-)


Page of Swords 

So take care of yourself, learn how
to take better pictures, breathe
into your hips, braver please

give love credit for
the way I live
that call me 
kind of feeling
frenzied, lupine,
the card I draw
blushing in your breast
pocket undressing
freedom I know you
know you understand


From “Eruv,” by Eryn Green, to be published by Yale University Press in April 2014

Página de Espadas

Então, cuidar de si, aprender como
tirar fotos melhores, respirar
em seus quadris, agradar com bravura
dar crédito de amor
à maneira que vivo
a qual me chamam
tipo de sentimento
frenético, flor de tremoceiro, 
o cartão que desenhei
corando em seu peito
bolso desnudo
liberdade que eu sei 
você conhece e entende

De "Eruv," de Eryn Green, a ser publicado pela Yale University Press, em abril de 2014 

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Amamos o poeta

Nesse dia D, remeto os leitores desse blog a um outro e que nos situa lindamente em relação ao poeta homenageado: Carlos Drummond de Andrade. ;-)
Leiam e apreciem a postagem intitulada Drummond no blog Semióticas, de José Antônio Orlando.


Poema da purificação

Carlos Drummond de Andrade

Depois de tantos combates 
o anjo bom matou o anjo mau 
e jogou seu corpo no rio.

As águas ficaram tintas 
de um sangue que não descorava 
e os peixes todos morreram.

Mas uma luz que ninguém soube 
dizer de onde tinha vindo 
apareceu para clarear o mundo, 
e outro anjo pensou a ferida 
do anjo batalhador.



terça-feira, 28 de agosto de 2012

Katherine Mansfield's poem


Chá de Camomila
Katherine Mansfield
(versão brasileira: Josafá Crisóstomo)


Lá fora o céu é luz das estrelas,
Há um profundo rugido vindo do mar.
E, ai! florzinhas de amêndoas,
O vento está chacoalhando a amendoeira.


O pouco que eu pensava, um ano atrás,
Na medonha cabana em Lee,
Era que ele e eu, então, deveríamos estar sentados
Tomando uma xícara de chá de camomila.

Leves como penas as bruxas voam.
Para um vaga-lume no junquilho
É fácil ver os chifres da lua.
Um duende brinda com um zangão.

Podemos ter cinquenta anos, podemos ter cinco,
Tão confortáveis, unidos e sábios estamos.
Debaixo da mesa,
Meu joelho pressiona o seu.

Nossas persianas estão fechadas, o fogo brando,
A torneira está pingando pacificamente;
As sombras das panelas na parede
São redondas e pretas e evidentes.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Um poema de Katherine Mansfield

Meu amor por Katherine Mansfield é tão verdadeiro!

Os grandes escritores sempre foram objeto de minha profunda admiração.
E, quando buscamos conhecer suas obras, tal estima apenas se reitera no tempo e espaço.
Hoje, descubro, para minha surpresa, um poema de autoria dessa famosa contista.

E que poema!

Se você pode ler em inglês, vai entender do que estou falando, of course.
Se não, peço que aguarde, pois ainda estou preparando minha versão do poema em português que espero repostar aqui, em breve.

Por ora, vamos tomando um chá de camomila, mesmo que estejamos desacompanhados.
;-D


Camomile Tea 
Katherine Mansfield

Outside the sky is light with stars;
There's a hollow roaring from the sea.
And, alas! for the little almond flowers,
The wind is shaking the almond tree.

How little I thought, a year ago,
In the horrible cottage upon the Lee
That he and I should be sitting so
And sipping a cup of camomile tea.

Light as feathers the witches fly,
The horn of the moon is plain to see;
By a firefly under a jonquil flower
A goblin toasts a bumble-bee.

We might be fifty, we might be five,
So snug, so compact, so wise are we!
Under the kitchen-table leg
My knee is pressing against his knee.

Our shutters are shut, the fire is low,
The tap is dripping peacefully;
The saucepan shadows on the wall
Are black and round and plain to see.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Petals or leaves

Essa semana encontrei-me com um amigo, que me contou algo que ele próprio julgava incrível, impossível de acontecer com alguém, mas que acontecera consigo mesmo.

Parecia um sonho, mas ele estava acordado.

Ele me disse que saíra para ir ao supermercado e que, quando entrou no tal estabelecimento comercial e enquanto andava pelos corredores olhando as prateleiras, ao dar um determinado passo, sentiu como se tivesse atravessado um portal (isso mesmo) e, em uma fração de segundos, um tufão imenso veio em sua direção e, com essa ventania, páginas e mais páginas de registros das cenas de todo um passado vinham também: como se fossem folhas soltas de uma revista, mas no formato digital.

