Ontem, estive nesse templo da música de qualidade indiscutível que é a Sala São Paulo. Foi a abertura da Temporada 2010 da Sociedade de Cultura Artística. Um grande amante da música erudita que conheço não pôde ir e fez a gentileza de ceder a mim o ingresso o que me deixou bastante grato e até mesmo comovido.
Inicialmente, o concerto seria de Vadim Repin no violino e Itamar Golan no piano, mas o violinista cancelou sua vinda ao Brasil por motivos de saúde. Deus ajude! Assim sendo, tivemos uma substituição de altíssimo nível: o pianista húngaro, Dezsö Ránki.
O programa da noite incluia uma Sonata para Piano, em Mi bemol maior, Hob.XVI/52, de Franz Josef Haydn, a Fantasia em Dó maior, opus 17 de Robert Schumann e a Sonata para Piano, em Si menor, S.178 de Franz Liszt. Para mim, que há muito não ia a concertos, ele foi um programa perfeito porque a primeira Sonata de Haydn era de curta duração nos seus movimentos: um Allegro e um Adagio, com um Finale: presto. Como esse compositor é do período do Classicismo a composição era muito equilibrada como um todo, somente acenando, ao final, para um espírito mais alerta, como diz J. Jota de Moraes, no comentário do programa impresso. Achei importante esse início porque pude ir me ambientando e acalmando as fortes emoções que me tomavam, a saber: estar diante de um pianista talentoso e que se apresenta nos palcos mais conceituados do mundo, portanto, de alguém que estudou todos os anos de sua vida para tornar-se o virtuose que demonstrava ser. Além disso, por ter a oportunidade de ouvir os compositores que outrora viviam em cortes e cultivavam uma música refinada e elaborada até o limite do gênio humano e, por fim, por estar na Sala São Paulo, pela primeira vez (confissão vergonhosa, eu sei, mas aqui vale o "antes tarde do que nunca") e isso por si só já seria uma sensação sui generis.
E, então, a peça terminou e, após os aplausos ainda comedidos, Ránki iniciou a Fantasia de Schumann. Eu logo apreciei, porque o espirito romântico tomou o ar nas vibrações sonoras do piano tocado com muita naturalidade, precisão e vivacidade. Acho que Schumann ficaria feliz se pudesse ver aquela execução dos movimentos que criou nessa peça: Com fantasia e paixão - Em tom lendário; Moderado. Com energia - Um pouco mais lento - Bem agitado; Lento. Sempre suave - Mais agitado. A descrição desses movimentos são apropriadíssimas para a Fantasia que ouvimos graças ao talentoso pianista húngaro e, sobretudo, no que diz respeito ao que ela concretiza, segundo aquele comentarista: os dois estados anímicos que dominavam a alma do artista (Schumann) bipolar e em constante oscilação - a depressão e a euforia; ou, como se dizia, então, a melancolia e a felicidade.
Após o intervalo, foi a vez de ouvirmos a Sonata de Franz Liszt em seus generosos movimentos. Foi então, que tivemos a prova da virtuosidade absoluta do pianista. Próximo ao final, quando terminado o movimento Prestissimo, após ter sido tocado vigorosamente, notou-se que seu empenho foi tão intenso, com demonstração de tamanhas força e velocidade que, ao final, ao levantar os braços, suas mãos ficaram no alto, mas o piano ainda soava as notas de cada uma das teclas, que lentamente se acomodaram até se instaurar o silêncio que antecipou o retorno das mãos às teclas para o início delicado e lento do Andante sostenuto.
Não há, na linguagem verbal, palavras que possam verbalizar o sentimento dos corações ao alto a que se assistiu em toda a imensa e bela Sala São Paulo.
Quem ainda puder ir, hoje, às 21h, para a Série Azul, saiba que terão mais uma apresentação desse artista que, ao final, quando aplaudido com entusiasmo (nós pobres mortais só podemos aplaudir), generosamente, retorna ao palco para um bis.
quarta-feira, 14 de abril de 2010
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Da Cidade de Deus aos Campos de Lavanda do Sul da França
Sábado, na nossa aula na PUC, discutíamos a importância da avaliação na escola, sobretudo no magistério do ensino superior . Em um texto que líamos, o autor lembrava as expectativas das famílias: elas querem que a escola assegure aos filhos condições dignas de sobrevivência. Alguém dizia que, no entanto, muitas famílias nem se preocupam com a qualidade de ensino, mas com a obtenção de um certificado tão somente. Mesmo que esse documento possa, quando muito, assegurar uma vaga de gari para o cara, ou seja, ainda que ele não avance para além dessa conquista.
Uma amiga nos lembrou uma cena do filme Cidade de Deus, se eu não me engano, em que um garoto da favela retratada no filme dizia, em determinada altura, que ele não iria para a escola porque não iria ser "mais um otário de marmita", o que significava, no caso, que ele preferia se associar ao tráfico de drogas.
Fico pensando se não se trata sobretudo de escolhas e até mesmo misteriosas, na força do desejo que impulsiona cada qual a estar ou não na escola e vivenciar ou não os desdobramentos possíveis dessa experiência.
Penso que todas as escolhas são justas, no sentido lato da palavra justiça, ou seja, posso preferir ser o "otário de marmita" (afinal, preferindo trabalhar ao menos para ter o que colocar nessa marmita); ou obter o certificado que me assegura conquistar, por uma prova em concurso público, a vaga de gari, com a qual o cidadão também assegura a sua sobrevivência e a de muitos da família. Isso não é mesmo admirável?
Ou não, desejar muito mais, materialmente, e pular a experiência do aprendizado escolar, em busca do que o crime possa prometer, arriscando com isso a obter aquilo que ele mais rapidamente assegura: a morte prematura de jovens.
Há também histórias belíssimas de conquista, como a que faz, por exemplo, com que uma pessoa de origem pobre se torne doutor e diga, diante da banca de doutoramento, como um amigo também relatou: Meus pais, minha avó, meus familiares... não entendem porque eu estudo tanto e não poderiam conversar comigo a respeito dessa tese que eu estou aqui defendendo...
