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quinta-feira, 10 de março de 2011

Ver o mundo e ainda sorrir

Contei esse episódio da minha manhã em uma nota lá no facebook mas como ninguém se manifestou, vou repetir o feito por aqui, porque eu me alegrei com o resultado feliz do episódio:
Hoje, fui a um Consultório Odontógico por que uma restauração de um dente, o vizinho do canino, se rompera.
Quando lá cheguei, a funcionária da recepção informou-me que ali não poderia ser providenciado um curativo emergencial, pois, em uma primeira consulta, apenas se faria uma avaliação, da qual o resultado teria de ser submetido ao Convênio Odontológico para posterior aprovação dos procedimentos necessários.
Fiquei penalizado com essa informação, mas achei melhor não manifestar meu desagrado, de imediato, e aguardar a Dentista.
Quando ela chegou e começou o atendimento, eu lhe disse:
- Estou muito aborrecido por que sua funcionária me informou que não lhe será possível fazer um curativo nesse dente rompido e, assim, terei que permanecer sem sorrir para as pessoas, e, portanto, continuar ainda parecendo ser uma pessoa séria demais ou triste, o que, definitivamente, não combina comigo... [rsrsrs]
Não é que a simpática Dentista, depois de me ouvir, achou por bem fazer o tal curativo? ;-)

Assim sendo, sai todo feliz do consultório e fui a uma galeria de arte, a da Caixa Cultural, na Praça da Sé, 111, pertinho do meu local de trabalho. Fui conferir a exposição do fotógrafo paulistano, German Lorca: olhar-imaginário.
Embora ocorram três exposições simultâneas de fotografia na galeria, foi a de Lorca a que mais me impressionou. Não sei se por que as 57 imagens que estão expostas são em PB [adoro fotografia em P&B]; ou, ainda, se por que elas recobrem diferentes períodos de toda a carreira do importante e conceituado fotógrafo; se por que ele foi um precurssor da fotografia experimental no país, com infuência do surrealismo e concretismo, ou seja, mais do que retratar, documentalmente, ele sempre procurou criar e imaginar situações, ou seja, o seu olhar é o de um artista, vigoroso e sensível, aliás, como sói serem essas criaturas sempre.

Então, por que será, não é mesmo? rsrsrs

Vejam, por essas imagens que selecionei, o que lhes aguarda lá na exposição e não deixem de ir, vocês terão mais de um motivo para sorrir, saindo de lá. Eu tive inúmeros.






sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Lágrimas de São Pedro


...é como se tivéssemos o poder de pausar a chuva, uma chuva de gotas grandes,
limpas, transparentes, leves, para com isso podermos contemplar sua beleza,
seu poder, seu símbolo, sua necessidade.

No catálogo da exposição dessa instalação, lemos o depoimento acima e somos informados que Vinicius S.A. é um artista jovem, nascido em 1983, e que é soteropolitano: ele nasceu em Salvador, capital do estado da Bahia.
O artista tem uma carreira de prestígio na sua terra natal, desde que ingressou na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia, pois, apenas um ano depois do seu ingresso na universidade, sua primeira exposição foi essa instalação Lágrimas de São Pedro – acalento ao sertão nordestino, que lhe valeu uma menção especial do Salão Regional de Artes Visuais da Bahia, em Feira de Santana. Desde então, essa instalação já ocorreu em Salvador, Brasília, Curitiba e, agora, chega a São Paulo.


No mesmo catálogo, também somos informados que tal projeto é uma reminiscência do sertão nordestino, origem de sua mãe, que nasceu na Chapada Diamantina. O artista entende que o morador da zona rural nordestina tem uma relação sagrada com a chuva, o que, evidentemente, todos nós podemos compreender.
Desde criança, Vinicius estava acostumado a construir objetos para recreação, utilizando-se de descartes de empreendimentos de construções mobiliárias num bairro em expansão de Salvador, onde fora viver na companhia do pai. E, então, temos nessa instalação essa síntese belíssima, em que lâmpadas descartadas, “queimadas”, são reaproveitadas e transformam-se nas gotas da chuva que se estende do alto do vão octogonal do Mezanino da Galeria da Caixa Cultural São Paulo, até próxima ao chão.
Sempre admirei esses artistas que conseguem na simplicidade de um árduo trabalho nos proporcionar uma síntese poética do seu modo de entender os milagres do mundo!

