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segunda-feira, 13 de maio de 2013

Quando a dignidade suplanta a infâmia


No último sábado, participei de uma sessão de cineclube com amigos.  Somos quatro cinéfilos que decidimos fazer uma programação para todo o ano, extensa e de alto nível, e que desejamos possa preencher os vazios que ainda existem na nossa cultura cinematográfica.

Um desses vazios era o de ainda não termos visto (ao menos três de nós) o filme Infâmia (The Children’s Hour) de William Wyler. Lançado em 1961, ele tem seu roteiro baseado em peça teatral de Lillian Hellman. Aliás, foi a própria dramaturga quem escreveu tal roteiro. Hellman é uma intelectual norte-americana de grande importância na história e cultura de seu país, inclusive porque, juntamente com o marido Dashiell Hammett e outros intelectuais, chegou a combater o nazismo. Além disso, foi perseguida pelo Macarthismo. Ou seja, ela só pode ser considerada gente muito boa!

The Children's Hour foi seu primeiro trabalho para o teatro, tendo sua estreia na Broadway, em 1934. A peça conta a história de duas professoras de uma escola para meninas que são acusadas de viverem uma relação homossexual e, mesmo que isso nunca seja efetivamente provado por aqueles que veem nisso um crime, a partir de então, ambas têm suas vidas dilaceradas. A obra fez um imenso sucesso na Broadway, mas foi proibida fora de Nova York, em outras cidades importantes como Boston, Chicago e Londres.


Sabemos que mesmo tendo ido para as telas nessa versão, 25 anos depois, o texto e a organização estrutural da peça resultaram em um filme ainda ousadíssimo para os anos 60, sobretudo, por tratar dessa temática nada convencional em Hollywood. Por exemplo, já houvera uma primeira versão cinematográfica da obra, rodada em 1936, na qual trouxeram à cena um triângulo heterossexual, no lugar de tratar da temática do lesbianismo com a mesma naturalidade que se observa na peça  e que declaradamente é a que está em jogo na história original. Outra riqueza do filme: ele é estrelado por duas grandes atrizes nos papéis das protagonistas, ou seja, Audrey Hepburn , como a professora Karen Wright e Shirley MacLaine como sua parceira Martha Dobie.

Quando conhecemos a escola onde trabalham as duas jovens e a tia de Dobie, Lily Mortar (Miriam Hopkins), uma espécie de atriz decadente, notamos que se trata de uma escola para meninas ricas da Nova Inglaterra. Nas cenas iniciais, cresce em vulto uma aluna em especial, Mary Tilford (Karen Balkin), garota que antes de ir para a escola vivia com a avó, Amelia Tilford (Fay Bainter), uma espécie de matriarca importante na cidade. Sua neta é mimada, birrenta, tornando-se profundamente desagradável em sua conduta e em seus excessos. Ela faz isso tudo tão somente para conseguir o que mais deseja: abandonar a escola.

A professora Karen (Hepburn) é noiva de um médico, Dr. Joe Cardin (James Garner), sobrinho da avó da garotinha. Desde o início, é verdade, a amiga demonstra  ter muito ciúmes do charmoso casal.  E, então, somos surpreendidos com uma trama em que aos poucos lamentamos profundamente a sordidez da criança, a complacência criminosa da avó, o sofrimento profundo das moças e consequentemente também o do rapaz, atacados e vilipendiados como todos eles são. Mas, como em toda obra de dramaturgia boa demais, é no final, apenas no final, que as coisas começam a se esclarecer, quando o deslindar da situação revela o que pode ser ainda mais aterrador.

A fotografia belíssima de Infâmia é assinada por um veterano de Hollywood, o fotógrafo Franz Planer (1894–1963), nascido na atual Karlovy Vary, na República Checa. Como muita gente europeia de sua geração, ele foi fortemente influenciado pelo expressionismo alemão, ao utilizar a técnica do chiaroscuro, pela qual proporciona uma iluminação em que é gritante o contraste entre luz e sombra para atingir os requisitos solicitados pela temática em questão. Ele assim o fez especialmente para os filmes noir em que trabalhou como, por exemplo, Baixeza (1949) e Sindicato do Crime (1950). Sua rica carreira sedimentou a força do domínio de sua técnica, o que faz todo o diferencial nesse trabalho. Por ele, se consolida com maestria a elaboração pela imagem de toda uma atmosfera opressiva que vai se fechando em torno das personagens, durante o desenvolvimento da história.