Eu, muito humildemente, de minha parte, como Cartola, acho que tudo no mundo acontece e, como aconteceu de o meu coração ficar triste, ao pensar nessas questões todas, muito enigmaticamente terminarei essa crônica dizendo que o mais delicioso de tudo deve ser plantar lavanda, no sul da França... Será?
Uma amiga nos lembrou uma cena do filme Cidade de Deus, se eu não me engano, em que um garoto da favela retratada no filme dizia, em determinada altura, que ele não iria para a escola porque não iria ser "mais um otário de marmita", o que significava, no caso, que ele preferia se associar ao tráfico de drogas.
Fico pensando se não se trata sobretudo de escolhas e até mesmo misteriosas, na força do desejo que impulsiona cada qual a estar ou não na escola e vivenciar ou não os desdobramentos possíveis dessa experiência.
Penso que todas as escolhas são justas, no sentido lato da palavra justiça, ou seja, posso preferir ser o "otário de marmita" (afinal, preferindo trabalhar ao menos para ter o que colocar nessa marmita); ou obter o certificado que me assegura conquistar, por uma prova em concurso público, a vaga de gari, com a qual o cidadão também assegura a sua sobrevivência e a de muitos da família. Isso não é mesmo admirável?
Ou não, desejar muito mais, materialmente, e pular a experiência do aprendizado escolar, em busca do que o crime possa prometer, arriscando com isso a obter aquilo que ele mais rapidamente assegura: a morte prematura de jovens.
Há também histórias belíssimas de conquista, como a que faz, por exemplo, com que uma pessoa de origem pobre se torne doutor e diga, diante da banca de doutoramento, como um amigo também relatou: Meus pais, minha avó, meus familiares... não entendem porque eu estudo tanto e não poderiam conversar comigo a respeito dessa tese que eu estou aqui defendendo...
Eu, muito humildemente, de minha parte, como Cartola, acho que tudo no mundo acontece e, como aconteceu de o meu coração ficar triste, ao pensar nessas questões todas, muito enigmaticamente terminarei essa crônica dizendo que o mais delicioso de tudo deve ser plantar lavanda, no sul da França... Será?
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Salve a Biblioteca!
Datas comemorativas são importantes: sugerem que olhemos com carinho para o objeto alvo da homenagem. Assim, quando ouvi que hoje é o Dia da Biblioteca, fiquei enternecido. Eu sempre gostei da atmosfera presente em toda biblioteca. Aliás, quando entrei pela primeira vez em uma biblioteca fiquei siderado. Era uma pequena biblioteca pública, muito simples, de bairro. Mas havia um número de livros bem maior que aquele que eu tinha em casa. Além disso, era um ambiente silencioso, no qual as pessoas liam livros e onde elas podiam emprestá-los para levar consigo. Minha criança achou tudo isso muito correto. Também havia ali grupos de estudantes que faziam sua pesquisas escolares, em moderada conversação. Tudo corretíssimo, não é mesmo?
Depois, na adolescência, passei a frequentar a Biblioteca Mário de Andrade. (por falar nisso, será que ela reabre mesmo, ainda esse semestre?) Ali, então, foi um deslumbramento: senti que entrava num templo do saber, do conhecimento e da beleza. No auditório da biblioteca, cheguei a frequentar as Vesperais Líricas, num tempo em que o Teatro Municipal esteve fechado para reforma e a biblioteca abrigou os cantores líricos, animados, e também os amantes do bel canto. Que saraus magníficos!
Muitas outras bibliotecas foram visitadas por mim. Em uma das bibliotecas da USP, no tempo da minha graduação, cheguei a trabalhar, como auxiliar de biblioteca. Aliás, fiquei todo comovido quando soube que tinha essa experiência em comum com Borges, que também trabalhou em biblioteca. Ele conta, em um livro do qual já falei aqui, que não foi uma experiência que deu muito certo: os colegas de trabalho não gostavam que ele fizesse o seu serviço direitinho (ele produzia mais do que os outros na catalogação de exemplares) e também não gostaram quando ele passou a trabalhar menos, como queriam: é que ele resolveu ocupar o tempo livre que passou a ter lendo os livros da biblioteca...rsrsrs Pois é, dependendo do ambiente gente boa não agrada mesmo!
Lembro-me também de quando fiquei desempregado uma época e frequentei, nesse período, a biblioteca do Centro Cultural São Paulo. Cheguei a ler um livro inteiro de Hanna Arendt no interior daquela biblioteca, que acho deliciosa. Li da autora A vida do espírito. E acho que é isso: a Biblioteca é o lugar onde melhor se cultiva essa vida. A do espírito.
Depois, na adolescência, passei a frequentar a Biblioteca Mário de Andrade. (por falar nisso, será que ela reabre mesmo, ainda esse semestre?) Ali, então, foi um deslumbramento: senti que entrava num templo do saber, do conhecimento e da beleza. No auditório da biblioteca, cheguei a frequentar as Vesperais Líricas, num tempo em que o Teatro Municipal esteve fechado para reforma e a biblioteca abrigou os cantores líricos, animados, e também os amantes do bel canto. Que saraus magníficos!
Muitas outras bibliotecas foram visitadas por mim. Em uma das bibliotecas da USP, no tempo da minha graduação, cheguei a trabalhar, como auxiliar de biblioteca. Aliás, fiquei todo comovido quando soube que tinha essa experiência em comum com Borges, que também trabalhou em biblioteca. Ele conta, em um livro do qual já falei aqui, que não foi uma experiência que deu muito certo: os colegas de trabalho não gostavam que ele fizesse o seu serviço direitinho (ele produzia mais do que os outros na catalogação de exemplares) e também não gostaram quando ele passou a trabalhar menos, como queriam: é que ele resolveu ocupar o tempo livre que passou a ter lendo os livros da biblioteca...rsrsrs Pois é, dependendo do ambiente gente boa não agrada mesmo!
