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sexta-feira, 13 de maio de 2011

Descoberta: Romance Policial pode ser cura para o mal interior


José Oiticica Filho - Um que passa - 1953
 Quem acompanha esse blog sabe que no dia 18 de abril eu postei aqui, contando que estava lendo o livro da antropóloga francesa Michèle Petit, A arte de ler ou como resistir à adversidade. O livro tem cerca de 300 páginas, e eu ainda continuo lendo-o. Por que isso estaria se dando comigo? Nunca demorei tanto para ler um livro!
Vou confessar-lhes um possível motivo: é que esse livro está despertando em mim reminiscências de antigas experiências com a leitura.  A verdade é que eu também utilizei a leitura, inconscientemente, ou seja, sem saber exatamente que o fazia, como esse bálsamo reparador, portanto, conheci esse mesmo poder reparador que a autora diz ser o da leitura de um livro, em determinadas circunstâncias. Ao menos é o que demonstram as experiências de leitura relatadas por ela, e que, por sua vez, as experimentam comunidades onde ocorre esse trabalho magnífico da difusão do hábito de leitura e que se dá por meio de tantos mediadores de leitura, mundo afora.
Eu não tive ajuda de intermediários, em meus momentos de crise, e, assim sendo, fui descobrindo sozinho... isso mesmo!
Provavelmente até hoje eu utilize, ao menos em parte, a leitura com essa finalidade: a de curar-me dos traumas que ocorrem sempre, em meio às dificuldades todas que a vida nos apresenta.
Por conta disso, desse efeito de provocar em mim tais reminiscências, ou seja, do presente livro despertar essa minha consciência, sou obrigado a parar, aqui e acolá, sua leitura. Assim, abandono o livro para retomá-lo dias depois e, desse modo, a coisa toda tem se arrastado...rsrsrs
Hoje, passei até vergonha no trem da CPTM. Eu lia da obra o trecho abaixo e comecei a chorar... de soluçar. Talvez você, particularmente, não chore, mas quem já experimentou isso mesmo, eu acho que pode chorar sim!
De maneira ampla, os dois pesquisadores [Annie Collowald e Erik Neveu] destacam a forte correlação entre acidentes biográficos e leitura de romances policiais, a “concomitância entre momentos de crise dos leitores e seu investimento na literatura policial”. “A literatura policial vem suprir suas expectativas de uma ordenação e de uma compreensão de sua história pessoal ancorada na história mais ampla do devir social”, eles escrevem. Em particular, a leitura dessas obras daria novamente coerência ao que viveram. “A esses leitores atormentados por uma insegurança social e cultural que eles conseguem superar mais ou menos bem, [o aspecto codificado e convencional dessas histórias policias] oferece a certeza da experiência de uma permanência: a permanência das histórias contadas e dos sentidos que suscitam e satisfazem.” Seu efeito seria “reconciliador e unificador”, e a apropriação de romances policiais poderia acabar por “recosturar vidas despedaçadas, produzir o sentimento ou a ilusão de uma continuidade existencial”. (reencontramos aqui a metáfora da costura, tantas vezes vista). Esse tipo de leitura permitiria também algum “jogo”, impediria a pessoa de se sentir pressionada pela vida tal como ela se impõe. Longe de ser uma simples distração, a leitura frenética de romances policiais envolveria, portanto, muito mais que apenas o prazer, entrando em ressonância com buscas profundas. Ao final do percurso Collovald e Neveu notam que “o acesso à realidade passa cada vez mais por uma representação ou narração.”

Assim sendo, só posso dizer: Muito obrigado Agatha Christie, Arthur Conan Doyle, Patricia Highsmith, P. D. James, Dashiell Hammet, Georges Simenon!

I love you!

