Estou lendo Goethe. Estou até mesmo tomado de emoção por conta dessa experiência nova. Tal iniciativa se deve a uma disposição que me ocorreu, por conta de que eu, somente agora, compreendo que não é preciso saber alemão para ler o autor. O que precisamos é confiar que o exercício de tradução daqueles que se empenharam em verter uma obra para outro idioma é um exercício de entrega que por si só merece reconhecimento.
Todo grande autor e, por conseguinte, toda grande obra, como é caso do Fausto de Goethe, são aureolados por uma mística da perfeição que se por um lado colabora para a sua boa propagação, por outro enevoa o autor e a obra, distanciando-os dos comuns mortais.
Eu cai muitas vezes nessa armadilha e deixei de ler alguns livros, pensando que não seriam para mim. Mas como não? Sou alfabetizado, tenho uma formação até que não de todo desprezível, eu mereço ler Proust, Joyce, Goethe. E ler a esses autores de peito aberto. Meu conhecimento de Inglês, embora nem tão desprezível, não me permite ler o Ulisses no original, ao menos não sem grandes dificuldades. E Proust e Goethe, no original, também não posso. Então, vamos contar com a ajuda dos bravos tradutores para o acesso a essa experiência de vida.
Sim, a leitura permite uma experiência de vida sem igual, que não é aquela de todo dia, mas aquela que nos alimenta para viver melhor o dia a dia.
No caso do Fausto, devo confessar que fiquei ressabiado com a tradução que tenho em mãos, uma edição impressa. Embora eu não tenha nenhuma informação sobre sua origem, sobre quem é esse corajoso senhor que se permitiu traduzir um clássico. Assim sendo, fui procurar outro texto. Descobri uma tradução de domínio público e que estou achando excelente. Trata-se de um tradutor português do século XIX: António Feliciano de Castilho (1800-1875).
Agora leio as duas. São tão distintas que me parece até que leio dois livros, escrito mesmo por dois autores! (Espero que por 3, ou seja, que Goethe também esteja aí implicado) Vou reproduzir o comecinho do livro para que vocês percebam o tipo de aventura a que estou me entregando. Como entendo a leitura como algo muito muito pessoal, compreendo que essa distinção imensa das variadas versões está valendo.
A verdade é que Goethe e seu Fausto são tão humanos que cada um dos seus leitores irá se reconhecer do lugar em que se encontra na múltipla e eterna variação da existência. Simples assim. ;-D
QUADRO I
[Prólogo no Céu]
O Empíreo. Ao meio o Senhor, no trono. À roda a corte celestial, com as suas jerarquias: anjos, arcanjos, querubins, serafins, tronos, potestades, dominações, virtudes, e coros.
CENA ÚNICA
O SENHOR, a sua corte, logo depois MEFISTÓFELES
(Acercam-se do trono os três Arcanjos)
RAFAEL (cantando)
No coro sideral o sol vai prosseguindo,
qual na origem lho hás dado, o curso harmonioso.
Tonitruante baixo em teu concerto infindo,
só mandando-lho tu, Senhor, terá repouso.
Sua luz dobra a nossa, enchendo-nos de espanto
não podermos sondar-lhe a portentosa essência.
Como o fora a princípio, ó sacra Omnipotência,
teu sol é hoje ainda enigma, assombro, encanto.
GABRIEL (cantando)
E da terráquea esfera a máquina esplendente
segue em seu torvelino, eterno, arrebatado;
por que ora à luz dos céus florido Éden se ostente,
ora descanse envolta em negro véu bordado.
O mar espuma, troa, investe as brutas fragas,
que o repulsam desfeito, em nunca finda guerra.
Mas na perpétua luta, as rochas como as vagas
sempre juntas, sem termo, o volutear da terra.
MIGUEL (cantando)
Dos solos contra o mar, do oceano aos continentes,
jogam-se os temporais com ímpeto profundo;
zona de assolasses e criações potentes,
que desfaz e refaz perpetuamente o mundo.
Ígnea precede a morte ao trovejante horror.
Mas nós, os cortesãos da tua imensidade,
gozamos luz e paz por toda a eternidade.
Bendito sejas tu, Senhor! Senhor! Senhor!
OS TRÊS (juntos)
As tuas criações enchem os céus de espanto;
nem o arcanjo lhes sonda a portentosa essência.
Como o fora a princípio, ó sacra Omnipotência,
teu mundo é hoje ainda enigma, assombro, encanto.
MEFISTÓFELES (cortejando ao Padre Eterno)
Inda enfim cá tornei. Visto quereres
saber por mim o que lá vai no mundo,
pronto; que antigamente (inda me lembra)
gostavas de me ouvir. É só por isso
que me tornas a ver entre esta súcia.
Tem paciência! Eu, retóricas sublimes,
é coisa que não gasto; e mesmo escuso
deste augusto congresso expor-me às vaias.
Co’o meu patos tu próprio te ririas,
a não teres perdido esse costume.
Sei cá palavrear de sois! de mundos!
Toda a minha sabença é perder homens.
O deusito da terra está na mesma:
parvo como ab initio. Melhor fora
(digo eu cá) não lhe teres infundido
o raio dessa luz, que lá se chama
Razão, e que na prática só presta
para o tornar mais bruto que os mais brutos.