Lembro-me também de quando fiquei desempregado uma época e frequentei, nesse período, a biblioteca do Centro Cultural São Paulo. Cheguei a ler um livro inteiro de Hanna Arendt no interior daquela biblioteca, que acho deliciosa. Li da autora A vida do espírito. E acho que é isso: a Biblioteca é o lugar onde melhor se cultiva essa vida. A do espírito.
quarta-feira, 7 de abril de 2010
O magnífico Ossário de Alexandre Orion
Vejam vocês como o preconceito é mesmo uma coisa terrível!
Desde o mês passado, eu soube de uma exposição no CCBB, aqui no centro de São Paulo. Mas não quis descer ao subsolo porque a exposição se chamava Ossário e tudo o que via no cartaz era o desenho de umas caveiras, achei melhor não... Graças a Deus, tenho bons amigos e, hoje, uma amiga voltou da exposição e me disse: Josafá, você precisa ir lá ver! Quando eu disse que eu tinha evitado, ela me disse: Não, é uma outra coisa...
Quando entrei no subsolo do Centro Cultural,lá estavam as caveiras tomando a parede. Quando entrei na sala escura, um vídeo mostrava um rapaz, o Alexandre Orion, trabalhando no túnel da Av. Europa e Cidade Jardim. Ele, usando máscara e com um pano na mão, ia limpando toda a fuligem de imensos painéis que cobriam o túnel e com isso desenhava nossas caveiras. Então, aparecem em cena policiais dispostos a questionar sua atitude. Depois de um tempo, também parou um carro da própria CET - Companhia de Engenharia de Tráfefo da cidade. O filme também mostra a decisão da prefeitura para acabar com a intervenção do artista. Um carro pipa aciona a mangueira e limpa todo o painel, lavando a fuligem e, com ela, mandando as caveiras para o ralo.
O mais triste é que limparam apenas onde ele desenhara. Isso tem um nome: censura! Quando, provocativo, ele continuou seu trabalho em 120 metros de túnel, a prefeitura decidiu que limparia todos os túneis da cidade. Orion diz no seu site: Em menos de 4 meses tudo estará sujo de novo. Melhor do que limpar seria pararmos de poluir.
Eu chorei de emoção por tudo, pela atitude do artista, pelo horror da poluição na cidade e, portanto, verdade mortífera a que as caveiras aludem e, claro, pela truculência dos órgãos do poder. Louvo a atitude do CCBB em trazer para o seu subsolo a atmosfera vivida pelo artista no túnel, e pela consagração dessa intervenção que nos desmascara, bem como aos tolos desmandos de quem não tem a consciência tão limpa assim...
A exposição acontece de terça a domingo
no subsolo do CCBB
Rua Álvares Penteado, 112 - Centro
Até 9 de maio
entrada franca \o/
Desde o mês passado, eu soube de uma exposição no CCBB, aqui no centro de São Paulo. Mas não quis descer ao subsolo porque a exposição se chamava Ossário e tudo o que via no cartaz era o desenho de umas caveiras, achei melhor não... Graças a Deus, tenho bons amigos e, hoje, uma amiga voltou da exposição e me disse: Josafá, você precisa ir lá ver! Quando eu disse que eu tinha evitado, ela me disse: Não, é uma outra coisa...
Quando entrei no subsolo do Centro Cultural,lá estavam as caveiras tomando a parede. Quando entrei na sala escura, um vídeo mostrava um rapaz, o Alexandre Orion, trabalhando no túnel da Av. Europa e Cidade Jardim. Ele, usando máscara e com um pano na mão, ia limpando toda a fuligem de imensos painéis que cobriam o túnel e com isso desenhava nossas caveiras. Então, aparecem em cena policiais dispostos a questionar sua atitude. Depois de um tempo, também parou um carro da própria CET - Companhia de Engenharia de Tráfefo da cidade. O filme também mostra a decisão da prefeitura para acabar com a intervenção do artista. Um carro pipa aciona a mangueira e limpa todo o painel, lavando a fuligem e, com ela, mandando as caveiras para o ralo.
O mais triste é que limparam apenas onde ele desenhara. Isso tem um nome: censura! Quando, provocativo, ele continuou seu trabalho em 120 metros de túnel, a prefeitura decidiu que limparia todos os túneis da cidade. Orion diz no seu site: Em menos de 4 meses tudo estará sujo de novo. Melhor do que limpar seria pararmos de poluir.
Eu chorei de emoção por tudo, pela atitude do artista, pelo horror da poluição na cidade e, portanto, verdade mortífera a que as caveiras aludem e, claro, pela truculência dos órgãos do poder. Louvo a atitude do CCBB em trazer para o seu subsolo a atmosfera vivida pelo artista no túnel, e pela consagração dessa intervenção que nos desmascara, bem como aos tolos desmandos de quem não tem a consciência tão limpa assim...
A exposição acontece de terça a domingo
no subsolo do CCBB
Rua Álvares Penteado, 112 - Centro
Até 9 de maio
entrada franca \o/
terça-feira, 6 de abril de 2010
Manhã outonal
Uma manhã outonal faz pensar. Talvez o outono seja mesmo um tempo para o recolhimento do ser. O tempo de voltar ao casulo. Esse recolhimento pode acontecer na medida mesma em que eu me permita reflexões de toda ordem. Por exemplo, estou decidido a viver o exercício dificílimo de só pensar o que me propicie viver melhor a vida imediata. Isso, desconfio, irá dar lá na vida futura: essa minha desconhecida.
Como fazer esse plus? Sim, é um salto do que se trata aqui. Posso começar perguntando: Quanto devo economizar, se quero comprar algo de que preciso? Quanto devo guardar? Na verdade, a questão é: quanto posso guardar a ponto de não faltar hoje, e de modo que ainda possa sobrar para amanhã?
Quando o orçamento fica em "parafuso", isso pode ocorrer porque desejei mais do que podia, ou devia e, com isso, gastei além. Afinal, quando isso ocorre, não é preciso que assim seja tão somente porque ganho pouco... O mais importante seria eu me perguntar: Por que é necessário que eu ganhe mais? Essa é a questão que não irá calar, até... que eu passe a ganhar mais. rsrsrs E, enquanto isso não ocorre, uma outra questão para fechar o rol de questões em torno desse tema: Afinal, será que posso também ser generoso, comigo ou com qualquer um, em qualquer tempo e condição? A resposta pode e deve ser Sim!