Ele não conseguia, mesmo que tudo aquilo passasse diante dos seus olhos, fixar o olhar em nenhuma das imagens que essas folhas soltas mostravam e apenas uma, também muito rapidamente, ou seja, em uma mera fração de segundos, se fixou diante dele, para em seguida também se perder em meio ao vendaval.

Nessa última folha, havia um rosto de uma personagem oriental.

Quando isso tudo acabou, ele se viu novamente no supermercado, evidentemente, aturdido.
Mas, algo se revelara com a experiência, ou seja, uma informação verdadeira e única se salvou e que dizia respeito, provavelmente, a um passado remotíssimo do meu amigo e que, além disso, talvez estivesse relacionada com aquela personagem de priscas eras. A ver.

Independentemente de que isso seja uma informação de ordem espiritual e que ele recebeu por necessidade e/ou merecimento ou, se você preferir, mera alucinação, o acontecido em si é algo bastante surpreendente: ainda mais que o meu amigo é uma pessoa muito lúcida e que não diz asneiras ou inventa histórias, eu posso garantir.
Isso que ele me contou voltou a minha lembrança agora, pois acho que tem tudo a ver com o que Amy Lowell, uma poetisa norte-americana, descreve em um dos seus poemas.

Eu conheci tal poetisa, ainda ontem, via web, e descobri que se trata de uma artista maravilhosa! 

Fiquei tão empolgado que fiz de brincadeira uma tradução deste seu poema lindo. Não é séria a tradução, é apenas uma brincadeira. Ok? Sabemos todos nós que traduzir poesia demanda algo, no mínimo, como dois anos, pensando na melhor versão para um único verso! kkkk

a poetisa quando criança
Petals

Life is a stream
On which we strew
Petal by petal the flower of our heart;
The end lost in dream,
They float past our view,
We only watch their glad, early start.
Freighted with hope,
Crimsoned with joy,
We scatter the leaves of our opening rose;
Their widening scope,
Their distant employ,
We never shall know. And the stream as it flows
Sweeps them away,
Each one is gone
Ever beyond into infinite ways.
We alone stay
While years hurry on,
The flower fared forth, though its fragrance still stays.

Amy Lowell
Pétalas

A vida é um fluxo
Em que espalhamos
Pétala por pétala a flor do nosso coração;
O fim perdido em sonho,
Elas fazem boiar nosso anterior propósito,
Nós apenas assistimos o contentamento delas, na prematura arrancada.
Carregadas de esperança,
Enrubescidas de alegria,
Nós espalhamos as folhas de nossa rosa aberta;
Seu amplo objetivo,
Seu distanciado emprego,
Nós nunca saberemos. E o fluxo à medida que flui
Varre-as.
Cada uma está desaparecida,
Sempre além, em infinitas direções.
Nós permanecemos sós,
Enquanto os anos correm.
A flor passou adiante, embora sua fragrância ainda permaneça.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Ler Emily Dickinson é exercício de crescimento. É também como um transbordamento de primavera.

Ouvi alguém comentando que, em nossos dias, não há mais desculpa para não aprendermos o que quer que seja, e que isso se dá, sobretudo, devido à democratização da informação, via internet.
Acho mesmo que essa pessoa tem razão. A única coisa que nos impediria de aprender, nesse contexto, seria mesmo o não querer aprender.
Vamos combinar: inteligência todos nós temos. Por exemplo, nunca gostei de ouvir alguém chamando qualquer um de burro, ou seja, de ver alguém sendo considerado não inteligente por alguém que, embora inteligente, não se revelasse educado.
Todos somos inteligentes, contudo, é claro, podemos escolher não utilizar ou exercitar nossa inteligência.
O mais interessante da inteligência é que ela é algo que possuímos e que só tende a aumentar, quanto mais exercitamos o ser inteligente na tarefa de pesquisar, informar-se, aprender e elaborar o conhecimento adquirido em tais expedientes.
Afinal, só aprendo algo, tentando, naquela espécie de exercício comum nessas circunstâncias, o de tentativa e erro.
De repente, posso até surpreender-me acertando. E sentir-me mais feliz, por isso mesmo.
Pois, então, que o contentamento seja um transbordar desse sentimento de conquista e que se fez porque não houve espaço para a preguiça no desenvolvimento dessa tarefa.
Essa semana, por exemplo, é uma semana de poucas tarefas "oficiais" na minha vida. Assim, nessa que é última semana do ano, eu pude pesquisar na internet o tema "poesia inglesa para crianças" e encontrei esse poema de Emily Dickinson.
Não sei onde ele se encontra no contexto da sua obra, ou seja, em qual coletânea exatamente, em que período foi escrito, mas vou continuar pesquisando...
Assim sendo, publico, nesse blog querido, essa postagem que é um pouco uma brincadeira e um pouco uma coisa séria também.
É que se trata de um exercício de tradução desse poema.
Não sou tradutor, nunca estudei para valer esse ofício que é o do tradutor, então, relevem, please, qualquer gafe extrema. kkkk

E, claro, façam comentários, corrigindo-me, se possível.

