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segunda-feira, 13 de maio de 2013

Quando a dignidade suplanta a infâmia


No último sábado, participei de uma sessão de cineclube com amigos.  Somos quatro cinéfilos que decidimos fazer uma programação para todo o ano, extensa e de alto nível, e que desejamos possa preencher os vazios que ainda existem na nossa cultura cinematográfica.

Um desses vazios era o de ainda não termos visto (ao menos três de nós) o filme Infâmia (The Children’s Hour) de William Wyler. Lançado em 1961, ele tem seu roteiro baseado em peça teatral de Lillian Hellman. Aliás, foi a própria dramaturga quem escreveu tal roteiro. Hellman é uma intelectual norte-americana de grande importância na história e cultura de seu país, inclusive porque, juntamente com o marido Dashiell Hammett e outros intelectuais, chegou a combater o nazismo. Além disso, foi perseguida pelo Macarthismo. Ou seja, ela só pode ser considerada gente muito boa!

The Children's Hour foi seu primeiro trabalho para o teatro, tendo sua estreia na Broadway, em 1934. A peça conta a história de duas professoras de uma escola para meninas que são acusadas de viverem uma relação homossexual e, mesmo que isso nunca seja efetivamente provado por aqueles que veem nisso um crime, a partir de então, ambas têm suas vidas dilaceradas. A obra fez um imenso sucesso na Broadway, mas foi proibida fora de Nova York, em outras cidades importantes como Boston, Chicago e Londres.


Sabemos que mesmo tendo ido para as telas nessa versão, 25 anos depois, o texto e a organização estrutural da peça resultaram em um filme ainda ousadíssimo para os anos 60, sobretudo, por tratar dessa temática nada convencional em Hollywood. Por exemplo, já houvera uma primeira versão cinematográfica da obra, rodada em 1936, na qual trouxeram à cena um triângulo heterossexual, no lugar de tratar da temática do lesbianismo com a mesma naturalidade que se observa na peça  e que declaradamente é a que está em jogo na história original. Outra riqueza do filme: ele é estrelado por duas grandes atrizes nos papéis das protagonistas, ou seja, Audrey Hepburn , como a professora Karen Wright e Shirley MacLaine como sua parceira Martha Dobie.

Quando conhecemos a escola onde trabalham as duas jovens e a tia de Dobie, Lily Mortar (Miriam Hopkins), uma espécie de atriz decadente, notamos que se trata de uma escola para meninas ricas da Nova Inglaterra. Nas cenas iniciais, cresce em vulto uma aluna em especial, Mary Tilford (Karen Balkin), garota que antes de ir para a escola vivia com a avó, Amelia Tilford (Fay Bainter), uma espécie de matriarca importante na cidade. Sua neta é mimada, birrenta, tornando-se profundamente desagradável em sua conduta e em seus excessos. Ela faz isso tudo tão somente para conseguir o que mais deseja: abandonar a escola.

A professora Karen (Hepburn) é noiva de um médico, Dr. Joe Cardin (James Garner), sobrinho da avó da garotinha. Desde o início, é verdade, a amiga demonstra  ter muito ciúmes do charmoso casal.  E, então, somos surpreendidos com uma trama em que aos poucos lamentamos profundamente a sordidez da criança, a complacência criminosa da avó, o sofrimento profundo das moças e consequentemente também o do rapaz, atacados e vilipendiados como todos eles são. Mas, como em toda obra de dramaturgia boa demais, é no final, apenas no final, que as coisas começam a se esclarecer, quando o deslindar da situação revela o que pode ser ainda mais aterrador.

A fotografia belíssima de Infâmia é assinada por um veterano de Hollywood, o fotógrafo Franz Planer (1894–1963), nascido na atual Karlovy Vary, na República Checa. Como muita gente europeia de sua geração, ele foi fortemente influenciado pelo expressionismo alemão, ao utilizar a técnica do chiaroscuro, pela qual proporciona uma iluminação em que é gritante o contraste entre luz e sombra para atingir os requisitos solicitados pela temática em questão. Ele assim o fez especialmente para os filmes noir em que trabalhou como, por exemplo, Baixeza (1949) e Sindicato do Crime (1950). Sua rica carreira sedimentou a força do domínio de sua técnica, o que faz todo o diferencial nesse trabalho. Por ele, se consolida com maestria a elaboração pela imagem de toda uma atmosfera opressiva que vai se fechando em torno das personagens, durante o desenvolvimento da história.

Por outro lado, desconfio que, sobretudo para quem já viveu na própria pele o que é ser insultado por ser homossexual (mas também poderia ser o insultado por pertencer a qualquer outra “minoria”), é demasiado comovente ver a subjetividade das personagens sendo assumida pouco a pouco, mas com consequências dolorosas para cada qual e, após o trágico desfecho a que assistimos na tela, observar a personagem de Audrey Hepburn, por fim, sair altiva diante dos difamadores, mas tão somente porque só lhe restara aquela dignidade que se propaga nobre e serenamente, característica daqueles que a alcançam depois de escalarem o abismo do sofrimento mais autêntico.


quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Vamos ao cinema?

A primeira vez que eu vi um filme considerado cult ou de arte ou alternativo ou independente (são tantos os nomes que usávamos, então, para diferenciar esse cinema de autoria daquele do cinema a que chamávamos "enlatados americanos" ou aos moldes de Hollywood, da indústria norte-americana).
Pois bem, nessa tal primeira vez, lembro-me que eu tinha apenas 16 anos e não entendi nada. rsrsrs
Na verdade, eu formei minha sensibilidade para o universo cinematográfico, esse que afinal tinha algo a dizer acerca do humano e para o humano mais sensível em cada um de nós, no Cineclube Oscarito, no Cineclube do Bexiga, no Cine Bijou. Alíás, cheguei a trabalhar no Cineclube Oscarito, depois no Elétrico Cineclube e depois no Veneza Cineclube (antigo Cineclube do Bexiga). Todos eles, assim como o Cine Belas Artes, não existem mais! Tudo isso foi muito importante, assim como a experiência na Assessoria de Imprensa da Pandora Filmes (já nos anos 2000). E, isso tudo foi importante, sobretudo, porque a experiência de fruição do universo cinematográfico, na década de 80 e depois ainda nos anos 90,  passava por esse ritual de ir a uma sala de cinema. Sim, naquele tempo, os filmes não eram baixados dos computadores. rsrsrs

Estou falando disso porque queria divulgar junto aos cinéfilos de plantão, um livro que comecei a ler por motivos muito particulares: eu precisava conhecer algo que nesse período de que tratei aí em cima eu não vivenciara. E explico-me: nós jovens daquele tempo costumávamos discutir cinema, preferências e gostos e estéticas desse ou daquele diretor e/ou escola(s), nos halls desses cineclubes. Isso incluia também a experiência de frequentar a excelente programação do Cineclube da FGV, que já ia me esquecendo de citar. Isso tudo para dizer que, enfim, não éramos leitores ávidos dos críticos de jornal. Contudo, foi nesse período que atuou na área da crítica de cinema, Edmar Pereira, e que trabalhou cerca de 20 anos no Jornal da Tarde. Luiz Carlos Merten lançou, em 2006, um livro pela Coleção Aplauso-Cinema-Brasil, da Imprensa Oficial, no qual ele organizou e apresentou uma série de críticas desse jornalista e que são uma delícia de ler, sobretudo para quem conhece os filmes a que ele se refere em cada uma, ou mesmo para quem deseja conhecer o suprasumo do cinema naquele período e que, portanto, poderá ler as críticas e depois ir atrás dos DVDs desses filmes todos de que ali ele trata.

Quando eu comecei a escrever minhas críticas na página DCinema do Diário do Comércio, recentemente, alguém muito generosamente comparou meu estilo ao desse crítico e foi por isso que eu precisei preencher essa lacuna, evidentemente. É claro que o seu trabalho não tem comparação e eu, graças a Deus, ainda tenho muito a aprender para chegar a seus pés. Estamos vivos para isso, certamente, não é mesmo?