Por outro lado, que tipo de pensamentos devo nutrir para estar bem agora e melhor ainda no futuro?
Estou descobrindo, muito lentamente, que se penso mal e, com isso, penso o mal dos outros, faço um grande mal a mim mesmo. E quando penso o mal em relação aos outros? Muitas vezes gratuitamente: uma antipatia desnecessária por um transeunte desconhecido...e alimento maldosamente essa antipatia com pensamentos. Ou mesmo um tolo ódio por um conhecido com o qual também não me simpatizo e penso também maldosamente acerca dessa pessoa. Enfim, tenho notado que tudo isso ocorre sempre com um desgaste de energia, absolutamente desnecessário. Desconfio até que isso só pode resultar em doença. Cruz credo!
A verdade é que estou descobrindo que só posso amar a mim mesmo na medida mesma em que eu não odiar a ninguém. Não estamos todos reunidos por aqui e tendo enfim que conviver? Que tal convívio seja para o nosso bem, afinal, o inverno apenas se aproxima: será necessário muito calor humano.
Como fazer esse plus? Sim, é um salto do que se trata aqui. Posso começar perguntando: Quanto devo economizar, se quero comprar algo de que preciso? Quanto devo guardar? Na verdade, a questão é: quanto posso guardar a ponto de não faltar hoje, e de modo que ainda possa sobrar para amanhã?
Quando o orçamento fica em "parafuso", isso pode ocorrer porque desejei mais do que podia, ou devia e, com isso, gastei além. Afinal, quando isso ocorre, não é preciso que assim seja tão somente porque ganho pouco... O mais importante seria eu me perguntar: Por que é necessário que eu ganhe mais? Essa é a questão que não irá calar, até... que eu passe a ganhar mais. rsrsrs E, enquanto isso não ocorre, uma outra questão para fechar o rol de questões em torno desse tema: Afinal, será que posso também ser generoso, comigo ou com qualquer um, em qualquer tempo e condição? A resposta pode e deve ser Sim!
Por outro lado, que tipo de pensamentos devo nutrir para estar bem agora e melhor ainda no futuro?
Estou descobrindo, muito lentamente, que se penso mal e, com isso, penso o mal dos outros, faço um grande mal a mim mesmo. E quando penso o mal em relação aos outros? Muitas vezes gratuitamente: uma antipatia desnecessária por um transeunte desconhecido...e alimento maldosamente essa antipatia com pensamentos. Ou mesmo um tolo ódio por um conhecido com o qual também não me simpatizo e penso também maldosamente acerca dessa pessoa. Enfim, tenho notado que tudo isso ocorre sempre com um desgaste de energia, absolutamente desnecessário. Desconfio até que isso só pode resultar em doença. Cruz credo!
A verdade é que estou descobrindo que só posso amar a mim mesmo na medida mesma em que eu não odiar a ninguém. Não estamos todos reunidos por aqui e tendo enfim que conviver? Que tal convívio seja para o nosso bem, afinal, o inverno apenas se aproxima: será necessário muito calor humano.
sábado, 3 de abril de 2010
Rita Botto
Meu amigo Enric deu-me um regalo! Já falei dele aqui. Serei sempre grato a ele por mais esse novo conhecimento: ele apresentou-me Rita Botto.
Rita Botto nasceu em Catena, cidade de Etna, região da Sicília, Itália.
Segundo o site Italia Folk Music trata-se de uma cantora versátil e autodidata, com uma capacidade vocal espantosa, ela instruiu-se no canto pela escola de Ferrare de “Música Moderna” e também no “Baule dei Suoni” da escola de teatro da Bolonha, onde vive atualmente.
Impressionada com as canções da magnífica artista Rosa Balistreri, Rita Botto tem sempre tentado promover, como aquela, os tesouros da música popular da Sicilia. Ela, aliás, dedicou a Rosa Balistreri seu álbum independente Ethnea. O nome é um jogo de palavras entre étnico e Etna, para simbolizar o renascimento da música siciliana.
Seu álbum Stranizza d'Amuri, veio a público em 2004, quando Rita Botto ficou conhecida para o grande público, recebendo aprovação unânime da crítica, tanto italiana quanto estrangeira.
Ela também tem colaborado com importantes artista como Alfio Antico, Antonio Marangolo, I Lautari, Roy Paci and Carmen Consoli.
Suas apresentações no palco impressionam seja pela sua técnica vocal que é muito particular, bem como pelo fato de que usa um vaso como caixa de som.
Seu novo disco, Donna Rita, foi recém-lançado em mais de 10 países. Foi desse disco que ouvi a canção Rosa.
Oh, que gran cosa!
Aqui, trago este clip que encontrei no Youtube para compartilhar. Achei tão singela a história narrada nessa canção e tão bem desenvolvida pelas imagens.
Eu não falei ainda, mas ela canta na língua siciliana!
Bravissima Rita, e bella canzone. Viva la Sicilia!!!
Stranizza D'Amuri
(Uma canção do grande Franco Battiato)
'Ndo vadduni da Scammacca
i carritteri ogni tantu
lassaunu i loru bisogni
e i muscuni ciabbulaunu supra
jeumu a caccia di lucettuli...
'a litturina da ciccum-etnea
i saggi ginnici 'u Nabuccu
'a scola sta finennu.
Man manu ca passunu i jonna
sta frevi mi trasi 'nda lI'ossa
'ccu tuttu ca fora c'è 'a guerra
mi sentu stranizza d'amuri... I'amuri
e quannu t'ancontru 'nda strata
mi veni 'na scossa 'ndo cori
'ccu tuttu ca fora si mori
na' mori stranizza d'amuri... I'amuri.
Extrañeza de amor
Estranhamento de amor
"En el valle de Scammacca
No vale de Scammacca
los carreteros de vez en cuando
carros de boi de vez em quando
dejaban sus excrementos
deixavam seus escrementos
y los moscones los sobrevolaban
e os mosquitos os sobrevoavam
Íbamos a la caza de lagartijas...
