Hoje vivi uma experiência fascinante de teatro. Fui assistir ao espetáculo O Poeta e as Andorinhas, no Teatro Imprensa. Eu tinha convidado uma amiga e havia dito que um amigo meu tinha achado o espetáculo muito bom e, além disso, era baseado na obra de Oscar Wilde. Mas era um espetáculo infanto-juvenil, às 16 horas, no sábado. Minha amiga me disse: Você cheirou cola de sapateiro. Oscar Wilde às 4 da tarde?!
Rimos muito e fomos verificar.
A própria filha do Silvio Santos, a Cintia Abravanel, recebe o público no Centro Cultural do Grupo Silvio Santos do qual é diretora. Achei ela muito simpática e depois de ver o espetáculo eu sai com um sentimento de gratidão por essa moça. Percebe-se que seu trabalho é feito com muito amor, carinho e verdade.
A peça é um encantamento, um respeito e um tributo inimaginável ao grande Oscar Wilde.
Trata-se de um primor de junção dos contos de fada que Wilde escreveu, mais a obra O Retrato de Dorian Gray. A cenografia de JC Serroni e os figurinos magníficos e premiados de Leo Diniz são qualquer coisa de deslumbre, de bom gosto e de um cuidado incríveis. As Andorinhas voam o tempo todo!
O texto é amarrado, urdido. É tudo muito doído também. Como diz a Abravanel: travamos contato com aquilo que somos e isso resulta num paradoxo, que mesmo sendo assim tão doído descobrimos o melhor de nós.
Aliás, o melhor da pessoa de Oscar Wilde foi trazido para as crianças e jovens. Ele ensinou a caridade em um dos contos: o do Príncipe Feliz. É extremamente tocante ver a andorinha levar o rubi, as esmeraldas, as folhas de ouro, que cobrem sua estátua, a cada um dos necessitados da cidade.
A rosa vermelha tão desejada, colhida pela entrega de uma andorinha apaixonada; a rosa tão vilmente desprezada pela amada do belo jovem.
A cena do anão se descobrindo um monstro em frente ao espelho e dilacerado de dor por não ter, então, o amor da infanta. E a infanta dizendo que queria um anão sem coração...
O horror do retrato que envelhece no lugar de Dorian Gray, que por fim descobre que mais desejava amar do que ter vivido uma imortalidade vazia...
Quem ainda não foi ver não pode imaginar a experiência vital e a lição perene que Paulo Ribeiro, o responsável pelo texto e diretor do espetáculo, e toda a sua trupe urdiram nas coxias e, majestosamente, trouxeram ao palco.
O poeta, no espetáculo, está sempre engaiolado, uma metáfora riquíssima da experiência terrível de ausência de liberdade que Oscar Wilde sofreu.
É de chorar de emoção. Eu chorei e muitos outros que lotavam o teatro. E tudo isso tem entrada franca.
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sábado, 5 de junho de 2010
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Mais Teatro para o Brasil!
Participar da blogosfera pode ser uma experiência bem mais interessante do que tão somente ter um blog pessoal e, com o risco de tudo o que é pessoal , promover e cultivar a satisfação do próprio ego, ou seja, ser tão egoísta no mundo virtual quanto possamos ser no mundo não virtual.
Um exemplo oposto a esse, é o do que acontece hoje: a blogagem coletiva a favor da, em apoio à Campanha Mais Teatro Brasil! Agradeço ao Alessandro do Livro & Afins por nos chamar a todos para participar.
Vejamos o que acontece. Muitos de nós, por exemplo, que moramos em São Paulo, um dos polos mais desenvolvidos economicamente, podemos participar, estando aqui, do que também acontece no universo da cultura em geral, ou seja, acompanhamos nele esse mesmo gigantesco desenvolvimento, inclusive no número de peças de teatro em cartaz.
Eu contei, em um dos guias de espetáculos e eventos de um jornal da cidade, e ali estão enumerados, só para essa semana, cerca de 80 espetáculos de teatro em cartaz. Isso sem contar os trabalhos de grupos alternativos ou que não dispõem de espaço para a divulgação de suas montagens teatrais em jornais.