Não perca. A exposição fica em cartaz até o dia 20 de fevereiro do próximo ano.
A Caixa Cultural São Paulo fica na Praça da Sé, 111.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

OcaMaloca

Hoje aconteceu uma coisa ótima! Na minha hora de almoço, fui até a Galeria da Caixa Cultural na Praça da Sé. Foi uma visita cheia de surpresas.
Primeiro, porque na entrada da galeria eu, distraidamente, esbarrei em uma escultura que estava tomando a entrada. Quando eu a olhei, quem era? A portadora de perfumes de Victor Brecheret. Eu tinha batido o ombro no joelho da moça. Eu quase não acreditei! Eu sou apaixonado por essa escultura em bronze patinado, que é imensa (331,5 x 100 x 87 cm) e que data de 1923. Eu nunca tinha visto a escultura, pessoalmente, apenas por fotos. Ela pertence ao acervo do Museu Nacional de Belas Artes e está na exposição itinerante Coleção de Escultura da República à contemporaneidade. Hoje, só foi possível eu ver essa, que está do lado de fora da galeria, e não as demais.
É que eu tinha ido até lá para ver a OcaMaloca , de Maria Tomaselli & João Melquíades.
E, então, outra surpresa: quando entrei no interior da OcaMaloca, dois policiais militares, estavam visitando a exposição e curtindo! E eu também entendi o porquê. É que a proposta, conta-nos Maria Tomaselli, nasceu quando ela viu uma criança tentando abrir um objeto-pintura-escultura de uma outra exposição que ela fizera. Ela conta que parecia que a criança queria entrar na obra. E então ela pensou: “Como sou burra!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Era óbvio que isso tudo levava a uma tenda, cabana, Oca!!!!!!!!!”
Ela, então, passou a criar “essa ideia do quadro sem frente nem verso, do quadro universo”.
O interessante é que ela contou com a ajuda de um pedreiro que tinha grandes habilidades de carpintaria e que bolou junto com a artista a estrutura da Oca: o João Melquíades.
É simplesmente maravilhosa a proposta. Você retorna à infância estando no interior da Oca. Quem não acharia ótimo, sendo criança ou não, abrir os cerca de 40 segredos encerrados nas caixinhas, portinhas, tampas, nichos e que cobrem as paredes do interior da Oca? Vários artistas amigos colaboraram, e são os trabalhos deles que vemos "nesses interiores" do interior da Oca, como Iberê Camargo e a artesã pernambucana Dona Dalva.
Há algo muito profano e mesmo erótico ali, mas eu diria que também há qualquer coisa de sagrado, sobretudo porque é como se você estivesse em um útero, no entanto, sem deixar de estar em... uma Maloca. Ou seja, eles construíram um lugar que é mesmo simulacro do mundo, onde a vida se encontra e a experiência humana se dá, seja ela de que natureza for: pode ser a minha, a dos policiais ou a até a de uma portadora de perfumes. ;-)
A OcaMaloca acontece na Caixa Cultural, da Praça da Sé, 111, até 17 de outubro - de terça a domingo, das 9h às 21h.
Visitadas mediadas para grupos. Informações (11) 3321-4400
Entrada Franca

terça-feira, 27 de julho de 2010

oceano invadido

Outro dia eu falei aqui Save the Whales. Divulgando a campanha contra o horror de quererem voltar a legalizar a caça comercial às baleias pela primeira vez em uma geração.Uma amiga, ao fazer um comentário na postagem, deixou-me um link para eu ver uma campanha publicitária que tem a baleia como principal personagem, juntamente com uma orquestra de jovens músicos. Beautiful, beautiful, beautiful! Como às vezes acontece, mesmo que raramente, uma peça publicitária pode ser de uma delicadeza sem igual e é o caso dessa, ou seja, não tem como você não chorar de emoção.
Quando eu falava outro dia da exposição Drop Shots e da importância de elaborarmos cada vez mais e melhor nossa relação com a água, um amigo, também em comentário, recomendou-me ir ver a instalação oceano invadido, na Caixa Cultural da Praça da Sé. Eu fui.

Qual não foi minha surpresa ao adentrar no vão octogonal do mezanino da Caixa Cultural: deparei-me com uma enorme baleia Jubarte, flutuando no centro desse espaço. A estrutura da baleia é toda feita em arame e recoberta com retalhos plásticos. Também as anêmonas, distribuídas no chão e sob as quais podemos sentar, sugerem esse sofrimento que é, para os seres marinhos, conviver com todo o lixo que os humanos lançam nos oceanos.