Para suscitar em você o desejo de ler esse livro, reproduzo um trecho exemplar da verve desse autor. Em tempo: o livro chama-se Críticas de Edmar Pereira - Razão e sensibilidade. Trouxe para cá esse trecho, porque resume primorosamente o tom de seu trabalho. Trata-se de um excerto de um texto chamado Autobiografia:

(...) Crítico para que serve? Passa-se pela magia e fascínio de Hollywwod. Descobre-se que isso não tem nada a ver, em cine-clubes, cursos de cinema, conferências, seminários. E, as vezes devagar, as vezes derepentemente, descobre-se que mito e desmistificação podem ser cara e coroa. A gente é as duas coisas, Cantando na Chuva e Acossado. Ou Casablanca e Hiroshima, meu Amor. Ou O Encouraçado Potenkim ou O Iluminado, Cidadão Kane, A Terra, Francisco, o Arauto de Deus, Rastros de Ódio, Rocco e Seus Irmãos, Deus e o Diabo na Terra do Sol, Vidas Secas, A Noite de São Lourenço, A Rosa Púrpura do Cairo. Ou Monsieur Verdeoux ou Jules et Jim. Ou etc, etc, etc...
Natural também é descobrir a correlação existente entre a fantasia dos filmes e a realidade do mundo. De posse desta descoberta, o crítico faz projetos do alto de seu orgulho que ele acredita iluminado: dialogar com as pessoas usando o cinema como álibi. Para valorizar os filmes, as ideias, a estética quando coincidem com sua sensibilidade, com o seu projeto de estar no mundo.
Crítico é por [natureza] pretencioso? Sim - ou do contrário ficaria satisfeito em ser só espectador bem informado, sem a preocupação de informar a ninguém sobre o que acha e pensa. Ou sobre o que acha e pensa que os outros podem achar ou pensar.
(...)
É preciso estar atento, e se possível, forte. Para ver de olhos e coração bem abertos, porque assim as possibilidades de prazer serão sempre mais amplas.

Não vou reproduzir mais nada aqui, porque quero que você compre e leia o livro. Quero também pedir, por gentileza, que você visite a página do DCinema e leia minha mais recente crítica ali, a do filme Borboletas Negras, que estreia nessa sexta-feira nos cinemas de São Paulo.

O trailer do filme é esse aqui:

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Saturno Contro


O mais delicioso das férias, mesmo quando não viajamos, é poder, por exemplo, sair de casa para pegar uma sessão de cinema, às 15 horas, em plena segunda-feira.
Foi o que fiz na última segunda, quando fui ao Cinesesc, na Rua Augusta, esse cinema delicioso que temos em São Paulo.
O filme em cartaz chama-se Saturno em Oposição. Qualquer pessoa que manje o mínimo possível de astrologia pode imaginar o que seja esse aspecto astrológico, durante um período, na vida de qualquer um.  É claro que teremos um período difícil. Não se trata de uma conjunção, mas de uma oposição. Saturno é o planeta que solicita um tempo longo de maturação das coisas...
Explicada a metáfora do título, vamos ao filme. O diretor Ferzan Ozpetek deve, mesmo que inconscientemente, gostar de gente bonita. Como ele consegue reunir gente bonita! E até quem não é bonito, ao menos de acordo com os padrões vigentes, torna-se bonito no seu filme. O mais bonito, contudo, é que ele está falando de amizade. E amizade de um grupo de pessoas. Trata-se da condição clássica de um grupo que se reúne em torno de um casal. No caso, o casal é um casal de homossexuais, muito querido pelo grupo e que, por sua vez, quer muito bem a todos os outros.
Haverá no filme, é bom que você se prepare (pois eu fui pego de surpresa) um trabalho de luto, de perda (bem coisa de Saturno em oposição...) e, então, o filme vai construindo um paralelo entre uma perda real, e que acontece no plano do que poderíamos chamar como aquilo que é parte do mistério na vida, e uma outra perda, focada no relacionamento do casal heterossexual, e que também acontece, mas, agora, devido talvez ao egoísmo de um dos envolvidos (o filme não diz isso, essa é a minha interpretação, of course).
Achei magnífica a cena em que Antonio, casado com a psicóloga Angélica, vai encontrar-se com a amante, a florista Laura, e ambos atravessam uma praça, disfarçadamente, lado a lado, mas como não se conhecessem, até entrarem, do outro lado da praça, numa passagem com uma porta de vidro, para somente, então, longe do olhar do público, entregar-se aos apelos da paixão. Foi inevitável pensar que essa cena era outra metáfora, muito concreta aliás, de que também os heterossexuais podem ser marginais nas suas paixões e não apenas os homossexuais. Vejam lá e percebam se é possível essa interpretação.
É um filme de um diretor muito sensível e que nos diz o que toda obra de arte verdadeira sói dizer, que a condição humana é mesmo sofrida, há períodos verdadeiramente difíceis, mas que tudo se reverte em aprendizado! Ah, e que também a solidariedade entre os membros de um grupo constituído é fundamental.
;-)
Quero lembrar que essa foi apenas minha impressão muito geral do filme, o que eu desejo é que vendo o trailer abaixo vocês sejam tomados por essa luz que emana do filme e queiram vê-lo também.


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Mario Tursi - fotógrafo viscontiano

Ontem, fui ao Cinesesc com duas amigas para assistir ao filme de Rachid Bouchareb, Fora da Lei.


Não poderei falar do filme, interessantíssimo, por sinal, por que isso demandaria um tempo de elaboração de tudo o que passou pela minha cabeça enquanto o assistia e, acreditem foi muita coisa: uma delas é que toda independência de países explorados por um colonizador demanda muita luta e derramamento de sangue, é um fato... Não é todo dia que nascem líderes como Gandhi, não é mesmo? No livro 1822, por exemplo, há também uma descrição dolorosa das guerras entre brasileiros e portugueses. Ou seja, cada colônia sempre sofre muito quando deseja sua liberdade. Neusa Barbosa, do Cineweb, situa-nos os impasses que o filme sofreu na sua exibição em Cannes e vale a pena ler o que ela escreve sobre o filme aqui.
Além do filme, o mais delicioso foi ver uma exposição belíssima de fotografia que também acontece ali e que homenageia o fotógrafo italiano: Mario Tursi - outro olhar do cinema italiano. Ele trabalhou muito com Visconti e, portanto, as paredes do saguão do cinema estão cobertas de beleza. Beleza que se deve ao trabalho precioso do fotógrafo e à imaginação desse cineasta e de outros tantos com os quais Tursi também trabalhou. São cerca de 70 fotografias todas belíssimas, algumas são cenas dos filmes, outras de bastidores. Todas muito valorizadas pela excelente disposição nas paredes todas, ou seja, pelo cuidado com a própria cenografia da exposição. Elas estão organizadas por filmes e cada qual ganhou um fundo de cor diferente em cada parede em que se encontram os respectivos trabalhos.
Já fazia um tempinho que eu não passava por esse templo do cinema que é o Cinesesc. Um cinema sofisticado em todos os sentidos: no conforto que proporciona a seus frequentadores, na ímpar qualidade de sua programação e tudo isso por um ingresso bastante módico. Será que não faz tempo que você também não aparece por lá? Se for o caso, o que você está esperando? Se não quiser conferir o filme, apareça ao menos para ver a exposição, que tem entrada franca, e para tomar um café. Ela fica por lá até o dia 27 de março.


quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Hereafter

Independente do que possa acontecer com o Cine Belas Artes, enquanto espaço físico, o que importa mesmo é o que irá acontecer com o "espírito" desse cinema: ou seja, sua continuidade, noutro espaço ou no mesmo, como essa força que ele representa de espaço do cinema de qualidade na cidade. Ontem (terça-feira), voltei lá para ver um filme. O cinema estava "bombando", ou seja, parece que o paulistano só acordou para o fato de que é preciso frequentá-lo para valer, no último momento...

O que importa dizer aqui é que fui conferir o magnífico Além da Vida (Hereafter) do grande ator e diretor Clint Eastwood (80 anos!).
Na saída, ouvi minhas amigas dizerem que souberam de quem não gostou do filme (e eu, que sou passional quando gosto de um filme, achei isso um absurdo! rsrsrs) Uma das minhas amigas, inclusive, também tinha seus senões, mas como ela me conhece, limitou-se a dizer que o filme tinha aqui e ali uns clichês (enquanto eu fazia umas caras: quem me conhece também conhece minhas "caras", ou seja, eu não preciso dizer nada quando elas entram em ação! rsrsrs)

Eu não sou crítico de cinema. Aliás, quem quiser ler uma crítica desse filme de fato absolutamente inteligente, leia no Cineweb (Neusa Barbosa sempre soube muito bem o que fala sobre cinema. Ela é a minha crítica de cinema preferida).