Um outro exemplo: no sábado, fui à exposição de Andy Warhol na Estação Pinacoteca e, depois de visitar a exposição, enquanto me encaminhava para o Belas Artes para ver o filme Alice no País das Maravilhas, pude ver o que acontecia na parede do Conjunto Nacional, na Av. Paulista, ou seja, a exposição das fotos de Marcel Gautherot, feitas durante a construção de Brasília, projetadas nas paredes externas do edifício. Portanto, na cidade de São Paulo, a população pode respirar nas ruas, além do ar poluído, as variadas manifestações do universo da cultura.
Em São Paulo, entre as peças em cartaz, há aquelas que, devido ao valor do ingresso, a grande maioria das pessoas não pode comparecer. São os tais musicais a la Broadway, cujos ingressos podem chegar a 200 reais, ou as peças com os atores globais, que também costumam ter seus ingressos caros: acima de 50 reais.
Mas, a maioria das peças, tem o seu preço médio entre 15 e 30 reais. Se a pessoa for estudante, pagará meia-entrada. Além disso, eu também contei, no tal guia cultural foram divulgados dez espetáculos com entrada franca, ou seja, só não vai ao teatro quem não quer. Simples assim.
No entanto, saindo do eixo São Paulo-Rio de Janeiro, esse cenário muda de figura.
Por exemplo, segundo o pessoal que organiza essa campanha, em todo o Estado do Tocantins, cuja população estimada é de 1,250 milhão de habitantes, há apenas uma sala de teatro! E em todo o Estado de Rondônia, cuja população estimada é de 1,5 milhão de habitantes, há apenas três salas de teatro...
E mais: 95% de toda população brasileira nunca esteve em um teatro!
Apenas 16% dos municípios brasileiros têm salas de espetáculos!
Assim sendo, penso que todos devemos apoiar essa campanha sensata.
No site oficial da campanha, você vai encontrar este texto do qual reproduzo aqui o pequeno trecho abaixo, mas mais do que isso você encontrará onde assinar e marcar o seu apoio. Faça isso, por favor!
A Campanha é um grande manifesto nacional que tem como missão fundamental a inclusão sociocultural, educacional e digital, incentivando e disseminando arte, cultura e entretenimento de Norte a Sul do Brasil, tendo como base fundamental o Teatro!
Objetivo da Campanha:
Colher o maior número de assinaturas possível para dar entrada, junto ao Congresso Nacional, num Projeto de Lei de Iniciativa Popular, para que seja obrigatória a construção de um "Centro Integrado de Cultura" em cada município, cuja população seja superior a 25 mil habitantes.
A ideia central é permitir que populações inteiras, que nunca tiveram contato com espetáculos de qualidade, ou mesmo espaços destinados à arte e à cultura – em sua imensa maioria restritas ao eixo Rio - São Paulo –, passem a ter acesso as mais diversas formas de expressão artístico-culturais, fomentando e desenvolvendo entre estas populações, um hábito tão fundamental para a formação do caráter de um povo, como é a cultura!
Para que um país seja justo socialmente, o desenvolvimento humano e social de sua população tem que acompanhar o desenvolvimento econômico do país.
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
Christian Lacroix costumier



Ontem, estive na abertura dessa exposição. Achei emocionante, delirante, impressionante e quantos mais adjetivos, com ou sem o sufixo ante, eu pudesse enumerar. O encantador nesse trabalho é que fica comprovado que Lacroix é um estilista muito apaixonado pelo teatro, pelo espetáculo, pela arte que acontece no palco e os figurinos todos convocam o público a comungar com a magia que por certo cada espetáculo, para os quais os figurinos foram criados, convocavam e o mais interessante é que mesmo agora, em que tais peças também pertencem ao universo do museu, elas, ainda assim, permanecem com a mesma aura de vida recriada para o palco, a aura da mise-en-scène. C'est vraiment incroyable!
A mostra tem curadoria de Delphine Pinasa e reúne aproximadamente 100 figurinos e 80 desenhos originais, criados pelo estilista francês e que já percorreram os principais teatros mundiais, vestindo atores e atrizes em produções de ballet, peças de teatro e óperas.
A mostra tem curadoria de Delphine Pinasa e reúne aproximadamente 100 figurinos e 80 desenhos originais, criados pelo estilista francês e que já percorreram os principais teatros mundiais, vestindo atores e atrizes em produções de ballet, peças de teatro e óperas.