Apenas um adendo, eu li o poema para uma amiga que me disse: Isso é para criança?
Eu respondi: Sim, ao menos para as crianças que liam ou ainda leem Emily Dickinson.


A Light Exists in Spring
   
Emily Dickinson

A Light exists in Spring
Not present on the Year
At any other period --
When March is scarcely here


A Color stands abroad
On Solitary Fields
That Science cannot overtake
But Human Nature feels.


It waits upon the Lawn,
It shows the furthest Tree
Upon the furthest Slope you know
It almost speaks to you.


Then as Horizons step
Or Noons report away
Without the Formula of sound
It passes and we stay --


A quality of loss
Affecting our Content
As Trade had suddenly encroached
Upon a Sacrament.



Existe na primavera uma luz

Existe na primavera uma luz
 Não presente no ano,
 Em nenhum outro período -
 Quando Março mal começou

Uma Cor detém-se no exterior,
Nos campos solitários.
 A ciência não pode alcançá-la,
Mas a natureza humana a sente.

Ela aguarda sob a relva,
Revela a árvore mais distante,
 Sob o mais distante declive conhecido
 E que por pouco fala contigo.

Então, como andam os Horizontes
Ou os meios-dias anunciam distantes,
Sem a Fórmula do som,
 Isso passa e nós permanecemos -

Uma virtude de desperdício,
 Afetando nosso contentamento.
 Como permuta que houvesse subitamente transbordado
Sob um Sacramento.
Emily Dickinsons' herbarium

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Poems for Life

Tenho aprendido algo precioso: o melhor descanso para um trabalho é tão somente mudar de atividade. Eu sou revisor, blogueiro e tenho escrito crítica de cinema. Nesse fim de semestre, a atividade de revisor fica mais acentuada em minha vida: é que as pessoas precisam entregar seus trabalhos de conclusão de curso. Bem, ficar muitas horas revisando um texto pode ser uma atividade cansativa, confesso, então, eu dou uma paradinha e resolvo fazer tortinhas de damasco ou ler poesia inglesa.

Recentemente, comprei uma coletânea de poemas organizada por Laura Barber e editada pela Penguin Books. A organizadora diz, no prefácio, que "Eu preciso de um poema" não é uma frase muito comum de se ouvir, mas bastou ela começar a organizar esses Poems for Life que  passou a ouvi-la constantemente. Isso mesmo, ela organizou um livro que reúne poemas que servirão para todas as ocasiões da vida: do nascimento, passando pelo casamento até os funerais de um pessoa.

Eu atrevi-me a "traduzir" dois deles que eu achei tão lindos e que, no livro, comparecem na seção que está aí nomeada antes de seus títulos. Claro que foram os mais fáceis eu não sou tão atrevido assim...rsrsrs Enjoy it!

Getting Older, Looking back (Ficando mais velho, Olhando para trás)

Vitae summa brevis spem nos vetat incohare longam

They are not long, the weeping and the laughter
Love and desire and hate:
I think they have no portion in us after
We pass the gate.

They are not long, the days of wine and roses:
Out of a misty dream.
Our path emerges for a while, then closes
within a dream.
 
(Ernest Dowson)

A brevidade da vida nos impede de começar um longa esperança

Eles não são permanentes, o choro e o riso
Amor e desejo e ódio:
Eu penso que eles não têm parte em nós logo que
Passamos o portão.

Eles não são permanentes, os dias de vinho e rosas:
para além de um sonho nebuloso.
O nosso caminho emerge por algum tempo, então, se fecha
dentro de um sonho.

Intimations of Mortality (Intimações da Mortalidade)

Late Fragment

And did you get what you wanted from this life, even so?
I did.
And what did you want?
To call myself beloved, to feel myself beloved on the earth .


(Raymond Carver)

Fragmento tardio

E você conseguiu o que queria da vida, ainda assim?
Consegui.
E o que você queria?
Chamar a mim mesmo amado, sentir-me amado na terra.

domingo, 31 de julho de 2011

Cortesia: lição de vida

via Dolls of India
Eu estava hoje pensando no que eu postaria como mensagem de final de julho no meu blog e, ainda, como mensagem de início de agosto no blog do Coletivo Cultural Pegando o Gancho. Aos domingos (e também às segundas-feiras), tenho vontade de falar para todos alguma mensagem sincera, que venha do fundo do meu coração.
Assim sendo, fiquei com vontade de dizer que eu acredito (do mesmo modo que acredito em Deus) que a lição maior que podíamos dar ao mundo seria a de sermos cordatos com todos, in-dis-tin-ta-men-te: com o rico e com o pobre, com os poderosos do mundo e também com os que nele são humilhados, com nossos amigos e inimigos.
Se tal atitude for mesmo aquela do fundo do coração, abarcando assim a virtude da profunda sinceridade, poderíamos ainda, ao fim dessa vida, dizer o mesmo que sugere o poeta Manuel Bandeira no seu poema e, tão somente, por que afinal já teríamos exercitado muito essa atitude:

CONSOADA

Quando a indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Desejos vãos

Quando eu era adolescente eu ouvi pela primeira vez um poema de Florbela Espanca e pensei: eu compreendo, perfeitamente, o que essa poetisa está a dizer. É que, então, eu comungava, com aquela alma, dos mesmos anseios e, quiçá, também dos desesperos que ela de um modo tão pungente traduz em seus escritos.
Ontem ou anteontem, no Facebook, uma amiga postou um vídeo de uma cantora de fado chamada Mariza e que (vergonha!) eu não conhecia. A mulher que nasceu em Moçambique é famosíssima e de um talento como só podem ter os artistas mais dedicados e verdadeiros.
Tratava-se desse vídeo que fiz questão de também trazer para esse sítio, uma vez que estamos quase terminando o ano de 2010 e merecemos refletir sobre a vida.

Sim, a vida carece de reflexão full time.

E, afinal, quem já não sentiu como Florbela que desejaria ser mais e mais e mais, ou maior, mais forte, mais vasto, altivo, indiferente, possuir até o bem como fonte de orgulho e quem, como ela, já não percebeu, ao menos aqui e ali, que tudo isso é pouco e nada se não entendermos que devemos primeiro servir e amar desinteressadamente sempre, porque tudo nesse mundo é passageiro (uma amiga minha, palhaça toda vida, completaria: menos o cobrador e o motorista. kkkkk)
Curta, então, o soneto belíssimo da querida Florbela e a voz magnífica de Mariza cantando o fado.
Apenas uma última observação: também penso que os modelos que Mariza veste, uns vestidos sempre longos e que deixam-na imensa no palco, altiva, do modo como ela merece aparecer no mundo, afinal, porque o bem também precisa “crescer” nesse mesmo mundo. Enjoy it!

Desejos Vãos
Composição: Florbela Espanca/ Thiago Machado

Eu queria ser o mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras...essas...pisa-as toda gente!...

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Naomi Kobayashi revisitada

Em dezembro passado, eu apresentei aqui o trabalho de Naomi Kobayashi e não pude falar nada sobre a artista porque não posso ler japonês. Se você puder visite o site ;-p
Agora, encontrei novas imagens, provavelmente sua produção mais recente, que também desejo partilhar.
Acho tão feminino esse trabalho, no melhor sentido que pode ter o que é da ordem do feminino: profundo, incomum, sensível, portanto, pura poesia.

Vendo esse trabalho, lembrei-me que outro dia, alguém me falava em ilusão, no sentido daquela canção: Quem espera que a vida, seja feita de ilusão, pode até ficar maluco ou morrer na solidão...
E, é verdade, ilusão é fuga: quando não queremos perceber o mundo como ele se apresenta e nos iludimos, criando um mundo ou uma visão de mundo que melhor nos convenha.
Creio que há momentos em que é importante não termos também a ilusão de achar que o mundo é só isso que se vê: não, como nos diz outra canção, é um pouco mais, que os olhos não conseguem perceber e as mãos não ousam tocar, e os pé recusam pisar...

Acho que o trabalho de Kobayahi está nos falando desse "um pouco mais" que o mundo pode ser, ou ao menos do que nossa vida interior pode conceber acerca desse mesmo mundo. Enjoy it!

















terça-feira, 10 de agosto de 2010

Wandi Doratiotto


Eu me lembro quando o Wandi Doratiotto começou a fazer o programa Bem Brasil. Naquela época, tal programa acontecia lá na cidade universitária da USP. Eu, então, morava no Crusp e era uma delícia, no domingo de manhã, levantar-me, logo cedo, e ir assistir ao programa, ao vivo! De todos os que vi, achei inesquecível o que contou com a participação da Zizi Possi. Esse programa foi uma sensação e, ao menos para mim, isso também se devia ao seu apresentador e idealizador Wandi, com o seu bordão: “Paaaalco!”

Pois então, depois de se tornar conhecido como um dos integrantes do grupo musical Premeditando o Breque, o Premê, gravar inúmeros comerciais (o mais famoso deles consagrou aquele outro bordão “Não é assim uma Brastemp”), participar de filmes como Sábado, de Ugo Giorgetti (que eu acho maravilhoso) e apresentar toda semana o programa Bem Brasil na TV Cultura, há 15 anos, Wandi Doratiotto, agora, estreia na literatura.

