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quarta-feira, 25 de abril de 2012

Namastê at work


Em todos os dias úteis, quem trabalha vai trabalhar e quando trabalha em um espaço comum, ou seja, no qual se encontram também outras pessoas, essas são as pessoas com as quais se encontrará todos esses dias, inevitavelmente.

Assim sendo, eu sou da opinião que somos responsáveis pelo modo como chegamos no ambiente de trabalho, logo cedo, portanto, como nos apresentamos diante de tais pessoas, tal circunstância já determina, ao menos inicialmente, a relação que se estabelece com esses colegas do ambiente de trabalho em seus desdobramentos.

Muito se fala em etiqueta, em comportamento social no mundo corporativo etc. e tal. Tudo isso pode ser válido, dentro de limites, mas o que vale mesmo é como você se relaciona primeiramente consigo.

Acho mais produtivo, para que entendam do que estou falando, contar o que já me aconteceu em um dia desses.

Eu estava no metrô, indo para o trabalho, quando  encontrei uma grande amiga que, como eu, acredita em anjo da guarda e estávamos conversando acerca da necessidade de entender as pessoas, de não nos aborrecermos por qualquer coisa. Enfim, um papo de gente que deseja ser mais equilibrada etc. e tal.

Cheguei, então, no trabalho, nutrido desse tipo de pensamento, de reflexão, quando encontrei uma colega  minha preocupada com qualquer coisa muito séria que havia acontecido: um problema que dizia respeito às nossas atividades em comum e responsabilidades. Dizia-se aflita e que tínhamos cometido um erro! Algo que, enfim, poderia ser causa de transtornos sem fim, ou seja, um verdadeiro terror!

Babou (Isabelle Huppert), personagem de Copacabana,
nossa inspiração para essa postagem!
 Sua atitude é totalmente Namastê
Ao saber dos liames da situação, calmamente, procurei contorná-la, buscando fazer com que todos compreendessem simplesmente o que acontecera, quando buscamos, então assumir o erro, lamentar o episódio, compreender a causa do equívoco, reiterar o desejo pela melhora nos procedimentos pelos quais somos responsáveis. Tudo simples assim, porque assim é que tinha que ser.

Definitivamente, diante de um aborrecimento eu tenho duas opções apenas: de fato me aborrecer, ou então, fazer a escolha de não me aborrecer.

Estou optando impreterivelmente por essa última.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Entre Ritos e Amores

Para ter o livro
Nessa época do ano, particularmente nessas semanas que antecedem o meu aniversário, sempre observo um acúmulo de trabalho. Evidentemente, não posso e nem devo reclamar disso, pois precisamos mesmo trabalhar.
Assim sendo, para além do expediente no jornal, quando chego em casa, após comer algo, e dar um beijo em minha mãe, volto a sentar-me diante do computador, o que, aliás, eu já fizera o dia inteiro.
Quando digo que não posso reclamar é porque preciso dos frutos desse trabalho e também aprecio o tipo de elaboração que envolve a revisão de textos.
De que elaboração estou falando? Aquela da qual nos fala a Professora Doutora Luciana Salazar Salgado, atualmente professora dos laboratórios de linguística no Departamento de Letras da UFSCar:

(...) é importante notar que o profissional que trabalha sobre os textos autorais não opera como coautor; antes, produz um descentramento do texto-primeiro, que permite ao autor ser um outro desse outro de si que fez anotações pontuais como quem deixa rastros a serem seguidos. Nessas trilhas de leitura explicitadas, são feitas correções gramaticais, estabelecem-se padrões e seguem-se normas, mas esse trabalho vai muito além da ideia de corrigir, padronizar e normatizar.
Diante do material coletado, a questão que muitas vezes se põe é: o que se pretende, afinal, com esse trabalho sobre os textos? Provavelmente garantir que as versões que vão a público sejam consistentes, pois, mesmo que um texto destinado a publicação, como todo texto, por definição, não se feche nunca, sendo renovado a cada leitura, parece possível trabalhar para que certas leituras estejam mais autorizadas que outras, que certos caminhos textuais pareçam mais convidativos, que certas memórias tendam a se atualizar amarrando o texto a uma dada rede de dizeres, identificando-o.
(...)