Por outro lado, desconfio que, sobretudo para quem já viveu na própria pele o que é ser insultado por ser homossexual (mas também poderia ser o insultado por pertencer a qualquer outra “minoria”), é demasiado comovente ver a subjetividade das personagens sendo assumida pouco a pouco, mas com consequências dolorosas para cada qual e, após o trágico desfecho a que assistimos na tela, observar a personagem de Audrey Hepburn, por fim, sair altiva diante dos difamadores, mas tão somente porque só lhe restara aquela dignidade que se propaga nobre e serenamente, característica daqueles que a alcançam depois de escalarem o abismo do sofrimento mais autêntico.


segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Sempre é temporada de caça às princesas

Como é bom terminar o domingo com um programa solitário, mas que preenche nosso tempo e nossa alma. Foi a isso que conheci, quando me permiti assistir a um clássico da comédia romântica de todos os tempos: A princesa e o plebeu (Roman Holiday), de William Wyler.
Agora que o filme terminou, fiquei pensando em alguns aspectos desse tipo de obra cinematográfica e particularmente desse filme, que muitos dos meus amigos já viram e tanto insistiam para que eu também conhecesse.
Como é bonito ver a simplicidade de uma comédia romântica à moda americana e desse período.
Há uma passagem em que o plebeu da história está dizendo para a princesa, após ser perguntado, no seu modesto quarto, se ele não se cansava de sempre comer fora (ele não tinha cozinha). Ele responde: A vida não é sempre como a gente quer. E ela, princesa, também cansada de ser alteza, é obrigada a concordar.
O filme por aqueles desenvolvimentos previsíveis de roteiro, comprova uma verdade provavelmente absoluta: Sempre que mentimos para os outros é a nós mesmos que estamos enganando.
Muito delicadamente (afinal é uma comédia e não um drama) teremos a cena da despedida, quando a princesa diz: Tenho que deixá-lo agora. E ainda: Deixe-me como eu vou deixá-lo. Ou ainda: Eu não sei dizer adeus. Não consigo encontrar as palavras. E o plebeu solícito: Não precisa tentar...
Afinal, não é isso o que temos todos que aprender, simplesmente? Deixar o outro partir, se necessário? Não dizer o adeus, mas já se despedindo?
Por fim, em uma comédia romântica hollywoodiana o casal idealizado é sempre, sempre belíssimo, of course.
Como não admirar esses espécimes humanos? Gregory Peck Audrey Hepburn! Fico imaginando se isso não pode, também simplesmente, apenas significar uma sinalização da perfeição do amor. Assim sendo, um amor como esse permite que, na cena final, aprendamos juntamente com a princesa, que a verdade pode ser dita sempre e, em público, mesmo que poucos entendam-na como verdade.
Ainda mais? Sim é possível aprender ainda mais: Que não há traição possível quando o amor é verdadeiro, mesmo que ele pareça um amor impossível! E, vamos combinar: qual é o amor que não tem essa aparência?




terça-feira, 14 de junho de 2011

Eu também passei uma tarde com Margueritte!


Logo que eu soube que Gérard Depardieu, todo bonachão, estava em um filme contracenando com uma senhora de mais de 90 anos (Gisèle Casadesus). Eu disse para mim mesmo: Esse filme eu preciso ver...
É que eu confio nos franceses o suficiente para saber que de um encontro como esse só poderia acontecer um filme superbe!
E, na última segunda (nada como férias! Sessão às 13h15min., no Reserva Cultural), fui ver Minhas tardes com Margueritte (La tête en friche), quando tive a oportunidade de confirmar aquela minha intuição.
Todo mundo que ama os livros e a literatura sabe que, para muito além de qualquer esnobismo, amar os clássicos da literatura, como A Peste, de Camus, é algo que faz sentido, sobretudo porque a literatura sempre transforma a vida das pessoas.
Não, as pessoas não precisam tanto assim de conforto material, elas precisam de conforto espiritual. As palavras bem ditas caem no coração, muito naturalmente, e fazem brotar as atitudes certas a se tomar na vida!
É isso o que ocorre com Germain, um homem simples do interior da frança, semi-analfabeto e que embora simplório, tem um coração vasto, generoso! Quando ele encontra a velha senhora Margueritte, sentada na mesma praça em que ele cuida de pombos, descobre que ela é uma senhora que adora os livros. O início dessa relação imprevista e improvável permite que Germain atravesse aquela ponte da reflexão que o contato com a palavra escrita exige que atravessemos e que ainda nos permite fazer a passagem para uma vida em segundo grau!
O mais singelo, contudo, é que o filme ensina que alcançar a civilidade longe de ser o que muitos pensam, o contato inevitável com o materialismo, é a oportunidade para exercitar ainda mais e melhor o amor e a caridade!
Preciso dizer algo mais e importante: não se preocupe se você tiver que chorar de emoção, o filme solicita isso mesmo (não, isso não é piegas!) e lembre-se sempre que as lágrimas sinceras são o verdadeiro sintoma de uma renovação.