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Mel Kadel

Faz tempo que não divulgo trabalhos de ilustração por aqui. Mas hoje não vou resistir e vou apresentar-lhes esse trabalho que me parece bastante original.
Mel Kadel é uma artista que vive em Los Angeles, CA, e que tem procurado utilizar como suporte para seus trabalhos, livros velhos ou papel antigo. Como nem sempre encontra tais papéis de bom tamanho para fazer seus trabalhos, então, ela faz uma colagem dos pedaços de tamanhos variados desses papéis ou, para conseguir o efeito de envelhecimento, ela usa papel manchado de café.
Os desenhos são muito coloridos (o que me agrada bastante). Eles também são simbolizações evidentes de uma elaboração, como aquela que nos diz Michèle Petit, em relação aos artistas, em geral, os quais realizam por meio de metáforas poéticas um trabalho de transfiguração de seus próprios questionamentos e dos vários conflitos que estão no cerne da vida psicológica e social.
Além disso, são bastante femininos (o que também me agrada bastante). ;-D
Ela, inclusive, faz livros artesanais com tiragem limitada e os vende. Lá no seu site você poderá entrar em contato com a artista.
Trouxe algumas imagens desse seu sítio, mas você encontrará por lá muito mais drawings!
Se você quiser conhecer um pouco a artista, bem como o seu companheiro, ele também um artista, leia uma entrevista do casal aqui.












segunda-feira, 18 de abril de 2011

É preciso saber ler!

Eu estou lendo um livro tão especial que o faço bem devagar. Ele é aquele tipo de livro que você desejaria não acabar nunca... E não é um livro de ficção, não é o Mil e uma noites... rsrsrs
Trata-se do livro A arte de ler ou como resistir à adversidade, no qual a antropóloga francesa Michèle Petit comenta as experiências de mediadores de leitura em situações de adversidade. Ela visitou diversos projetos de mediação de leitura nos países da América Latina, inclusive no Brasil e o livro resultou dessa investigação das diferentes maneiras pelas quais a forma narrativa pode atuar como educadora da sensibilidade e como um poderosíssimo instrumento de resistência ao caos interior e à exclusão social.

Em diversas passagens eu me identifiquei. Quando, por exemplo, ela conta que a leitura é um lenitivo para qualquer contexto de adversidade e de dor, incluindo aí a dor moral. Lembro-me que, em uma época (graças a Deus, já distante) da minha vida, fiquei um tempo desempregado. Como é horrível você ficar nessa situação. Eu refugiava-me na biblioteca do Centro Cultural São Paulo, na Vergueiro, e foi ali que li, por exemplo, A vida do Espírito, de Hanna Arendt, e como essa leitura me fortaleceu!

A autora nos conta que essa experiência, que eu já vivi na pele, também aconteceu nos anos 30 do século passado, nos EUA, quando a crise “levou milhares de norte-americanos para as bibliotecas." Nessa passagem, ela cita Martine Poulain:

Às vezes os desempregados buscavam na leitura uma oportunidade de se distanciar do real e de sua própria situação, esperando que ela lhes levasse para ‘fora do mundo’. Às vezes, esperavam o contrário, que lhes mantivesse ‘dentro do mundo’. A leitura dos jornais e periódicos era então a mais apreciada, seja porque a leitura de ‘notícias’ sancionava essa necessidade de se sentir parte de uma comunidade, seja porque a consulta das ofertas de emprego assinalava mais diretamente uma busca de reintegração.

E, assim, em várias momentos de tempos difíceis revela-se o poder da leitura. Segundo a autora, seja em contextos de guerra ou de repetidas violências, de deslocamentos de populações mais ou menos forçados, ou de vertiginosas recessões econômicas, crianças, adolescentes e adultos podem redescobrir o papel de reconstrução de si mesmos e a contribuição única da literatura e da arte para a atividade psíquica.

Esse livro é rico porque coteja a experiência prática, dos mediadores de leitura junto às populações necessitadas de apoio - para esse trabalho de reconstrução de suas próprias identidades, por meio da leitura e da literatura - com a bagagem da própria autora, seu repertório, a riqueza das citações de escritores e estudiosos de várias vertentes e que corroboram a riqueza dessa Arte de ler e que nos permite resistir às adversidades, e que são tantas, sobretudo para populações em situação de pobreza ou  sem escolaridade!

De todas as inúmeras e relevantes citações presentes no livro, eu destacaria aqui, para essa singela postagem, e com a sutil intenção de conclamá-los à leitura dessa preciosidade, essa aqui:

A ação de ler tem a virtude paradoxal de imprimir vigor a essa mesma vida da qual ela nos separa. (José Luis Polanco)

Ou ainda essa outra:

Ler tem a ver com a liberdade de ir e vir, com a possibilidade de entrar à vontade em um outro mundo e dele sair. (Thomas Pavel)

Boa leitura!