Justamente hoje abri ao acaso esse livro da linguísta e analista do discurso, Ritos Genéticos Editoriais – Autoria e Textualização, e deparei-me com a passagem acima. Provavelmente, foi devido à experiência da noite passada que pude mais detidamente pensar no quanto essa autora está certa em afirmar que esses escribas (aos quais ela chama de enunciador e o seu coenunciador editorial) trabalham ambos com um ofício que nos confronta fortemente com a condição humana do viver.

Essa noite, por exemplo, avancei trabalhando madrugada adentro e isso devido, evidentemente, ao prazo apertado para a entrega do material. É preciso que também se diga: as pessoas só procuram o profissional de revisão na véspera da “linha morta”, que é como uma outra amiga minha se refere ao que os americanos chamam de dead line, ou seja, o fim do prazo.

De minha parte, busquei esboçar nessa postagem essa minha cenografia discursiva apenas para poder dizer, por fim, que trabalhei nessa ocasião com tanto prazer que, mesmo depois de dormir poucas horas, acordei ainda tão bem disposto que acho que isso só pode ser amor. Amor pelas pessoas, pelo que fazemos por elas e pelo que elas fazem por nós, pelo sentimento legítimo do dever cumprido, e, sim, sobretudo, pelo que há de espiritual em tudo isso: amor pelo amor de Deus!

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O pensamento parece uma coisa à toa


City windows, office people by


Hoje, estou pensando em todos aqueles que trabalham em meio a muitas pessoas: imagine esses escritórios imensos, que tomam todo um andar de um igualmente enorme edifício em alguma cidade, também ela gigantesca, e onde cada qual está em frente a uma máquina.
Toda pessoa ali, ocupando sua célula da organização, terá um mundo inteiro dentro de si, necessariamente: suas memórias, desejos, aspirações, frustrações, alegrias, tristezas, sonhos.

O pensamento de cada um estará ocorrendo e a todo vapor, daquele jeito que ele costuma ser: para alguns, concentrado na atividade que executam, embora com laivos de devaneios, para outros, puro devaneio e apenas em alguma medida concentrado na tal atividade. rsrsrs

Agora, imaginemos alguém que percebe tais pensamentos dos outros e que se encontra ali também, evidentemente, com os seus próprios. Essa pessoa precisa se esforçar por desenvolver o seu modo de não se contaminar pelos pensamentos dos demais.

Como chamaríamos isso?

Como chamamos a esse esforço concentrado na fruição em pensar o bem (para si e para aqueles outros)? Mas também e, ainda, a essa colaboração consentida e solidária para com aqueles que pensam, mais ou menos, na mesma direção? E, por fim, somando-se a esses esforços precedentes, a esse outro: o do esmero na compreensão dessa Necessidade, daqueles que precisam ainda alimentar o pensamento com sentimentos de tristeza, pesar, ódio, inveja, tornando o ambiente pesado e insalubre?

Desconfio que poderíamos chamar a tanto esforço de um fiapo de boa-vontade. De qualquer modo, isso é já alguma coisa mais além desse aquém tão comum.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Law & Love

 Esta semana eu estive fazendo um trabalho de revisão para um material didático e que abordava a questão do Direito e das Leis. O material era bastante extenso e trazia excertos de várias leis instituídas e promulgadas no nosso país: desde a Constituição Federal Brasileira, passando pelo Código Civil, a Consolidação das Leis Trabalhistas. Citava todos esses documentos legais, em diversas passagens, e também o Código de Defesa do Consumidor, o Código Penal, os preceitos de Direito autoral, enfim...
Eu, evidentemente, procurei ser o mais profissional possível, mas devo confessar que em determinada altura da leitura de todas essas leis, eu estava um tanto chocado, por que depois de ler com atenção redobrada cada um dos artigos e parágrafos únicos e alíneas etc., e que compunham alguns desses excertos longuíssimos de leis, eram tantos os horrores!
A verdade é que descobri com muito pesar: estamos todos tão atrasados! Meu Deus!

