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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Federico García Lorca e Mayte Martín


Já lhes falei da minha admiração por Federico Garcia Lorca e da alegria que experimentei o ano passado ao ganhar de uma amiga querida As Obras Completas desse poeta, em edição bilíngue. Pois bem, ontem um amigo querido mandou-me um arquivo em MP3 de uma canção que é um poema de Lorca. A cantante em questão, e que eu não conhecia, é Mayte Martín. Você pode visitar seu site e descobrir tudo about her. Trata-se de uma figura queridíssima da música flamenca nos últimos 30 anos e como poderão ouvir: cantante de interpretação intensa, emocionante na sua entrega ao prazeroso ofício de cantar. Ela inclusive altera alguns versos do poema, mas eu gostei até mesmo dessas alterações na sua interpretação.
Peço perdão por trazer esse vídeo do Youtube porque, definitivamente, eu não gosto dessas imagens com as quais algumas pessoas gostam de "ilustrar" gravações de canções. Sinceramente eu preferia ter disponibilizado aqui tão somente o arquivo em MP3. Será que isso é possível? Alguém saberia ensinar-me?
Sugiro que vocês ouçam a canção acompanhando tão somente o poema (não fiquem olhando para as imagens do vídeo! A não ser que queiram se divertir um pouco com a morte de cada metáfora de Lorca... rsrsrs)
Na verdade, estou sendo maldoso, desnecessariamente, a pessoa fofa que postou o vídeo no Youtube estava na viagem dela. É uma pessoa sensível, gosta da música, da cantora ou do poeta e isso é o que está valendo. Se eu quisesse "algo" melhor que eu mesmo produzisse e ponto final. rsrsrs O importante é que o vídeo e, principalmente, a canção está disponível nesse web querida que todos amamos, não é mesmo? Saibam que a tradução do poema é de autoria de William Agel de Mello, e que é o tradutor responsável pela minha edição da obra do poeta, publicada pela Martins Fontes.
Ainda uma última informação que, ao menos para mim, foi muito importante saber: Gacela (Gazel, em Português), segundo o Dicionário Houaiss,  é um gênero de poesia amorosa dos persas e dos árabes, estruturado em dísticos, com a mesma rima funcionando para os dois versos do primeiro dístico e para o segundo verso dos demais.

Enjoy it!

GACELA DEL AMOR IMPREVISTO

Nadie comprendía el perfume
de la oscura magnolia de tu vientre.
Nadie sabía que martirizabas
un colibrí de amor entre los dientes.


  Mil caballitos persas se dormían
en la plaza con luna de tu frente,
mientras que yo enlazaba cuatro noches
tu cintura, enemiga de la nieve.


  Entre yeso y jazmines, tu mirada
era un pálido ramo de simientes.
Yo busqué, para darte, por mi pecho
las letras de marfil que dicen siempre.


  siempre, siempre: jardín de mi agonía,
tu cuerpo fugitivo para siempre,
la sangre de tus venas en mi boca,
tu boca ya sin luz para mi muerte.

GAZEL DO AMOR IMPREVISTO

Ninguém compreendia o perfume
da escura magnólia de teu ventre.
Ninguém sabia que martirizavas
entre os dentes um colibri de amor.

  Mil cavalinhos persas dormiam
na praça com luar de tua fronte,
enquanto eu enlaçava quatro noites
tua cintura, inimiga da neve.

  Entre gesso e jasmins, o teu olhar
em um pálido ramo de sementes.
Eu procurei, para dar-te, em meu leito
as letras de marfim que dizem sempre,

  sempre, sempre: jardim de minha agonia,
teu corpo fugitivo para sempre,
o sangue de tuas veias em minha boca,
tua boca já sem luz para minha morte.


domingo, 6 de dezembro de 2009

Federico García Lorca


Vejam como tenho razão em sentir-me bem, sempre bem e cada vez melhor. Esse ano, para mim, foi o ano de retomar a leitura de poesia. E desde que tomei tal atitude, só me chegam livros e presentes, que são coletâneas de poesia, obras completas de poetas. \o/ \o/

Ontem, fui visitar uma amiga e ela presenteou-me com a Obra Poética Completa, de Federico García Lorca.