Já eu, pobre mortal, vou me limitar a dizer o que senti:

A cena inicial é absolutamente impactante: somos convidados a ver o horror do tsunami juntamente com a personagem que é atingida pelo mesmo, quando saiu do hotel em  que estava hospedada. Há todo o requinte do efeito especial e, no entanto, ao mesmo tempo em que o horror da morte em sua dor acontece, também acontece a experiência do além da morte, o que, então, irá revolucionar a vida da rica e famosa âncora do jornalismo televisivo da França.
E o que dizer do doce e frágil garoto gêmeo? Ele passa todo o filme inconformado e buscando o seu necessário contato do além, enquanto é socorrido pelo irmão, que já se foi, salvando-se assim do ataque terrorista no metrô londrino. Nesse filme, as crianças são o elo de ligação com o que precisa ser vivido porque assumido como a própria verdade de cada um.
Mesmo quando não se aguenta ser o que se é (caso do médium que mora em São Francisco) há que se buscar isso mesmo. Sempre haverá anjos, sejam do além ou encarnados, e esses não irão faltar para socorrer cada um em nome do amor e compaixão.
Uma última palavra: o filme é perfeito porque nos ensina, desde o seu começo impactante, que, sim, é compreensível que tenhamos medo da morte (morrer em um tsunami, por exemplo, é assustador) mas o mais incrível é que o que também parece, às vezes, impossível, ou seja, viver essa vida mesmo (e, plenamente, antes de morrer), é também possível quando nos ajudamos interna e mutuamente. Thank you so much Mr. Eastwood!


sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

The Good Hearth

Ontem, boa parte das pessoas que moram nessa cidade de São Paulo iniciou um processo de luto. Foi anunciada a morte do cinema de rua mais importante da cidade: o Cine Belas Artes. Eu fui até o cinema manifestar minha solidariedade aos funcionários que, aliás, ficarão desempregados. Uma moça linda da bilheteria abraçou-me chorando. O público manifestou-se na rede durante todo o dia. Um abaixo-assinado corre pelo Facebook. E nada disso irá reverter o processo do poder do Capital que, como sói acontecer em Sampa, destrói coisas belas e constrói tão poucas, eu diria.
Na minha ida ao cinema moribundo, aproveitei para assistir um filme em cartaz. Como sempre, como sói ser a programação da casa, o filme era uma pérola do bom gosto e da sensibilidade que ainda habitam nos espíritos que fazem bom cinema mundo afora.
Tratava-se de um filme do chamado cinema independente (leia-se “nada a ver com Hollywood!”), O Bom Coração, do diretor Dagur Kári, que nasceu em Paris, de pais islandeses, e que vive na Dinamarca.
A primeira sensação agradável do filme, pelo menos para mim, se deu pelo impacto que nos causa sua excelente fotografia, cuja direção resultou em uma luz fria o tempo todo. Isso faz com que a locação do filme, que se passa em Nova York, não seja imediatamente reconhecida. Ou seja, que apenas se crie uma atmosfera, aquela tão somente que o roteiro precisa para situar seus personagens na grande metrópole. O que temos de início é um encontro que se dá em um momento de crise das figuras centrais da narrativa: um morador de rua, que tentara o suicídio, encontra-se em um hospital, na companhia de um rude Jacques, dono de um bar decadente e que teve um infarto. O excelente ator Paul Dano (o mesmo de A Pequena Miss Sunshine), no papel de Lucas, cria o sem-teto mais doce que podemos conceber: é a personagem-título do filme, afinal, ele, sim, é todo bom coração.
O filme nos revela, muito tranquila e singelamente, o que é isso afinal de se ser uma pessoa de bom coração: é aprender que mesmo não tendo o pulso firme que a vida o tempo todo exige e que, ainda que sintamos vontade de jogar a toalha, no ring da vida, podemos, ainda assim, com nossas atitudes de bondade e mesmo que elas beirem a insensatez (a bondade parece coisa insensata num mundo rude!), ainda assim, podemos salvar qualquer situação, até quando não sabemos que assim mesmo é que será!
O final, aliás, é surpreendente, inesperado, verdadeiro, transcendente!

O Belas Artes mesmo nos estertores de sua agonia é ele também um cinema bom coração (deixando essas lições de bom cinema em suas telas até o fim) e é por isso que seu público promete promover uma

Manifestação Pública Contra o Fechamento do Belas Artes
na esquina da Av. Consolação com a Av. Paulista,
no sábado: dia 15 de janeiro, às 20 horas.

Eu acho isso muito bom, que ao menos o capitalismo selvagem do proprietário do imóvel tenha que ouvir um barulhinho bom das pessoas dessa cidade quando também elas são pessoas de bom coração! ;-D

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Você vai conhecer o homem dos seus sonhos

Acabo de chegar do Cine Belas Artes. Fui à pré-estreia de Você vai conhecer o homem dos seus sonhos, de Woody Allen. Todas as outras pessoas da cidade tiveram a mesma ideia e aproveitaram o feriado para conferir o novo filme do diretor a estreiar por essas paragens.
A sorte é que o pessoal bacana do Belas Artes mudou o filme de sala para abrigar a multidão. A sessão era única, às 17 horas.
Eu e uma amiga querida ficamos super felizes. Ver um filme de Woody Allen para quem sempre gostou do diretor é uma esperança renovada.
Uma característica extremamente difícil de se conquistar, mas na qual ele está se tornando cada vez mais um mestre é a de poder falar de coisas muito complexas de uma maneira muito simples. Por exemplo, da espiritualidade humana. Eu notei isso desde o filme anterior. Allen está se permitindo pensar que há um mundo invisível que influencia o visível. Nem sei se isso é consciente, mas é magnífico e emocionante de se ver em um homem da estatura de Woody Allen.
E ele faz isso de maneira discreta, delicada, apenas sendo o grande diretor de cinema que sempre foi.
A direção dos atores é de uma riqueza sem igual. Banderas está tão bem no filme que eu nem notei que era o Bandeiras. Ele é um dos homens dos seus sonhos, of course! Mas não é o único nesse filme não, não se engane...
Vou dizer bem resumidamente o que eu aprendi com o filme:
Que não podemos ser egoistas e tampouco orgulhosos (se assim acontecer a vida dará conta de devolver-nos os frutos desse horrível comportamento!)
Que não podemos sentir culpa, demasiadamente;
Que não podemos ser preguiçosos;
Que temos que nos permitir amar a nós mesmos e que, então, o amor aos outros vai acontecendo junto;
Que é uma grande bobagem temer a velhice e, portanto, temer a morte;
Que você pode acreditar em Espíritos, se quiser e puder;
Que você pode acreditar em reencarnação, idem;
Que mentir para os outros é muito, muito feio e que mentir para si mesmo, então, é horrível!
Que sempre há um futuro;
Que nós estamos construindo esse mesmo futuro o tempo todo: na teia das relações.
Ah, também não devemos ter nenhum tipo de preconceito (quem aprender todas essas lições, não terá preconceitos. rsrsrs)
Obrigado mestre Woody Allen pela alegria de aprender com seus filmes a ser mais gente e, portanto, a amar do modo como podemos amar, por ora. Em qualquer tempo e idade!

Vejam o trailer, sobretudo, vejam o filme!

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Amamos Juliette Binoche

Ontem, recebi a programa do Cineclube do Belas Artes.
Quero abrir espaço, aqui, para que o excelente texto do release dos profissionais da Pandora Filmes seja divulgado. Não ouso tocar em uma vírgula.
Gosto desse cinema ! Penso que o fato de eles fazerem essa justa homenagem à grande atriz francesa Juliette Binoche, só nos prova essa sensibilidade sem par para o cinema de qualidade que a distribuidora e a sala de cinema mais bacanas de São Paulo comprovam, reiteradamente, ao público paulistano.