O grande problema é o plástico! Tal produto, que possui características como durabilidade, estabilidade e resistência a desintegração, causa um impacto imenso em todos os oceanos do planeta, uma vez que pode não desintegrar-se por inúmeras gerações. Aliás, segundo o Programa Ambiental da ONU, existem 46.000 fragmentos de plástico para cada 2,5 km², isso faz com que ele seja responsável por 70% da poluição marinha por resíduos sólidos. As vítimas dessa verdadeira hecatombe são as diversas espécies de vida animal, entre répteis, pássaros, mamíferos e peixes.

Para mim, a pièce de resistance da instalação é a projeção de um vídeo sobre uma grande esfera instalada no chão, à esquerda de quem entra e que, muito singela e didaticamente, mostra o ciclo percorrido por uma sacolinha de plástico (essas de supermercado), desde o momento que é levada pelo vento até a boca de um bueiro em direção ao seu destino final. É uma verdadeira lição e como disse o meu amigo é preciso ver para que tomemos alguma iniciativa no movimento contrário a esse estado de coisas.
Eu fiquei com vontade de chorar e pensei: My Gosh, será que existe quem ainda não tenha entendido a necessidade de se utilizar uma eco bag ?
É pouco eu sei, mas pelo menos isso. Vamos parar com a irresponsabilidade de jogar plástico nas ruas, no bueiros. Tudo isso vai ter como destino final o mar e resultar na extinção de seres que nem mesmo chegamos a conhecer. Triste assim!

oceano invadido
instalação imersiva do estúdio bijari
criação e produção:
estúdio bijari - http://www.bijari.com.br/
Período: de 17 de julho a 29 de agosto de 2010
horário: de terça-feira a domingo, das 9h às 21h.
local: CAIXA Cultural São Paulo (Sé) - Galeria Octogonal - Praça da Sé, 111 – Centro – São Paulo/SP
informações, agendamento de visitas mediadas e translado (ônibus) para escolas públicas: (11) 3321-4400
entrada franca

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Igrejas de Madeira do Paraná


Quem trabalha no centro de São Paulo e quer estar retirado por alguns minutos dos excessos desse centro aturdido que é o da nossa cidade, muito irá ganhar se visitar a exposição Igrejas de Madeira do Paraná. A princípio, tão somente, por que você irá se sentir em um outro mundo.
De calma, serenidade e fé sincera. O mais marcante é a singeleza do gesto de quem construiu as igrejas como marcos de saudade, como exercícios de reiteração da identidade de cada cultura ali espelhada.
Tais igrejas estão na zona rural do Paraná. A arquiteta Maria Cristina Wolff de Carvalho nos conta, no catálogo, que os imigrantes europeus, no XIX, tinham pressa em erguê-las, daí serem de madeira. Segundo ela, tal pressa era justificada porque essas pessoas estavam isoladas em pequenas propriedades distantes umas das outras e as igrejas significavam a possibilidade de reunião, de troca de experiências e notícias, de encontros e namoro (...) Nelas se davam os ritos de passagem e, em suma, toda a vida social do grupo.
Elas são também um encanto para os olhos. E o mais surpreendente é que estão tão conservadas. Chamou-me a atenção os vasos de samambaias no interior de algumas delas. Samambaia combina com Igreja que é uma beleza. ;-D Penso que somente ao retratar tamanha fragilidade com amor, como o fez Nego Miranda, é que se pode alcançar esse brilho na simplicidade e que nos revela a riqueza da devoção desse povo.
A exposição está na Caixa Cultural, da Praça da Sé.






 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

quarta-feira, 17 de março de 2010

Irina Ionesco - Espelhos de Luz e Sombra

Algo muito importante está acontecendo na Caixa Cultural São Paulo. Estou falando da exposição Espelhos de Luz e Sombra, da fotógrafa francesa Irina Ionesco. A trajetória da artista foi bastante singular. Bailarina, sofreu um acidente e interrompeu a carreira. Então, ganhou uma Nikon, nos idos de 1968, e isso, segundo ela, foi como um "acaso objetivo" o que resultou em um caminho que se abriu como sói acontecer com os caminhos "incubados pelo desejo".