Estão expostos, também, croquis, extratos de vídeos, entre outros.
Data: de 24/08 a 1/11/2009 Local: Museu de Arte Brasileira da FAAP Endereço: Rua Alagoas, 903 – Higienópolis Informações: (11) 3662-7198 De terças a sextas: das 10h às 20h. Sábados, domingos e feriados: das 13h às 17h. Entrada Franca.
Data: de 24/08 a 1/11/2009 Local: Museu de Arte Brasileira da FAAP Endereço: Rua Alagoas, 903 – Higienópolis Informações: (11) 3662-7198 De terças a sextas: das 10h às 20h. Sábados, domingos e feriados: das 13h às 17h. Entrada Franca.
Mais informações: http://www.faap.br/
domingo, 19 de julho de 2009
Os mineiros que estão dançando, divertindo e emocionando nossas crianças


Ontem, uma amiga querida disse-me que precisava ir ver um espetáculo infantil de dança no CCBB. A minha amiga é jornalista e estaria trabalhando: o espetáculo era uma pauta para o caderno de cultura do jornal onde trabalha. Convidou-me, pois era o tipo de expediente que ela adora fazer comigo, ou seja, pura diversão.
Eu topei, tive a intuição de que seria uma coisa boa de se ver. Chegando ao Centro Cultural, as crianças já estavam curtindo a instalação de Flavia Da Rin. (vide Conoces a Flavia Da Rin?) É verdade! O trabalho dela também tem um apelo infantil, inegável. ;D
Entramos no teatro. Tratava-se do espetáculo De Esconder para Lembrar, que tem a direção geral de Marisa Monadjemi, a direção coreográfica de Denise Stutz e cenário e figurino criados pelo artista plástico e ilustrador Marcelo Xavier.
No palco, um grande mural com desenhos infantis ao fundo e um arara com roupas e apetrechos, além de inúmeros coloridos guarda-chuvas abertos no céu do palco. Durante o espetáculo, temos a impressão de que as personagens são crianças que estão se apropriando do guarda-roupa dos adultos para contar histórias e fazer suas brincadeiras.
De fato, a coisa toda é muito divertida, pois as personagens são dinâmicas até não poder mais, com seus trava-línguas, suas cantigas de roda e, claro, a dança, em que os movimentos jocosos faziam as crianças gargalharem (e a mim também!). As sensações que o espetáculo desperta são auxiliadas sempre por um ritmo musical diferente, que surge e transforma o palco. O espetáculo sugere ainda temas como o medo de escuro, de assombrações e as proibições que os adultos impõem às crianças. Tudo começa com uma brincadeira de esconde-esconde. E aí já sabemos que vai dar certo até o fim, porque os bailarinos/atores ganham as crianças de antemão: 1,2,3,15... Posso ir? Nãaao! 150, 235, 521... Posso ir? Póooode!
Há uma cena em que a personagem/menina está contando um episódio corriqueiro de seu mundo infantil e, então, ela vai chamando pessoas para compor o cenário da história ou ser as personagens. Notei que ela chamou apenas uma criança (que seria a serpente atrás da moita) e todos os demais eram adultos e que estavam também na platéia.
Pareceu-me que a mensagem subliminar era evidente: pais, tios, avós, brinquem mais com suas crianças. As crianças propriamente ditas: filhos, sobrinhos, netos e, é claro, a sua própria criança interior.
A lição que me ficou: essa nossa criança não morre nunca, desde que saibamos a essência de esconder para lembrar.
A Meia Ponta Cia de Dança tem nesse espetáculo sua nona montagem. Trata-se de um grupo mineiro, de Belo Horizonte, e que também acaba de receber o 6º Prêmio Usiminas/Sinparc nas categorias de ‘melhor bailarina’ e ‘melhor trilha sonora para espetáculos de dança’.
As apresentações são gratuitas no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, que pretende incentivar a prática da dança e ensinar novas brincadeiras para as crianças, mas eu vi o espetáculo fazendo muito mais do que isso. Ele emociona adultos e crianças. Esses mineiros são de uma delicadeza irreprochável!
As apresentações têm classificação livre e acontecem aos sábados e domingo, às 15h, até 9 de agosto. E os ingressos podem ser retirados no local a partir das 10h do dia do espetáculo.