 

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Saturno Contro


O mais delicioso das férias, mesmo quando não viajamos, é poder, por exemplo, sair de casa para pegar uma sessão de cinema, às 15 horas, em plena segunda-feira.
Foi o que fiz na última segunda, quando fui ao Cinesesc, na Rua Augusta, esse cinema delicioso que temos em São Paulo.
O filme em cartaz chama-se Saturno em Oposição. Qualquer pessoa que manje o mínimo possível de astrologia pode imaginar o que seja esse aspecto astrológico, durante um período, na vida de qualquer um.  É claro que teremos um período difícil. Não se trata de uma conjunção, mas de uma oposição. Saturno é o planeta que solicita um tempo longo de maturação das coisas...
Explicada a metáfora do título, vamos ao filme. O diretor Ferzan Ozpetek deve, mesmo que inconscientemente, gostar de gente bonita. Como ele consegue reunir gente bonita! E até quem não é bonito, ao menos de acordo com os padrões vigentes, torna-se bonito no seu filme. O mais bonito, contudo, é que ele está falando de amizade. E amizade de um grupo de pessoas. Trata-se da condição clássica de um grupo que se reúne em torno de um casal. No caso, o casal é um casal de homossexuais, muito querido pelo grupo e que, por sua vez, quer muito bem a todos os outros.
Haverá no filme, é bom que você se prepare (pois eu fui pego de surpresa) um trabalho de luto, de perda (bem coisa de Saturno em oposição...) e, então, o filme vai construindo um paralelo entre uma perda real, e que acontece no plano do que poderíamos chamar como aquilo que é parte do mistério na vida, e uma outra perda, focada no relacionamento do casal heterossexual, e que também acontece, mas, agora, devido talvez ao egoísmo de um dos envolvidos (o filme não diz isso, essa é a minha interpretação, of course).
Achei magnífica a cena em que Antonio, casado com a psicóloga Angélica, vai encontrar-se com a amante, a florista Laura, e ambos atravessam uma praça, disfarçadamente, lado a lado, mas como não se conhecessem, até entrarem, do outro lado da praça, numa passagem com uma porta de vidro, para somente, então, longe do olhar do público, entregar-se aos apelos da paixão. Foi inevitável pensar que essa cena era outra metáfora, muito concreta aliás, de que também os heterossexuais podem ser marginais nas suas paixões e não apenas os homossexuais. Vejam lá e percebam se é possível essa interpretação.
É um filme de um diretor muito sensível e que nos diz o que toda obra de arte verdadeira sói dizer, que a condição humana é mesmo sofrida, há períodos verdadeiramente difíceis, mas que tudo se reverte em aprendizado! Ah, e que também a solidariedade entre os membros de um grupo constituído é fundamental.
;-)
Quero lembrar que essa foi apenas minha impressão muito geral do filme, o que eu desejo é que vendo o trailer abaixo vocês sejam tomados por essa luz que emana do filme e queiram vê-lo também.


