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segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

A Alegria de Clarice Lispector


Eu acho que nunca falei aqui de Clarice Lispector. Aliás, minto, falei o ano passado quando lia Um livro diferente de Clarice Lispector. Sim, é lógico que eu também amo Clarice como toda gente que sabe ser gente e, então, admira o ser gente dessa grande escritora brasileira.

Eu hoje estava com saudades dela. Faz um tempão que não leio seus escritos. E encontrei na web um textinho que espero, de verdade, seja de sua autoria. rsrsrs Penso que é porque é a cara dela. Nesse texto, ela descreve uma sensação que muitas vezes também sinto: a de uma alegria que parece gratuita e que só nos faz querer compartilhá-la.

Vejam que coisa mais linda! E comecemos essa primeira semana de 2010, assim, anunciando e buscando aqueles com quem possamos compartilhar uma alegria tão forte, tão extremada. ;-D

Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.




quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Releitura

Eu devo ter lido esse livro no início deste ano. Em março ou abril, aliás, não me lembro se postei about... De qualquer modo, estando em casa esses dias, o reencontrei e notei que foi um livro no qual rabisquei muito, ou seja, grifei inúmeras passagens. Relendo tais passagens, vejo que são também aforismos da poeta.
A delícia de ler uma poeta escrevendo em prosa é que temos a certeza de que quando a pessoa é poeta ela não perde a mão e tudo o que fala, mesmo em prosa, é pura poesia. Cecília é dessas. Essas crônicas ela escreveu, na década de 40, em diferentes jornais brasileiros. Era um tempo em que ler jornal devia ser encantador, porque nossos grandes escritores escreviam neles. A crônica jornalística não tinha nada de banal era pura informação verdadeira, porque traduzia o pensamento de pessoas que tinham o que dizer para aquelas pessoas do seu tempo, mas cuja repercussão do que diziam pode ser observada ainda hoje.
Não resisti, ao reler meus grifos, e escolhi algumas passagens que transcrevo aqui, na esperança de que as pessoas se enlevem tanto quanto eu, na primeira ocasião em que li tais passagens e, hoje, pela manhã, quando fiz a releitura e a escolha dessas passagens, em particular.

Enjoy it!

Eu, da Literatura não tenho muita pena, porque ela facilmente se defende: de todas as artes é a única dotada de fala. (Os Artistas, Rio de Janeio, A Manhã, 13 de junho de 1945)

Você gosta da cólera, amigo? Eu não gosto, porque é uma loucura passageira e feia. Há loucuras belas: quando alguém nos pergunta: “A senhora se lembra de d'Artagnan? Pois era eu...” - e quando uma pessoa nos apresenta os originais de um tratado sobre as granulações concomitantes do éter, ou estudos congêneres. Nisso há poesia, transcendência, um desprendimento da realidade, um gratuito abandono às possibilidades do Sonho. (Evasão, Rio de Janeio, A Manhã, 20 de junho de 1945)

A bomba atômica não deve causar tanta admiração nem tanto susto. Ela é apenas a representação plástica do que uma parte da humanindade tem surdamente realizado, nesses invisíveis laboratórios que também somos. (Oh! A bomba... Rio de Janeio, Folha Carioca, 11 de agosto de 1945)

Das minhas altas varandas a avistava. E se a notei, foi só por sua solidão, esse uniforme pelo qual – objetos, animais, pessoas, - fazemos o nosso reconhecimento.(A casa, Rio de Janeio, A Manhã, “Letras e Artes”, 29 de junho de 1947)

Nunca esperei, no entanto, nada mais do que esse meu amor. Porque o amor não precisa mesmo de nada. E até de certo modo, quando se fortalece muito, começa a excluir tudo.O amor quer ser sozinho, isento de repercussão. (A casa, Rio de Janeio, A Manhã, “Letras e Artes”, 29 de junho de 1947)

Conheço pessoas bem-aventuradas, que falam com os santos, e médiuns ainda não muito esclarecidos que vêem pedaços de gente morta. Tive uma criada que quase todos os dias me contava: “Eu hoje vi as costas do falecido seu José...” “Eu hoje vi o calcanhar da defunda dona Maria...” Essa criada me asseverou que só se vêem as pessoas de costas, e da cintura para baixo. Explicou-me também quando elas podem ser vistas de corpo inteiro. Mas isso foi há muito tempo, e não me lembro. Não quero dizer, porém, que não acredite. Eu acredito em tudo. (Loucuras variadas, Rio de Janeiro, A Manhã, 31 de maio de 1944)

Conheço até pessoas que falam em nome de Jesus Cristo: mas essas são as que eu reputo demasiadamente ousadas, abusivas, principalmente quando comparo suas afirmações com seus atos. E de toda a horda de loucos acima enumerados, esses são os únicos que sinceramente detesto. (Loucuras variadas, Rio de Janeiro, A Manhã, 31 de maio de 1944)