Mais informações:
Centro Cultural Banco do Brasil – São Paulo
Rua Álvares Penteado, 112 – Centro
Próximo às estações Sé e São Bento do Metrô
(11) 3113-3651 / 3113-3652
www.bb.com.br/cultura
terça-feira, 14 de julho de 2009
The Pilobolus's Shadows

Vá, por favor, até www.metacafe.com/watch/2048357/pilobolus/
Não foi possível trazer o vídeo para cá :p
De qualquer modo, não deixe de ver nesse site um vídeo promocional do Pilobolus: trata-se de uma pequena amostra do espetáculo Dog-ID que acabou de estrear em Nova York.
Beautiful! Beautiful! Beautiful!
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Uma comédia de Emilio Carballido

Nesse domingo, fui ao teatro.
Conheci a montagem de Orinoco, do dramaturgo mexicano Emilio Carballido (1925-2008). Trata-se de um escritor bastante reconhecido como dramaturgo, mas de quem eu nunca tinha ouvido falar.
Acho excelente que tenhamos no mundo tantos artistas e tantos por descobrir. Esse é demais! Seu texto é fortíssimo, intenso, vívido.
Fiquei sabendo, graças a São Google, que Carballido pertenceu a um grupo de escritores conhecido como Generación de los 50, juntamente com outros nomes, Sergio Magaña, Luisa Josefina Hernández, Rosário Castellanos, Jaime Sabines e Sergio Galindo.
Sua primeira peça foi Rosalba y los llaveros, que estreou em 1950. Depois vieram: Un pequeño día de ira (1961), Las cartas de Mozart (1974). Seu maior sucesso foi Rosa de dos aromas (1986). Algumas peças do autor foram adaptadas para o cinema: Rosalba y los llaveros (1954), Felicidad (1956), La danza que sueña la tortuga (1975), El Censo (1977), Orinoco (1984), e Rosa de dos aromas (1989). Além de peças e roteiros para o cinema, Carballido escreveu ainda dois volumes de contos e nove novelas e foi diretor de teatro. Em 1972, recebeu dois prêmios Ariel para o roteiro do filme El Águila Descalza, de Alfonso Arau. Em maio de 2002, recebeu o Ariel de Ouro pelo conjunto de sua obra, que inclui mais de cinquenta filmes. Também é reconhecido o seu trabalho como colaborador no filme Nazarín, de Luis Buñuel (1959).
A montagem a que tive oportunidade de conhecer, como já disse, foi a de Orinoco.
Penso que São Paulo vive um período riquíssimo da cena teatral. A gente de teatro de verdade, e que não está na televisão, proporciona ao seu público montagens bem cuidadas, em que o talento dos atores, da direção e de toda a companhia abre o espaço para a fruição de uma reflexão própria da e propícia na experiência de teatro.
No caso dessa montagem, tudo agrada: o texto é riquíssimo, as soluções de cenário, de rítmo, a atuação e o timing das atrizes, o desenvolvimento das cenas, tudo colabora para a emoção/comoção.
O mais interessante, trata-se de uma comédia, mas em que o patético tem um lugar preponderante. A situação em que se encontram as duas personagens da peça é to-tal-men-te patética: duas cantoras de cabaré, Fifi (Daniela Carmona) e Mina (Bete Dorgam) acordam num barco cargueiro, em pleno rio Orinoco (trata-se de um importante e grande rio que atravessa a Venezuela). Ao acordarem, elas descobrem que estão sozinhas, a tripulação desapareceu, apenas se encontra no mesmo barco um negro esfaqueado (e que nunca aparece em cena, embora seja uma personagem crucial para a trama).
No programa da peça, há um enunciado, cujas frases acompanham o curso de uma imagem de satélite do sinuoso Orinoco:
"Duas atrizes Duas mulheres Duas meninas Um palco Um barco Uma casinha de boneca Um texto Uma metáfora Uma angústia artística."
Aviso aos navegantes: Só vão gostar, de verdade, da peça aqueles que se encantam com o universo feminino, gostam de personagens loucas, "fellinianas", sabem que a vida é difícil e que pode ser desesperadora e, ao mesmo tempo, acreditam que, apesar de tudo, sempre é possível recomeçar e que, portanto, podemos dizer, após cada derrocada, juntamente com Carballido: ainda falta o mais interessante...