Íamos à caça de lagartixas
el vagón de la circum-etnea
o vagão de circum-etnea
las sesiones de gimnasia con el Nabucco
as sessões do ginásio com o Nabucco
la escuela está terminando.
a escola está terminando.
A medida que pasan los días
à medida em que passam os dias
esta fiebre me entra en los huesos
esta febre me entra nos ossos
Aunque fuera hay guerra
Ainda que lá fora haja guerra
siento una extrañeza de amor...el amor
sinto um estranhamento de amor... o amor
Y cuando te encuentro por la calle
E quando te encontro pela rua
me viene una sacudida al corazón
me vem uma sacudida ao coração
Aunque fuera se muere
Ainda que lá fora se morra
no muere esta extrañeza de amor...el amor
não morre este estranhamento de amor... o amor
(Aceito sugestões para a versão em português que fiz a partir da versão em espanhol, que Enric me mandou e que também disponibilizou em Bosphorus.)
Rita Botto nasceu em Catena, cidade de Etna, região da Sicília, Itália.
Segundo o site Italia Folk Music trata-se de uma cantora versátil e autodidata, com uma capacidade vocal espantosa, ela instruiu-se no canto pela escola de Ferrare de “Música Moderna” e também no “Baule dei Suoni” da escola de teatro da Bolonha, onde vive atualmente.
Impressionada com as canções da magnífica artista Rosa Balistreri, Rita Botto tem sempre tentado promover, como aquela, os tesouros da música popular da Sicilia. Ela, aliás, dedicou a Rosa Balistreri seu álbum independente Ethnea. O nome é um jogo de palavras entre étnico e Etna, para simbolizar o renascimento da música siciliana.
Seu álbum Stranizza d'Amuri, veio a público em 2004, quando Rita Botto ficou conhecida para o grande público, recebendo aprovação unânime da crítica, tanto italiana quanto estrangeira.
Ela também tem colaborado com importantes artista como Alfio Antico, Antonio Marangolo, I Lautari, Roy Paci and Carmen Consoli.
Suas apresentações no palco impressionam seja pela sua técnica vocal que é muito particular, bem como pelo fato de que usa um vaso como caixa de som.
Seu novo disco, Donna Rita, foi recém-lançado em mais de 10 países. Foi desse disco que ouvi a canção Rosa.
Oh, que gran cosa!
Aqui, trago este clip que encontrei no Youtube para compartilhar. Achei tão singela a história narrada nessa canção e tão bem desenvolvida pelas imagens.
Eu não falei ainda, mas ela canta na língua siciliana!
Bravissima Rita, e bella canzone. Viva la Sicilia!!!
Stranizza D'Amuri
(Uma canção do grande Franco Battiato)
'Ndo vadduni da Scammacca
i carritteri ogni tantu
lassaunu i loru bisogni
e i muscuni ciabbulaunu supra
jeumu a caccia di lucettuli...
'a litturina da ciccum-etnea
i saggi ginnici 'u Nabuccu
'a scola sta finennu.
Man manu ca passunu i jonna
sta frevi mi trasi 'nda lI'ossa
'ccu tuttu ca fora c'è 'a guerra
mi sentu stranizza d'amuri... I'amuri
e quannu t'ancontru 'nda strata
mi veni 'na scossa 'ndo cori
'ccu tuttu ca fora si mori
na' mori stranizza d'amuri... I'amuri.
Extrañeza de amor
Estranhamento de amor
"En el valle de Scammacca
No vale de Scammacca
los carreteros de vez en cuando
carros de boi de vez em quando
dejaban sus excrementos
deixavam seus escrementos
y los moscones los sobrevolaban
e os mosquitos os sobrevoavam
Íbamos a la caza de lagartijas...
Íamos à caça de lagartixas
el vagón de la circum-etnea
o vagão de circum-etnea
las sesiones de gimnasia con el Nabucco
as sessões do ginásio com o Nabucco
la escuela está terminando.
a escola está terminando.
A medida que pasan los días
à medida em que passam os dias
esta fiebre me entra en los huesos
esta febre me entra nos ossos
Aunque fuera hay guerra
Ainda que lá fora haja guerra
siento una extrañeza de amor...el amor
sinto um estranhamento de amor... o amor
Y cuando te encuentro por la calle
E quando te encontro pela rua
me viene una sacudida al corazón
me vem uma sacudida ao coração
Aunque fuera se muere
Ainda que lá fora se morra
no muere esta extrañeza de amor...el amor
não morre este estranhamento de amor... o amor
(Aceito sugestões para a versão em português que fiz a partir da versão em espanhol, que Enric me mandou e que também disponibilizou em Bosphorus.)
quarta-feira, 31 de março de 2010
Sob o mesmo teto
O ambiente de trabalho é como se fosse um depositário da condição humana. Há o convívio diário, sob o mesmo teto, de pessoas que não necessariamente escolheram estar juntas sob esse mesmo teto.
Essa condição é muito parecida com a do casamento. Eu lembro-me quando morei com um amigo em um apartamento. Mesmo que não estivéssemos casados, era como se fôssemos, uma vez que vivíamos sob o mesmo teto. E o horror do que esse teto pode proporcionar a essas vidas é assustador. Só quem viveu a experiência pode entender as agruras dessa convivência cotidiana de duas almas distintas no mesmo ambiente, dia após dia...
(É claro que não estou considerando os casamentos felizes, a raridade na face da terra)
Pois bem, o mesmo acontece no ambiente de trabalho, quando, então, não são apenas duas pessoas. Dependendo do local, em tal ambiente o número de pessoas pode ser bem maior.
No entanto, a condição da necessidade de ganhar o pão diário assim estabelece, ou seja, que elas estejam ali, juntas, diariamente.
Creio que o princípio da solidariedade humana, bem como o da boa vontade é fundamental nessa circunstância.
Não é possível que o interesse meramente pessoal se sobreponha ao interesse da finalidade a que se submetem todos aqueles que trabalham em qualquer lugar que seja.
No entanto, as pessoas, mutáveis como são, podem variar o temperamento a cada dia.