 
apresenta

Conjunto da Obra: Juliette Binoche

Esse mês, de 05 de novembro a 02 de dezembro, a programação do Cineclube apresentará um ciclo em homenagem a uma das mais queridas estrelas do cinema atual, a encantadora Juliette Binoche. Os filmes escolhidos foram Alice e Martin (1998), de André Téchiné; Caché (2005), de Michael Haneke; Os Amantes de Pont Neuf (1991), de Leos Carax; e Paris (2008), de Cédric Klapisch.
O brilho que faz de Juliette uma presença tão requisitada pelos mais renomados diretores internacionais, é algo que ela traz consigo desde o início de sua carreira. Podemos até não lembrar muito bem das histórias de alguns filmes em que ela atuou, mas a sua imagem sempre permanece. O que explica isso é a sua incrível fotogenia associada a um carisma que só ela tem. O talento, já tão reconhecido, dispensa comentários. Juliette, com toda a sua sutileza, gestos suaves e um olhar ao mesmo tempo vago e penetrante, já imortalizou um bom número de personagens, sendo que alguns deles lhe deram diversos prêmios em importantes festivais e ainda um Oscar de atriz coadjuvante, nesse caso pela sua participação em O Paciente Inglês.
E esse ano só deu ela no Festival de Cannes. Desde o cartaz oficial, que trazia a sua bela imagem, até o momento da premiação, na noite de encerramento, quando foi anunciado o nome daquela que levaria o prêmio de melhor atriz protagonista: Juliette Binoche, claro. O filme que a fez merecer mais essa honra foi Copia Fiel, do diretor iraniano Abbas Kiarostami.
O que poderemos constatar na seleção de filmes anunciada no início desse texto é que ela amadurece cada vez mais como atriz, porém sua beleza, aos 46 anos, continua intacta.
Alice e Martin é um drama romântico bastante denso, cujos personagens centrais, os que dão nome ao filme, ela uma violinista e ele um jovem modelo, vivem um relacionamento conturbado devido a um segredo que atormenta a vida do rapaz. O elenco traz um conjunto de ótimos atores, entre eles o então estreante Alexis Loret (Martin) mais os veteranos Mathieu Amalric e Carmen Maura.
A trama de Caché apresenta elementos típicos do suspense, mas não fica só nisso. O filme fala acima de tudo do poder e da banalização da imagem nos tempos atuais. Isso é colocado em cena quando um casal bem estabilizado passa a receber em casa envelopes anônimos contendo fitas de video nas quais estão gravadas imagens com referências que só alguém muito íntimo poderia saber. Assustados, marido e mulher partem para uma investigação com desfecho perturbador.
Os Amantes du Pont Neuf poderia ser descrito apenas como uma história de amor entre um vagabundo que dorme à noite sob a famosa Pont Neuf, em Paris, e uma jovem artista prestes a perder de vez a visão. Mas, como estamos falando de um filme de Leos Carax, a linguagem visual e a riqueza de referências farão toda a diferença. Carax já havia dirigido a mesma dupla de atores principais, Juliette e Denis Lavant, em Sangue Ruim, cult dos anos 80.
Paris é um filme de elenco grandioso, mas que oferece momentos especiais a todos os seus atores. Juliette faz o papel de irmã de um rapaz que se descobre doente e acredita ter pouco tempo pela frente. Esse estado de espírito, porém, fará com que ela se dê a chance de viver um novo amor, algo que há um bom tempo não acontecia. Em parte porque passava os dias apenas trabalhando e criando sozinha os filhos pequenos.
Nessas quatro semanas o Cineclube reverencia a importância da musa francesa para o cinema contemporâneo, lembrando que ela pode ser vista também no filme Aproximação, de Amos Gitai, que há meses permanece na programação normal do Belas Artes.

Cada filme será apresentado por uma semana, diariamente, em sessão única.
(os horários podem variar de filme para filme, entre 19h e 19h30)

05 a 11 de novembro
ALICE E MARTIN
(Alice et Martin)
França, 1998, cor, 124 min., 14 anos.
Direção:
André Techiné
Elenco:
Juliette Binoche, Alexis Loret e Mathieu Amalric.

Martin se muda para Paris, onde conhece Alice, uma violinista. Os dois se apaixonam, apesar dos desequilíbrios emocionais que ambos trazem - ele está deprimido e esconde algum segredo, ela tem dificuldade em lidar com suas frustrações e carências. É o início de um relacionamento intenso e complexo. Quando Alice engravida, Martin entra em crise e revela a verdade que o atormente. Mas ela não quer perdê-lo e fará de tudo para evitar isso.

12 a 18 de novembro
CACHÉ
(Caché)
França, 2005, cor 117 min., 14 anos.
Direção: Michael Haneke
Elenco: Juliette Binoche, Daniel Auteuil e Annie Girardot.

Um dia um casal recebe uma fita de vídeo com imagens de sua casa, que fora filmada por uma câmara instalada na rua. Depois disso começam a chegar desenhos sinistros. Assustados, marido e mulher tentam descobrir o autor daquelas misteriosas ameaças que perturbam a paz familiar. Logo percebem que quem os persegue conhece mais sobre o seu passado do que eles poderiam esperar. 12 a 18 de novembro

19 a 25 de novembro
OS AMANTES DE PONT NEUF
(Les Amants du Pont-Neuf)
França, 1991, cor, 120 min., 14 anos.
Direção: Leos Carax
Elenco: Juliette Binoche, Denis Lavant e Marie Trintgnant.

Pont-Neuf, a ponte mais antiga de Paris, serve de abrigo para muitos sem-teto. Uma jovem pintora de classe média, fugindo de um relacionamento que não deu certo, decidiu viver nas ruas para pintar o máximo possível antes que fique cega em função de uma doença. Alex ganha alguns trocados fazendo performances circenses, mas é viciado em álcool e sedativos. Eles se tornam amigos e amantes e dividem as duras experiências cotidianas das ruas. O relacionamento entre os dois acaba se tornando uma dependência, e o medo de um perder o outro começa a se tornar massacrante.

26 de novembro a 02 de dezembro
PARIS
(Paris)
França, 2008, cor, 129 min., 14 anos.
Direção: Cédric Klapisch
Elenco: Juliette Binoche, Romain Duris e Melanie Laurent.

A história de um rapaz parisiense que está doente e pensa que vai morrer. Sua condição faz com que ele olhe para todos à sua volta de uma maneira nova e diferente, imaginando que sua morte repentina daria um novo significado à existência das outras pessoas e à vida de toda a cidade. Vendedores de frutas e verduras, uma funcionária de uma padaria, um arquiteto, um professor, uma universitária e um imigrante ilegal de Camarões são alguns dos personagens observados por ele. 26 de novembro a 02 de dezembro


BELAS ARTES
Rua da Consolação, 2423
Cerqueira César
São Paulo - SP

Tel.: 11 3258-4092

sábado, 9 de outubro de 2010

Emmas Glück

Ontem, estive no Belas Artes, que promove toda segunda sexta-feira do mês o melhor evento de cinema na cidade. O Noitão Belas Artes. O público paga um ingresso e vê da meia-noite em diante, até três filmes. Dois deles são declarados na programação do Noitão e um é sempre um filme surpresa. O tema do Noitão de ontem foi "Revelações da Mostra". Quando cheguei ao cinema, meu amigo que é o programador do Noitão disse-me: Você já assistiu ao filme A Alegria de Emma? É de um diretor alemão chamado Sven Taddicken. Veja. Você vai gostar é um filme em que, no começo, as pessoas são feias e que no final se tornam lindas.
Eu interessei-me, de imediato, pareceu-me que, então, seria um filme que tratava de transformação.
E, sim, é disso mesmo que se trata.
O filme nos convida a refletir acerca das infinitas possibilidades que a vida apresenta quando estamos encurralados, postos diante de uma situação extrema.
Por exemplo, quando sabemos que é certo que vamos morrer. Na verdade, todos já sabemos disso, mas acontece que  Max (Jürgen Vogel), o personagem principal do filme, fica sabendo que tem uma doença e, então, a morte está próxima.
Algo assim assusta, uma vez que nos faz entrar em desespero.
Nas circunstâncias do filme sua inconsequência faz com que ele entre na vida de Emma, uma moça que vive sozinha em uma fazenda, com seus animais.
Ela tem um vizinho citadino que é policial e apaixonado por ela e que representa a voz que também traz uma circunstância de situação limite: ela terá que perder a fazenda pois está assoberbada de dívidas.
Quando o personagem principal, literalmente, despenca no seu quintal com todo o dinheiro que roubou de um amigo. Inicialmente, Emma (Jördis Triebel)  parece ser estrategista: salva o rapaz do acidente, acha o dinheiro e o esconde, põe fogo no carro...
Mas a vida é o tempo todo uma surpresa e somos nós que nos conduzimos por meio de nossas ações em meio a essas surpresas.
Não haverá dinheiro no mundo que devolva a vida! Nós somos feitos para amar! Então, um casal se faz, e a mulher pode ser forte porque ama, o homem pode ser frágil porque mortal. O amigo pode perdoar. O policial pode esperar.
O mais importante de tudo: morrer não é o fim, é uma continuidade que se entrelaça pelo lugar cativo no coração de quem cuidou e amou até o fim para sempre.
Quando o filme acabou, eu e todos na sala de cinema estávamos enlevados de emoção.
Desconfio que esse público era o público-alvo do filme: inteligente e sensível.
Eu, particularmente, senti que tinha entendido tudo e para para além da minha própria compreensão. Quando sai no saguão do cinema, falei para o meu amigo: Cinema de verdade é isso, e não podemos contar com o que não é um cinema assim: o de Alegria de Emma. Eu lamento tanto que mais pessoas não tenham visto!
Meu amigo disse que aquela era uma oportunidade rara para conhecer tal obra.
A primeira vez que ele foi apresentado no Brasil foi na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo , depois foi lançado nos cinemas, com apenas uma única cópia e que percorreu algumas poucas capitais brasileiras. Ele não foi lançado em DVD. Ou seja, é uma obra-prima e que quase não foi vista. ;-(
Eu desconfio que eu precisava ter visto, e isso se deu ontem como que por acaso, portanto, eu agradeço ao Belas Artes pela oportunidade. Eu agradeço aos meus amigos todos. Eu desejo que um dia vocês todos que lêem esse post possam saber do que eu estou falando. ;-)

