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quinta-feira, 19 de maio de 2011

A banda mais bonita da cidade

Ontem, aconteceu uma coisa muito linda. Eu conheci o trabalho de uma banda de Curitiba. Eu acho que faz tempo que não vemos no Brasil, uma banda delicada e interessada em ser original sendo exatamente o que cada um dos seus integrantes pode ser, ou seja, sendo mesmo o que se é, simplesmente assim.

No caso, sendo gente boa, muito boa!

A banda surgiu em 2009, quando a vocalista, Uyara Torrente, já estava trabalhando como atriz, na capital paranaense. Ela foi de Paranavaí para Curitiba, em 2005, para fazer Faculdade de Artes Cênicas. Além da vocalista, temos Diego Plaça no baixo e, na guitarra, Rodrigo Lemos, as baquetas estão no comando de Luis Boursheidt e Vinícius Nisi é quem dedilha os teclados. Desde a formação, eles têm participado da cena curitibana com intensidade, já fizeram abertura de um Festival de Teatro na PUC local, por exemplo. Achei que é uma gente que canta, mas que tem cara de gente de teatro. Possível influência da atriz/vocalista. Bem, todo mundo sabe a força que possui a cena teatral curitibana! Esse tipo de vib pode contaminar, no bom sentido, outras cenas, como a da música. Desconfio que é o que está acontecendo aqui! ;-)

O nome da banda é o máximo: A banda mais bonita da cidade. Eles contam que não sabiam que nome dar ao grupo e, então, um dos integrantes, mandou um e-mail dizendo: que tal A banda mais bonita da cidade? Isso ocorreu, nos contam, porque ele estava lendo, de Charles Bukowski, o conto A mulher mais linda da cidade e a ideia veio daí.

Eles cantam as composições de compositores curitibanos, umas pessoas incríveis das quais, nos dizem, vivem cercados. São, entre outros: Luiz Felipe Leprevost, Thiago Chaves, Rodrigo Lemos (namorado da cantora e também o baterista), Léo Fressato. Esse último é o compositor da linda canção intitulada Oração, e que foi a coqueluche de ontem no meu mural do facebook  e também a primeira canção que eu ouvi da banda. Ouvi dezenas de vezes, sem me cansar.

Preferem dar vazão a essa produção local, uma vez que cada um desses compositores tem características próprias e, além disso, eles acham muito melhor aproveitar o que está acontecendo ali, pertinho deles. Nós, do resto do Brasil, aqui de Sampa, por exemplo, agradecemos. Afinal, chega dessa mesmice do cenário musical do eixo Rio-São Paulo, please!

Eu fiquei sabendo de boa parte do que aqui divulgo ao ouvir uma entrevista que eles deram para o blogueiro do blog defenestrando. Ouça, tanto o blogueiro quanto os artistas são muito simpáticos conversando: o clima do programa está uma delícia!

Ontem, quando eu compartilhei a música no facebook, ninguém se manifestou, inicialmente, ou seja, o horário talvez não fosse o mais adequado e a galera nem ouviu. Foi bom, por que então eu pude chamar a atenção de todas essas pessoas, "recompartilhando"... rsrsrs Eu disse assim mesmo por lá: Atenção pessoas! Eu compartilhei esse vídeo algumas horas atrás e, atenção!, era para muita gente curtir e elogiar, por que essa não é apenas a banda mais bonita da cidade e a banda mais bonita do mundo! ok? rsrsrsrs

Veja lá você também, que me acompanha nesse blog, o porquê dessa minha empolgação.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Eu sou fã de Vander Lee

