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quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Fritando rabanadas

No último dia 24, eu preparei quitutes para o almoço de natal, no dia seguinte, oportunidade em que a família inteira estaria reunida em torno da matriarca.
Enquanto eu fritava as rabanadas, fui acometido de uma espécie de insight e que vou tentar descrever por aqui como se deu.
É que eu me vira fazendo uma tarefa a que me encarrego de pôr termo todos os anos e que se revela um sucesso de público no seio familiar.
Minha família tem crescido, na medida em que meus irmãos trazem novas pessoas ao mundo. Depois de uma baixa (meu pai que se foi faz 5 anos), já somos 25 pessoas, uma vez que novos membros entram na família, seja porque os bebês nascem, seja porque os meus sobrinhos mais velhos iniciam namoros e surgem assim simpáticos agregados!
Quem já experimentou fritar rabanadas sabe que se trata de algo muito fácil embora trabalhoso. Há o processo de preparar o leite no qual mergulhamos as fatias do pão. Você pode temperá-lo com especiarias (raspas de limão siciliano, canela em pau, raspas de gengibre, anis-estrelado, cravo etc.) ou misturá-lo simplesmente com vinho e/ou leite condensado. Após a etapa do mergulho da fatia de pão nesse leite, há que se escorrer o excesso em uma peneira, envolvê-la no ovo batido e levar ao óleo quente para fritar. Deixa-se, então, escorrer o excesso de óleo de cada fatia em um papel absorvente e, por fim, é preciso cobrir de açúcar e canela cada uma.
Eu fiz cerca de 60! É uma atividade solitária.
Assim sendo, durante a função eu tento me concentrar, buscando ter bons sentimentos e sensações, pois eu acredito fortemente que aquilo que pensamos ou sentimos, enquanto fazemos um prato, é transmitido de algum modo àquela matéria tão vulnerável do alimento e que, afinal , será absorvida por outro organismo.
Eu sempre passo mal quando como alguma coisa preparada, por exemplo, por alguém que esteja a sofrer alguma dor. É uma realidade do meu histórico de ingestão de alimentos. E eu não desejo isso para ninguém.
Mas nós não somos apenas felicidade e alegria, of course.
Então, quando eu estava fritando a 45ª rabanada eu comecei a me cansar e pensei: Será que eu faria isso para qualquer um, ou seja, eu me dedicaria ao preparo de iguarias para pessoas desconhecidas, enfim, pessoas que não pertencessem a minha família? Imediatamente, então, senti um estremecimento e tive naquele exato momento a plena convicção de que, sim, eu faria com aquele mesmo amor e carinho rabanadas para qualquer ser humano.
Foi algo tão intenso - o constatar essa possibilidade - que senti uma alegria plena!
Quando não tivermos mais no nosso meio nossa mãe e se por um acaso a família se debandar, deixar de se reunir no natal, eu poderei fritar rabanadas para desconhecidos com o mesmo amor.
Ter a certeza que servir com paixão é o que há de melhor nesta vida renovou a minha energia, quase não percebi o fim da tarefa de fritar rabanadas e já me envolvi com o preparo do manjar de coco.

Como diria Saint Germain: Eu sou a inesgotável energia e inteligência sustentando-me!
Que assim seja, graças a Deus!

Happy New Year to you.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Like this. Rumi by Tilda Swinton


Se alguém lhe pergunta
Como pareceria a perfeita satisfação
de todo o nosso desejo sexual,
levante-lhe o rosto e diga:
Assim.

Quando alguém menciona a graça
do céu noturno, suba no telhado
e dance e diga:
Assim.

Se alguém quer saber o que o "espírito" é ,
ou o que  significa a "essência de Deus",
incline a cabeça em direção a ele ou ela.
Mantenha seu rosto colado ali:
Assim.

Quando alguém cita a batida imagem poética
De nuvens que passam e descobrem a lua ,
Afrouxe lentamente, laço por laço, as fitas de seu robe:
Assim.

Se alguém se pergunta como Jesus ressuscitou os mortos,
não tente explicar o milagre.
Beije-me nos lábios:
Assim. Assim.

Quando alguém perguntar o significado de
"morrer por amor ", aponte
aqui.

Se alguém perguntar o quão alto eu sou, feche a cara
e indique com seus dedos o espaço
entre os vincos de sua testa .
Esta altura.

A alma, por vezes, deixa o corpo, os retornos.
Quando alguém não acredita nisso ,
Retorna à minha casa .
Assim.

Quando os amantes gemem,
eles estão contando nossa história.
Assim.

Eu sou um céu onde vivem espíritos .
Olhe fixamente para este azul que se aprofunda,
Enquanto a brisa diz um segredo.
Assim.

Quando alguém pergunta o que há para fazer ,
acenda uma vela nas mãos dele
Assim.