Uma amiga contou-me que, lá onde ela trabalha, um colega de trabalho foi promovido e se esqueceu das agruras da sua condição anterior, ao ponto de tratar seus subalternos do mesmo modo que ele não gostava de ser tratado quando era subalterno. Importante: Ela estava preocupada porque se destemperou com essa pessoa, agora seu chefe.
Na minha opinião, ela devia, primeiramente, fazer uma prece por ele e procurar ver esse convívio, em sua nova configuração, de um modo completamente diferente.
Eu lhe diria o seguinte, quando ele, por exemplo, me cobrasse com urgência uma resolução impossível :
- Claro, não se preocupe. Estou providenciando. Farei rapidinho.
(Essa fala só funciona se você estiver dizendo isso de verdade e sorrindo. Importante: o sorriso também tem de ser verdadeiro)
Talvez a pessoa em questão não esteja preocupada com aquela finalidade e etc. mas tão somente com o exercício do seu poder conquistado. Damos a ela essa coisa pequena e ficamos em paz. Sem destemperos, sem aflição. Amém.
Caso contrário tudo ficara igual, sem maiores mudanças, sob o mesmo teto. Ou pior, talvez se tenha que mudar de emprego o que, hoje em dia, vamos combinar, nem sempre é fácil.
Essa condição é muito parecida com a do casamento. Eu lembro-me quando morei com um amigo em um apartamento. Mesmo que não estivéssemos casados, era como se fôssemos, uma vez que vivíamos sob o mesmo teto. E o horror do que esse teto pode proporcionar a essas vidas é assustador. Só quem viveu a experiência pode entender as agruras dessa convivência cotidiana de duas almas distintas no mesmo ambiente, dia após dia...
(É claro que não estou considerando os casamentos felizes, a raridade na face da terra)
Pois bem, o mesmo acontece no ambiente de trabalho, quando, então, não são apenas duas pessoas. Dependendo do local, em tal ambiente o número de pessoas pode ser bem maior.
No entanto, a condição da necessidade de ganhar o pão diário assim estabelece, ou seja, que elas estejam ali, juntas, diariamente.
Creio que o princípio da solidariedade humana, bem como o da boa vontade é fundamental nessa circunstância.
Não é possível que o interesse meramente pessoal se sobreponha ao interesse da finalidade a que se submetem todos aqueles que trabalham em qualquer lugar que seja.
No entanto, as pessoas, mutáveis como são, podem variar o temperamento a cada dia.
Uma amiga contou-me que, lá onde ela trabalha, um colega de trabalho foi promovido e se esqueceu das agruras da sua condição anterior, ao ponto de tratar seus subalternos do mesmo modo que ele não gostava de ser tratado quando era subalterno. Importante: Ela estava preocupada porque se destemperou com essa pessoa, agora seu chefe.
Na minha opinião, ela devia, primeiramente, fazer uma prece por ele e procurar ver esse convívio, em sua nova configuração, de um modo completamente diferente.
Eu lhe diria o seguinte, quando ele, por exemplo, me cobrasse com urgência uma resolução impossível :
- Claro, não se preocupe. Estou providenciando. Farei rapidinho.
(Essa fala só funciona se você estiver dizendo isso de verdade e sorrindo. Importante: o sorriso também tem de ser verdadeiro)
Talvez a pessoa em questão não esteja preocupada com aquela finalidade e etc. mas tão somente com o exercício do seu poder conquistado. Damos a ela essa coisa pequena e ficamos em paz. Sem destemperos, sem aflição. Amém.
Caso contrário tudo ficara igual, sem maiores mudanças, sob o mesmo teto. Ou pior, talvez se tenha que mudar de emprego o que, hoje em dia, vamos combinar, nem sempre é fácil.
Esse Liniers não é demais?!
segunda-feira, 29 de março de 2010
Do bom e do belo em Thomas Mann
Quem já leu o Doutor Fausto, de Thomas Mann, sabe que o livro é uma obra-prima e que também é um livro dolorido naquilo que exprime da natureza máxima e verdadeira de uma amizade, bem como na comoção que é assistir, como amigo, à perda gradual dessa amizade para o abismo absoluto da loucura, no conjunto muito complexo de uma vida, que no livro, atrevo-me a dizer, será expresso muito simplesmente como o desperdício de talento por excesso de ambição. Claro que se trata de um paradigma de ambos, tanto do talento quanto da ambição...
Estou falando dessa obra porque hoje não fui trabalhar (precisei acertar minha situação com o Cartório Eleitoral). Assim sendo, agora à noite, fiquei em casa de boa, curtindo a vida. E, agora há pouco, fui passando os olhos pelos meus livros na estante e vi o exemplar do Doutor Fausto, na tradução de Herbert Caro, da edição da Nova Fronteira. Abri o livro ao acaso e vi que grifara, na época em que o li, diversos trechos. Gosto disso porque é como se eu deixasse daquela leitura a marca do que mais me impressionara numa ou noutra passagem do livro, para que assim, relendo-o no futuro, pudesse fazer uma arqueologia daquela minha passagem pela história ali narrada.
Lembro-me que o narrador é, dentre outras coisas, uma personagem boníssima e em certo capítulo ele conta que duas irmãs, talvez em uma recepção e estando interessadas num pretendente... Enfim, eu teria que reler todo o capítulo para relembrar o contexto, mas fiquemos com isso: a personagem e narrador inspira a confiança de duas moças numa espécie de conluio amoroso. Seja como confidente, seja como alguém que possa expressar uma opinião confiável.
É quando ele, então, nos diz:
Ambas as irmãs confiavam em mim, quer dizer, pareciam atribuir a mim o valor que me capacitasse e me conferisse o direito de julgar outras pessoas. É bem verdade que, para completar a confiança, será necessário que o confidente se encontre, em certo sentido, fora do jogo e assuma uma posição de plácida neutralidade. Tal papel é sempre ao mesmo tempo reconfortante e penoso, já que somente o desempenhamos sob a condição de não estarmos envolvidos nos acontecimentos. Mas, como eu dizia muitas vezes de mim para mim, é preferível inspirar confiança ao mundo e não instigar as paixões dele. Bem melhor é que nos reputem "bom" e não "belo"!
