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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Quando a cultura é epifania

Ontem, li na Folha uma matéria que contava acerca de uma pesquisa feita no estado de São Paulo e que revelou a baixa frequência de paulistas a teatros, cinemas e exposições em geral (40% não costumam ir a cinemas, 60% idem aos teatros e 61% idem aos museus).
Segundo a matéria, a justificativa que os entrevistados deram foi simplesmente: “Não me interesso/nãogosto/não me sinto bem fazendo”. ;-o
As pessoas foram bastante sinceras! rsrsrs
Vale a pena ler a matéria (no link acima) porque há depoimentos de pessoas do teatro e do cinema analisando o fato...  O mais interessante, para mim, é que essas mesmas pessoas que se assumem desinteressadas por esses programas culturais, também revelam que “gostariam de gostar de cultura”. O que Ana Paula Souza chamou, acertadamente, de um paradoxo. Ou seja, embora não frequentem tais programas porque não querem, eles dizem ter gosto por “realizar atividades culturais” (68%).
É claro que é um paradoxo e que faz sentido. Todos sabemos, instintivamente, que a arte tem muito a nos oferecer! ;-)
Hoje, na Pinacoteca, está acontecendo um Seminário que lançará os resultados dessa Pesquisa e ainda contará com a participação de pessoas consideradas do establishment da cultura em São Paulo: gente do teatro, cinema, mídia etc.
Eu que não posso estar lá, pretendo tão somente dizer por aqui o que penso. E de um modo que talvez lhes pareça tergiversado.
Eu sou alguém que sempre fui apaixonado pelo universo da cultura, pertenço, portanto, à minoria do estado de São Paulo que, sim, se interessa por tudo o que acontece na literatura, no teatro, no cinema, ou quase tudo, ou seja, na medida do possível. Vou aos museus, exposições e até mesmo a concertos e isso desde muito cedo. Pelo menos desde os meus 12 anos de idade. Não foram os meus familiares que me incentivaram a ter esse tipo de experiência, a da fruição estética (com exceção do gosto pela leitura: meu pai e minha avó liam muito e a minha criança via a cena dos adultos leitores).
Comigo simplesmente aconteceu de eu experimentar e como que, instintivamente, compreender que nessa seara, a do universo da cultura, eu teria uma fonte como que infinita de aprendizado.
Talvez por essa minha experiência muito pessoal, eu considere que nessa seara não seja possível "forçar" nada. A escola vai poder fazer sua parte, se os professores e os responsáveis por essa educação formal assim o desejarem, a família também pode fazer, o governo sempre poderá e deverá cumprir o seu papel nesse setor e, claro, os artistas também.
Sim, ele os artistas é que são aqueles incansáveis trabalhadores que semeiam e semeiam e semeiam.
Vejam, por exemplo, o que nos conta a jornalista Rita Alves, que, para fazer uma matéria para o DCultura, colheu o depoimento de responsáveis pelo projeto Margem e que conta com a participação do artista mexicano Hector Zamora (cujos trabalhos ilustram esse post) Ele é o responsável pela instalação daquelas árvores imensas que estão sobre o rio Tamanduatei, no centro velho de São Paulo. Pois bem, contaram à minha amiga que, desde que as árvores apareceram suspensas sobre o rio, os habitués do local (pessoas que trabalham no Mercado Municipal, camelôs ou os moradores de rua daquela região quase abandonada), todos ficaram tomados pela intervenção, tiveram um assombro, estranharam, muitos se empolgaram, viram nas árvores sinal de boa sorte...
O que a arte nos propicia é isso! É isso viver a cultura que se manifesta!
 Essa experiência levou a arte às ruas, como várias outras manifestações que têm ocorrido pela cidade. Quem sabe não seja disso mesmo que as pessoas estejam precisando para se entregarem a esse prazer e à experiência de epifania que o universo da cultura nos propicia?

segunda-feira, 10 de maio de 2010

A Divina

No último dia 7, muitos lembraram que faz 20 anos que não temos mais a presença física de Eliseth Cardoso entre nós. Por exemplo, a Rolling Stone, que fala do relançamento de um importante livro que é a biografia da cantora.

A Folha de hoje, por sua vez, fala de um musical que estreia amanhã, no Frei Caneca, centrado nessa grande personagem da nossa música.
Ela foi uma cantora que quase completou 70 anos de carreira e as novas gerações mal ouviram falar na sua existência! Eliseth era eclética e cantou de tudo, mas foi o samba o gênero em que se fixou, de um modo como ninguém mais pode fazê-lo. Ela era única. Tamanha personalidade resultou que a chamavam por diferentes epítetos. Acho todos lindos:

A Noiva do Samba-Canção,

Lady do Samba (pelo seu donaire ao cantar),

ou ainda, Machado de Assis da Seresta.

Mulata Maior (esse, eu acho maravilhoso).

A Magnífica (apelido dado por Mister Eco), e

A Enluarada (por Hermínio Bello de Carvalho).
O mais adorável, no entanto, foi o criado por Haroldo Costa e que é aquele que permaneceu para sempre ligado ao nome da cantora –
A Divina.

A Divina Eliseth Cardoso faleceu em 07 de Maio de 1990 e, como tudo que é da ordem do Divino, merece um eterno tributo.






Sei lá, Mangueira
(Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho)

Mangueira
Teu cenário é uma beleza
Que a natureza criou...

Vista assim do alto
Mais parece um céu no chão
Sei lá
Em Mangueira a poesia
Feito um mar se alastrou
E a beleza do lugar
Pra se entender
Tem que se achar
Que a vida não é só isso que se vê
É um pouco mais
Que os olhos não conseguem perceber
E as mãos não ousam tocar
E os pés recusam pisar
Sei lá não sei
Sei lá não sei

Não sei se toda a beleza
De que lhes falo
Sai tão somente do meu coração
Em Mangueira a poesia
Num sobe-desce constante
Anda descalça ensinando
Um modo novo da gente viver
De pensar e sonhar, de sofrer
Sei lá não sei
Sei lá não sei não

A Mangueira é tão grande
Que nem cabe explicação

Sei lá não sei
Sei lá não sei
Sei lá não sei
Sei lá não sei
Sei lá não sei
Sei lá não sei
Sei lá não sei
Sei lá não sei
Sei lá ...