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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Francis Ponge e a Chuva

Eu já falei deste livro por aqui, quando o ganhei. É uma verdadeira joia preciosa. E, nessa Antologia da Poesia Francesa, organizada e traduzida por Claudio Veiga, podemos encontrar este poeta: Francis Ponge (1899-1988), um poeta que participou da Resistência Francesa!
Eu considero uma das coisas mais belas da história da humanidade, na tragédia que foi a segunda guerra, a Resistência Francesa e, sempre que conheço uma nova personagem que participou dessa empreitada, eu me curvo e a saudo com louvor.

Esse poeta conheci assim: ao abrir ao acaso a magnífica antologia (o livro fica na minha cabeceira e, quando preciso de poesia para voltar a respirar, eu o abro).
Fiquei fascinado por essa delicadeza e simplicidade, de um poeta que (imaginem!) descreve a Chuva!

Quero compartilhar esse singelo poema.

Atenção! Alerto que é coisa fina e para leitores finos, portanto, com muita, muita sensibilidade! ;-)

Se você quiser conhecer outra tradução do mesmo poema , além de outros pequenos poemas que falam desse cotidiano e das coisas simples, como somente Ponge pode nos falar a respeito, visite esse link também.



PLUIE

La pluie, dans la cour où je la regarde tomber, descend à des allures très diverses. Au centre c'est un fin rideau (ou réseau) discontinu, une chute implacable mais relativement lente de gouttes problablement assez légères, une précipitation sempiternelle sans vigueur, une fraction intense du météore pur. À peu de distance des murs de droite et de gauche tombent avec plus de bruit des gouttes plus lourdes, individuées. Ici elles semblent de la grosseur d'un grain de blé, là d'un pois, ailleurs presque d'une bille. Sur des tringles, sur le accourdoirs de la fenêtre, la pluie court horizontalement tandis que sur la face inférieure des mêmes obstacles elle se suspend en berlingots convexes. Selon la surface entière d'un petit toit de zinc que le regard surplombe elle ruisselle en nappe très mince, moirée à cause de courants très variés par les imperceptibles ondulations et bosses de la courverture. De la gouttière attenante où elle coule avec la contention d'un ruisseau creux sans grande pente, elle choit tout à coup en un filet parfaitement vertical, assez grossièrement tressé, jusqu'au sol où elle se brise et rejaillit en aiguillettes brillantes.
Chacune de ses formes a une allure particulière; il y répond un bruit particulier. Le tout vit avec intensité comme un mécanisme compliqué, aussi précis que hasardeaux, comme une horlogerie dont le ressort est la pesanteur d'une masse donnée de vapeur en precipítation.

CHUVA

A chuva, no pátio onde a vejo cair, desce de maneira muito desigual. No centro é uma tênue cortina (ou rede) esgarçada, uma queda implacável, mas relativamente lenta de gotas provavelmente levíssimas, uma precipitação sempiterna sem vigor, uma fração intensa de meteoro puro. A pouca distância das paredes direita e esquerda, caem com mais ruído gotas mais pesadas, autônomas. Aqui parecem do tamanho de um grão de trigo, ali, de uma ervilha, mais adiante, quase de uma bola de gude. Nos encostos e nos peitoris da janela, corre a chuva horizontalmente, enquanto na face inferior dos mesmos obstáculos pende como caramelos convexos. Conformando-se à superfície inteira de um pequeno telhado de zinco que o olhar domina, escorre em finíssimo lençol, ondeado por causa de mui variadas correntes devidas a imperceptíveis ondulações e bossas da cobertura. Da bica adjacente, onde ela corre com a moderação de fundo regato sem declive acentuado, cai, de repente em filete perfeitamente vertical, entrelaçado bem grosseiramente, até o solo onde se despedaça e esguicha como agulhas brilhantes.
Cada uma de sua formas tem um jeito particular; responde-lhe um ruído próprio. O todo vive intensamente como complicado mecanismo, tão preciso quanto aleatório, como um relógico cuja mola é o peso de certa massa de vapor em precipitação.

Magnifique!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Aluno atarefado

Estou ocupadíssimo essa semana e, então, meu blog querido ficou navegando no mar da web abandonado por quatro dias! O mais engraçado é que isso tem a ver com a aproximação das festas de fim de ano: onde trabalho, elas são motivo de agitação.

Além disso, estou também no final do semestre escolar. E preparo dois trabalhos, para duas diferentes disciplinas. Uma delas trata da Psicologia da Educação. Como nossa professora trabalhou conceitos da psicanálise e fez uma introdução acerca de Freud, nesse trabalho, que irei apresentar para a disciplina, devo utilizar tais conceitos na análise e leitura que eu promover acerca de um tema. A professora sugeriu que ficássemos livres para trabalhar e escolher uma obra literária ou do mundo de cinema, por exemplo.

Ao decidir-me acerca do que eu ia fazer, lembrei-me que certa vez um amigo ficou "bravo" comigo porque eu consegui estabelecer uma relação de sentido entre O ser e o Tempo, de Heidegger e uma música, um hit na verdade, do conjunto brasileiro de roque chamado Sepultura. rsrsrs

Ainda no sábado, eu dizia em um sarau, que tinha ouvido uma canção do Mika, um pop star britânico, que me lembrara uma importante lição da psicanálise: a de que o sofrimento de nossa neurose leva-nos ao divã, onde muito simplesmente descobrimos que não somos culpados, mas que tampouco somos inocentes e, portanto, a questão toda está apenas em como viver com isso.