Na sexta-feira, eu falei aqui do centenário de Adoniran e chamei à postagem Um menino de 100 anos. Ao criar um link para essa postagem no Facebook, um amigo comentou por lá: Viveu menino... morreu poeta. Só depois, entendi tratar-se de uma citação e isso porque ele, posteriormente, sugeriu-me que eu assistisse a um vídeo de Vander Lee no Youtube.
Fui ouvindo a canção Alma Nua e me emocionando, completamente. Ainda bem que eu deixei para ouvir a música, estando sozinho, no recôndito do meu quarto, uma vez que fiquei com o rosto banhado em lágrimas.
E, depois, fiquei pensando: Por que eu nunca tinha ouvido falar nesse mineiro, uai? Cheguei a pensar que isso se deu simplesmente porque a MPB não tem mais tanto espaço, na tv e no rádio, como já teve no passado... Contudo, hoje, conversando com uma amiga, ela disse-me que já ouvira Vander Lee e que suas músicas são tocadas no rádio, sim. Pode ser que esse seu depoimento não seja lá tão válido, porque ela é muito sofisticada, alternativa, descolada, enfim, não é qualquer pessoa, assim como aquele meu amigo que me apresentou a canção, e gente assim ouve o que tem de ser ouvido naquela única vez que toca no rádio e já ficam informados de uma preciosidade, enfim... Embora, pode ser que aconteça de eu também não estar ouvindo muito ao rádio. rsrsrs
De qualquer modo, eu me lembro que, quando criança, ouvia Chico Buarque de Holanda, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Elis Regina, Djavan, Maria Bethânia, Gal Costa, Ney Matogrosso, enfim, todos eles, os hoje ícones da MPB e isso se dava assim que uma joia de composição desses grandes compositores ou intérpretes saia do estúdio: ela vinha diretamente para nossas casas. Agora, talvez estejamos ouvindo menos rádio e a televisão, essa, definitivamente, não abre espaço para a MPB de qualidade, e, então, precisamos aguardar o tempo das nossas próprias relações, no meio virtual, para conhecer qualquer coisa nova, verdadeira e de qualidade na MPB.
O mais incrível é que Vander Lee não é alguém que começou agora, não senhor. Segundo a Wikipédia, o cantor e compositor nasceu em Belo Horizonte, em 3 de março de 1966 e começou sua carreira em barzinhos de seu estado, em meados da década de 80. Suas canções variam desde o romântico, passando pelo samba até a balada e rock mineiro. Ele já gravou com grandes nomes da MPB, como Zeca Baleiro, Elza Soares, Rita Ribeiro, Emilinha Borba, Leila Pinheiro e Nando Reis. Também compôs a música "Estrela", que foi gravada pela cantora Maria Bethânia e, além disso, teve a canção "Onde Deus possa me ouvir" gravada por Gal Costa.
Eu, se fosse você, verificaria se ninguém está por perto (caso você precise chorar como eu) e ouviria Alma Nua. A canção é um poema e ao mesmo tempo uma oração, como a Romaria, de Renato Teixeira. Nesse sentido, eu sou suspeito em falar, porque eu sou muito rezador...
Digo apenas que é uma composição como há muito eu não via na MPB. Assim sendo, a MPB está viva e seu nome atual é Vander Lee. Como podem ver virei fã do cantor. ;-D



Alma Nua
Vander Lee
Composição: Vander Lee

Ó Pai
Não deixes que façam de mim
O que da pedra tu fizestes
E que a fria luz da razão
Não cale o azul da aura que me vestes
Dá-me leveza nas mãos
Faze de mim um nobre domador
Laçando acordes e versos
Dispersos no tempo
Pro templo do amor
Que se eu tiver que ficar nu
Hei de envolver-me em pura poesia
E dela farei minha casa, minha asa
Loucura de cada dia
Dá-me o silêncio da noite
Pra ouvir o sapo namorar a lua
Dá-me direito ao açoite
Ao ócio, ao cio
À vadiagem pela rua
Deixa-me perder a hora
Pra ter tempo de encontrar a rima

Ver o mundo de dentro pra fora
E a beleza que aflora de baixo pra cima
Ó meu Pai, dá-me o direito
De dizer coisas sem sentido
De não ter que ser perfeito
Pretérito, sujeito, artigo definido
De me apaixonar todo dia
E ser mais jovem que meu filho
De ir aprendendo com ele
A magia de nunca perder o brilho
Virar os dados do destino
De me contradizer, de não ter meta
Me reinventar, ser meu próprio Deus
Viver menino, morrer poeta.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

A Divina

No último dia 7, muitos lembraram que faz 20 anos que não temos mais a presença física de Eliseth Cardoso entre nós. Por exemplo, a Rolling Stone, que fala do relançamento de um importante livro que é a biografia da cantora.

A Folha de hoje, por sua vez, fala de um musical que estreia amanhã, no Frei Caneca, centrado nessa grande personagem da nossa música.
Ela foi uma cantora que quase completou 70 anos de carreira e as novas gerações mal ouviram falar na sua existência! Eliseth era eclética e cantou de tudo, mas foi o samba o gênero em que se fixou, de um modo como ninguém mais pode fazê-lo. Ela era única. Tamanha personalidade resultou que a chamavam por diferentes epítetos. Acho todos lindos:

A Noiva do Samba-Canção,

Lady do Samba (pelo seu donaire ao cantar),

ou ainda, Machado de Assis da Seresta.