Como o cheiro de José chegava até Jacó ?

Huuuuu

Como voltou a visão de jacó ?

Huuuuu

Um sopro limpa os olhos.
Assim.

Quando Shams voltar de Tabriz,
Fará sua cabeça aparecer no vão
da porta para nos surpreender

Assim.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Inspirado em William Morris

A emoção de conviver com diferentes pessoas.
Todas as pessoas em suas idiossincrasias.

Sobretudo, a emoção impar de conviver conosco mesmos, vinte e quatro horas por dia, todos os dias de uma vida...
Como não desejar conhecer-se melhor e, portanto, buscando abandonar os automatismos, a fim de perscrutar o imponderável dentro da gente?

Buscar conhecer-se tão bem, como quem conhece uma flor, que aparece no jardim em determinada manhã e encanta.

A flor, depois de cumprir seu breve itinerário, fenece.

O artista no entanto, faz o registro desse encantamento plasticamente, para deleite de si mesmo e dos outros, permitindo que algo do mistério dessa beleza permaneça.

Quero ser um artista ensimesmado e conquistar o registro da beleza de minh’alma.

Alcançar a síntese possível daquela transformação que ocorre no recôndito do meu ser, inevitavelmente.



works by William Morris, textile designer, artist and writer (1834-1896)

terça-feira, 20 de agosto de 2013

O Caráter Revolucionário by Erich Fromm


Quando eu tinha 16 anos, eu lia muito Erich Fromm. Obviamente, por vezes, eu achava tudo muito profundo e não tinha uma compreensão plena do que estava lendo. Mas eu me lembro de me identificar com muito do que ele sempre disse por meio de suas obras. Naquele tempo, eu nem sabia o que tinha sido a psicanálise para a história e tampouco o que ela seria para mim mesmo, 15 anos mais tarde.

A verdade é que eu fiz análise durante um tempo e foi tão bom! Por conta dessa experiência, eu me sinto muito grato a estes caras que pensaram a psique humana, e, aliás, penso que todos nós, em sã consciência, deveríamos nos sentir gratos.
Hoje minha vibe não é a de aceitar prontamente o discurso psicanalítico ou ao menos um aspecto dele e que tende a promover a desconstrução da metafísica, ou ao menos pretende desconstruir o que assim se costuma chamar, ou seja, qualquer interpretação ou vivência transcendente da vida humana no planeta.
Erich Fromm apresenta-nos a vantagem de ser um livre pensador e humanista. Eu tendo a confiar muito mais neste tipo de intelectual e cientista.


Emprestei esta semana, na Biblioteca Mário de Andrade, para matar saudades, seu livro: O dogma de Cristo e outros ensaios sobre Religião, Psicologia e Cultura. 2ª ed., Trad. Waltensir Dutra, Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1965.
No ensaio intitulado “O Caráter Revolucionário”, ele chega a conclusões deliciosas e que eu preciso compartilhar com vocês! Enjoy it!

(...) entendo como caráter revolucionário não um conceito ético, mas um conceito dinâmico. Não se é “revolucionário” nesse sentido caracterológico porque se pronunciem frases revolucionárias ou se participe de uma revolução. O revolucionário, nesse sentido, é o homem que se emancipou dos laços de sangue e solo, da mãe e do pai, das lealdades para com o Estado, classe, raça, partido, religião. O caráter revolucionário é humanista no sentido de que se sente parte de toda a humanidade, e nada que seja humano lhe é estranho. Ama e respeita a vida. É um cético e um homem de fé.

É cético porque suspeita das ideologias como disfarce de realidades indesejáveis. É um homem de fé porque acredita no que existe potencialmente, embora ainda não tenha nascido. Pode dizer “não” e ser desobediente precisamente porque pode dizer “sim” e obedecer a princípios genuinamente seus. Não está semi-adormecido, mas plenamente acordado para as realidades pessoais e sociais que o cercam. É independente, e o que é deve aos seus esforços. É livre, e não o servo de ninguém.

Esse sumário pode sugerir que descrevi a saúde mental e o bem-estar, e não o conceito do caráter revolucionário. Na realidade, a descrição dada reproduz a pessoa sadia, viva, mentalmente sã. Minha afirmação é a de que a pessoa sadia num mundo insano, o ser humano plenamente desenvolvido num mundo aleijado, a pessoa plenamente desperta num mundo semi-adormecido – é precisamente o caráter revolucionário. Quando todos estiverem acordados, não haverá mais profetas ou caracteres revolucionários – haverá apenas seres humanos plenamente desenvolvidos.

