
Hoje, ganhei um livro precioso, trata-se de uma Antologia da Poesia Francesa, edição bilíngue, organizada por Cláudio Veiga, um Doutor em Letras e professor emérito da Universidade Federal da Bahia. Esse seu trabalho é muito apreciado e foi premiado pela Academia Francesa. Imaginem que ele reuniu poetas da cultura francesa e seus poemas desde o século IX até o século XX!Jacques Salah, amigo do professor, diz que Veiga consagrou quase vinte anos nesse trabalho e muito simplesmente o descreve como um labor beneditino ao qual o Prof. Cláudio Veiga consagrou os seus mais legítimos instantes de lazer.
Estou apreciando tudo: a edição, seu responsável e seu trabalho de tradução e, sobretudo, o inusitado da experiência de poder conhecer poetas e poemas tão antigos, dessa cultura francesa que tanto admiro.
Ao abrir o volume, para experimentar a surpresa do que primeiro surgiria diante dos meus olhos, fiquei conhecendo um poema de alguém que eu já admirava: Jacques Prévert (1900-1977). Eu sei que ele foi roteirista e fez diálogos de grandes filmes franceses como os realizados por Jean Renoir e Marcel Carné e também que ele é o compositor da linda canção Les Feuilles Mortes, que foi muito famosa na voz de Ives Montand e que, além disso, pode ser ouvida na voz da magnífica Piaf. Soube ainda, por um amigo, que Serge Gainsbourg compôs uma música chamada La chanson de Prevért que faz referência àquela canção, mas essa eu ainda não conheci. ;-(
Vejam que poema delicadíssimo de Prévert, o primeiro que li nessa coletânea:
LE CHAT ET L'OISEAU
Un village écoute désolé
Le chant d'un oiseau blessé
C'est le seul oiseau du village
Et c'est le seul chat du village
Qui l'a à moitié dévoré
Et l'oiseau cesse de chanter
Le chat cesse de ronronner
Et de se lécher le museau
Et le village fait à l'ouseau
De merveilleuses funérailles
Et le chat qui est invité
Marche derrière le petit cercueil de paille
Où l'oiseau mort est allongé
Porté par une petite fille
Qui n'arrête pas de pleurer
Si j'avais su que cela te fasse tant de peine
Lui fit le chat
Je l'aurais mangé tout entier
Et puis je t'aurais raconté
Que je l'avais vu s'envoler
S'envoler jusqu'au au bout du monde
Là-bas où c'est tellement loin
Que jamis on n'en revient
Tu aurais eu moins de chagrin
Simplement de la tristesse
Et des regrets
Il ne faut jamais faire
Le choses à moitié
O GATO E O PASSARINHO
Um povoado entristecido
Escuta um pássaro ferido
Só havia aquele passarinho
E no povoado aquele gato
Que o devorou pela metade
E o passarinho não canta mais
O gato deixa de rosnar
E de lamber o seu focinho
E tem da aldeia o passarinho
Maravilhoso funeral
E o gato que foi convidado
Segue atrás do caixãozinho de palha
Em que se estende o morto passarinho
Que uma garota carrega
Chorando sem parar
Se eu soubesse que isto te causaria tanta dor
Lhe diz o gato
Tê-lo-ia comido todo
E em seguida te contaria
Que o vi fugir voando
Voando para o fim do mundo
Lá longe e tão distante
Que de lá ninguem voltou
Terias bem menor desgosto
Alguma tristeza somente
E um pouco de saudade
Não se deve fazer
Nada pela metade.
Não é uma delicada fábula avec un peau de perversité? ;-D