Uma amiga foi naquele show que Wandi e outros artistas fizeram em homenagem ao Adoniram, nesse fim de semana, lá no Auditório Ibirapuera, e comprou o livro Haicais, do artista. O livro reúne 160 poemas, todos na consagrada forma de criação japonesa. Neles, temos uma fina e sensível observação do dia a dia, algumas vezes com toques de humor, ou propondo uma reflexão e, como nos é dito lá no seu site: nunca sem poesia.

Outra coisa muito bacana no livro é que o projeto gráfico e as ilustrações são de outro artista que eu adoro: Guto Lacaz.
Selecionei cinco dentre os que eu mais gostei:



Chamando a atenção pra si,
Falou alto o maconheiro:
- ih, esqueci...

Quer um sofrimento?
Reunião de chatos
no bar do momento.

Fruta-do-conde
Como pode?
Responde.

Digo e não sofismo:
até pra morte dá-se um jeito
depois do espiritismo.

Olha, a lua!
Toma,
é tua.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Eu sou fã de Vander Lee

Na sexta-feira, eu falei aqui do centenário de Adoniran e chamei à postagem Um menino de 100 anos. Ao criar um link para essa postagem no Facebook, um amigo comentou por lá: Viveu menino... morreu poeta. Só depois, entendi tratar-se de uma citação e isso porque ele, posteriormente, sugeriu-me que eu assistisse a um vídeo de Vander Lee no Youtube.
Fui ouvindo a canção Alma Nua e me emocionando, completamente. Ainda bem que eu deixei para ouvir a música, estando sozinho, no recôndito do meu quarto, uma vez que fiquei com o rosto banhado em lágrimas.
E, depois, fiquei pensando: Por que eu nunca tinha ouvido falar nesse mineiro, uai? Cheguei a pensar que isso se deu simplesmente porque a MPB não tem mais tanto espaço, na tv e no rádio, como já teve no passado... Contudo, hoje, conversando com uma amiga, ela disse-me que já ouvira Vander Lee e que suas músicas são tocadas no rádio, sim. Pode ser que esse seu depoimento não seja lá tão válido, porque ela é muito sofisticada, alternativa, descolada, enfim, não é qualquer pessoa, assim como aquele meu amigo que me apresentou a canção, e gente assim ouve o que tem de ser ouvido naquela única vez que toca no rádio e já ficam informados de uma preciosidade, enfim... Embora, pode ser que aconteça de eu também não estar ouvindo muito ao rádio. rsrsrs
De qualquer modo, eu me lembro que, quando criança, ouvia Chico Buarque de Holanda, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Elis Regina, Djavan, Maria Bethânia, Gal Costa, Ney Matogrosso, enfim, todos eles, os hoje ícones da MPB e isso se dava assim que uma joia de composição desses grandes compositores ou intérpretes saia do estúdio: ela vinha diretamente para nossas casas. Agora, talvez estejamos ouvindo menos rádio e a televisão, essa, definitivamente, não abre espaço para a MPB de qualidade, e, então, precisamos aguardar o tempo das nossas próprias relações, no meio virtual, para conhecer qualquer coisa nova, verdadeira e de qualidade na MPB.
O mais incrível é que Vander Lee não é alguém que começou agora, não senhor. Segundo a Wikipédia, o cantor e compositor nasceu em Belo Horizonte, em 3 de março de 1966 e começou sua carreira em barzinhos de seu estado, em meados da década de 80. Suas canções variam desde o romântico, passando pelo samba até a balada e rock mineiro. Ele já gravou com grandes nomes da MPB, como Zeca Baleiro, Elza Soares, Rita Ribeiro, Emilinha Borba, Leila Pinheiro e Nando Reis. Também compôs a música "Estrela", que foi gravada pela cantora Maria Bethânia e, além disso, teve a canção "Onde Deus possa me ouvir" gravada por Gal Costa.
Eu, se fosse você, verificaria se ninguém está por perto (caso você precise chorar como eu) e ouviria Alma Nua. A canção é um poema e ao mesmo tempo uma oração, como a Romaria, de Renato Teixeira. Nesse sentido, eu sou suspeito em falar, porque eu sou muito rezador...
Digo apenas que é uma composição como há muito eu não via na MPB. Assim sendo, a MPB está viva e seu nome atual é Vander Lee. Como podem ver virei fã do cantor. ;-D



Alma Nua
Vander Lee
Composição: Vander Lee

Ó Pai
Não deixes que façam de mim
O que da pedra tu fizestes
E que a fria luz da razão
Não cale o azul da aura que me vestes
Dá-me leveza nas mãos
Faze de mim um nobre domador
Laçando acordes e versos
Dispersos no tempo
Pro templo do amor
Que se eu tiver que ficar nu
Hei de envolver-me em pura poesia
E dela farei minha casa, minha asa
Loucura de cada dia
Dá-me o silêncio da noite
Pra ouvir o sapo namorar a lua
Dá-me direito ao açoite
Ao ócio, ao cio
À vadiagem pela rua
Deixa-me perder a hora
Pra ter tempo de encontrar a rima