Orinoco está em cartaz no Teatro João Caetano (Rua Borges Lagoa, 650 - Vila Clementino – Tel: 5573-3774) Temporada: de 5 de junho a 26 de julho de 2009; sextas e sábados às 21 horas, domingos às 19 horas.
Texto - Emilio Carballido. Tradução: Isadora Ferrite. Direção: Dagoberto Feliz. Elenco: Bete Dorgam e Daniela Carmona. Cenário: Flavio Tolezani. Figurino e adereços: Bruna Lessa. Iluminação: Aline Santini. Trilha Sonora: Dagoberto Feliz. Duração: 90 minutos. Ingressos: R$ 15,00 (inteira) R$ 7,50 (meia-entrada). Classificação etária: 14 anos.
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Personagens de Teatro e de Tchékhov

Ontem, fui ver a última apresentação da peça Réquiem, de Hanoch Lenin, no João Caetano. O texto sem dúvida é belíssimo. Lenin resgata a pureza das personagens de Tchékhov, ele inspirou-se em três contos desse autor ao escrever a peça. Como sofrem e são miseráveis! A limitação das personagens é, por um lado, de ordem socioeconômica, mas aponta para uma limitação mais essencial. A verdade é que o autor está a dizer que vivemos a vida toda enganados, quanto aos nossos desejos e aos dos outros, e será, sempre, muito perto da morte que a vida manifestar-se-á em verdade(s).
Assim, a esposa do marceneiro que constrói caixões sente-se feliz tão somente quando se vê morrendo, para ela esse evento será de liberdade. O marido vai percebendo, muito lentamente, que não viveu como devia, na sua relação com a esposa e com tudo e todos. Mas tudo já é impossível a essa altura... Há desconcerto no mundo e na vida de cada um. Os atores tão jovens estavam tão compenetrados: fizeram tudo com muita vontade, seriedade e amor. Ah, essa gente é gente de teatro, mesmo!
Fica aqui o registro.
Depois da peça, pensei muito também em um conto de Tchékhov chamado Vanka, do livro que estou lendo e cuja capa ilustra esse post. O título do pequenino conto remete ao apelido da personagem principal, um garotinhho de 9 anos e que vive em um regime praticamente de escravidão, como aprendiz de sapateiro. Humilhado e sofrendo com os constantes espancamentos, não aguenta mais a vida que vive, estando onde está. Então, escreve uma carta, escondido, ao avô, que vive longe e é um pobre coitado. O modo como ele termina a carta é de chorar:
"Venha querido vovô" - continuou Vanka - "eu te imploro por Cristo Deus, me leva daqui. Tem dó de mim, órfão infeliz, porque aqui todos me surram, tenho uma fome danada e fico tão triste que nem sei dizer, choro o tempo todo. Um dia desses o dono me bateu na cabeça com uma forma de madeira com tanta força que eu caí e custei a acordar... Minha vida está perdida, vivo pior que qualquer cachorro... E ainda estou mandando cumprimentos a Aliona, ao Iegorka zarolho e ao cocheiro, e não dê minha harmônica para ninguém. Serei sempre seu neto Ivan Júkov, vovô querido, venha."
O conto chega ao fim quando ele põe a carta na caixa de correios, mas, então, já intuímos que ela nunca chegara ao seu destino.
terça-feira, 26 de maio de 2009
Réquiem, de Hanoch Lenin
Adoro quando coincidências são prenúncio de experiências que enriquecem o espírito e fortalecem uma amizade. Ontem, pela manhã, comprei um livro de contos de Anton Tchékhov, uma coletânea de contos intitulada A dama do cachorrinho [e outras histórias], da Coleção L&PM Pocket. Pois bem, à noite, encontro um amigo que me informou estar em cartaz o espetáculo Réquiem, escrito pelo dramaturgo israelense Hanoch Lenin, com base em três contos do escritor russo Anton Tchékhov!
O elenco é formado pelos jovens atores, talentosíssimos, segundo a opinião de todos os que assistiram ao espetáculo: André Blumenschein, Chico Carvalho, Dinah Feldman, Fabrício Licursi, Felipe Schermann, Fernanda Viacava e Priscilla Herrerias.
A direção é de Francisco Medeiros.