A maioria das pessoas, naturalmente, jamais teve caráter revolucionário. Mas a razão pela qual não vivemos mais nas cavernas é precisamente por ter havido sempre um número suficiente de caracteres revolucionários na história romana para nos tirar das cavernas e de seus equivalentes. Há, porém, muitos outros que pretendem ser revolucionários quando na verdade são rebeldes, autoritários ou oportunistas políticos. Creio que os psicólogos têm uma função importante no estudo das diferenças de caráter entre esses vários tipos de ideólogos políticos. Mas para isso é preciso, receio, ter algumas das qualidades que procuramos descrever aqui: devem ter um caráter revolucionário. 

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

a prayer


Sim, eu sei que buscar ser uma pessoa equilibrada é, por exemplo, compreender a profunda incapacidade cognitiva em que está mergulhado o ignorante que te insulta e, por isso mesmo, não sofrer com o insulto. 

Exercitar essa compreensão ao ponto de por vezes alcançar esse tipo de resultado é uma maneira de, entre outros ganhos, ir se libertando do vício do orgulho. 

Amém.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Barulhinho bom



Essa coisa de sermos muito barulhentos, a maioria de nós, é a causa de uma grande dificuldade que temos: a de sintonizarmos com nós mesmos ou, inclusive, com qualquer coisa para além de nós.

Eu voltei ao trabalho na cidade de São Paulo e, coincidentemente, uma equipe do sistema de computação da casa está instalando aparelhos complicadíssimos e que fazem muito barulho no ambiente da editoração. 

Graças a Deus, eu consigo me desligar desse estresse, afinal, não há motivo para ficar alimentando o incômodo ainda mais, e que por si só já é suficiente. Como, por exemplo, com uma reação aborrecida por demais...

Contudo, essa experiência imediata só me fez valorizar o tipo de silêncio com o qual eu tive contato lá no povoado que visitei nas minhas férias e que tive oportunidade de citar por aqui na postagem passada. Trata-se de fato de uma experiência a se valorizar.

Pois, em meio à natureza, até o que seria barulho é silêncio: o canto de pássaros, o zumbido de besouros, o coaxar dos sapos ou o farfalhar da folhagem na vegetação. E, então, a alma fala de si mesma para si mesma. Sem esse exercício que sugere uma busca de um conhecimento mais profundo acerca do que se vive, do que pode ser sentido em termos de paisagem interior, não podemos prosseguir.

De qualquer modo, ao menos assim, a partir desse exercício, poderemos prosseguir menos ruidosos e talvez mais eloquentes por conta disso mesmo. 

É quando a presença silenciosa já diz de si. E assim, quiça, a palavra serena possa dizer o que é desejável que seja audível. ;-)




sexta-feira, 2 de agosto de 2013

A senhora da janela


No mês passado, este blog ficou sem nenhuma postagem. 

O blogueiro estava de férias! \o/

Durante esse período, eu fui conhecer  Catuni da Estrada,  um povoado de Jaguarari, cidade serrana que fica entre Juazeiro e Senhor do Bonfim, no norte da Bahia, na região nordeste do Brasil. 

Trata-se da terra natal de meu pai e de sua família. Uma das coisas que eu mais curti fazer foi passear pelo lugar e conhecer os arredores. 

Passando em um povoado vizinho chamado Estiva, encontrei uma senhora na janela de sua casa e tive com ela o seguinte diálogo:



- Posso tirar uma foto da senhora?
- Pra quê?
- Para eu mostrar para os meus amigos e dizer que achei tão poético vê-la tranquila na janela...
- Mas eu tenho noventa e três anos e meio...
- Mas isso torna tudo ainda mais precioso, então. é tanta história que a senhora já viveu.
- Ah, tem mesmo muita história...
- Graças a Deus!
- Graças a Deus, meu filho!

Imediatamente, enviei a foto ao facebook com a descrição do diálogo referido. A reação foi tão espontânea e imediata! A postagem chegou a ter 212 curtidas, 36 comentários e 12 compartilhamentos.


Depois, fiquei pensando no porquê dessa comoção. A verdade é que todos nós sabemos o quanto a vida é bela e, portanto, bem-vinda sua longevidade, sobretudo por nos permitir tanto aprendermos por meio de toda essa história que se vive e, sim, todos nós, ainda que intuitivamente, sabemos que devemos agradecer a uma entidade superior por este conjunto de dádivas.

Uma amiga minha aqui de São Paulo, uma outra senhora, com cerca de 60 anos de vida, quando eu lhe contei o episódio, me disse que talvez a senhora de 90 e tantos anos tivesse achado que eu pudesse estar lhe paquerando e daí a surpresa e a declaração da idade.