Ver o mundo de dentro pra fora
E a beleza que aflora de baixo pra cima
Ó meu Pai, dá-me o direito
De dizer coisas sem sentido
De não ter que ser perfeito
Pretérito, sujeito, artigo definido
De me apaixonar todo dia
E ser mais jovem que meu filho
De ir aprendendo com ele
A magia de nunca perder o brilho
Virar os dados do destino
De me contradizer, de não ter meta
Me reinventar, ser meu próprio Deus
Viver menino, morrer poeta.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Aqui estamos

Mais do que a fazer poesia eu gostaria de aprender a fazer uma prece. Nela, eu colocaria o desejo de ser de outro planeta ou o de alcançar uma vida em outro planeta. Esse seria um planeta de seres tão evoluídos que não seriam sequer visíveis...


Embora seja um desejo válido, não sei se ele é possível de figurar numa prece. Sim, descubro agora, lamentavelmente, é também um desejo que soa prepotente, afinal, por que eu não poderia, meramente, viver entre os terráqueos, aceitando as limitações de cada qual que anda por aqui, a começar pelas minhas próprias?

Assim sendo, comecemos tudo de novo: Obrigado, meu Deus, por viver nesse planeta Terra, auxilia-me a cumprir a minha tarefa por aqui mesmo, junto aos outros, meus iguais, colegas de planeta. Amém.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Você precisa ouvir Tula Pilar e aplaudi-la

Uma amiga querida que leu o post anterior enviou-me um link de uma entrevista que a escritora e poetisa Tula Pilar deu para a Rádio Unesp. A minha amiga disse: Veja como um sarau pode mudar a vida de alguém. E é verdade, Tula Pilar conta que foi participando de saraus em Taboão da Serra que ela começou a ter a coragem necessária para mostrar sua produção escrita e que sempre existiu na sua vida.
A entrevista é emocionante porque ela tem um modo muito doce e agradável de revelar o quanto a esperança e a perseverança são importantes, sobretudo quando as condições materiais não são favoráveis, quando se é uma mulher negra, e tendo três filhos e criando as crianças sozinha.

Tula Pilar é mineira e uma passagem que eu achei bastante reveladora foi o que ela nos contou da sua experiência como empregada doméstica em Minas e, depois, em São Paulo. Ela conta que achou muito diferente o modo das famílias abastadas que contratam empregados domésticos tratar seus empregados, aqui em São Paulo, em relação ao modo como essas famílias se relacionam com seus empregados lá em Minas Gerais. Uma coisa que era um horror e que assistiu, quando viveu essa experiência, é que aqui em São Paulo se a empregada doméstica fica doente ela é simplesmente mandada embora do emprego. Ela também observou que os ricos paulistanos preferem jogar fora o que está sobrando do que dar para que a empregada leve para casa, para sua família. Eu tenho predileção pelos mineiros e sei muito bem do que Pilar estava falando. Ela própria é mineira e só podia ser: eu, paulistano, acho que quem é de Minas Gerais já está a meio caminho do céu. rsrsrsr

Outra passagem que eu achei comovente: quando ela contou-nos que um grupo de sarau organizado estava viajando a pé, de São Paulo para Curitiba (gente destemida!), e eles iam parando nos lugares, nas cidades do interior dos dois estados. Ela disse que foi uma comoção quando, depois de uma apresentação de seus poemas, uma criança de apenas 6 anos a abraçou e a elogiou, Pilar ficou toda emocionada e satisfeita. A educadora é dessas pessoas abençoadas que sabem dar importância para o que de verdade tem importância nessa vida: o poder das palavras, a comunhão das pessoas, em torno de eventos positivos, e as delicadezas insuspeitas...

E o rap que ela fez para o filho de apenas 12 anos, então? É de chorar de emoção. Absoluta Lição de Vida  essa Tula Pilar. Não deixem de ouvir a entrevista aqui. Eu não preciso dizer mais nada, ela é quem tem a dizer. ;-D

segunda-feira, 1 de março de 2010

Muita Luz na Vila Industrial faz mover um Girassol

Nesse último sábado, após uma semana de muito trabalho e até mesmo aborrecimentos, tive uma experiência muito marcante. Fui convidado para ir a um Sarau. O mesmo amigo que me convidara de outra feita levou-me a uma Comunidade, na Vila Industrial, Zona Leste da cidade de São Paulo, onde uma moradora chamada Maria Augusta, juntamente com outros educadores, desenvolve uma experiência muito rica na Ong a que chamaram Girassol.