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Li um grande garoto: Nick Hornby

Na sexta feira passada, uma amiga querida emprestou-me um livro dizendo: esse autor é muuuuuuito booooooom. Ele é um jornalista inglês e que escreveu Alta fidelidade, que virou filme e tem um filme desse livro aqui também: O grande garoto (About a Boy, no original). Ela estava falando de Nick Hornby. Já, na orelha do livro, não escreveram que ele é jornalista, mas que nasceu em 1957 e que trabalhava como professor antes de tornar-se escritor em tempo integral, que escreveu Pique febril, um ensaio memorialístico sobre as torcidas de futebol, e Alta fidelidade, seu primeiro romance já publicado também pela Rocco (como esse que eu li), e que obtiveram sucesso absoluto de público e crítica. Somos informados também que o autor mora na zona norte de Londres.
No começo, eu não estava gostando de uma das personagens, o Will Freeman, um homem de 36 anos que não faz nada da vida, pois vive de rendimentos de uma famosa canção que o seu pai compusera. Mas era puro preconceito meu. Depois, você entende que ele é uma personagem muito importante para o conjunto da história e que ele tem aquela característica humana peculiar às boas personagens de romance: ele se transforma e isso porque tinha tudo dentro de si para transformar-se. Para tanto, só faltava mesmo a ele encontrar Marcus, o garoto de 12 anos que é o “grande garoto” do título. É claro que o livro nos ensina que todo mundo é “garoto”, no final das contas. O que está em questão é que somos todos kids e isso foi o mais agradável de descobrir, ao sermos auxiliados pelos comportamentos tocantes da miríade de personagens com as quais convivemos durante a leitura do livro.
Ontem, enquanto eu lia o livro no meu quarto, eu dava imensas gargalhadas, a ponto de chorar de rir. (minha mãe teve que ir até meu quarto para saber o que estava acontecendo, imaginem!). Essa é uma qualidade absolutamente difícil de se ver em um romance sério: fazer a gente rir. O humor é aquele mesmo que podemos esperar de um escritor britânico, é o humor absolutamente inglês. E que eu adoro!
Vou reproduzir aqui um dos trechos que me fizeram gargalhar. Nesse caso, é óbvio que é preciso considerar que a essa altura você tem bastante intimidade com as personagens, lá pela página 166, mas penso que leitores sensíveis poderão compreender tudo, porque o tom da prosa é por si só revelador.
Apenas para que entendam o contexto: É véspera de Natal e Will foi convidado pelo garoto, Marcus, a passar o natal na casa dele. Estão reunidos a mãe do garoto (Fiona), o ex-marido e pai do garoto (Clive), sua atual esposa (Lindsey), e a sua sogra. Chegam uma amiga da mãe do garoto (Suzie), com sua filhinha e que conhecera Will, quando ele estava fingindo ser pai solteiro para conquistar mães solteiras num grupo de apoio a pais solteiros. rsrsrs A garotinha pega um presente na árvore e o entrega ao Will, que estava constrangido com a presença de Suzie – era a primeira vez que eles se viam depois que sua mentira fora desmascarada:

- Brinca com ela – disse Suzie – Meu Deus, dá para ver quem não tem filhos aqui.
- Vamos fazer o seguinte – disse Will – Você brinca com ela – jogou o brinquedo para Suzie. – Já que eu sou tão ignorante.
- Talvez você pudesse ser menos ignorante – disse Suzie.
- Para quê?
- Eu diria que no seu campo profissional talvez fosse vantajoso saber brincar com crianças.
- Qual é o seu campo profissional? – perguntou Lindsey educadamente, como se aquilo fosse uma conversa normal entre um grupo normal de pessoas.
- Ele não faz nada – disse Marcus – O pai dele compôs uma música de Natal de sucesso e ele ganha um milhão de libras por minuto.
- Ele finge que tem um filho a fim de frequentar grupos de pais solteiros e cantar mães solteiras – disse Suzie.
- É, mas ele não é pago por isso. – disse Marcus.
Will levantou-se novamente, mas desta vez não se sentou de novo.
- Obrigado pelo almoço e tudo o mais – disse ele. – Estou indo.
- A Suzie tem o direito de expressar a raiva dela, Will – disse Fiona.
- É, e já expressou, de modo que agora eu tenho o direito de ir para casa. – Começou a abrir caminho por entre os presentes, os copos e as pessoas em direção à porta.
- Ele é meu amigo – disse Marcus subitamente. – Fui eu que convidei ele. Eu é que devia dizer a ele quando ir para casa.
- Acho que não é bem assim que funciona esse negócio de hospitalidade – disse Will.
- Mas eu não quero que ele vá ainda – disse Marcus. – Isso não é justo. Como é que a mãe da Lindsey ainda está aqui, se ninguém convidou ela, e o meu único convidado está indo embora porque todo mundo está tratando ele mal?
- Em primeiro lugar – disse Fiona – a mãe da Lindsey é minha convidada, e aqui também é a minha casa. E nós não tratamos o Will mal. A Suzie está com raiva do Will, tem todo o direito de estar, e está dizendo isso a ele.
Marcus teve a impressão de estar numa peça teatral. Ele estava de pé, Will estava de pé, e aí Fiona também pô-se de pé; mas Lindsey, a mãe e Clive estavam enfileirados no sofá assistindo de boca aberta.
- A única coisa que ele fez foi inventar um filho durante umas duas semanas. Meu Deus. Isso não é nada. E daí? Quem se importa? A garotada da escola faz muito pior do que isso todo dia.
- O problema, Marcus, é que o Will já saiu da escola há muito tempo. Já devia ter crescido e parado de inventar gente a essa altura.
- É, mas ele se comportou melhor depois, não foi?
- Eu já posso ir? – disse Will, mas ninguém lhe deu atenção.
- Por quê? O que foi que ele fez? – perguntou Suzie.
- Ele não me queria lá no apartamento todo dia. E eu continuei indo. E ele me comprou aqueles sapatos, e pelo menos escuta quando eu digo que estou com problemas na escola.Você simplesmente dizem para eu me acostumar com isso. E ele sabia quem era o Kirk O’Bane.
- Kurt Cobain – disse Will.
- E não é como se vocês todos também nunca fizessem nada de errado, é? – disse Marcus. – Quer dizer... – Precisava tomar cuidado com aquilo. Sabia que não podia falar demais, e talvez quase nada, sobre o troço do hospital. – Quer dizer, como foi que eu conheci o Will em primeiro lugar?
- Basicamente porque você jogou uma porcaria de uma baguete na cabeça de um mareco e matou ele – disse Will.
Marcus quase não acreditou que Will tivesse mencionado aquilo naquele momento. O assunto era para ser o fato de todo mundo também fazer coisas erradas, e não que ele matara o marreco. Mas aí Suzie e Fiona começaram a rir, e Marcus percebeu que Will sabia o que estava fazendo.

Eu espero que essa passagem tenha feito você rir também! ;-)
Agora quero ver o filme, com Hugh Grant. Uma pequena curiosidade: quando eu lia a descrição da personagem Will Freeman e acompanhava sua atuação no livro, eu ficava imaginando alguém exatamente como o Hugh Grant, e nem sabia que fora ele quem vivenciara a personagem no cinema. rsrsrs

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Um tributo

Quando, ontem, me contaram que Claude Chabrol tinha partido desse mundo, eu fiquei tomado pela notícia porque me lembrei dos filmes que dele vira e do quanto ele e todos os cineastas da Nouvelle Vague foram importantes para a minha formação. Também pensei que, nesse ano, já nos despedimos de dois deles: Eric Rohmer e, agora, Chabrol.
Falo isso, mas de seus filmes, dos 50 e tantos filmes que ele fez, eu só vi:
Um assunto de mulheres (Une Affaire dês Femmes), de 1988;
 o genial Madame Bovary, de 1991, com “a maior atriz do mundo” - segundo o próprio Chabrol - Isabelle Ruppert;
 Negócios à Parte (Rien ne Va Plus), de 1997;
 A Teia de Chocolate (Merci pour le chocolat), de 2000.
Aqui, vale um parentêse: esse filme eu ajudei a divulgar, quando do lançamento no Brasil (eu trabalhava para a Pandora Filmes), e, portanto, posso dizer que foi graças a Chabrol que eu pude conhecer e conversar com Anna Mouglalis, muito jovem na ocasião e absolutamente fascinante.
Por fim, vi também A Comédia do Poder (L'ivresse du pouvoir), de 2006.
É pouco eu sei, mas o que é pouco quando tanto se aprende acerca da condição humana, e, claro, sobre a própria comédia humana, da qual os franceses tanto têm a nos dizer?
Sinto-me grato a esse cineasta como a tantos outros.
O curioso é que Chabrol, que, dizem, tinha fama de preguiçoso, trabalhou tanto! E essa é a vantagem mesma de ser artista, o fato de seu trabalho ser imensurável e, eu acredito, quando o artista passa a existir noutro plano, está de algum modo em vantagem, visto que deixou para trás um legado. Legado esse, que cabe a nós outros descobrir.
Nesse sentido, os artistas são aqueles que “materializam” a condição humana da imortalidade da alma, porque deixam para a história da humanidade, essa que se constrói para além deles, a prova dessa mesma imortalidade e que se figura por uma obra de inteligência sem par.
Foram 80 anos bem vividos, os anos de vida de Chabrol, porque vividos com essa inteligência que reverbera e, arrisco dizer, no caso dele também porque sempre vividos em muito boa companhia, ou seja, a de seus excelentes colaboradores, e, ao menos desde a década de 70, na companhia, sem dúvida fascinante, da atriz que ele também ajudou a revelar ao mundo. Por tudo isso é que lhe somos gratos e queremos render-lhe um tributo, ou seja,  minimamente um pensamento de solidariedade e gratidão, dirigido ao seu espírito. Afinal, ao menos temos em comum com o gênio essa condição: a de sermos todos mortais.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A Rebelião de Rebecca Horn está acontecendo aqui em Sampa. Não perca!