Com licença da Tua Majestade,
o que ele me parece, é gafanhoto
pernilongo, com mescla de cigarra,
já voador, já saltão, já num relvado
co’a sua solfa velha a estrugir tudo.
E vá lá, se da erva não saísse
inda era meio mal; mas tem o sestro
de se andar sempre à cata de imundícies.
O SENHOR
Parece-se contigo. O teu regalo
é esse: acusar sempre. Então no mundo
nada há bom?
Por essa fala até mesmo singela de Deus, segundo Goethe, já é possível perceber que quem se permite o tipo de negógio no qual Fausto se meteu é porque compartilha com Mefistófeles desse orgulho e soberba imensos, e isso inevitavelmente tem como consequência nutrir esse desgosto pela vida. Penso que o que nos falta, quando estamos nessa vib, e nisso concordo com Goethe e com Deus, é ver o que no mundo há de bom. ;-D
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sexta-feira, 18 de junho de 2010
segunda-feira, 29 de março de 2010
Do bom e do belo em Thomas Mann
Quem já leu o Doutor Fausto, de Thomas Mann, sabe que o livro é uma obra-prima e que também é um livro dolorido naquilo que exprime da natureza máxima e verdadeira de uma amizade, bem como na comoção que é assistir, como amigo, à perda gradual dessa amizade para o abismo absoluto da loucura, no conjunto muito complexo de uma vida, que no livro, atrevo-me a dizer, será expresso muito simplesmente como o desperdício de talento por excesso de ambição. Claro que se trata de um paradigma de ambos, tanto do talento quanto da ambição...
Estou falando dessa obra porque hoje não fui trabalhar (precisei acertar minha situação com o Cartório Eleitoral). Assim sendo, agora à noite, fiquei em casa de boa, curtindo a vida. E, agora há pouco, fui passando os olhos pelos meus livros na estante e vi o exemplar do Doutor Fausto, na tradução de Herbert Caro, da edição da Nova Fronteira. Abri o livro ao acaso e vi que grifara, na época em que o li, diversos trechos. Gosto disso porque é como se eu deixasse daquela leitura a marca do que mais me impressionara numa ou noutra passagem do livro, para que assim, relendo-o no futuro, pudesse fazer uma arqueologia daquela minha passagem pela história ali narrada.
Lembro-me que o narrador é, dentre outras coisas, uma personagem boníssima e em certo capítulo ele conta que duas irmãs, talvez em uma recepção e estando interessadas num pretendente... Enfim, eu teria que reler todo o capítulo para relembrar o contexto, mas fiquemos com isso: a personagem e narrador inspira a confiança de duas moças numa espécie de conluio amoroso. Seja como confidente, seja como alguém que possa expressar uma opinião confiável.
É quando ele, então, nos diz:
Ambas as irmãs confiavam em mim, quer dizer, pareciam atribuir a mim o valor que me capacitasse e me conferisse o direito de julgar outras pessoas. É bem verdade que, para completar a confiança, será necessário que o confidente se encontre, em certo sentido, fora do jogo e assuma uma posição de plácida neutralidade. Tal papel é sempre ao mesmo tempo reconfortante e penoso, já que somente o desempenhamos sob a condição de não estarmos envolvidos nos acontecimentos. Mas, como eu dizia muitas vezes de mim para mim, é preferível inspirar confiança ao mundo e não instigar as paixões dele. Bem melhor é que nos reputem "bom" e não "belo"!
Estou falando dessa obra porque hoje não fui trabalhar (precisei acertar minha situação com o Cartório Eleitoral). Assim sendo, agora à noite, fiquei em casa de boa, curtindo a vida. E, agora há pouco, fui passando os olhos pelos meus livros na estante e vi o exemplar do Doutor Fausto, na tradução de Herbert Caro, da edição da Nova Fronteira. Abri o livro ao acaso e vi que grifara, na época em que o li, diversos trechos. Gosto disso porque é como se eu deixasse daquela leitura a marca do que mais me impressionara numa ou noutra passagem do livro, para que assim, relendo-o no futuro, pudesse fazer uma arqueologia daquela minha passagem pela história ali narrada.
Lembro-me que o narrador é, dentre outras coisas, uma personagem boníssima e em certo capítulo ele conta que duas irmãs, talvez em uma recepção e estando interessadas num pretendente... Enfim, eu teria que reler todo o capítulo para relembrar o contexto, mas fiquemos com isso: a personagem e narrador inspira a confiança de duas moças numa espécie de conluio amoroso. Seja como confidente, seja como alguém que possa expressar uma opinião confiável.
É quando ele, então, nos diz:
Ambas as irmãs confiavam em mim, quer dizer, pareciam atribuir a mim o valor que me capacitasse e me conferisse o direito de julgar outras pessoas. É bem verdade que, para completar a confiança, será necessário que o confidente se encontre, em certo sentido, fora do jogo e assuma uma posição de plácida neutralidade. Tal papel é sempre ao mesmo tempo reconfortante e penoso, já que somente o desempenhamos sob a condição de não estarmos envolvidos nos acontecimentos. Mas, como eu dizia muitas vezes de mim para mim, é preferível inspirar confiança ao mundo e não instigar as paixões dele. Bem melhor é que nos reputem "bom" e não "belo"!
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