O meu amigo Laudecir mandou-nos hoje um e-mail em que ele descreve seus sentimentos em relação a essa experiência que vivenciamos juntos. Faço minhas suas palavras:

O que está acontecendo na Comunidade Girasol é inacreditável, mágico, havia uma disputa acirrada das crianças e adolescentes para ver quem dançava melhor (ao mesmo tempo percebia-se uma harmonia entre eles, claro, tiveram que se preparar através de ensaios, horas e horas, para poderem chegar àquelas coreografias), e para quem tinha coragem de fazer uso do microfone e ler um poema, houve fila para isso. Eles vibravam com aplausos, gritos de alegria, pelos colegas que tinham coragem de se expor; exigiam silêncio...
Fazia tempo que não vivia uma experiência assim... Algum adolescente gritou: ''lá na escola niguém lê!!!" Não é interessante essa fala !!!!??? Experiências como essa deveriam se multiplicar por aí, nos mais diferentes espaços.... Meu amigo Josafá e eu (Lau) comentávamos do reflexo positivo dessa experiência cultural na vida daquelas crianças e adolescentes... Que continuem!!!!
Ah, nossa amiga Maria Augusta estava radiante, senti tanto orgulho dela... Sabe, agora, escrevendo esse texto, sinto vontade de chorar de alegria pelo que vi e senti.
É claro que muitas outras pessoas estão envolvidas no trabalho daquela comunidade, parabenizo a todos na pessoa dessa nossa Graaaande mulher, mãe, amiga queridíssima, líder nata..... Maria Augusta!!!!

É isso mesmo. Eu só quero ainda ressaltar o trecho em que ele nos conta da fala do jovem que nos lembrou que na escola ninguém lê. O rapaz tinha toda a razão. Eu creio que isso de fato acontece, em muitas escolas (Deus nos livre que isso venha a acontecer em todas - a generalização aqui seria péssima, afinal, ainda que em menor número há professores boníssimos trabalhando em muitas escolas públicas). De qualquer modo, isso pode acontecer quando a escola não cria aquele ambiente de espontaneidade, respeito mútuo, e que propicia, a partir daquilo que o jovem gosta - no caso era evidente o prazer e o amor dos jovens da Girassol pela street dance - sim, esse é sempre o mote para que a poesia, a literatura e todas as outras referências culturais que ajudam a nos formar tenham também o seu espaço de fruição.

Uma outra coisa bastante marcante, que mostrou essa disposição sincera das crianças e jovens presentes para participar, aconteceu quando, após o intervalo, no qual tomamos um caldo verde - que umas irmãs gentilíssimas, portuguesas e de uma instituição católica, tinham oferecido ao evento - eu disse que cantaria um fado português, que eu aprendera ouvindo Ney Matogrosso e Kátia Guerreiro, a fadista que eu conhecera graças a um amigo Catalão, e que eu conheci por intermédio do meu blog.
Quando terminei de me apresentar os jovens aplaudiram entusiasmados e pediram "mais um", assim como pediram também "mais um" para a performance magnífica de Laudecir.
Eu fiquei muito emocionado porque a verdade é que todas as crianças e jovens do mundo precisam e têm sede de conhecer mais e mais. Todos nós desejamos isso, naturalmente. No entanto, a experiência do conhecimento tem de ser como essa que tivemos no último sábado: um encontro de alegria e paz, por exemplo, em torno da emoção da expressão artística e não naquela opressão que ocorre amiúde entre os muros da escola.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O desassossego dadivoso de Fernando Pessoa

Acabei de ganhar um livro! \o/ Não é um livro qualquer. É um de Fernando Pessoa. E não é um livro qualquer de Pessoa, é o Livro do Desassossego. Fernando Pessoa vivia uma depressão a que chamou "profunda e calma" quando o escreveu. Para quem não sabe, trata-se de um livro de prosa. Eu nunca o li, só conheço a poesia de Pessoa. Já espero uma prosa profundíssima e poética. Richard Zenith diz, na introdução, que  Pessoa trabalhou nesta obra  durante o resto da vida, mas quanto mais a "preparava", mais inacabada ficava. Inacabada e inacabável. Sem enredo ou plano para cumprir, os seus horizontes foram alargando, os seus confins ficaram cada vez mais incertos, a sua existência  enquanto livro cada vez menos viável - como, aliás, a existência de Pessoa enquanto pessoa.
Imaginem só o que não deve ser a experiência de ler um livro assim, escrito como se fora um testamento da própria condição humana do poeta?