A canção do Mika que me despertou a associação é Blame it on the girls. rsrsrs

No meu trabalho para aquela disciplina, não vou utilizar essa canção, claro! Vou fazer um ensaio em que aproximo o que Freud diz no Capítulo V de O mal-estar da civilização e o que Baudelaire nos sugere em seu poema L'Irréparable (O irreparável), que pertence à obra As Flores do Mal.

Vou partilhar aqui meu primeiro parágrafo desse ensaio e que ainda estou escrevendo:

Em O mal-estar da civilização, Freud afirma: "O trabalho psicanalítico nos mostrou que as frustrações da vida sexual são precisamente aquelas que as pessoas conhecidas como neuróticas não podem tolerar." A primeira reação que um leitor comum terá diante dessa afirmação - e estou pensando em alguém que jamais tenha ouvido falar em psicanálise e, portanto, não saiba que a teoria psicanalítica afirma que somos todos ao menos neuróticos - será necessariamente, ou muito provavelmente, uma reação de perplexidade. Sim, pois como pessoa neurótica que é, ela terá que concordar com o fato das frustrações da vida sexual serem intoleráveis, e simultaneamente irá descobrir-se, portanto, como fazendo parte desse grupo de pessoas que a psicanálise diz conhecer como neuróticas.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Jacques Prévert


Hoje, ganhei um livro precioso, trata-se de uma Antologia da Poesia Francesa, edição bilíngue, organizada por Cláudio Veiga, um Doutor em Letras e professor emérito da Universidade Federal da Bahia. Esse seu trabalho é muito apreciado e foi premiado pela Academia Francesa. Imaginem que ele reuniu poetas da cultura francesa e seus poemas desde o século IX até o século XX!
Jacques Salah, amigo do professor, diz que Veiga consagrou quase vinte anos nesse trabalho e muito simplesmente o descreve como um labor beneditino ao qual o Prof. Cláudio Veiga consagrou os seus mais legítimos instantes de lazer.
Estou apreciando tudo: a edição, seu responsável e seu trabalho de tradução e, sobretudo, o inusitado da experiência de poder conhecer poetas e poemas tão antigos, dessa cultura francesa que tanto admiro.
Ao abrir o volume, para experimentar a surpresa do que primeiro surgiria diante dos meus olhos, fiquei conhecendo um poema de alguém que eu já admirava: Jacques Prévert (1900-1977). Eu sei que ele foi roteirista e fez diálogos de grandes filmes franceses como os realizados por Jean Renoir e Marcel Carné e também que ele é o compositor da linda canção Les Feuilles Mortes, que foi muito famosa na voz de Ives Montand e que, além disso, pode ser ouvida na voz da magnífica Piaf. Soube ainda, por um amigo, que Serge Gainsbourg compôs uma música chamada La chanson de Prevért que faz referência àquela canção, mas essa eu ainda não conheci. ;-(

Vejam que poema delicadíssimo de Prévert, o primeiro que li nessa coletânea:

LE CHAT ET L'OISEAU
Un village écoute désolé
Le chant d'un oiseau blessé
C'est le seul oiseau du village
Et c'est le seul chat du village
Qui l'a à moitié dévoré
Et l'oiseau cesse de chanter
Le chat cesse de ronronner
Et de se lécher le museau
Et le village fait à l'ouseau
De merveilleuses funérailles
Et le chat qui est invité
Marche derrière le petit cercueil de paille
Où l'oiseau mort est allongé
Porté par une petite fille
Qui n'arrête pas de pleurer
Si j'avais su que cela te fasse tant de peine
Lui fit le chat
Je l'aurais mangé tout entier
Et puis je t'aurais raconté
Que je l'avais vu s'envoler
S'envoler jusqu'au au bout du monde
Là-bas où c'est tellement loin
Que jamis on n'en revient
Tu aurais eu moins de chagrin
Simplement de la tristesse
Et des regrets
Il ne faut jamais faire
Le choses à moitié

O GATO E O PASSARINHO
Um povoado entristecido
Escuta um pássaro ferido
Só havia aquele passarinho
E no povoado aquele gato
Que o devorou pela metade
E o passarinho não canta mais
O gato deixa de rosnar
E de lamber o seu focinho
E tem da aldeia o passarinho
Maravilhoso funeral
E o gato que foi convidado
Segue atrás do caixãozinho de palha
Em que se estende o morto passarinho
Que uma garota carrega
Chorando sem parar
Se eu soubesse que isto te causaria tanta dor
Lhe diz o gato
Tê-lo-ia comido todo
E em seguida te contaria
Que o vi fugir voando
Voando para o fim do mundo
Lá longe e tão distante
Que de lá ninguem voltou
Terias bem menor desgosto
Alguma tristeza somente
E um pouco de saudade
Não se deve fazer
Nada pela metade.

Não é uma delicada fábula avec un peau de perversité? ;-D