terça-feira, 1 de março de 2011

Visions

Penso que tudo o que nos acontece faz sentido, porque tem sentido. Não faria sentido se não o tivesse, ou seja, não fosse intrinsicamente voltado para isso mesmo: fazer-se compreender de algum modo.
Eu passei o fim de semana sendo tomado por uma conjuntivite nos olhos (isso deve ser uma redundância, mas vou deixar assim mesmo! rsrsrs) e, nessa segunda feira, tive de ir a um hospital especializado. Quando lá cheguei, havia inúmeras pessoas com o mesmo problema e pensei: o que será que fizemos para estarmos todos aqui tendo que amargar essas horas de espera por um colírio para os olhos?
Fica a dica: é muito importante, quando você está em uma sala de espera, que você tenha um livro em mãos. Leve um livro de contos para a ocasião. Se a espera for longa, nada de desespero. Leia os contos e de preferência em uma língua que não seja a materna. Eu, por exemplo, demoro um pouco mais para ler em inglês e, graças a Deus, estava com o livro The Diamond as Big as the Ritz and other stories, de F. Scott Fitzgerald, na bolsa. O livro é um encanto. Além do fantástico conto que dá nome à coletânea, e que conta como vivem aqueles que têm um Diamante do tamanho do Hotel Ritz... (rsrsrs), tem outros, e em todos eles as personagens femininas são sempre encantadoras e espertíssimas, como se pode ver nesses trechos:

First, you have no ease of manner. Why? Because you're never sure about your personal appearance. When a girl feels that she's perfectly groomed and dressed she can forget that part of her. That's charm. The more parts of yourself you can afford to forget the more charm you have.
(Bernice bobs her hair)

People over forty can seldom be permanently convinced of anything. At eighteen our convictions are hills from we look; at forty-five they are caves in which we hide. (Bernice bobs her hair)


She kissed him until the sky seemed to fade out and all her smiles and tears to vanish in an ecstasy of eternal seconds. (The Ice Palace)

É importante que se diga: quem diz as primeiras frases que aqui transcrevi, no conto intitulado Bernice bobs her hair, é a prima da tal Bernice, e ela (a prima) não é lá uma pessoa muito confiável, digamos assim, mas  tem as frases mais impagáveis da coletânea. Já o último trecho eu não resisti e trouxe para cá por que achei tão romântico... kkkkk

Para terminar, eu preciso falar de um sonho lindo e triste que tive essa noite. Ele se passava como um filme de animação. E não era qualquer animação, mas uma que fosse realizada por Sylvain Chomet.
O sonho, assim sendo, belíssimo no visual, contava, no entanto, uma história triste: a de uma moça que acobertada por uma vizinha trabalhava escondido à noite em um cabaré, da década de 30 (provavelmente no Brasil, mas há senões) e era amante de um homem casado... Com essa informação não é de se estranhar que a história terminasse tristemente em violência, e até choro e ranger de dentes... mas, ainda bem que a graça divina nos faz esquecer daquelas passagens dos sonhos que ocorrem quando já estamos perto de acordar!

Boa semana a todos!


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Mario Tursi - fotógrafo viscontiano

Ontem, fui ao Cinesesc com duas amigas para assistir ao filme de Rachid Bouchareb, Fora da Lei.


Não poderei falar do filme, interessantíssimo, por sinal, por que isso demandaria um tempo de elaboração de tudo o que passou pela minha cabeça enquanto o assistia e, acreditem foi muita coisa: uma delas é que toda independência de países explorados por um colonizador demanda muita luta e derramamento de sangue, é um fato... Não é todo dia que nascem líderes como Gandhi, não é mesmo? No livro 1822, por exemplo, há também uma descrição dolorosa das guerras entre brasileiros e portugueses. Ou seja, cada colônia sempre sofre muito quando deseja sua liberdade. Neusa Barbosa, do Cineweb, situa-nos os impasses que o filme sofreu na sua exibição em Cannes e vale a pena ler o que ela escreve sobre o filme aqui.
Além do filme, o mais delicioso foi ver uma exposição belíssima de fotografia que também acontece ali e que homenageia o fotógrafo italiano: Mario Tursi - outro olhar do cinema italiano. Ele trabalhou muito com Visconti e, portanto, as paredes do saguão do cinema estão cobertas de beleza. Beleza que se deve ao trabalho precioso do fotógrafo e à imaginação desse cineasta e de outros tantos com os quais Tursi também trabalhou. São cerca de 70 fotografias todas belíssimas, algumas são cenas dos filmes, outras de bastidores. Todas muito valorizadas pela excelente disposição nas paredes todas, ou seja, pelo cuidado com a própria cenografia da exposição. Elas estão organizadas por filmes e cada qual ganhou um fundo de cor diferente em cada parede em que se encontram os respectivos trabalhos.
Já fazia um tempinho que eu não passava por esse templo do cinema que é o Cinesesc. Um cinema sofisticado em todos os sentidos: no conforto que proporciona a seus frequentadores, na ímpar qualidade de sua programação e tudo isso por um ingresso bastante módico. Será que não faz tempo que você também não aparece por lá? Se for o caso, o que você está esperando? Se não quiser conferir o filme, apareça ao menos para ver a exposição, que tem entrada franca, e para tomar um café. Ela fica por lá até o dia 27 de março.


sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

The Good Hearth

Ontem, boa parte das pessoas que moram nessa cidade de São Paulo iniciou um processo de luto. Foi anunciada a morte do cinema de rua mais importante da cidade: o Cine Belas Artes. Eu fui até o cinema manifestar minha solidariedade aos funcionários que, aliás, ficarão desempregados. Uma moça linda da bilheteria abraçou-me chorando. O público manifestou-se na rede durante todo o dia. Um abaixo-assinado corre pelo Facebook. E nada disso irá reverter o processo do poder do Capital que, como sói acontecer em Sampa, destrói coisas belas e constrói tão poucas, eu diria.
Na minha ida ao cinema moribundo, aproveitei para assistir um filme em cartaz. Como sempre, como sói ser a programação da casa, o filme era uma pérola do bom gosto e da sensibilidade que ainda habitam nos espíritos que fazem bom cinema mundo afora.
Tratava-se de um filme do chamado cinema independente (leia-se “nada a ver com Hollywood!”), O Bom Coração, do diretor Dagur Kári, que nasceu em Paris, de pais islandeses, e que vive na Dinamarca.
A primeira sensação agradável do filme, pelo menos para mim, se deu pelo impacto que nos causa sua excelente fotografia, cuja direção resultou em uma luz fria o tempo todo. Isso faz com que a locação do filme, que se passa em Nova York, não seja imediatamente reconhecida. Ou seja, que apenas se crie uma atmosfera, aquela tão somente que o roteiro precisa para situar seus personagens na grande metrópole. O que temos de início é um encontro que se dá em um momento de crise das figuras centrais da narrativa: um morador de rua, que tentara o suicídio, encontra-se em um hospital, na companhia de um rude Jacques, dono de um bar decadente e que teve um infarto. O excelente ator Paul Dano (o mesmo de A Pequena Miss Sunshine), no papel de Lucas, cria o sem-teto mais doce que podemos conceber: é a personagem-título do filme, afinal, ele, sim, é todo bom coração.
O filme nos revela, muito tranquila e singelamente, o que é isso afinal de se ser uma pessoa de bom coração: é aprender que mesmo não tendo o pulso firme que a vida o tempo todo exige e que, ainda que sintamos vontade de jogar a toalha, no ring da vida, podemos, ainda assim, com nossas atitudes de bondade e mesmo que elas beirem a insensatez (a bondade parece coisa insensata num mundo rude!), ainda assim, podemos salvar qualquer situação, até quando não sabemos que assim mesmo é que será!
O final, aliás, é surpreendente, inesperado, verdadeiro, transcendente!

O Belas Artes mesmo nos estertores de sua agonia é ele também um cinema bom coração (deixando essas lições de bom cinema em suas telas até o fim) e é por isso que seu público promete promover uma

Manifestação Pública Contra o Fechamento do Belas Artes
na esquina da Av. Consolação com a Av. Paulista,
no sábado: dia 15 de janeiro, às 20 horas.

Eu acho isso muito bom, que ao menos o capitalismo selvagem do proprietário do imóvel tenha que ouvir um barulhinho bom das pessoas dessa cidade quando também elas são pessoas de bom coração! ;-D

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A moça do Bandoneon


Ontem, aconteceu um daqueles momentos mágicos em frente à televisão, o que é sempre tão raro. Vi um documentário magnífico chamado El último Bandoneón, um filme de Alejandro Saderman. Claro, não foi em qualquer canal de televisão, mas o Canal Brasil. Mesmo sem tê-lo visto inteiramente, o que vi emocionou-me muitíssimo. Em primeiro lugar, porque amo tango. Se a argentina não fosse importante por tudo o que nos deu: Borges, Cortazar, seu cinema (eu acho tão superior ao do Brasil, de um modo geral, Deus me perdoe!),ela já o seria só por nos ter dado o tango, ou seja, uma preciosidade impar, sem igual, pois é isso que o tango é.
Pois bem, como dizia, o que vi do documentário emocionou-me enormemente. Acompanhamos a trajetória da musicista Marina Gayotto, buscando um último modelo de bandoneon – uma espécie de acordeom que foi fundamental para a sonoridade típica do tango argentino.
Uma cena linda é quando ela está no ônibus tocando o seu bandoneon velhinho e, ao terminar, antes de passar recolhendo os trocados, ela solicita uma salva de palmas para o motorista, que permitira que ela entrasse no ônibus e tocasse. Os passageiros que estavam compenetrados, ouvindo-a tocar, atendem ao pedido. Achei tudo tão alto nível de educação, não é mesmo?