A direção é de Francisco Medeiros.
Achei bárbaro, sobretudo, porque o que ele contava-me do espetáculo teatral, ao qual já assistiu umas três vezes, estava em plena sintonia com a leitura que eu estou fazendo daqueles contos.
Se um texto desse quilate pudesse ter uma "sinopse", creio que poderia ser a seguinte:
A peça é dividida em 15 cenas curtas que contam a desilusão de um marceneiro, que faz caixões, quando já velho depara-se com a solidão. Isso ocorre a partir de uma sucessão de perdas e que foi acumulando ao longo da vida. Sobretudo, a morte da mulher, com quem conviveu por 52 anos e com a qual nunca compartilhara afetos. Assim, desencadeia-se um processo de sensibilização dessa personagem, permitindo-lhe encontros que resultarão no enfrentamento da sua própria morte.
Sergio Roveri, que é jornalista e autor teatral, disse simplesmente o seguinte acerca da peça:
Eu não acho que nada na vida seja obrigatório, mas se for possível abrir uma exceção aqui, eu diria que Réquiem é um espetáculo obrigatório.
Confio em ambos, nele e no meu amigo. Assim, vou aceitar a sugestão. Pretendo assistir ao espetáculo no próximo domingo. Ainda mais que o tempo para ver essa preciosidade é curto: a peça que já esteve em cartaz no Centro Cultural São Paulo, reestreiou em abril no Teatro João Caetano e fica em cartaz até esse domingo, 31 de maio.
Portanto, poderá ser vista na próxima sexta (29), sábado (30), às 21 horas e no domingo (31), às 19 horas.
O espetáculo tem duração de 60 minutos.
Sergio Roveri, que é jornalista e autor teatral, disse simplesmente o seguinte acerca da peça:
Eu não acho que nada na vida seja obrigatório, mas se for possível abrir uma exceção aqui, eu diria que Réquiem é um espetáculo obrigatório.
Confio em ambos, nele e no meu amigo. Assim, vou aceitar a sugestão. Pretendo assistir ao espetáculo no próximo domingo. Ainda mais que o tempo para ver essa preciosidade é curto: a peça que já esteve em cartaz no Centro Cultural São Paulo, reestreiou em abril no Teatro João Caetano e fica em cartaz até esse domingo, 31 de maio.
Portanto, poderá ser vista na próxima sexta (29), sábado (30), às 21 horas e no domingo (31), às 19 horas.
O espetáculo tem duração de 60 minutos.
O Teatro João Caetano (438 lugares) fica na Rua Borges Lagoa, 650 – Vila Clementino (próximo à estação Santa Cruz do Metrô). Informações: (11) 5549-1744. A bilheteria abre uma hora antes do espetáculo. Ingresso: R$10,00. ;-D
segunda-feira, 30 de março de 2009
Quando o prestígio é também uma lição

Algumas entrevistas nos ensinam muito sobre a pessoa entrevistada (eventualmente também sobre o entrevistador) e, dependendo de quem é o entrevistado, falam ainda do nosso próprio tempo: ensinam a que tenhamos um olhar modificado sobre o que está acontecendo no nosso mundo e, então, é quando sentimos que aprendemos com aquele depoimento e quase que desejamos ser discípulos daquela personalidade, sobretudo, quando se trata de alguém com inegável prestígio.
Na semana passada, eu assistia ao programa Vitrine, na TV Cultura, e o jovem entrevistador Rodrigo Rodrigues conversava com Jonas Bloch que, além de estar completando 50 anos de carreira, lançava sua biografia, pela Coleção Aplauso da Imprensa Oficial.
Em determinado momento, Jonas Bloch elucidou acerca de uma diferença fundamental no mundo artístico, sobretudo televisivo. Ele dizia: é diferente você ter fama e você ter prestígio. Com isso, ele queria dizer que fama, qualquer pessoa que apareça na televisão brasileira pode conquistar em nossos dias. São aqueles 15 minutos de fama, propriamente, e que os participantes de um tal BBB não cansam de comprovar. Já prestigio é o que você conquista com seu trabalho e é o resultado de anos de dedicação ao ofício.