Eu não tinha pensado nisso! Mas isto também é maravilhoso: chegar aos 90 anos e imaginar-se, mesmo que surpreendentemente, alvo de paquera.


sexta-feira, 24 de maio de 2013

Hoje e sempre


Hoje, utilizei o metrô a partir da linha amarela, pois eu vinha do Butantã para o centro da cidade. Lamentei não ter um livro para ler e me lembrei que eu tinha um, mas em pdf , no celular. Trata-se de um livro psicografado por Divaldo Pereira Franco e que fala da Transição Planetária. No trecho que eu lia, um espírito que ainda iria nascer no nosso planeta, vindo de outro mais adiantado, contava aos seus interlocutores a respeito de lá e também queria saber do que acontecia por aqui:

Por sua vez, interrogou-nos a respeito das paisagens de sombra e angústia que notara na Terra, das densas ondas de infelicidade e de revolta que lhe produzia choques vibratórios, assim como do horror da violência, das buscas desenfreadas pelas paixões dissolventes e destrutivas, que caracterizam, por enquanto, o nosso mundo de provas e de expiações.Sem nenhuma expressão de censura, analisou o primarismo ainda existente em nosso planeta, onde os horrores da guerra ceifam milhões de vida com periodicidade, assim como a ocorrência das contínuas vagas de terrorismo de toda espécie, dos fenômenos sísmicos que abalam a estrutura geológica da Terra, dos sofrimentos superlativos... Havia uma dorida expressão na sua face ao analisar o novo mundo onde iria trabalhar, em tentativa de auxiliá-lo a melhorar-se, tornando-se mais tristonha ao referir-se à criminalidade, aos terríveis abortos provocados, às aplicações da eutanásia, ao volume de suicídios e ainda à pena de morte legalizada...

Quando eu estava lendo o trecho acima, notei a pessoa que estava sentada ao meu lado no metrô. Era uma jovem negra, gestante e que estava com os olhos fechados e dos quais desciam grossas lágrimas. Aquela cena foi de cortar o coração: uma mulher negra, grávida e chorando. Senti que eu não devia lhe falar, oralmente, em respeito a sua dor (da qual eu sequer podia imaginar a origem...) 

Mas, imediatamente comecei a pedir em prece por ela e também a lhe emitir mensagens por pensamento, enquanto, por minha vez, também chorava: eu me sentia profundamente solidário àquela dor.
Agora, éramos dois chorando. 

No vagão, ninguém mais percebeu a cena a não ser outra moça, também negra, sentada em um banco no lado oposto ao nosso. Eu pensava fortemente: Tenha coragem, meu amor. Na aflição, o que precisamos é de fé e coragem. Repetia fortemente esse pensamento, como ladainha, e voltado a sua direção. Tenho certeza que de algum modo a ajudei, pois ela parecia se acalmar ao longo da minha prece e, de certo modo, isso se confirmou, pois ao levantar-nos os três para descermos do trem, a outra moça sorria para mim como a dizer: fizemos nossa parte.

Espero que possamos fazer isso sempre. Daí, para o melhor. Assim, este planeta tão sofrido vai se regenerando pela solidariedade cada vez mais possível.
Sim, ainda que nessa cumplicidade silenciosa.
O que almejamos?
O respeito à dor alheia revelando-se na solidariedade de todas as horas.
Que Deus nos ajude. Amém.

domingo, 10 de março de 2013

A caneca

Nosso cotidiano é feito de episódios fortuitos aos quais não prestamos quase atenção ou talvez apenas exercitemos uma atenção desinteressada a fim de ocultar certos equívocos a que estamos apegados, portanto, sempre salvaguardando o seu constante retorno, enfim, a possibilidade de que sobrevivam em nós.

Eu tenho aprendido a notar o que estou fazendo de triste, no momento mesmo em que estou fazendo isso, graças a Deus!

Embora durante a observação eu não consiga de imediato mudar o rumo da performance lamentável a que me entrego ali, ainda assim, fico na espreita e a lamentar, assistindo a mim fora de mim, enquanto os laivos estertores da minha própria sombra demonstram que vivo uma experiência sofrida.

Nesse domingo, por exemplo, fui almoçar aqui em casa em companhia da minha mãe que tinha preparado o almoço e também um suco natural de goiaba muito saboroso.
Então, enquanto eu colocava a mesa, dispunha os pratos e talheres, foi quando pensei em usarmos a dupla de canecas de ágata que eu comprara um tempo atrás, ou seja, uma especialmente para mim e outra para ela.

A vermelha eu não encontrei, apenas a verde. Perguntei-lhe onde estava a outra e ela me respondeu que um homem passara por nossa porta pedindo para tomar água ou café e que ela deixou que ele levasse a caneca.

Imediatamente protestei, veementemente, achei um absurdo, lamentei, senti até tristeza por perder assim a canequinha linda e pela qual eu tinha tanto apego e até carinho! kkkkk
Mas, dentro de mim, simultaneamente, senti-me ridículo: como assim ter carinho por uma caneca que me custou R$7 e que temos oferecidas aos montes por aí?