Para tanto, ou para que possam ter um aperitivo dessa experiência, dois excertos, de páginas do Livro do Desassossego, as quais abro ao acaso (penso que essa atitude tem tudo a ver com Pessoa! ;-D):

A vida é para nós o que concebemos nela. Para o rústico cujo campo próprio lhe é tudo, esse campo é um império. Para o César cujo império lhe ainda é pouco, essse império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um campo. Na verdade, não possuímos mais que as nossas próprias sensações; nelas, pois, que não no que elas vêem, temos que fundamentar a realidade da nossa vida.
Isto não vem a propósito de nada.(...)

Nenhuma ideia brilhante consegue entrar em circulação se não agregando a si qualquer elemento de estupidez. O pensamento colectivo é estúpido porque é colectivo: nada passa as barreiras do colectivo sem deixar nelas, como real de água, a maior parte da inteligência que traga consigo.
Na mocidade somos dois: há em nós a coexistência da nossa inteligência própria, que pode ser grande, e a da estupidez da nossa experiência, que forma uma segunda inteligência inferior. Só quando chegamos a outra idade se dá em nós a unificação. Daí a acção sempre fruste da juventude - devida, não à sua inexperiência, mas à sua não-unidade.
Ao homem superiormente inteligente não resta hoje outro caminho que o da abdicação.

Ah, se todo deprimido fosse assim como Fernando Pessoa!

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Federico García Lorca e Mayte Martín


Já lhes falei da minha admiração por Federico Garcia Lorca e da alegria que experimentei o ano passado ao ganhar de uma amiga querida As Obras Completas desse poeta, em edição bilíngue. Pois bem, ontem um amigo querido mandou-me um arquivo em MP3 de uma canção que é um poema de Lorca. A cantante em questão, e que eu não conhecia, é Mayte Martín. Você pode visitar seu site e descobrir tudo about her. Trata-se de uma figura queridíssima da música flamenca nos últimos 30 anos e como poderão ouvir: cantante de interpretação intensa, emocionante na sua entrega ao prazeroso ofício de cantar. Ela inclusive altera alguns versos do poema, mas eu gostei até mesmo dessas alterações na sua interpretação.
Peço perdão por trazer esse vídeo do Youtube porque, definitivamente, eu não gosto dessas imagens com as quais algumas pessoas gostam de "ilustrar" gravações de canções. Sinceramente eu preferia ter disponibilizado aqui tão somente o arquivo em MP3. Será que isso é possível? Alguém saberia ensinar-me?
Sugiro que vocês ouçam a canção acompanhando tão somente o poema (não fiquem olhando para as imagens do vídeo! A não ser que queiram se divertir um pouco com a morte de cada metáfora de Lorca... rsrsrs)
Na verdade, estou sendo maldoso, desnecessariamente, a pessoa fofa que postou o vídeo no Youtube estava na viagem dela. É uma pessoa sensível, gosta da música, da cantora ou do poeta e isso é o que está valendo. Se eu quisesse "algo" melhor que eu mesmo produzisse e ponto final. rsrsrs O importante é que o vídeo e, principalmente, a canção está disponível nesse web querida que todos amamos, não é mesmo? Saibam que a tradução do poema é de autoria de William Agel de Mello, e que é o tradutor responsável pela minha edição da obra do poeta, publicada pela Martins Fontes.
Ainda uma última informação que, ao menos para mim, foi muito importante saber: Gacela (Gazel, em Português), segundo o Dicionário Houaiss,  é um gênero de poesia amorosa dos persas e dos árabes, estruturado em dísticos, com a mesma rima funcionando para os dois versos do primeiro dístico e para o segundo verso dos demais.

Enjoy it!

GACELA DEL AMOR IMPREVISTO

Nadie comprendía el perfume
de la oscura magnolia de tu vientre.
Nadie sabía que martirizabas
un colibrí de amor entre los dientes.


  Mil caballitos persas se dormían
en la plaza con luna de tu frente,
mientras que yo enlazaba cuatro noches
tu cintura, enemiga de la nieve.


  Entre yeso y jazmines, tu mirada
era un pálido ramo de simientes.
Yo busqué, para darte, por mi pecho
las letras de marfil que dicen siempre.


  siempre, siempre: jardín de mi agonía,
tu cuerpo fugitivo para siempre,
la sangre de tus venas en mi boca,
tu boca ya sin luz para mi muerte.

GAZEL DO AMOR IMPREVISTO

Ninguém compreendia o perfume
da escura magnólia de teu ventre.
Ninguém sabia que martirizavas
entre os dentes um colibri de amor.

  Mil cavalinhos persas dormiam
na praça com luar de tua fronte,
enquanto eu enlaçava quatro noites
tua cintura, inimiga da neve.

  Entre gesso e jasmins, o teu olhar
em um pálido ramo de sementes.
Eu procurei, para dar-te, em meu leito
as letras de marfim que dizem sempre,

  sempre, sempre: jardim de minha agonia,
teu corpo fugitivo para sempre,
o sangue de tuas veias em minha boca,
tua boca já sem luz para minha morte.