Mulata Maior (esse, eu acho maravilhoso).

A Magnífica (apelido dado por Mister Eco), e

A Enluarada (por Hermínio Bello de Carvalho).
O mais adorável, no entanto, foi o criado por Haroldo Costa e que é aquele que permaneceu para sempre ligado ao nome da cantora –
A Divina.

A Divina Eliseth Cardoso faleceu em 07 de Maio de 1990 e, como tudo que é da ordem do Divino, merece um eterno tributo.






Sei lá, Mangueira
(Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho)

Mangueira
Teu cenário é uma beleza
Que a natureza criou...

Vista assim do alto
Mais parece um céu no chão
Sei lá
Em Mangueira a poesia
Feito um mar se alastrou
E a beleza do lugar
Pra se entender
Tem que se achar
Que a vida não é só isso que se vê
É um pouco mais
Que os olhos não conseguem perceber
E as mãos não ousam tocar
E os pés recusam pisar
Sei lá não sei
Sei lá não sei

Não sei se toda a beleza
De que lhes falo
Sai tão somente do meu coração
Em Mangueira a poesia
Num sobe-desce constante
Anda descalça ensinando
Um modo novo da gente viver
De pensar e sonhar, de sofrer
Sei lá não sei
Sei lá não sei não

A Mangueira é tão grande
Que nem cabe explicação

Sei lá não sei
Sei lá não sei
Sei lá não sei
Sei lá não sei
Sei lá não sei
Sei lá não sei
Sei lá não sei
Sei lá não sei
Sei lá ...

sexta-feira, 5 de março de 2010

O rapaz de bem partiu

Há brasileiros que são muito muito especiais. Johnny Alf era um deles, era e continuara sendo embora tenha falecido ontem.

Ele foi um dos precursores da bossa nova, na década de 50, ao cantar Céu e mar e Rapaz de bem, pois essas canções antecipam características do movimento bossanovista. Suas canções sempre mesclaram jazz e samba. Ele amava os musicais americanos e suas trilhas, de George Gershwin e Cole Porter. No Jazz, Nat King Cole foi sua grande inspiração. Por tudo isso, por seu legado, eu só posso admirar esse grande cantor, pianista e compositor.

Rapaz de Bem também é o nome do seu primeiro LP, lançado em 1961. São considerados seus clássicos  Ilusão à Toa e O Que É Amar. No ano em que eu nasci, 1967,  ele gravou aquele que seria seu grande sucesso, Eu e a Brisa. Como todo artesão, Alf gravou apenas 13 álbuns, em mais de 40 anos. Eu tenho um amigo que foi ao seu penúltimo show, em maio de 2009, o último foi em agosto do mesmo ano,  no Teatro do Sesi.
Meu amigo chegou a fazer um post aqui nesse blog, inspirado na emocionante experiência que foi  aquele show. Felipe Carrilho considera Jonnhy Alf como alguém que merecia muito mais reconhecimento em relação à bossa nova do que teve e ele diz o porquê lindamente em Johnny Alf e o pathos bossanovista

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Ná Ozzetti no Ibirapuera

Sou fã de Ná Ozzetti e já andei falando dela por aqui. Leiam Ná Ozzetti e a transcendência e entendam minha admiração por essa cantora e artista brasileiríssima. Uma amiga querida convidou-me para sua única apresentação no Auditório Ibirapuera, amanhã. Trata-se do último trabalho de Ná e que foi vencedor do Prêmio Bravo! Prime 2009 como Melhor CD de Música Popular.
Balangandãs exprime o cenário musical das décadas de 30 a 50, em canções eternizadas por Carmen Miranda. O espetáculo, na verdade, traz novos arranjos e interpretações dos clássicos de Carmen Miranda, com uma concepção contemporânea de arranjos musicais, roteiro, figurino e iluminação. Em se tratando de Ná Ozzetti só podemos esperar originalidade total! \o/ \o/ \o/

Eu estarei lá!