Ele, Jonas Bloch, é alguém de prestígio e Rodrigo conduziu a entrevista muito cônscio dessa condição do entrevistado. A certa altura, perguntou se Jonas Bloch já tinha tido contato com jovens do meio jornalístico e que, de repente, pudessem demonstrar não saber ao certo quem ele (Bloch) era. Ele disse que devido já estar há 50 anos no meio artístico, bem ou mal, todo mundo sabe quem ele é, porém o que ele já notou foi uma particular falta de respeito com a classe, ou com seus colegas de geração, de um modo geral.
Na semana passada, eu assistia ao programa Vitrine, na TV Cultura, e o jovem entrevistador Rodrigo Rodrigues conversava com Jonas Bloch que, além de estar completando 50 anos de carreira, lançava sua biografia, pela Coleção Aplauso da Imprensa Oficial.
Em determinado momento, Jonas Bloch elucidou acerca de uma diferença fundamental no mundo artístico, sobretudo televisivo. Ele dizia: é diferente você ter fama e você ter prestígio. Com isso, ele queria dizer que fama, qualquer pessoa que apareça na televisão brasileira pode conquistar em nossos dias. São aqueles 15 minutos de fama, propriamente, e que os participantes de um tal BBB não cansam de comprovar. Já prestigio é o que você conquista com seu trabalho e é o resultado de anos de dedicação ao ofício.
Ele, Jonas Bloch, é alguém de prestígio e Rodrigo conduziu a entrevista muito cônscio dessa condição do entrevistado. A certa altura, perguntou se Jonas Bloch já tinha tido contato com jovens do meio jornalístico e que, de repente, pudessem demonstrar não saber ao certo quem ele (Bloch) era. Ele disse que devido já estar há 50 anos no meio artístico, bem ou mal, todo mundo sabe quem ele é, porém o que ele já notou foi uma particular falta de respeito com a classe, ou com seus colegas de geração, de um modo geral.
Ele a ilustrou contando dois episódios.
No primeiro, uma revista convidara a ele e ao elenco de uma novela da qual ele participava na Record e, quando chegaram ao evento, todas as atenções eram dispensadas ao elenco da novela das 8 da Rede Globo. Ele disse até ter enviado uma carta aos tais organizadores da festa protestando em relação ao episódio. Como podia uma coisa dessas? Quando ele está em determinada emissora não lhe é dada atenção, fingem que não o conhecem. E como será quando ele for novamente fazer um trabalho na outra emissora: aí, então, voltarão a lhe dar a devida atenção?
O outro episódio, diz respeito a falta de tato com os atores no interior das próprias emissoras de televisão. Como hoje valoriza-se muito mais a forma física e a beleza dos atores, ele diz ter ouvido um diretor de elenco perguntar a respeito de determinado ator (nomes não foram citados, é claro) como ele "estava" sem camisa. Ele disse ter ficado enojado com o episódio. E eu que já o tinha como um excelente ator e profissional, agora considero Jonas Bloch uma pessoa ainda mais admirável.
No primeiro, uma revista convidara a ele e ao elenco de uma novela da qual ele participava na Record e, quando chegaram ao evento, todas as atenções eram dispensadas ao elenco da novela das 8 da Rede Globo. Ele disse até ter enviado uma carta aos tais organizadores da festa protestando em relação ao episódio. Como podia uma coisa dessas? Quando ele está em determinada emissora não lhe é dada atenção, fingem que não o conhecem. E como será quando ele for novamente fazer um trabalho na outra emissora: aí, então, voltarão a lhe dar a devida atenção?
O outro episódio, diz respeito a falta de tato com os atores no interior das próprias emissoras de televisão. Como hoje valoriza-se muito mais a forma física e a beleza dos atores, ele diz ter ouvido um diretor de elenco perguntar a respeito de determinado ator (nomes não foram citados, é claro) como ele "estava" sem camisa. Ele disse ter ficado enojado com o episódio. E eu que já o tinha como um excelente ator e profissional, agora considero Jonas Bloch uma pessoa ainda mais admirável.
quarta-feira, 18 de março de 2009
A Alma Imoral

A Alma Imoral, com Clarice Niskier, é a adaptação teatral do livro A Alma Imoral, de Nilton Bonder.
No preâmbulo da peça, a atriz nos conta como foi que esse projeto surgiu. Ela disse que acerca de dois anos atrás foi a um programa de televisão divulgar um de seus trabalhos no teatro e, de repente, se viu em um programa em que se debatia religião, uma espécie de mesa redonda da qual participava também o rabino Nilton Bonder.