Se me sinto apegado a um objeto material tão reles como poderei afinal ascender espiritualmente?

Essa será sempre a pergunta que não pode ser calada.
Eu acredito que para me elevar espiritualmente tenho que exercitar o desapego, abandonar esse amor desmedido à matéria. E tenho que amar o espírito de todas as coisas em primeiro lugar, simplesmente porque seu invólucro é de ordem transitória.

Tenho que oferecer a água dentro da caneca e não querer nenhum retorno, nem da caridade de ofertar água a quem tem sede e muito menos o retorno da caneca, se ainda for este o caso!

O essencial é sempre aplacar a sede de qualquer um que queira e precise viver.
Querer viver é amar, só tem amor quem vive por amor, para amar.
Que ao menos assim seja, graças a Deus!

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Relendo Brontë


Eu sempre tive a dádiva de em momentos de desalento poder ler. A literatura sempre me salvou. Quando mais jovem, minhas crises eram mais constantes e essa espécie de bálsamo que eu encontro até hoje nos textos literários, então, eu tinha mais urgência em sorvê-lo.

Em geral sentimos assim quando há um prazer renovado na relação que estabelecemos com esses textos que dizem tanto de nós, não dizendo exatamente nada de concreto acerca de ninguém a não ser, quiça, de seu autor, mas apenas após a sua experiência ter sido coberta com este véu da abstração com o qual o fazer artístico cobre o que é da ordem do pessoal e indiviso.

Evidentemente, isso acontece mais amiúde - tal componente  realmente salvador que toda leitura tem - quando notamos aquele prazer que surge por ocorrer uma perfeita coincidência de gostos, sentimentos e princípios e que a obra, ou autor, ou as personagens em questão manifestam.

Estou relendo Jane Eyre, de Charlote Brontë – ganhei o livro de uma amiga querida no meu aniversário e, embora eu já o lera em inglês, acho que é sempre bom ler também uma boa tradução.  Assim sendo, vou reproduzir aqui uma passagem do romance. Nela sinto que aconteceu tudo isso que eu falava mais acima e um pouco mais.

Durante a leitura, passagens assim me comovem porque são parte de mim. No sentido de que a coincidência é plena daquele gosto a que chamo bom gosto, bem como dos bons sentimentos e mesmo princípios, sobretudo em relação ao que deve ser exaltado e louvado na minha opinião e evidentemente também na opinião da própria Brontë, autora da mensagem. ;-)

Enjoy it!

Miss Temple tinha sempre um ar de serenidade no porte,de nobreza no semblante, de refinada precisão na linguagem, que impedia o ardor excessivo. Um controlado senso de reverência que dava prazer aos que a ouviam. Era o que eu sentia naquele momento. Mas fiquei paralisada de espanto com Helen Burns.
A saborosa refeição, o fogo brilhante, a beleza e a bondade de nossa amada professora ou, talvez, mais do que essas coisas juntas, alguma virtude da sua mente única, despertou-lhe  as energias. E essas energias se agitavam. Primeiro, surgiram na brilhante cor de sua face, que até agora eu só vira pálida e exangue. Depois brilharam nos seus olhos, que adquiriram uma beleza ainda mais singular que os de Miss Temple. Uma beleza que não repousava na cor da pele, nem nos longos cílios, nem nas sobrancelhas, mas na intenção, no movimento e na vivacidade. Depois foi a alma que pousou nos lábios e as palavras fluíram, não sei dizer de qual fonte. Como pode uma menina de quatorze anos ter um coração grande e vigoroso o suficiente para manter a mais pura, vívida e fervente eloquência? Tal era a característica das palavras de Helen nessa noite, para mim, memorável. Seu espírito parecia ávido por viver, num breve espaço de tempo, mais do que muitos vivem durante uma prolongada existência.
by Paul Chin
Elas falaram de coisas que eu nunca ouvira. De povos e eras passadas. De países distantes. De segredos da natureza, conhecidos ou suspeitados. Falaram de livros, e quantos elas haviam lido! Quanto conhecimento acumulado possuíam! Pareciam tão familiarizadas com palavras e autores franceses! Mas o meu espanto chegou ao máximo quando ouvi Miss Temple perguntar se Helen às vezes dedicava um tempo a recordar o latim que o pai lhe ensinara. Pegando um livro da estante pediu-lhe que lesse um trecho de Virgílio, Helen obedeceu, e meu assombro crescia a cada linha. Mal tinha terminado quando soou o sino anunciando a hora de dormir. Ali não se admitiam atrasos. Miss Temple abraçou-nos e disse, do fundo do coração:
- Deus as abençoe, crianças.