As leis são tão chocantes! Imaginem que é preciso dizer e por no papel e depois usar nos tribunais, de acordo com a necessidade, discursos como esse:

Art. 1º - Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.
[...]
Art. 20 - Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.
Pena: reclusão de um a três anos e multa.

Mas não é preciso ser tão fatalista, eu também sei que todas as leis são uma tentativa muito lenta e necessária de o ser humano alcançar o amor.
A duras penas, é verdade, mas será assim mesmo, ou seja, dizendo o óbvio para alguns, que construiremos o amor comum e que um dia, oxalá, será para todos.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Quando o bom trabalho é um bem

Outro dia, Laurie Anderson se perguntava de onde veio a ideia de que você é um homem de bem se você trabalha. E também comentou que São Paulo e New York são muito semelhantes por propagarem essa mesma ideia... Eu lembro-me que compreendi e também admirei seu questionamento. Evidentemente, ser um “homem de bem”, nesse sentido clichê da expressão, é até mesmo lamentável. Faz pensar, por exemplo, que poderíamos estabelecer que um desempregado não seja, então, um homem de bem se ele não pode trabalhar? Ou que as pessoas de bem só o possam ser assim se forem esse horror que a palavra inglesa tão bem define: workaholics?
Por outro lado, a mesma Laurie disse que chegou a trabalhar em uma lanchonete do Mc Donald’s: porque queria experimentar ser alguém diferente. Todos nós podemos imaginar o que seja a experiência de alguém que trabalhe no Mc Donald’s, não é mesmo? Não podemos dizer que essa seria uma experiência fácil e, sim, eu conheci pessoas de bem e do bem que viveram essa mesma experiência, inclusive Laurie Anderson! ;-)
O trabalho pode não fazer homens de bem, mas as pessoas do bem, em geral, trabalham. E muito. O melhor que podemos fazer para o nosso bem e para o bem geral é justamente... trabalhar.
Trabalhar estando e sentindo-se bem, trabalhar com o bem, para o bem.
Hoje eu tive um dia de muito trabalho e como eu desejei que tudo se resolvesse bem, e,  quando a tarefa foi considerada cumprida, eu me senti tão bem!
A verdade é que pode ser muito prazeroso você trabalhar e entregar-se à tarefa do trabalho de uma maneira que a representação total do que seja esse trabalho transcenda a própria tarefa.
Então, eu diria, que não precisamos ser artistas para nos realizarmos no trabalho, precisamos encontrar nesse trabalho, qualquer que seja ele, o sentido de uma existência que transcenda o próprio trabalho, esse pelo qual em seu feliz resultado é já parte dessa transcendência, e que, embora poucos possam supor, é a que permite que o nosso trabalho resulte como parte de uma felicidade que já poderia estar lá sempre e para o próprio bem, que é o bem de todos. Isso, aliás, é arte pura! ;-D
E, por falar nisso, a ilustração desse post faz parte de uma exposição que será aberta no próximo dia 23 de outubro, na Caixa Cultural da Praça da Sé, em São Paulo. Trata-se de um trabalho de xilogravura do artista Rubem Grilo (1985-2010). Quando eu visitar a exposição falarei dela por aqui. Eu adoro esse trabalho e esse artista!

quarta-feira, 31 de março de 2010

Sob o mesmo teto

O ambiente de trabalho é como se fosse um depositário da condição humana. Há o convívio diário, sob o mesmo teto, de pessoas que não necessariamente escolheram estar juntas sob esse mesmo teto.