Estou falando dessa obra porque hoje não fui trabalhar (precisei acertar minha situação com o Cartório Eleitoral). Assim sendo, agora à noite, fiquei em casa de boa, curtindo a vida. E, agora há pouco, fui passando os olhos pelos meus livros na estante e vi o exemplar do Doutor Fausto, na tradução de Herbert Caro, da edição da Nova Fronteira. Abri o livro ao acaso e vi que grifara, na época em que o li, diversos trechos. Gosto disso porque é como se eu deixasse daquela leitura a marca do que mais me impressionara numa ou noutra passagem do livro, para que assim, relendo-o no futuro, pudesse fazer uma arqueologia daquela minha passagem pela história ali narrada.
Lembro-me que o narrador é, dentre outras coisas, uma personagem boníssima e em certo capítulo ele conta que duas irmãs, talvez em uma recepção e estando interessadas num pretendente... Enfim, eu teria que reler todo o capítulo para relembrar o contexto, mas fiquemos com isso: a personagem e narrador inspira a confiança de duas moças numa espécie de conluio amoroso. Seja como confidente, seja como alguém que possa expressar uma opinião confiável.
É quando ele, então, nos diz:
Ambas as irmãs confiavam em mim, quer dizer, pareciam atribuir a mim o valor que me capacitasse e me conferisse o direito de julgar outras pessoas. É bem verdade que, para completar a confiança, será necessário que o confidente se encontre, em certo sentido, fora do jogo e assuma uma posição de plácida neutralidade. Tal papel é sempre ao mesmo tempo reconfortante e penoso, já que somente o desempenhamos sob a condição de não estarmos envolvidos nos acontecimentos. Mas, como eu dizia muitas vezes de mim para mim, é preferível inspirar confiança ao mundo e não instigar as paixões dele. Bem melhor é que nos reputem "bom" e não "belo"!
sexta-feira, 26 de março de 2010
Shaun Tan
Anteontem, eu falava aqui da questão da condição da solidão humana e hoje falo de um livro a respeito desse mesmo assunto só que pensado para crianças. Trata-se de "A árvore vermelha", de Shaun Tan, traduzido por Isa Mesquita, com ilustrações do autor, lançado pela Edições SM.
A menina ruiva, personagem do livro, é conduzida em meio a imagens que são puro sonho, a partir do despertar em mais um dia sem promessas. Assim, passa a errar por uma cidade surreal e catastrófica, e vê sua esperança esvanecer-se sem explicação. Quando, no fim do dia, volta a seu quarto sombrio, ela testemunha o milagre da vida: um minúsculo broto que, graças à luz, num virar de página, se transforma em uma grande árvore vermelha!
Visitando o site do autor, descobri que ele é um artista completo.
Vejam a "versão brasileira" que elaborei a partir das informações que encontrei por lá, em inglês:
Shaun Tan nasceu em 1974 e cresceu nos subúrbios de Perth, Austrália.
Na escola, ele era conhecido com um "bom desenhista" o que compensava parcialmente o fato de ser sempre o mais baixinho da turma. Ele graduou-se com distinção na universidade de WA, em 1995, simultaneamente, em Artes e Literatura Inglesa e, atualmente, trabalha o tempo todo como um artista freelance e autor, em Melbourne.
Shaun começou desenhando e pintando imagens para histórias de terror e ficção científica em revistas de pequena tiragem, quando ainda adolescente, e, desde então, tem sido mais conhecido pelos livros ilustrados que tratam de temas sociais, políticos e históricos, através de um imaginário surreal e fantástico.
Livros como The Rabbits, The Red Tree (A Árvore Vermelha, único título lançado no Brasil), The Lost Thing e o aclamado romance sem palavras The Arrival, têm sido bastante traduzidos na Europa, Ásia e América do Sul e apreciados por leitores de todas as idades. Ele também trabalha como cenógrafo e trabalhou no cinema para as produções Horton Hears a Who e Wall-E da Pixar. Atualmente, está dirigindo um curta com a Passion Pictures Australia. Seu livro mais recentemente publicado é o Tales from Outer Suburbia.
Ele diz que todo o seu trabalho como ilustrador é baseado, tanto direta quanto indiretamente, na observação pessoal da vida. Ele utiliza a maior parte do tempo possível produzindo uma única pintura, às vezes semiabstrata, mas quase sempre ele desenha coisas bem conhecidas: ruas, parques, praias, pessoas familiares, ou lugares que visitou muitas vezes. Ele é da opinião de que os limites entre "ilustração" e "pintura" são frequentemente tênues. Considera que talvez a principal diferença é que a pintura é mais autossuficiente como ideia pessoal, ou seja, ela é exterior a qualquer outra narrativa.
Agora é com você checar essas informações todas: o site de Shaun Tan é uma delícia de visitar.
A menina ruiva, personagem do livro, é conduzida em meio a imagens que são puro sonho, a partir do despertar em mais um dia sem promessas. Assim, passa a errar por uma cidade surreal e catastrófica, e vê sua esperança esvanecer-se sem explicação. Quando, no fim do dia, volta a seu quarto sombrio, ela testemunha o milagre da vida: um minúsculo broto que, graças à luz, num virar de página, se transforma em uma grande árvore vermelha!
Visitando o site do autor, descobri que ele é um artista completo.
Vejam a "versão brasileira" que elaborei a partir das informações que encontrei por lá, em inglês:
Shaun Tan nasceu em 1974 e cresceu nos subúrbios de Perth, Austrália.
Na escola, ele era conhecido com um "bom desenhista" o que compensava parcialmente o fato de ser sempre o mais baixinho da turma. Ele graduou-se com distinção na universidade de WA, em 1995, simultaneamente, em Artes e Literatura Inglesa e, atualmente, trabalha o tempo todo como um artista freelance e autor, em Melbourne.
Shaun começou desenhando e pintando imagens para histórias de terror e ficção científica em revistas de pequena tiragem, quando ainda adolescente, e, desde então, tem sido mais conhecido pelos livros ilustrados que tratam de temas sociais, políticos e históricos, através de um imaginário surreal e fantástico.