(Charlote Brontë. Jane Eyre. trad. Doris Goettems. São Paulo: Ed. Landmark, 2010, p. 56-57)

sábado, 22 de dezembro de 2012

L'ange qui rit


Os anjos são mesmo seres verdadeiros e que expressam a Verdade.

É claro que quando penso em Verdade, ao menos em relação aos seres angelicais, considero que talvez possamos entendê-la tal como ouvi uma sua possível descrição ainda nessa manhã, quando o músico e ator Arrigo Barnabé – ele tem um programa admirável na rádio Cultura FM, o Supertônica –, citando Novalis, transmitiu sua mensagem de fim de ano aos ouvintes:

A poesia é o autêntico real absoluto, quanto mais poético mais verdadeiro.

Por conta disso, mesmo que os antigos tenham criado toda uma iconografia em torno dessa personagem celestial, na qual podemos ver anjos de espada em punho, alguns mais severos e outros de semblantes mais ou menos graves ou basicamente piedosos, ainda assim, gosto de pensar na companhia amiga, por exemplo, do meu anjo da guarda, em que ele se apresenta a mim de um modo muito particular,como também desejo manter meu relacionamento com esse celestial amigo.

Assim sendo, imagino meu anjo da guarda – e se eu tivesse a capacidade mística de vê-lo tenho certeza que seria assim mesmo que eu o veria – com o semblante semelhante ao daquele que se encontra no pórtico da Catedral de Notre-Dame de Reims: um anjo que sorri!

É por isso que, parafraseando o belo axioma do poeta e filósofo alemão, eu então diria que os anjos são verdadeiros, porque são seres plenos de poesia.

E, como a tradição cristã nos diz que o anjo da guarda é aquele designado para nos acompanhar em todos os momentos da nossa existência neste planeta, é compreensível que ele seja alguém que naturalmente possa sorrir e, sendo assim, os motivos de seu riso serão os mais variados.

Rêves de couleurs (2011), de Michel Quesne e Hélène Richard da Société Skerto
projeção que ocorreu durante as festividades em torno do aniversário de 800 anos da Catedral. 
A projeção buscou restaurar por minutos, as cores vivas e alegres que a Catedral e suas estátuas 
possuíam na Idade Média e que desapareceram em consequência da ação do tempo e da poluição.
Ele poderá, por exemplo, demonstrar por esse riso a natureza benévola do amigo que compreende minha pequenez e os desajustes a que estou sujeito, encontrando-me onde ainda estou, nessa situação particular de um distanciamento exato e único, esse exatamente que demarca meu lugar em relação ao Altíssimo.

Mas, o riso do meu anjo também poderá ainda ser de alegria, pois ao me ver assim tão humílimo, por minha própria condição, ainda assim percebe que, de quando em quando, demonstro amor e carinho aos outros seres da criação.

É quando, por fim, sorri de satisfação, ao notar que vou avançando em direção a essa liberdade a que somente alçam aqueles dessa própria natureza angelical.

Seres que por possuírem asas não reclamam de distâncias e se sentem satisfeitos na sua missão de proclamarem a Verdade do amor divino, sendo expressão absoluta de poesia.




quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Abilities

by William Morris

Eu estou fortalecendo em mim o desenvolvimento, ainda que lenta e gradualmente, de algumas capacidades:

A capacidade de não se desesperar.

Embora o desespero tenha sempre sido espetacular, na vida real ele é patético e triste. Irmão gêmeo da desrazão, enfraquece qualquer desesperado, expondo-o ao torvelinho das circunstâncias demolidoras.

A capacidade de não alimentar raiva.

Embora a raiva possa acontecer com muita facilidade, sua expressão também é tola, e ainda nos coloca imediatamente frágeis diante do objeto da própria raiva, seja esse último uma porta ou uma pessoa.

A capacidade de silenciar-se em situações de conflito iminente.

Embora o combate verbal sempre conclame seus públicos, o que as pessoas querem ver é a rinha de galos e, nesse tipo de contenda, aqueles que se machucam são e-xa-ta-men-te os galos, levados para a tal rinha pela força de circunstâncias atormentadoras, em que os envolvidos todos estão cegos e emburricados.

A capacidade de fazer uma prece no lugar de alimentar o desespero, a raiva e a bulha.

Aliás, fazer isso mesmo no exato momento em que essas tristes ações seriam convocadas ou quando estariam ali latentes e, portanto, a nossa disposição, pois nesse momento é quando então se faz necessário convocar os anjos e aliados da primeira hora – o que definitivamente será mais vantajoso e benéfico do que alimentar inimizades.

by William Morris
Afinal, só temos antecipadamente uma única informação acerca de um inimigo qualquer: ele sempre irá nos solicitar aquelas mesmas provas de sentimentos espúrios das quais se nutre em relação a nós mesmos e muitas vezes em relação a todos os demais, a começar por si mesmo.