Dia: 5 de Dezembro de 2009
Horários: Sábado, 21h
Duração: 90 min (aproximadamente)
Ingressos: R$ 30,00 e R$ 15,00 (meia-entrada)
Gênero: MPB
Classificação Indicativa: Livre para todos os públicos

terça-feira, 26 de maio de 2009

Johnny Alf e o pathos bossanovista


[Esse post é de autoria do meu amigo blogueiro Felipe. Ele é o responsável pelo Blog Jogo de Classe e tem aqui um espaço para falar da sua admiração por Johnny Alf e contar-nos a experiência única que ele viveu em um show recente do cantor e que reuniu toda essa turma boa da foto-montagem (by Ronaldo Santanielli). Carrilho escreve super bem, isso vocês vão ver :D Felipe Carrilho é historiador.]

No recente domingo (24/05) fui à apresentação de Johnny Alf, no Sesc Pinheiros. O intuito do evento era homenagear o músico que acabara de completar 80 anos e, para isso, contava também com a participação de Alaíde Costa e Emílio Santiago.
Negro, filho de uma lavadeira e de um cabo do exército que morreu na Revolução de 1932, Johnny Alf (Alfredo José da Silva) nasceu em 19 de maio de 1929 e foi criado pela família para a qual a sua mãe trabalhava, no Rio de Janeiro. Aos nove anos de idade começou a aprender piano clássico e aos quatorze formou o seu primeiro conjunto, com amigos do bairro de Vila Isabel.
Em 1954, depois de perambular por vários estabelecimentos da noite carioca, Alf foi o pianista da boate do hotel Plaza, na avenida Princesa Isabel, em Copacabana. Lá, tocava suas próprias canções, como "Rapaz de bem", "Céu e mar", "O que é amar", entre outras. Críticos musicais, posteriormente, diriam que tais composições anteciparam muitas das tendências características da Bossa Nova. A leveza, o otimismo e o culto aos prodígios naturais da paisagem carioca comporiam a temática de sua poesia e estariam, pode-se dizer, entre os elementos constitutivos de uma espécie de ethos bossanovista, no sentido antropológico do termo.
Entre o seleto público que o acompanhava nas madrugadas do bar do Plaza, os mais assíduos eram Tom Jobim, João Donato, João Gilberto, Lúcio Alves, Dick Farney, Dolores Duran, Paulo Moura, Baden Powell, Luiz Eça, Carlos Lyra etc. Décadas depois, o escritor Ruy Castro diria acertadamente: "Com tantos talentos jovens reunidos, quase todas as ousadias rítmicas e harmônicas que produziram a Bossa Nova estiveram em laboratório naquelas madrugadas...".
Entretanto, em 1955, Johnny Alf aceitou uma proposta para cantar na noite paulistana e partiu, quatro anos antes do despontar da nova música, com o lançamento de "Chega de Saudade", do magnífico João Gilberto. Com o estouro da Bossa Nova, muitos de seus antigos fans adquiriram notoriedade, na esteira da batida do violão de João Gilberto. O velho mestre ficou, então, esquecido em São Paulo e, com exceção de poucos como Tom Jobim, que o apelidara de Genialf, quase não houve quem fizesse justiça às contribuições do músico precursor.
Mas, voltemos ao espetáculo em questão. Foi uma noite emocionante, em que testemunhamos um Johnny Alf ainda marcado pela árdua batalha que acabara de travar contra um câncer de próstata, mas nem por isso menos genial. A maior parte de suas canções foi interpretada brilhantemente ora por Emílio Santiago, ora por Alaíde Costa, com Alf apenas acompanhando ao piano.
E foi durante o dueto de Alf e Alaíde que pude perceber o conteúdo emblemático daquele encontro. A interpretação emocionada de Alaíde aliada à temática sofrida de algumas letras de Alf, como as de "Estou só" e "Meu sonho", remetiam a um tipo de música estranha às classificações musicais referentes ao movimento "criado" por João Gilberto. Aqueles sons se aproximavam mais dos antigos lamentos do Blues do que dos ideais da classe média branca carioca presentes num produto que, depois do lançamento de "Chega de Saudade", se convencionou chamar de Bossa Nova. Na verdade, ao evidenciar as nuances e contradições presentes em um movimento estético-musical, Alf e Alaíde - ambos negros e de alguma forma marginalizados na história da Bossa Nova - terminaram por traçar um verdadeiro pathos bossanovista. Delicioso, por sinal.