Vejam ainda o que ela nos diz no último parágrafo do texto publicado no portfólio Irina Ionesco Elle-même. Ed. PTYX, Tóquio, 1996, traduzido por Betch Cleinman para o catálogo da exposição na Caixa Cultural São Paulo:

Recebi esta câmera como um mistério. E é, graças a essa mulher, jovem linda e louca, que vivia trancada em um quarto faustuoso, sentada a maior parte do tempo na frente de uma penteadeira psyché composta de três espelhos ovais, onde ela se refletia penteando incansavelmente sua cabeleira luxuriante, que comecei a usar a Nikon F. Calada, assim ela ficava... às vezes ela falava, contando-me do seu desejo de ser bela e de poder congelar sua imagem, impedindo-a de se desfazer. Foi assim que nasceu em mim o imperioso desejo de utilizar a Nikon. Eu lhe propus um dia de primavera de sair de sua tebaida, de vir até a minha casa. Então, eu a enfeitei, a maquiei, eu a criei. E através desse terceiro olho, ela pareceu maravilhosa e imortal... Foi a minha primeira fotografia de mulher. As da minha filha Eva também serviram no início para reter o tempo e o momento presente. A alquimia da lembrança constitui a trama do meu trabalho.


Odalisque, 1980
Le Destin, 1975
Icône Byzantine, 1978
Roumanie, 1977
Jocelyne, 1974
Eva à la Plume, 1978

Depois de ver os quadros, pude assistir a um documentário em que Irina aparece falando. Algo que retive, de tudo o que ouvi, foi quando ela nos conta que as imagens que ela cria, inclusive toda essa produção para as modelos, são um modo de se relacionar com as pessoas que amou, seu pai, sua mãe, e que ela não tem controle sobre o resultado dessas imagens: ela diz que se sente como uma médium, enquanto está trabalhando. Então, eu compreendi tudo, todo o trabalho. Só por ouvir esse fragmento de sua fala. Havia mesmo ali qualquer coisa que me parecia algo imaterial, etéreo e fantasmagórico, incluído aí o barroquismo de certas encenações fotográficas.

Se eu fosse vocês, eu iria correndo ver a esse espetáculo, o de uma mulher que está falando de um outro lugar, que não o meramente banal e cotidiano. Por isso só, a experiência de conhecer tais imagens já é fascinante.

Um detalhe que eu também achei revelador e meigo: A primeira foto é de um gatinho (um felino) e temos ao lado da foto essa inscrição - Esta exposição é dedicada à memória de Brousse, mon amour.

Irina Ionesco - Espelhos de Luz e Sombra
Caixa Cultural São Paulo
Praça da Sé, 111
Informações: (11) 3321-4400
6 de março a 11 de abril de 2010
Entrada Franca \o/

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Exposição O Brasil de John Graz


Hoje às 13h, em São Paulo, não chovia. Pelo contrário, o sol de verão reinava por completo e saí à rua bastante contente tão somente por esse estio. Dirigi-me à Caixa Cultural da Praça da Sé. Encontrei-me, então, dentro de um imenso salão repleto de quadros na parede. Quando vi aqueles desenhos, que variavam as técnicas do grafite e guache no papel, concordei com os organizadores dessa exposição que nos falam acerca da elegância do trabalho artístico de John Louis Graz. Esse suíço, radicado no Brasil desde 1920, sorveu as paisagens, as formas e a gente brasileira criando um universo brasilianista, que, penso, nunca fora visto antes. Ele é popular, colorido, tem uma relação de observador da natureza muito refinada, porque é simples e muito, muito poético.

Eu recomendo a visita a essa exposição que também tem imagens dos móveis que ele criou, de decorações que planejou para diferentes e importantes casas paulistanas e ainda umas esculturas que são como jóias, assim como jóias propriamente e que são como esculturas...
Não é à toa que ele era chamado de artista total por unir arte, arquitetura e designer na linguagem toda própria que criou.
Recomendo, para quem não pode vir a São Paulo, conhecer o site do Instituto John Graz.
Esse é mais um artista que eu fiquei encantado em conhecer. ;-D
Clique na imagem abaixo para obter outras informações.


quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Gabriela Machado



Ontem, na minha hora de almoço, fui ver uma exposição na galeria da Caixa Cultural. Ela fica bem pertinho de onde trabalho, então, sempre passo por lá para ver as novidades. Agora, por exemplo, essa artista plástica, que mora no Rio de Janeiro, está expondo seus trabalhos nessa exposição a que chamou doida disciplina. Esses quadros de pintura abstrata são, na verdade, imensos. A maioria pertence à série Cascas e medem 220 x 195 cm ou 233 x 198 cm. É bonito vê-los, assim, cobrindo cada qual grande extensão das paredes. As pinceladas são fartas, generosas, e o efeito, ao menos para mim, é o de tranquilizar o observador.
Há também um vídeo que, ao que tudo indica, mostra a artista trabalhando em seu atêlie: algo sempre interessante de se ver. Eu não pude vê-lo, porque havia um rapaz também imenso assistindo ao vídeo na torre que vinha do chão e alcançava-lhe a cintura. Estava tão compenetrado que achei melhor não atrapalhar. ;-D
Volto outro dia para conferir.
Na parede, antes dos quadros, há um texto de Ronaldo Brito, curador da exposição, e nele somos muito bem informados acerca desse trabalho. Como é um texto que instiga o desejo de ver tais quadros, vou reproduzí-lo aqui:
Há quase dois séculos, Eugène Delacroix começava a inventar a cor moderna, e o fazia sobretudo por meio de pequenos estudos livres, as suas legendárias manchas de cor. Ao emancipar-se de a priori acadêmicos, da tirania do claro-escuro, da mimese da textura ( a imitação visual da sensação tátil), essas manchas afirmavam decididamente a sensibilidade, agora realibitada, do homem moderno. Reza a lenda que, à frente do quadro pronto, Delacroix costumava passar um buquê de flores sislvestres para conferir o acerto de cores: porque em um buquê, qualquer buquê, o arranjo de cores está sempre coerente, é infalível. Longe de receitas acadêmicas, tudo se decidia já no olho pelo olho, no contato fluente entre homem e natureza.
Em vários sentidos, as pinturas e os desenhos de Gabriela Machado procuram atualizar, em um mundo muito diferente, essa lógica espontânea e esse rigoroso frescor. Só valem aqui as cores que acabam de se descobrir como tais e que respondem de imediato a uma sensação vital e corpórea: do mesmo modo, feitas todas as mediações, também essas obras buscam renovar à sua maneira o contato com a natureza. Claro, como se pode notar por seu aspecto um tanto pop, pela estridência de seus tons contemporâneos, esta não é mais a natureza do século 19. O que permanece em comum, no entanto, é a ideia básica da pintura como metabolismo, interação entre o artista e a natureza. A atividade da pintura repotencializa assim o impulso de vida, e sua disciplina específica, insubstituível, consiste em aguçar, sempre em crescendo, uma curiosidade visual pródiga e incessante.
Não é excelente esse texto? Eu o li primeiro e, depois, olhei para os quadros e pude compreendê-los melhor. Uma prova de que precisamos estar sempre nos educando. Penso que se trata de uma educação do olhar, é isso o que nos possibilita esse trabalho de Gabriela Machado.
Caixa Cultural São Paulo
Praça da Sé, 111
Tel.: 11 3321.4400
28/11/09 a 17/01/10
terça a domingo / 9h às 21h
Entrada Franca \o/ \o/ \o/

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Regina Silveira pergunta: Quem passou por aqui?






Ontem, fui a uma exposição muito lúdica. A proposta é para crianças, mas a minha criança (para variar rsrsrs) adorou!
Trata-se de uma exposição/instalação de Regina Silveira que é bastante conhecida no mundo das artes plásticas. Segundo a Wikipédia, ela iniciou sua formação em Porto Alegre, principalmente em pintura e gravura, com importantes artistas, entre eles, Iberê Camargo. Começou a trabalhar como pintora e, no final da década de 1960, entra em contato com a arte conceitual. Já nos anos 70, inicia trabalhos com malhas e perspectivas, através da série Labirintos. Começa a utilizar imagens fotográficas nas gravuras das séries Middle Class & Co , Jogos de Arte e a atuar no circuito da mail art. Neste período, torna-se importante artista multimídia e pioneira da vídeo-arte no país. Na década de 1980, realizou a importante série Anamorfas, sobre as distorções da perspectiva, um complexo de gravuras e desenhos que lhe abriram novos horizontes. Logo depois, outro importante trabalho é feito, Simulacros, também fruto de interpretações de sistemas artificiais de construção espacial. A Wikipédia destaca que além do trabalho artístico, Regina Silveira foi, durante muitos anos, professora na ECA - Escola de Comunicação e Artes da USP (Universidade de São Paulo), onde ajudou a formar gerações de importantes artistas nacionais. É claro que você poderá obter mais e melhores informações, visitando o seu site: http://reginasilveira.uol.com.br/
É nitida sua preocupação com a educação também nessa exposição que está agora na Caixa Cultural e que se chama O Olho e o Lugar – Regina Silveira para crianças, organizada por Renata Sant’Anna e Valquíria Prates, em parceria com a Galeria Luciana Brito e o curador convidado Ricardo Resende. A mostra estará aberta ao público até o dia 15 de novembro.
A pergunta que o visitante precisará, necessariamente, responder é Quem passou por aqui? O piso e as paredes da galeria são tomados de marcas de pneus de automóveis e também de pegadas, vestígios de passos, humanos ou de bichos, em seus pés e patas variados. Nesses espaços, as dimensões das marcas são desproporcionais, os pés de gente e mesmo as patas de bichos pequenos são maiores do que seriam na proporção original. Isso é intencional.
Eu, particularmente, adoro a alusão a vestígios. Sempre achei que Jacques Derrida tem toda razão quando nos fala que vivemos sempre na condição de rastro, de demarcação, de escrita como vestígio, corte, e, portanto em construções humanas em condição de ruptura plena e absoluta.
A intervenção em paredes e tetos com esses desenhos adesivados é já uma marca da artista, como é possível ver nessas imagens de outros trabalhos seus.
Nessa exposição há também um vídeo que apresenta as patas em movimento no espaço e com uma trilha sonora bastante sugestiva, patinhas menores são acompanhadas de barulhos cômicos, como se aquele animalzinho por ali estivesse passando e quando se trata de patas de animais maiores, os sons são mais abafados e pesados. Achei isso muito divertido. ;-D
Vale lembrar que a entrada é franca e, como tudo o que acontece nessa galeria da Caixa, pouquíssima gente estava por lá. :-p
Espero que apareçam professores com seus alunos, ao menos. Fica registrada a dica de um programa muito bom para nossas crianças. \o/ \o/ \o/