Eu, ignorante que sou, nunca lera nenhum poema de Lorca.

Na apresentação de Ático Vilas-Boas da Mota, nessa edição bilíngue, lançada pela editora Martins Fontes, lemos:
Grande poeta, dramaturgo, além de desenhista e musicista, aos múltiplos talentos juntava um extraordinário poder de sedução pessoal. Excelente palestrador e conferencista de primeira ordem. Eis aqui o testemunho do seu amigo Rafael Albertis:
"Quando Garcia Loca falava, recitava, interpretava curtos ensaios dramáticos ou cantava, acompanhando-se ao piano, criava-se em torno dele uma atmosfera mágica a que nenhum auditório podia resistir."
Que delícia tudo isso!

Estou lendo seus poemas sem compromisso, a não ser o de apreciar e sorver-lhe as palavras. Estou considerando tudo bastante delicado até agora. Ele é denso sem ser cansativo, é doce sem esconder o prato de sal, é triste sem deixar de ser alegre. Gosto dessa mistura boa e penso que muitas vezes as delicias de uma pessoa, de um poeta, residem nessa seara de contradições que pode revelar-se como a paisagem de um coração.
Os primeiros poemas que li, do livro imenso e farto, traduzido por Willian Agel de Melo:

MADRIGAL
1919

YO te miré a los ojos
cuando era niño y bueno.
Tus manos me rozaron
y me diste un beso.

(Los relojes llevan la misma cadencia,
y las noches tienen las mismas estrellas.)

Y se abrió mi corazón
como una flor bajo el cielo,
los pétalos de lujuria
y los estambres de sueño.

(Los relojes llevan la misma cadencia,
y las noches tienen las mismas estrellas.)

En mi cuarto sollozaba
como el príncipe del cuento
por Estrellita de oro
que se fue de los torneos.

(Los relojes llevan la misma cadencia,
y las noches tienen las meismas estrellas.)

Yo me alejé de tu lado
queriéndote sin saberlo.
No sé cómo son tus ojos,
tus manos ni tus cabellos.

Solo me queda em la fronte
la mariposa del beso.

(Los relojes llevan la misma cadencia,
y las noches tienen las mismas estrellas.)

DESEO
1920

SOLO tu corazón caliente,
y nada más.

Mi paraíso un campo
sin ruiseñor
ni liras,
con um río discreto
y una fuentecilla.

Sin la espuela del viento
sobre la fronda,
ni la estrella que quiere
ser hoja.

Una enorme luz
que fuera
luciérnaga
de outra,
en un campo de
mirada rotas.

Um reposo claro
y allí nuestros besos,
lunares sonoros
del eco,
se abrirían muy lejos.

Y tu corazón caliente,
nada más.
MADRIGAL
1919

EU te mirei nos olhos
quando era menino e bom.
Tuas mãos me roçaram
e me deste um beijo.

(Os relógios têm a mesma cadência,
e as noites têm as mesmas estrelas.)

E se abriu meu coração,
como uma flor sob o céu,
as pétalas de luxúria
e os estames de sonho.

(Os relógios têm a mesma cadência,
e as noites têm as mesmas estrelas.)

Em meu quarto soluçava
como o príncipe do conto
por Estrelinha de ouro
que se foi dos torneios.
(Os relógios têm a mesma cadência,
e as noites têm as mesmas estrelas.)

Eu me afastei de teu lado
querendo-te sem sabê-lo
Não sei como são teus olhos,
tuas mãos nem teus cabelos

Só me resta na fronte
a mariposa do beijo.

(Os relógios têm a mesma cadência,
e as noites têm as mesmas estrelas.)

DESEJO
1920

SÓ o teu coração quente,
e nada mais.

Meu paraíso um campo
sem rouxinol
nem liras,
com um rio discreto
e uma fontezinha.

Sem a espora do vento
sobre a fronde,
nem a estrela que quer
ser folha.

Uma enorme luz
que fosse
pirilampo
de outra,
num campo de
olhadas partidas.

Um repouxo claro
e ali nossos beijos,
lunares sonoros
do eco,
se abririam muito longe.

E teu coração quente,
nada mais.