Hoje, na minha hora do almoço, fui até o CCBB para dar uma olhadinha na exposição Rebelião em Silêncio, de Rebecca Horn.

Na verdade, não vi os trabalhos.rsrsrs ;-p

Acabei por ver apenas o piano que está dependurado de ponta cabeça, no saguão do CCBB, preso a imensos cabos de aço, despejando suas entranhas para fora... Trata-se da obra Concerto para Anarquia. Aliás, o conceito de anarquia parece ser muito caro para a artista. Ela fala bastante disso no vídeo a que assisti no segundo andar. Inicialmente, achei que a conversa dela com Donald Sutherland, no vídeo, estava incompreensível para mim. Mas fiquei calmo, afinal, como a conversa era intermeada com cenas de filmes em que o ator aparece, ainda jovem, e também de vários dos trabalhos da artista, à quisa de ilustração para a conversa, o que inicialmente era um tanto hermético (por conta de eu ter pego o vídeo já iniciado), foi aos poucos se acomodando na minha cabeça. Inclusive a informação de que o cinema também faz parte da carreira da artista, que filmou, em 1990, Buster’s Bedroom, estrelado pelo mesmo Donald Sutherland e Geraldine Chaplin.



Rebecca Horn começou seu trabalho em 1970, quando fazia performances, o que chamou de esculturas corporais. Já, em 1972, ela foi convidada  para participar da 5ª Documenta de Kassel, quando foi a artista mais jovem da mostra. Foi por conta dessa participação que ela começou a filmar suas performances e a se interessar por cinema.


Enquanto eu via a história dessa trajetória, contada no tal vídeo, comecei a perceber a riqueza de seu trabalho e uma luz se acendeu.

De repente, pude compreender muito da poética do trabalho da artista. Isso se deu, quando, no filme, ela fala dos fugitivos de Sarajevo, durante a guerra, e que tomaram as ruas de Viena, buscando um sentido para o que estava acontecendo, em um momento de pura sofreguidão e, quando nada mais podia ser dito. Era o silêncio. Apenas restava o silêncio contrito de quem passou por uma tragédia. Ela, então, criou a obra em que os violinos numa alta torre tocam sozinhos, como a dar sentido para o que restava a essas pessoas viver.

A anarquia de Rebecca é de fato uma Rebelião do Silêncio.

Importante: eu não vi quase nada, estou falando tão somente do pouco que vi e que me emocionou por demais. Devo voltar até lá mais vezes, uma vez que a exposição acontece até Outubro de 2010. ;-D

segunda-feira, 19 de julho de 2010

13 homens e um segredo revelado por Tatiana Issa e Raphael Alvarez


Ontem, fui ao Belas Artes conferir o documentário de Tatiana Issa e Raphael Alvarez, Dzi Croquettes. O que essa moça fez foi um imenso favor a todos nós: ela resgatou a história do sensacional grupo e que ela acompanhou desde pequenina, pois o pai dela conviveu com o mesmo, ele trabalhava com a cenografia. Tal resgate era muitíssimo necessário, pois se até eu, que nasci em 1967, não me lembrava desse fenômeno brasileiro, e que estreou em 1972, como poderiam conhecê-lo as novas gerações? Essas jamais teriam ouvido falar nessa gente brilhante (literalmente, de corpos brilhantes, purpurinados) se não fosse nessa oportunidade.
Graças aos céus, a sala menor do cinema estava lotada e eu ouvi dizer que o boca a boca é tão intenso que tem sido assim sempre: as exibições do documentário têm tido um público considerável, em praticamente todas as sessões.
Essa gente absolutamente de teatro, que eram os Dzi Croquettes, foi um verdadeiro furor na época, com suas performances irreverentes e figurinos totalmente extravagantes. Eles interpretam, cantam, dançam, e desafiam todas as convenções, durante aqueles anos, no Brasil, e em plena ditadura militar. Foi o maior fenômeno que tivemos de contracultura, de power flower, de gay power. Eram homens entusiasmados, talentosos, inteligentes e, muitos deles, poliglotas (o que auxiliou bastante no sucesso internacional do grupo).
O humor era pungente, tocante e, sendo fruto de uma essência de verdade e alegria, que animava cada um dos 13 integrantes da "família", não puderam deixar indiferentes aqueles que os conheceram. É o que reiteram os depoimentos de Liza Minelli, Gilberto Gil, Ney Matogrosso, Elke Maravilha, Betty Faria, Marília Pêra, de ex-integrantes das Frenéticas, dentre outros do Brasil, que conviveram com os artistas, bem como de alguns franceses contactados e que também conheceram o grupo, quando eles passaram pela França e deixaram boquiaberto o público parisiense, que contava na plateia com gente como Catherine Deneuve, Jeanne Moreau e Josephine Baker.
Tatiana mostra imagens dela própria, muito linda e ainda pequenina, ou seja, de quando conviveu com os Dzi Croquettes. Ela nos diz que não podendo compreender tudo o que se passava ao seu redor, apenas os via como seus "palhacinhos", aqueles homens de enormes cílios postiços, e que lhe sugeriam que ela apenas fechasse os olhinhos quando sentisse medo. Eles eram cheios de bondade e mesmo o modo trágico como muitos deles morreram não poderia macular tanta bondade e talento: o ofício de artista, com que cada um deles pôde situar-se nessa comovente história, remete-os diretamente para a glória que sempre alcança quem pode amar.
Era esse amor que atraia tanto o público. Aliás, há uma passagem no filme em que vemos a cena de estreia de um espetáculo deles em uma cabaret do Rio de Janeiro: havia 600 pessoas dentro do teatro (a capacidade de público da casa) e 1200 pessoas do lado de fora do teatro desejando entrar e batendo na porta... Isso não foi demais?!

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Vamos (re)ver Bergman

Sinto-me na obrigação de divulgar essa programação do Cineclube Belas Artes. Claro, porque desejamos que o Belas Artes continue a ter vida longa! ;-D
E também porque Bergman é o tipo de cineasta que forma o espírito e o caráter. É pura boa educação.
Faz 3 anos que ele nos deixou, no entanto, nós não precisamos deixá-lo jamais.