Outra cena tocante é a de quando, finalmente, ela chega para participar da audição, que um renomado Maestro e Compositor de tangos, Rodolfo Mederos, está fazendo para formar uma orquestra de tango. Há um trailer do filme disponível no Youtube, então, trouxe-o para cá. Vejam que coisa impressionante. Na cena que eu comentava, ela toca lindamente, mesmo que seu bandoneon esteja todo velhinho e não se possa mais extrair dele toda a sonoridade.
O filme é todo feito de cenas comoventes. Porque é muito simplesmente a saga dessa jovem que, em determinado momento, por exemplo, nos diz que gosta de Rock e das bandas de rock na formação que tiverem, com ou sem vocalista etc., mas... “o bandoneon é outra coisa, o bandoneon fala de mim...”
Tal instrumento, ficamos sabendo, foi fabricado até as décadas de 40 e 50, e, então, não se fabricou mais, ao menos aquele modelo que ela procura: o “Doublé A”. É um instrumento raro, difícil de se encontrar para comprar. E, ela, por exemplo, conhece pessoas da “velha guarda” que tocam o instrumento, mas que não o vendem.
Trata-se de um instrumento caro, sendo tão raro, inclusive a vemos também trabalhando como garçonete: tudo isso para o "Doublé A"...
Eu não cheguei a ver todo o filme, mas tudo o que vi me encantou. Um senhor dizendo que bandoneon é uma coisa sagrada; depoimentos como o de que o tango é uma música sui generis porque é de origem popular, mas tem uma sofisticação em seus arranjos; que o tango é algo essencialmente argentino, que eles não o devem à Europa...
Já o bandoneon é uma criação alemã e que foi levado para a Argentina e, então, incorporado à música local. Eles nos dizem que o “ar” do Bandonéon é como a alma. Enfim, que o instrumento “es estremecedor”.
Enquanto Marina busca seu bandoneon, para participar da orquestra, a orquestra com os outros componentes vai se formando, e vemos também cenas dos bailarinos do tango (meu Deus, se eu soube dançar tango, estaria a meio passo do Paraíso da expressão corporal e do amor que demarca a condição humana de ser também um casal!)

Não sei quando o documentário será reprisado ou se o será, no Canal Brasil, sei que existe em DVD. El último bandoneon é um filme “estremecedor”, como o instrumento, como as suas personagens.;-D

sábado, 10 de julho de 2010

Lições da mulher

Quando uma amiga, que acabei de conhecer, soube que eu estava lendo Ana Karenina, de Tolstói, presenteou-me com o DVD da versão cinematográfica do romance. O filme foi rodado em 1948 e dirigido por Julien Duvivier, tendo a magnífica Vivien Leigh no papel principal. Quando comecei a assistir,  fiquei encantado com a adaptação. Era possível ver o romance que estou lendo: todo ele ali, vivo nas imagens e cheio de lições de interpretação, do próprio romance naquela nova linguagem, dos atores na tela, enfim.
Obviamente, eu ainda não terminei o romance, que é imenso e, então, da metade para o fim do filme, fiquei sabendo o que ainda irá acontecer também nas páginas do livro que ora leio.
Que trágico fim! E que lição tristíssima, a vida da personagem encerra.
Só não fiquei ainda mais abalado com o desfecho do drama, porque um amigo apresentou-me uma cantora turca ainda essa semana e eu estava impregnado de uma outra lição feminina e que desejo compartilhar.
As mulheres são sempre sensacionais. Eu penso assim. Ana Karenina, sem dúvida, sobretudo se tem o rosto lindo de Vivien Leigh... Mas também essa cantora pop da Turquia e que é sensacional. Seu nome é Işın Karaca.
Quando eu ouvi essa música, que compartilho por aqui, fiquei impressionado com a voz, belíssima, mas também com o que me pareceu a lição de um drama e que estaria sendo representado por meio da personagem de uma mulher que está aborrecida e só, em um quarto, fazendo suas malas. (Aliás, fiquei sabendo que a cantora também estudou teatro). Ela só tem a sua própria consciência (representada pelo seu duplo, do outro lado do espelho. Ou será um anjo?) com quem passa a ponderar, nesse momento de aflição.
Pedi a meu amigo Enric que traduzisse do turco a mensagem da música. Ele disse que o turco não é assim tão fácil... (lógico!) Mas arranjou-me uma tradução para o inglês. Merci Enric! ;-D