Bem, no que diz respeito a tais sentimentos, podemos simplesmente escolher no fundo do coração não senti-los em relação a ninguém.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Da alegria de não precisar ter, pela contemplação de todos os enganos


Houve um tempo em que eu estive desempregado. Posteriormente, voltei a ser empregado de uma grande empresa. Fui admitido em agosto de determinado ano e, quando chegou dezembro, a empresa distribuiu cestas de Natal para seus funcionários, bem como um bônus alimentação, a que carinhosamente os funcionários chamavam vale-peru (o valor que o cartão do benefício continha equivalia praticamente ao valor da ave no mercado, talvez um pouco mais).

Na primeira vez em que isso se deu, lembro-me de uma alegria muito genuína que eu senti quando voltava para casa, carregando a cesta e entregando-a para minha mãe. O evento demonstrava um marco de recomeço de vida: a cesta, então, era o pão bendito, o fruto do suor do trabalho. Sim, tudo isso e um pouco mais.

Depois o tempo passou. Nos anos seguintes, tal cesta natalina virou um hábito comum dentre as rotinas de final de ano: quase que mais um expediente. Oh, vergonha dos mortais! Transformam o que é doçura no pranto em mero hábito na bonança!

Certa feita, a cesta, por algum motivo, mudou, pois a companhia optou por economizar no orçamento destinado para esse fim: os itens que vinham dentro dela tiveram sua qualidade alterada, barateada, embora ela não tenha mudado seu tamanho original. Por conta disso, vários de nós, funcionários, passamos a reclamar da mudança, portanto, já distantes daquele espírito de gratidão por estarmos empregados e recebendo os benefícios comuns a quem  vivencia essa condição.

Em tal ocasião, quando saí na rua carregando a cesta, deparei-me com um morador de rua e, imediatamente, lembrei-me da alegria que eu sentira quando ganhei aquele mimo pela primeira vez e isso também depois de algum tempo de penúria. Claro que então lamentei profundamente ter feito parte do coro dos detratores da cesta. Ao tomar o metrô, vi outros trabalhadores carregando também suas cestas: a maioria delas era ainda menor que a minha própria!

Tais cestas talvez existam para depurar na gente o caráter: você é do tipo que agradece por ter recebido um agrado (qualquer um!) ou o desmerece? Não seriam os ritos do Natal oportunidades para encetar esse tipo de reflexão? Cada gesto natalino – desde o montar a árvore, comprar o brinquedo para a criança, ter um presépio –  esses pequenos sinais solicitam da gente pensar em nosso caráter: uma avaliação da nossa capacidade de agradecer e amar, de sermos mais leves.

Certa feita, li um texto de Cecília Meireles que explicava por que São Francisco de Assis é o criador da representação tradicional do Presépio, com Maria e José cuidando do Menino na manjedoura, na companhia daqueles animaizinhos.

Trata-se de uma crônica publicada originalmente na Revista Rio, em 1946, e que integra o volume 1 da Obra em Prosa da poeta, organizada por Leodegário A. de Azevedo Filho, para a Editora Nova Fronteira. Intitulada Meditação no Presépio, reproduzo aqui tão somente o início e o final da crônica, ambos magistrais:

Quando São Francisco de Assis inventou o primeiro presépio, e falou das coisas do céu numa gruta, dizem que, ao ajoelhar-se, desceu-lhe aos braços estendidos um Menino todo de luz. O Santo Poeta colocara ali apenas umas poucas imagens: as da Sagrada Família, a do irmão jumento e a do irmão boi. O áspero cenário de pedra tinha a nudez franca da pobreza, a rispidez dos desertos do mundo, o recorte bravio dos lugares de sofrimento. Ai, o Menino de luz pode descer, porque ele vinha para ensinar caminhos difíceis, e restituir às coisas naturais da terra o sentido da sua presença na ordem universal.

(...)

E se outro São Francisco se ajoelhar na gruta rústica, o Menino virá todo em luz aos seus braços, porque só o Santo Poeta entendia dessa irmandade geral do céu e da terra, e da graça de todos os despojamentos, e da alegria de não precisar ter, pela contemplação de todos os enganos, e da leveza da vida em expressão absoluta.



quinta-feira, 26 de abril de 2012

Lendo sobre Francisco


Terminei agora mesmo de ler um livro que muito me ensinou. Trata-se de uma biografia. Amo tais livros que contam a vida de alguém que mereceu ter sua vida contada. Essa biografia tem um apelo especial porque se trata da vida de um santo. Estou falando de Francisco de Assis, o santo relutante, de Donald Spoto. O teólogo renomado escreveu o livro para demonstrar que toda a vida de Francisco foi de vivência e de elaboração de um processo de conversão, ou seja, essa última não se deu da noite para o dia e daí o “relutante” do título.
O mais importante é que ele utilizou fontes e arquivos inexplorados de Roma, Assis, Greccio e Florença e, inclusive, os únicos escritos de próprio punho de São Francisco e que sobreviveram até os nossos dias.