apresenta

Conjunto da Obra: Ingmar Bergman

Julho reúne duas datas muito importantes no calendário cinematográfico: o aniversário de nascimento e também de morte de Ingmar Bergman. Ele que completaria 92 anos no dia 14, faleceu no dia 30 desse mesmo mês, há três anos.
Para lembrar esse duplo acontecimento, o Cineclube apresentará quatro filmes de sua admirável filmografia, de 16 de julho a 12 de agosto, destacando dois clássicos antigos mais dois exemplares representantes das décadas de 70 e 80. São eles: O Sétimo Selo (1957), A Fonte da Donzela (1960), O Ovo da Serpente (1977) e Da Vida das Marionetes (1980).
O Sétimo Selo é o clássico absoluto, indispensável em qualquer retrospectiva do cineasta. O famoso duelo entre o personagem de Max Von Sydow e a horripilante figura da Morte é momento antológico, digno de eterna apreciação. Indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1957, acabou levando o Prêmio Especial do Júri. O filme e o próprio Bergman, aliás, foram lindamente homenageados por Wim Wendres em Palermo Shooting, de 2008, que também faz claras citações à obra de outro mestre, Michelangelo Antonioni, por coincidência morto no mesmo dia em que o diretor sueco.
O filme que vem na seqüência, A Fonte da Donzela, foi o grande vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 1961. Inspirado em uma lenda sueca, esse é um dos poucos filmes de Bargman cujo roteiro não foi escrito por ele mesmo, mas sim pela romancista Ulla Isaksson.
Dando um salto no tempo, a programação segue em cores, contrastando com o belo preto e branco dos dois filmes citados acima, desta vez com o polêmico O Ovo da Serpente, uma produção americana com diálogos em inglês e alemão. Tido como um dos filmes menos pessoais de Bergman, essa é uma obra que merece reconsiderações. Ambientado numa Berlim ainda arrasada pelos efeitos da Primeira Guerra, o filme faz uma impecável reconstituição da época retratada, e ainda conta com as extraordinárias atuações de Liv Ullmann e David Carradine, num dos momentos mais marcantes de sua carreira.
Feito originalmente para a TV, Da Vida das Marionetes tem como personagens principais Peter e Katarina, um casal criado em outro filme de Bergman, Cenas de Um Casamento, de 1973. A história desenvolvida, porém, nada tem em comum com a do filme anterior, assim como os atores também não são os mesmos.
Um detalhe predominante nessa seleção é a direção de fotografia que, com exceção de O Sétimo Selo, que tem a assinatura de Gunnar Fischer, os outros três trazem a marca genial de Sven Nykvist, grande parceiro de Bergman na maioria de seus trabalhos, uma união que por duas vezes foi consagrada com o Oscar para Nykvist, a primeira por Gritos e Sussurros (1974) e a segunda por Fanny e Alexander (1984).

Cada filme será apresentado por uma semana, diariamente, em sessão única.
(os horários podem variar de filme para filme, entre 19h e 19h30)

Programação:
O Sétimo Selo: de 16 a 22 de julho;
A Fonte da Donzela: de 23 a 29 de julho;
O Ovo da Serpente: de 30 de julho a 05 de agosto;
Da Vida das Marionetes: de 06 a 12 de agosto.

O SÉTIMO SELO
(Det Sjunde Inseglet)
Suécia, 1957, 35mm, pb, 96 min.
Elenco: Max Von Sydow, Bibi Andersson e Gunnar Björnstrand.

Um cavaleiro sueco retorna ao seu país após lutar nas Cruzadas, durante a Idade Média. Ao ver tanto sofrimento e destruição a sua volta, ele tem dúvidas sobre a existência de Deus e se pergunta porque Ele não dá um sinal de Sua presença. Porém, em suas andanças, ele acaba encontrando a personificação da morte que o convida para uma decisiva partida de xadrez, cujo resultado poderá lhe valer a vida.

Este filme, vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes, é considerado uma das principais obras-primas de Bergman e também um dos melhores filmes da história do cinema.

A FONTE DA DONZELA
(Jungfrukällan)
Suécia, 1960, 35mm, pb, 89 min.
Elenco: Max Von Sydow, Birgitta Valberg e Birgitta Pettersson.

Ainda fascinado pela Idade Média, Bergman retorna ao clima de O Sétimo Selo ao narrar a lenda de uma jovem, filha de cristãos fervorosos, violentada e morta por pastores, cujo local do crime teria se tornado uma nascente de águas milagrosas.
Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

O OVO DA SERPENTE
(The Serpent's Egg)
Estados Unidos/Alemanha, 1977, 35mm, cor, 120 min.
Elenco: David Carradine, Liv Ullmann e Isolde Barth.

Na Berlim devastada pela Primeira Guerra Mundial, um americano desempregado consegue refúgio no apartamento de um cientista, que também lhe dá emprego. Porém, enquanto trabalha como trapezista ele acaba se apaixonando por uma cantora de cabaré e, aos poucos, descobrirá a verdade sobre um fato terrível que o afetou no passado.

DA VIDA DAS MARIONETES
(Aus dem Leben der Marionetten)
Suécia/Alemanha, 1980, 35mm, pb/cor, 104 min.
Elenco: Robert Atzorn, Heinz Bennent e Toni Berger.

Filmado durante o exílio de Bergman na Alemanha, o filme mostra a sufocante trajetória de um homem que assassina uma prostituta. Utilizando-se de fotografia em preto e branco, com exceção da cena do assassinato e o final que são mostrados em cores, o diretor realizou uma das obras mais sombrias e complexas de toda a sua carreira.


BELAS ARTES
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Cerqueira César
São Paulo – SP
Tel.: (11) 3258-4092

sábado, 10 de julho de 2010

Lições da mulher

Quando uma amiga, que acabei de conhecer, soube que eu estava lendo Ana Karenina, de Tolstói, presenteou-me com o DVD da versão cinematográfica do romance. O filme foi rodado em 1948 e dirigido por Julien Duvivier, tendo a magnífica Vivien Leigh no papel principal. Quando comecei a assistir,  fiquei encantado com a adaptação. Era possível ver o romance que estou lendo: todo ele ali, vivo nas imagens e cheio de lições de interpretação, do próprio romance naquela nova linguagem, dos atores na tela, enfim.
Obviamente, eu ainda não terminei o romance, que é imenso e, então, da metade para o fim do filme, fiquei sabendo o que ainda irá acontecer também nas páginas do livro que ora leio.
Que trágico fim! E que lição tristíssima, a vida da personagem encerra.
Só não fiquei ainda mais abalado com o desfecho do drama, porque um amigo apresentou-me uma cantora turca ainda essa semana e eu estava impregnado de uma outra lição feminina e que desejo compartilhar.
As mulheres são sempre sensacionais. Eu penso assim. Ana Karenina, sem dúvida, sobretudo se tem o rosto lindo de Vivien Leigh... Mas também essa cantora pop da Turquia e que é sensacional. Seu nome é Işın Karaca.
Quando eu ouvi essa música, que compartilho por aqui, fiquei impressionado com a voz, belíssima, mas também com o que me pareceu a lição de um drama e que estaria sendo representado por meio da personagem de uma mulher que está aborrecida e só, em um quarto, fazendo suas malas. (Aliás, fiquei sabendo que a cantora também estudou teatro). Ela só tem a sua própria consciência (representada pelo seu duplo, do outro lado do espelho. Ou será um anjo?) com quem passa a ponderar, nesse momento de aflição.
Pedi a meu amigo Enric que traduzisse do turco a mensagem da música. Ele disse que o turco não é assim tão fácil... (lógico!) Mas arranjou-me uma tradução para o inglês. Merci Enric! ;-D

Eu já estou quase aprendendo a cantar a música de tanto que a ouvi! I hope you enjoy it too.






Yetinmeyi Bilir misin?

Yetinmeyi bilir misin,
Sana verdiği kadarıyla hayatın?
Hoş, bilsen de bilmesen de
Yara bere içinde bu yollardan geçeceksin

Kazanmayı isterdim, kaybetmeyi değil
Ama olmadı yar
Kendini kayırıyor her insan önce
Bu yüzden aşka kıyar

Giderim, alışığım gitmelere
Direndi bu can ne bitmelere
Giderim, alışığım gitmelere
Gerek yok isyan etmelere

Do you know being satisfied
with how much the life gave you?
Well, Whether you know, or not
You will pass by these streets with wounds

I would like to win, not lose
But it wasnt like that darling
Every person gives herself a preferential treatment
so He/She sacrifice (to abandon) the love

I'll go, i m used on going
This soul resisted how many ends
I'll go, I'm used on going
There is no need to revolt

Você tem estado satisfeita
com o tanto que a vida lhe proporcionou?
Bem, saiba, ou não,
você passará por esses caminhos sofridos.

Eu gostaria de vencer e não perder.
Mas não foi assim, querida...
Cada um dá a si mesmo um tratamento especial.
E, então, sacrifica o amor.

Eu prosseguirei, tenho prosseguido.
Esse espírito resistiu a quantos términos...
Eu prosseguirei, tenho prosseguido.
Não é preciso revoltar-me.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Feliz Aniversário Noitão! \o/

Quando eu era adolescente eu frequentava o Cineclube Oscarito na Praça Roosevelt. Cheguei a trabalhar na portaria do Cineclube. Esse Cineclube foi o precursor de um estilo único de assistir a filmes, para os cinéfilos paulistanos: a prática do Noitão. Isso mesmo, ficar a noite inteira assistindo filmes magníficos dentro de uma sala de cinema. Entrávamos no cinema à Meia-Noite e saíamos com o dia raiando. Uma maratona para gente forte, feliz e cinéfila! Apenas notívagos muito especiais topam a parada.
Pois bem, hoje faz seis anos que o Cine Belas Artes retomou essa prática. Os noitões do Belas Artes proporcionam aos cinéfilos da nova geração isso que nós fazíamos lá na década de 80. E deu muito certo. Como o cinema é muito maior, em alguns noitões cerca de 800 a 1000 pessoas lotam as 6 salas da casa.