Em determinado momento, a apresentadora perguntou-lhe qual era a sua religião. Ela respondeu que era de origem judaica, mas que se considerava uma judia budista. Uma telespectadora, chamada Dona Léia, enviou um fax ao programa dizendo: "Minha Filha, você não pode ser judia budista. Ou você é bem judia, ou é bem budista."
Esse é o mote para o surgimento da peça. Quando depois, Clarice conheceu o livro de Bonder, decidiu que o adaptaria ao teatro, mesmo que uma Clarice lembrasse a ela que não era possível: ali não havia apelo dramático. No entanto, a outra Clarice acreditava que sim, que era possível que o livro A Alma Imoral pudesse também ser encenado.
E foi o que ela fez, e nos disse, ainda, que foi esse o modo que encontrou para dar a sua resposta para Dona Léia e que lhe ficara devendo naquela ocasião.
Então, somos convidados a ouvir um dos textos mais encantadores sobre a alma e o porquê de sua imoralidade; sobre religião; sobre a possibilidade de ser gente de verdade nesse mundo.
A alma não é amoral, portanto, sem moral, mas imoral, ou seja, não moral(ista).
Clarice é uma grande atriz.
Seu monólogo é também uma aula, é uma leitura possível de uma obra que trata de questões teológicas e que, no entanto, muito provavelmente, já tinha em si a semente do que poderia, sim, ser dito em um palco, como um drama humano e, assim sendo, teatralmente.
Trata-se de um espetáculo emocionante, verdadeiro e... muito sensível.
Agora, quero ler o livro.
De antemão, recomendo ambos: o livro (que ainda não li) e o espetáculo.
A Alma Imoral está em cartaz, todas as segundas e terças-feiras, às 21 h, no Teatro Eva Herz, até 26/05/09.
Esse é o teatro que fica dentro da Livraria Cultura, no Conjunto Nacional, na Av. Paulista.
No preâmbulo da peça, a atriz nos conta como foi que esse projeto surgiu. Ela disse que acerca de dois anos atrás foi a um programa de televisão divulgar um de seus trabalhos no teatro e, de repente, se viu em um programa em que se debatia religião, uma espécie de mesa redonda da qual participava também o rabino Nilton Bonder.
Em determinado momento, a apresentadora perguntou-lhe qual era a sua religião. Ela respondeu que era de origem judaica, mas que se considerava uma judia budista. Uma telespectadora, chamada Dona Léia, enviou um fax ao programa dizendo: "Minha Filha, você não pode ser judia budista. Ou você é bem judia, ou é bem budista."
Esse é o mote para o surgimento da peça. Quando depois, Clarice conheceu o livro de Bonder, decidiu que o adaptaria ao teatro, mesmo que uma Clarice lembrasse a ela que não era possível: ali não havia apelo dramático. No entanto, a outra Clarice acreditava que sim, que era possível que o livro A Alma Imoral pudesse também ser encenado.
E foi o que ela fez, e nos disse, ainda, que foi esse o modo que encontrou para dar a sua resposta para Dona Léia e que lhe ficara devendo naquela ocasião.
Então, somos convidados a ouvir um dos textos mais encantadores sobre a alma e o porquê de sua imoralidade; sobre religião; sobre a possibilidade de ser gente de verdade nesse mundo.
A alma não é amoral, portanto, sem moral, mas imoral, ou seja, não moral(ista).
Clarice é uma grande atriz.
Seu monólogo é também uma aula, é uma leitura possível de uma obra que trata de questões teológicas e que, no entanto, muito provavelmente, já tinha em si a semente do que poderia, sim, ser dito em um palco, como um drama humano e, assim sendo, teatralmente.
Trata-se de um espetáculo emocionante, verdadeiro e... muito sensível.
Agora, quero ler o livro.
De antemão, recomendo ambos: o livro (que ainda não li) e o espetáculo.
A Alma Imoral está em cartaz, todas as segundas e terças-feiras, às 21 h, no Teatro Eva Herz, até 26/05/09.
Esse é o teatro que fica dentro da Livraria Cultura, no Conjunto Nacional, na Av. Paulista.
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