Livros como The Rabbits, The Red Tree (A Árvore Vermelha, único título lançado no Brasil), The Lost Thing e o aclamado romance sem palavras The Arrival, têm sido bastante traduzidos na Europa, Ásia e América do Sul e apreciados por leitores de todas as idades. Ele também trabalha como cenógrafo e trabalhou no cinema para as produções Horton Hears a Who e Wall-E da Pixar. Atualmente, está dirigindo um curta com a Passion Pictures Australia. Seu livro mais recentemente publicado é o Tales from Outer Suburbia.
Ele diz que todo o seu trabalho como ilustrador é baseado, tanto direta quanto indiretamente, na observação pessoal da vida. Ele utiliza a maior parte do tempo possível produzindo uma única pintura, às vezes semiabstrata, mas quase sempre ele desenha coisas bem conhecidas: ruas, parques, praias, pessoas familiares, ou lugares que visitou muitas vezes. Ele é da opinião de que os limites entre "ilustração" e "pintura" são frequentemente tênues. Considera que talvez a principal diferença é que a pintura é mais autossuficiente como ideia pessoal, ou seja, ela é exterior a qualquer outra narrativa.
Agora é com você checar essas informações todas: o site de Shaun Tan é uma delícia de visitar.
quinta-feira, 25 de março de 2010
Quando a televisão acerta na programação
Esse filme é de 2007 e, no Brasil, todo mundo deve ter assistido quando estreou por aqui, no começo de 2008. Menos eu e minha mãe que o vimos, ontem, quando chegou à TV aberta. Adoro esse tipo de coisa que acontece tão raramente na televisão brasileira: programação de qualidade. Quando terminou a Soap Opera preferida de minha mãe, eu estava chegando e, imediatamente, o filme começou. Logo vi que poderia ser um filme para mãe e filho assistirem juntos.
Eu lembro-me, perfeitamente, de ter lido críticas elogiosas a esse filme, quando ele esteve em cartaz nos cinemas.
Aliás, eu assisti quando a roteirista ganhou o Oscar por esse trabalho, naquele ano. Como diz uma amiga minha, às vezes o Oscar acerta. rsrsrs A cena do Oscar foi essa mesma e sabem por que, na minha opinião, Diablo Cody mereceu o prêmio? Porque ela fez minha mãe e eu rirmos juntos ao ouvir as falas inusitadas da adolescente gravidíssima do filme. E que coisa boa a ausência de clichês! Nós, mal acostumados, ficamos de prontidão esperando os clichês possíveis. Por exemplo, a garota apaixonar-se pelo marido do casal que adotaria a criança que ela resolveu entregar para a adoção. Ou que a madrasta não fosse gente boa, fosse do tipo megera ou, ou... Nada disso aconteceu, o roteiro e as falas extraordinárias das personagens conduziram tudo para a felicidade possível diante de uma situação inesperada e que pode acontecer com qualquer um: engravidar na primeira transa, aos 16 anos.
Achei sensacional a garota descobrir que é amada de verdade, quando vê a relação do casal de futuros pais adotivos ruir. Ela diz uma coisa linda para o garoto: eu sei que você gosta de mim porque quando você fala comigo você não fica olhando para a minha barriga, mas para os meus olhos. Simples assim.
Hoje, uma amiga contou-me que uma das críticas negativas que fizeram ao filme, na época de seu lançamento, trazia a opinião de que não existe, na vida real, adolescentes inteligentes como a protagonista. Essa minha amiga (e eu faço coro com ela) não pensa assim: nós é que nos acostumamos a ver o cinema americano construindo adolescentes estúpidos, ao ponto de não reconhecermos uma garota bacana como a do filme.
Eu, como confio na inteligência humana, achei comovente tudo e, sim, o filme mereceu a repercussão que teve na época e que ainda tem, como se comprovou ontem na sua exibição pela televisão. Nem preciso dizer a quem ainda não assistiu ao filme para que corra para uma locadora, não é mesmo?
Eu lembro-me, perfeitamente, de ter lido críticas elogiosas a esse filme, quando ele esteve em cartaz nos cinemas.
Aliás, eu assisti quando a roteirista ganhou o Oscar por esse trabalho, naquele ano. Como diz uma amiga minha, às vezes o Oscar acerta. rsrsrs A cena do Oscar foi essa mesma e sabem por que, na minha opinião, Diablo Cody mereceu o prêmio? Porque ela fez minha mãe e eu rirmos juntos ao ouvir as falas inusitadas da adolescente gravidíssima do filme. E que coisa boa a ausência de clichês! Nós, mal acostumados, ficamos de prontidão esperando os clichês possíveis. Por exemplo, a garota apaixonar-se pelo marido do casal que adotaria a criança que ela resolveu entregar para a adoção. Ou que a madrasta não fosse gente boa, fosse do tipo megera ou, ou... Nada disso aconteceu, o roteiro e as falas extraordinárias das personagens conduziram tudo para a felicidade possível diante de uma situação inesperada e que pode acontecer com qualquer um: engravidar na primeira transa, aos 16 anos.
Achei sensacional a garota descobrir que é amada de verdade, quando vê a relação do casal de futuros pais adotivos ruir. Ela diz uma coisa linda para o garoto: eu sei que você gosta de mim porque quando você fala comigo você não fica olhando para a minha barriga, mas para os meus olhos. Simples assim.
Hoje, uma amiga contou-me que uma das críticas negativas que fizeram ao filme, na época de seu lançamento, trazia a opinião de que não existe, na vida real, adolescentes inteligentes como a protagonista. Essa minha amiga (e eu faço coro com ela) não pensa assim: nós é que nos acostumamos a ver o cinema americano construindo adolescentes estúpidos, ao ponto de não reconhecermos uma garota bacana como a do filme.
Eu, como confio na inteligência humana, achei comovente tudo e, sim, o filme mereceu a repercussão que teve na época e que ainda tem, como se comprovou ontem na sua exibição pela televisão. Nem preciso dizer a quem ainda não assistiu ao filme para que corra para uma locadora, não é mesmo?
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