Hoje o noitão do Belas Artes faz aniversário - Happy Birthday! - e é véspera do dia dos namorados. Um programa para o par perfeito e os filmes resgatam essa temática.
Vejam o release que eu recebi dos meus amigos do Belas:

Noitão "Seis Anos de Namoro"

Sexta-feira (11/06), a partir das 23h50, comemoração de seis anos do evento, com seis filmes em homenagem ao Dia dos Namorados: os inéditos Brilho de Uma Paixão (de Jane Campion) e A Jovem Rainha Vitória (de Jean-Marc Vallée); a reprise Corações Livres (de Susanne Bier); Truques da Paquera (de Jim Fall) e Amigas de Colégio (de Lukas Moodysson), ambos voltados para a diversidade sexual; mais um filme-surpresa.
O Noitão, que nasceu em 12 de junho de 2004, reuniu três filmes em sua programação inaugural batizada de "Odeio o Dia dos Namorados". Como o próprio tema indicava, não eram filmes muito leves, pelo contrário, eram romances bem conturbados e até violentos. Os filmes? Ah, sim, eram Monster, aquele com Charlize Theron, horrorosa e possessiva, fazendo par lésbico com Christina Ricci; Corações Livres, uma história de amor muito cruel, mas lindamente filmada pela dinamarquesa Susanne Bier: e o agridoce Estação Doçura, de Percy Adlon, como filme-surpresa.
Desta vez a seleção parece mais suave, mas é melhor que ninguém se iluda muito com isso.
Brilho de Uma Paixão aborda um fato verídico, o relacionamento entre o poeta inglês John Keats e sua jovem vizinha Fanny Brawne. Esse amor, que tinha tudo para ser longo e intenso, acabou antes da hora por causa da morte precoce de um dos dois. O roteiro, baseado em poemas de Keats e em cartas trocadas entre ele e Fanny, contou ainda com o apoio de Andrew Mation, biógrafo do poeta.
A Jovem Rainha Vitória também nasceu de um acontecimento verdadeiro, iniciado quando, em 1837, uma jovem de apenas 17 anos já se preparava para ocupar o trono do Rei Guilherme IV, prestes a morrer. Mas não se trata apenas de uma história de ambição e poder. Em meio a tudo isso existia também uma grande paixão que se eternizou entre Vitória e o Príncipe Albert. O filme, dirigido pelo mesmo realizador de C. R. A . Z. Y., foi produzido por Martin Scorsese e Sarah Ferguson, tataraneta da Rainha Vitória. A cuidadosa direção de arte contou com locações no Castelo de Belvoir, e a cama vista nas cenas da lua-de-mel foi de fato utilizada pela rainha verdadeira. O figurino levou um merecido Oscar.
Bem, como costuma acontecer em todas as edições comemorativas do Noitão, há sempre um ou mais filmes reapresentados como "ícones" de noitões passados. Desta vez serão dois.
Corações Livres, que para quem não se lembra é aquele sobre os noivos que deixam de se casar porque o rapaz sofre um acidente e fica paralítico. Mas, como se isso não fosse o bastante, ele ainda vê a amada se envolver com o seu médico que, por sua vez, é um homem casado.
A outra reprise é Amigas de Colégio, um cult indispensável, cheio de vida, do qual o público do Noitão jamais se cansará. A questão da homossexualidade entre as garotas colegiais é tratada com grande delicadeza e devida naturalidade. Algo típico de Lukas Moodysson, um diretor que sabe abordar qualquer assunto com poesia e elegância, mesmo quando passa perto da escatologia ou da pieguice. Aqueles que acompanham sua filmografia já devem ter percebido isso.
Truques da Paquera é um filme que há um bom tempo não é exibido no cinema, mas é, certamente, uma boa lembrança incluí-lo nesta programação. A história é sobre um rapaz bonzinho e trabalhador, mas que sofre demais sem merecer. Sua vida é uma chatice. Ele mora com um cara grosso que não o respeita e sua carreira como compositor de peças musicais não está decolando. Ainda bem que ele tem pelo menos uma amiga, uma jovem e excêntrica atriz de talento duvidoso, mas que sempre lhe dá a maior força. Como alguma coisa tinha que acontecer um dia, certa noite o garoto resolve ir tomar umas biritas numa boate e, mesmo tímido, encara um flerte com um go-go boy gostosão. É quando ele percebe que a vida vai muito além daquele mundinho no qual ele está acostumado a se encolher, fazendo papel de coitado. O que acontece depois da balada só mesmo vendo o filme. O ator principal, Christian Campbell, é irmão da atriz Neve Campbell, e quem interpreta a melhor amiga é Tori Spelling, que ficou famosa como a Donna de Barrados no Baile.
O filme-surpresa é um misto de coisas boas e ruins que uma relação pode ter: sexo, romance, fantasia, desconfiança e traição. Vale destacar a beleza do trio principal. Os olhos agradecem!
Por mais que os seis filmes sejam tentadores, ao comprar o ingresso o espectador deve saber que só é possível assistir a três deles, e então fazer as suas opções.
Para completar a diversão, nos intervalos entre os filmes todos os espectadores participam de sorteios de brindes: convites exclusivos do Belas Artes, camisetas e filmes em DVD, entre outros mimos.
Após o final da última sessão, por volta das seis da manhã do sábado, o cinema oferece um café da manhã para todos os "sobreviventes" da maratona.

BRILHO DE UMA PAIXÃO
(Bright Star)
Reino Unido/Austrália/França, 2009, cor, 119 min., 14 anos.
Direção: Jane Campion
Elenco: Abbie Cornish, Ben Whishaw e Thomas Sangster.

Em Londres, no ano de 1818, o poeta John Keats, aos 23 anos, inicia um romance secreto com sua bela vizinha Fanny Brawne, uma estudante de moda. Mas, o relacionamento dura apenas três anos, sendo subitamente interrompido por uma tragédia. Uma história de amor real, narrada sob o ponto de vista da jovem Fanny. Filme dirigido por Jane Campion, a mesma de O Piano.

A JOVEM RAINHA VITÓRIA
(The Young Victoria)
Inglaterra/EUA, 2009, cor, 105 min., 10 anos.
Direção: Jean-Marc Vallée
Elenco: Emily Blunt, Rupert Friend e Paul Bettany.

Os primeiros e turbulentos anos do domínio da Rainha Victoria - o mais longo do Reino Unido e que entrou para a história como a Era Vitoriana - e seu eterno romance com o Príncipe Albert. A história, iniciada em 1837, acompanha Victoria desde os seus 17 anos, quando o seu tio, o Rei Guilherme IV, está para morrer e ela é a herdeira do trono. Este filme, produzido por Martin Scorsese e dirigido pelo mesmo realizador de C. R. A. Z.Y, ganhou o Oscar de melhor figurino.

CORAÇÕES LIVRES
(Open Hearts/Elsker Dig for Evigt)
Dinamarca, 2002, cor, 113 min., 14 anos.
Direção: Suzanne Bier
Elenco: Nikolai Lie Kaas, Sonja Richter e Mads Mikkelsen.

Um casal às vésperas do casamento é surpreendido por um atropelamento que deixa o noivo imobilizado no hospital e condenado a ficar paralítico. As juras de amor de antes são substituídas pela agressividade do rapaz que agora incentiva a sua noiva a deixá-lo e seguir sua própria vida. Arrasada e carente ela acaba se apaixonando pelo médico que os atende, casado com a mulher que causou o acidente.

AMIGAS DE COLÉGIO
(Fucking Amäl)
Suécia, 1999, cor, 89 min., 14 anos.
Direção: Lukas Moodysson
Elenco: Alexandra Dahlström, Rebecka Liljeberg e Mathias Rust.

A história de duas adolescentes muito diferentes entre si e que se descobrem apaixonadas uma pela outra, mas não sabem como assumir a relação em meio às demais garotas do colégio onde estudam, na pacata cidade de Amal, interior da Suécia.

TRUQUES DA PAQUERA
(Trick)
EUA, 1999, cor, 90 min, 14 anos.
Direção: Jim Fall
Elenco: Christian Campbell, Jean Paul Pitoc e Tori Spelling.

A vida de Gabriel está pra lá de sem graça. O rapaz não tem nem mais inspiração para seguir em sua carreira, a de compositor de trilhas para o teatro. Para piorar, divide um minúsculo apartamento com um amigo heterossexual que sempre que leva alguém para transar o deixa do lado de fora. Ele tem como única amiga uma jovem atriz canastrona que o apóia em tudo o que faz. Mas numa noite, quando Gabriel decide afogar as mágoas numa boate, acaba conhecendo um atraente go-go boy. Estimulados pelos drinks e pela música alta, os dois embarcam numa gostosa jornada repleta de descobertas e surpresas.