Essa condição é muito parecida com a do casamento. Eu lembro-me quando morei com um amigo em um apartamento. Mesmo que não estivéssemos casados, era como se fôssemos, uma vez que vivíamos  sob o mesmo teto. E o horror do que esse teto pode proporcionar a essas vidas é assustador. Só quem viveu a experiência pode entender as agruras dessa convivência cotidiana de duas almas distintas no mesmo ambiente, dia após dia...
(É claro que não estou considerando os casamentos felizes, a raridade na face da terra)
Pois bem, o mesmo acontece no ambiente de trabalho, quando, então, não são apenas duas pessoas. Dependendo do local, em tal ambiente o número de pessoas pode ser bem maior.
No entanto, a condição da necessidade de ganhar o pão diário assim estabelece, ou seja, que elas estejam ali, juntas, diariamente.
Creio que o princípio da solidariedade humana, bem como o da boa vontade é fundamental nessa circunstância.
Não é possível que o interesse meramente pessoal se sobreponha ao interesse da finalidade a que se submetem todos aqueles que trabalham em qualquer lugar que seja.
No entanto, as pessoas, mutáveis como são, podem variar o temperamento a cada dia.
Uma amiga contou-me que, lá onde ela trabalha, um colega de trabalho foi promovido e se esqueceu das agruras da sua condição anterior, ao ponto de tratar seus subalternos do mesmo modo que ele não gostava de ser tratado quando era subalterno. Importante: Ela estava preocupada porque se destemperou com essa pessoa, agora seu chefe.
Na minha opinião, ela devia, primeiramente, fazer uma prece por ele e procurar ver esse convívio, em sua nova configuração, de um modo completamente diferente.
Eu lhe diria o seguinte, quando ele, por exemplo, me cobrasse com urgência uma resolução impossível :
- Claro, não se preocupe. Estou providenciando. Farei rapidinho.
(Essa fala só funciona se você estiver dizendo isso de verdade e sorrindo. Importante: o sorriso também tem de ser verdadeiro)
Talvez a pessoa em questão não esteja preocupada com aquela finalidade e etc. mas tão somente com o exercício do seu poder conquistado. Damos a ela essa coisa pequena e ficamos em paz. Sem destemperos, sem aflição. Amém.
Caso contrário tudo ficara igual, sem maiores mudanças, sob o mesmo teto. Ou pior, talvez se tenha que mudar de emprego o que, hoje em dia, vamos combinar, nem sempre é fácil.

Esse Liniers não é demais?!

terça-feira, 18 de agosto de 2009

At Work

Em toda profissão haverá os ossos do ofício, o prato de sal, o salve-se quem puder. Sim, não há jeito com isso. Mesmo que a pessoa ame o que faz, tenha prazer em fazê-lo, ou seja, que seja a felizarda e que possa dizer Eu amo o meu trabalho (o que, aliás, para a imensa maioria não é o caso :p).
Eu, de verdade, amo o meu trabalho atual, como amei tantos outros...
Mas é que no meu caso, trata-se de uma tarefa singela, a minha. Ou seja, a de revisão de textos. Digo singela, assim como poderia dizer marginal. E por que escolho tais qualificativos? Para citar entre os inúmeros, apenas dois motivos para tais possíveis nuances do trabalho do revisor: todo aquele que precisa de meus préstimos valoriza o meu trabalho tão somente no tempo efêmero da sua necessidade. E ainda: a tarefa de alquimia, à qual me lanço para que o texto transfigurado surja, ocorre num lugar secreto, de coxia, de bastidor das letras e quando o texto volta para o seu palco (para os holofotes também temporários de sua nova assunção) não se fala mais naquela tarefa ou no tarefeiro que lhe permitiu a configuração textual final: a de texto publicável/publicado.
Assim, o revisor é um profissional que carece de status, rsrsrs
Isso, sinceramente, no meu momento pessoal, também acho que é um bom motivo para eu gostar de atuar como um revisor: é que tenho pânico de Paparazzi!
Um excelente motivo para eu gostar de fazer revisão? Estou o tempo todo aprendendo, estudando, correndo em busca do socorro dos dicionários e gramáticas. Além disso, ser revisor é também uma lição de humildade diante do tempo, posto que a tarefa como que infinita de alterar um texto tem, por sua vez, de ter um fim. Então, é preciso aceitar o momento deadline e dizer: Está bom. (Mesmo que ainda não esteja de todo... ;-D)
Ah, uma outra profissão que eu também gostaria de ter: a de guia turístico nas ilhas da Polinésia Francesa. Quais serão os ossos desse ofício?
E você, quais são os ossos do seu ofício?