Eu comecei a ler tal livro, porque o encontrei por um acaso na livraria e justamente quando eu tinha acabado de assistir ao filme Irmão Sol e Irmã Lua (Fratello Sole, Sorella Luna), de Franco Zeffirelli. Um amigo emprestara-me o DVD dizendo que eu devia assistir ao famoso filme, porque ele sabia que eu iria gostar, que era a minha cara. Vejam só! kkkk

O interessante é que, após ler o livro, percebemos que o filme foi bastante fiel a essa história ou ao menos às passagens mais famosas da vida de São Francisco: sua vida libertina na juventude; a participação nas cruzadas; o episódio do abandono da família e do abraço absoluto com a pobreza, quando, então, fica nu na frente do bispo, na praça do vilarejo; o início exemplar da reconstrução da pobre capela onde se deu a sua primeira epifania; a relação de amizade com Santa Clara, bem como toda a vida de abnegação e caridade com os pobres, leprosos e ainda, evidentemente, com os animais.

No entanto, minha decisão em ler o livro ocorreu, sobretudo, depois de eu ter lido esse trecho de sua Introdução, onde o autor nos diz que:

Francisco nasceu em 1182 e morreu em 1226, aos 44 anos. Hoje em dia, acharíamos que desapareceu no apogeu; naquela época, era considerado afortunado por ter vivido tanto tempo. Dois anos após sua morte, foi proclamado santo. A canonização por decreto pode ser uma forma astuciosa de apropriar-se de pessoas notáveis, domesticá-las e isolá-las, transformando-as em propriedade do catolicismo oficial. Francisco, porém, continua a ser de certa forma maravilhosamente embaraçoso para a Igreja e para o mundo. Sua vida e seu exemplo – e não, devo frisar, qualquer coisa que especificamente ele tenha dito ou escrito – possuem uma integridade que desafia nossos preconceitos sobre o que constitui uma vida de virtude, sem falar de uma forma respeitável de encarar a religião.

Agora, que terminei a leitura, vejo que o exemplar está todo riscado. ;-)
É que gosto de marcar as passagens que me tocam profundamente, como, por exemplo, mais essa outra:

Será nossa obsessão contemporânea com a perfeição física menos patológica do que o comportamento do asceta? Novecentos anos depois de Francisco, as pessoas desejam estar satisfeitas consigo mesmas – anseio fadado à decepção, ou pelo menos somente a uma satisfação temporária. Mas, numa época de fé, a negação do físico tinha o objetivo de tonificar o espírito, e não o corpo, de modo que, libertado da indolência e da dependência no prazer da boa comida e bebida, o espírito ficasse preparado e disposto, não a um novo guarda-roupa ou a um romance ideal, e sim ao esclarecimento íntimo, um prelúdio à oração. Nesse ponto, todas as religiões do mundo concordam: é necessário certo domínio sobre as inclinações da carne para que floresça a vida espiritual.


Quanto a Francisco, podemos desejar que suas penitências autoinfligidas não tivessem sido tão imprudentes. Isso talvez porque preferimos que os santos ou sejam perfeitos  em todos os aspectos, ou sejam tão comuns que se conformem a nossa própria estatura e não desafiem nossa indolência espiritual. Mas os santos na verdade são heroicamente apaixonados, e assim como os amantes, às vezes se tornam excêntricos, ou mesmo ultrapassam seus limites; afinal, a santidade não exclui a humanidade. Acima de tudo, entretanto, os santos mantêm os olhos fixos em Deus. Permanecem fiéis, e é por isso que são santos, não por serem invariavelmente modelos de conduta polida ou mesmo imitável.

Não é preciso dizer que chorei em muitas passagens, tomado de carinho e respeito por esse exemplo de ser espiritualizado ao grau máximo.
Por fim, no momento derradeiro da passagem por esse planeta dessa personagem gloriosa da história humana, Donald Spoto, após descrever os últimos instantes de São Francisco, nos diz à guisa de fecho da história:

A radiosa luz azulada da tarde brilhou por sobre o vale e cobriu as colinas acima de Assis. Ao descrever seus últimos momentos, os amigos de Francisco nunca esqueceram um último detalhe: "Muitos pássaros, chamados cotovias, esvoaçaram por sobre o teto da cabana onde ele jazia, fazendo círculos e cantando".


Por essas poucas passagens, e que fiz questão de trazer para cá, penso que já é possível perceber que temos aqui um livro magnífico e à altura do biografado! Leitura edificante no grau absoluto pois nos fala de alguém querido, amado e... santo.