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Virada Russa em São Paulo








Ontem, aconteceu a vernissage da exposição Virada Russa, no CCBB. Muito menos concorrida do que aquela de Matisse. Penso que, no entanto, essa exposição também será um sucesso de público como aquela tem sido, o contrário seria algo inexplicável.
Estamos vivendo em São Paulo um momento privilegiadíssimo. Há um Marc Chagal entre nós e ainda: Vassili Kandínski, Pável Filónov, Aleksandr Ródtchenko, Vládímir Tátlin, Natalia Gontcharova, Kazimir Maliévitch, entre outros.
Todas as obras da exposição pedem um olhar de reverência porque foram esses artistas "A" vanguarda, propriamente dita, nas artes plásticas. As obras da exposição trazem consigo esse poder da novidade absoluta que sempre representaram. E a mim, emociona também o fato de terem vindo nos encontrar, assim, gratuitamente (graças ao Banco do Brasil diga-se de passagem), ao deixarem a casa que as abriga, o Museu Estatal de São Petersburgo, lugar onde dificilmente nós poderíamos ir.
Esse único Chagal emocionou-me supremamente. O Passeio do casal é puro sonho. É também delicadíssimo o detalhe de que a mão esquerda da figura esvoaçante feminina está ausente do quadro. Não há nada que se compare a ver isso de perto.
Aliás, é uma exposição para ser vista muitas vezes. Teremos que acampar na porta do CCBB ou ir e voltar, ir e voltar, ir e voltar, every day.
Eu também terei que fazer isso, uma vez que talvez eu tenha abusado da vodka russa servida no coquetel, e, então, vivi tudo muito intensamente durante o trajeto entre os quadros e acho que por isso não estou tendo condições de falar muito mais about a experiência. ;-D
Somente uma coisa ainda devo ressaltar por aqui. Uma amiga jornalista entrevistou os curadores da mostra e eles deram uma dica importantíssima: comece a ver os quadros a partir do 3o andar e, então, vá descendo até o subsolo. Assim o fizemos, e sentimos que fizemos o melhor. Há uma lógica para esse roteiro e que é muito particular: fica perceptível que fazemos o percurso que nos leva da pré-vanguarda, lá no 3o andar, até o epílogo da vanguarda russa, no subsolo.
Imperdível, sensacional, supremo!
Quase esqueço de dizer, encontrei e conversei um pouco com a sensacional Elke Maravilha. Ela brincou dizendo-nos que tudo aquilo ali estava no sangue dela. E é verdade, não podemos esquecer que ela é russa. Disse também que não podíamos faltar na leitura dramática que ela fará hoje (15 /09) na Caixa Cultural da Praça da Sé. Será às 19 h. Trata-se, nada mais nada menos, de um clássico: Fedra, de Racine. Está aí uma dica de programa sofisticadíssimo!