Eu já estou quase aprendendo a cantar a música de tanto que a ouvi! I hope you enjoy it too.






Yetinmeyi Bilir misin?

Yetinmeyi bilir misin,
Sana verdiği kadarıyla hayatın?
Hoş, bilsen de bilmesen de
Yara bere içinde bu yollardan geçeceksin

Kazanmayı isterdim, kaybetmeyi değil
Ama olmadı yar
Kendini kayırıyor her insan önce
Bu yüzden aşka kıyar

Giderim, alışığım gitmelere
Direndi bu can ne bitmelere
Giderim, alışığım gitmelere
Gerek yok isyan etmelere

Do you know being satisfied
with how much the life gave you?
Well, Whether you know, or not
You will pass by these streets with wounds

I would like to win, not lose
But it wasnt like that darling
Every person gives herself a preferential treatment
so He/She sacrifice (to abandon) the love

I'll go, i m used on going
This soul resisted how many ends
I'll go, I'm used on going
There is no need to revolt

Você tem estado satisfeita
com o tanto que a vida lhe proporcionou?
Bem, saiba, ou não,
você passará por esses caminhos sofridos.

Eu gostaria de vencer e não perder.
Mas não foi assim, querida...
Cada um dá a si mesmo um tratamento especial.
E, então, sacrifica o amor.

Eu prosseguirei, tenho prosseguido.
Esse espírito resistiu a quantos términos...
Eu prosseguirei, tenho prosseguido.
Não é preciso revoltar-me.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Paris, o filme


Sexta-feira passada, fui ao cinema, após o meu expediente no jornal. Ao chegar no HSBC Belas Artes ainda não sabia o que veria. Devido ao horário, eu tinha poucas opções... Uma delas era a de um filme chamado Paris (2008), de Cédric Klapisch.
Oui, eu não podia deixar de ver um filme chamado Paris!
O filme conta a história de um rapaz, Pierre (Romain Duris) que é um dançarino profissional e que descobre precisar fazer um transplante do coração e que pode morrer. Ele procura o apoio da irmã nesse momento delicado: Élise (Juliette Binoche). Assim, acompanhamos o que se passa com esse rapaz, que sabe que pode morrer, mas que não se desespera, pelo contrário, a partir de então, ele irá ver a vida como algo realmente precioso.
Juliette Binoche, como sempre, está uma graça, naquela sua delicadeza de traços e de expressão.
Paris, a cidade, como poucas vezes no cinema, é mostrada de um modo mais verdadeiro, ou seja, menos idealizada. Descobrimos que ela é também uma cidade da vida real, onde as pessoas trabalham, sofrem e se divertem, como em qualquer outro lugar.
Gostei de ver os tipos franceses populares, como o grupo de feirantes que aparece no filme. Eles são tão parecidos com outros tantos tipos que conhecemos também por aqui (no Brasil) ou por ali (qualquer outro lugar dessa aldeia global). Mas os do filme possuem o plus de serem comoventes.
Um amigo que também já viu o filme percebeu (como eu também percebi) que há falhas de roteiro e até mesmo um tanto graves. ;-p Afinal, algumas personagens são abandonadas ou suas histórias não se sustentam em relação ao veio principal da trama e que é a situação de Pierre. Isso, contudo, não chega a comprometer de todo o filme. É um filme bonito, em sua nítida mensagem de que a vida continua e continuará sempre para os que ainda estão vivos e, isso, apesar de tudo.
Querem saber o que é muito bom mesmo, nesse filme? Nele, como em quase todo filme francês, os diálogos são absolutamente inteligentes. Há uma cena em que Pierre e Élise decidem contar para as crianças (os pequenos filhos de Élise) o que está acontecendo com o tio. Eles simplesmente dizem: O tio de vocês está muito doente e pode vir a morrer. Uma das crianças pergunta: Por que vocês estão nos contanto isso? A resposta: Simplesmente porque é a verdade, e não é nada demais, todo mundo vai morrer um dia.
Adoro esse modo de ser, direto, dos franceses!
Também fiquei sabendo, pelo meu amigo, que esse é o filme mais caro de toda a cinematografia francesa. O que nos pareceu incrível, afinal ele é quase todo rodado em interiores: apartamentos, uma boulangerie... O que teria saído tão caro? As muitas tomadas aéreas de Paris e também uma animação de computador, ou o fato de ter no seu elenco uma estrela de grandeza incostestável, a Binoche? Mas esses atributos seriam suficientes para alçá-lo a esse status?
C'est increable, vraiment!


segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Sócrates by Rosselini

Ontem, assisti a um filme do diretor italiano Roberto Rosselini. O filme Sócrates (1971) é uma cinebiografia do filósofo grego. Inicialmente, foi estranhíssimo ver os personagens gregos falando italiano. :p Mas isso é tolice de minha parte: se eles tivessem que falar grego teria que ser o grego antigo (que não pode ser falado, imagino...) De qualquer modo, a produção procurou reproduzir, à sua maneira, a época em que Sócrates viveu e o resultado é bastante peculiar e mesmo bonito, visualmente. Atenas e sua Acrópole, com o Partenon e a estátua da deusa Pallas Athena protegendo a cidade do alto, enfim, está tudo lá.
O filme mostra o final da vida de Sócrates. Logo no início, a cidade está tomada pelo poder dos 30 tiranos, os Espartanos.
Uma cena bastante impressionante é quando vemos um grande número de cidadãos atenienses crucificados por esse regime.Estou falando disso, porque foi um aspecto que particularmente chamou-me a atenção, os espartanos tiranos condenavam à morte seus inimigos dessa maneira, ao que tudo indica: caso a pesquisa para a realização do filme tenha acertado nesse dado em particular.
Depois, os Atenienses retomam o poder e reestabelecem sua democracia. Acompanhamos, então, a escolha de seus dirigentes e o processo que os inimigos de Sócrates iniciam para a sua condenação. Segundo eles, Sócrates não crê nos deuses de Atenas, renega-os e ainda é uma má influência para a juventude ateniense.
Antes e mesmo depois desse momento, Sócrates passeia com seus discípulos pela cidade, colinas, montes. É quando seus diálogos ocorrem, com base nos escritos de Platão. Tudo é muito resumido: o filme, nesse sentido, não substituiria jamais os escritos, mas o ator Jean Sylvère, o Sócrates, é prodigioso, em convencimento.
Mesmo que esse filme pertença a um momento na obra de Rosselini em que ele passou a produzir filmes educativos para a televisão e não mais aquele cinema que o consagrou (Roma, Cidade Aberta, Viagem na Itália etc.), o filme, para mim, foi muito atrativo: ver o Sócrates, ali encarnado, foi uma experiência delicada e reveladora.
Um outro comentário e talvez demasiado: sempre achei Sócrates meio que o Cristo da Grécia (se é que se pode dizer uma heresia dessas para qualquer das duas culturas em questão, a grega e a cristã). Digo isso, tão somente, porque ambos são exemplos de virtudes nas searas onde surgem e são ambos perseguidos e condenados à morte, injustamente. As semelhanças, se é que há tais, param por aí. Enquanto o calvário de Cristo em direção à morte é aquele horror, proporcionado por romanos e judeus, a morte de Sócrates, embora injusta, é absolutamente civilizada - a democracia grega até quando erra é sofisticada... rsrsrs - isso porque os gregos sugerem um veneno, a cicuta, e se ele fica preso é tão somente porque todos aguardam que se cumpra um ritual coletivo de purificação da cidade, quando depois ele terá que tomar a bebida. Sócrates é uma pessoa tão sábia, elegante, generosa e confiante que agrada aos guardas que o vigiam e a todos emociona com a coragem e a altivez com que encara sua sentença, até o fim.
Se eu tivesse alunos eu iria sugerir a eles que assistissem ao filme! ;-D