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terça-feira, 3 de maio de 2011

Humanity's Childhood

Alguém divulgou, lá no facebook, uma postagem sugerindo que os últimos acontecimentos, e que tiveram repercussão mundial, eram puro anacronismo, ou seja, coisas que pareciam acontecimentos de há 900 anos: o casamento de um Príncipe, a beatificação de um Papa e o assassinato de um "Mouro" (Osama Bin Laden). Eu comentei por lá, em tom de pilhéria, que, não, eles eram exatamente o contrário: absolutamente contemporâneos!
Não sei se conseguirei, com precisão, explicar-lhes por que assim me parece, afinal, sem dúvida, são todos acontecimentos que revelam mesmo seus aspectos "espantosos", os quais poderíamos destacar formulando as seguintes questões em relação a cada um deles:
  • A humanidade, ou ao menos o grupo de 2 bilhões de telespectadores, precisa, para alimentar o sonho do amor possível entre um casal, de toda a pompa e circunstância que somente uma coroa como a da Inglaterra pode propiciar ao ritual de um casamento?
  • Outros tantos seres humanos precisam, para justificar e explicar os milagres (e que de fato acontecem) responsabilizar por tais feitos milagrosos um agente determinado, personificando-os, assim, como ações de uma única entidade e atribuindo-os somente a essa entidade, ou seja,  alguém a quem chamam de Santo como, no caso, o Papa João Paulo II?
  • A humanidade, ao menos uma boa parcela dela, como a daqueles norte-americanos que foram comemorar a morte de Bin Laden nas ruas de New York, não consegue, ainda, perdoar a assassinos como, por exemplo, os terroristas?
Para todas essas perguntas, a resposta é SIM, como provou-nos o desenrolar das circunstâncias. Portanto, isso ainda é contemporâneo!

Nosso momento histórico, ao que tudo indica, sugere que cada um de nós precisa perscrutar o próprio coração para saber se ele é amoroso a ponto de perdoar, incondicionalmente [como sói ser o verdadeiro perdão], a ponto também de aceitar milagres como parte do Mistério Divino e tão somente, e, sobretudo, a ponto de viver o amor como a expressão da nobreza de sentimentos, e isso mesmo que um casal tenha de viver em um choupana e não em um castelo.

Portanto, as nossas necessidades são todas mesmo muito antigas e contemporaneamente urgentes!

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Os heróis da Pátria são apenas gente como a gente

Eu agora estou lendo um livro que me caiu nas mãos muito por um acaso. Eu já ouvira falar do sucesso que esse escritor, o jornalista Laurentino Gomes, e seus livros sobre o período da monarquia no Brasil estão fazendo. Ele tem tido a boa sorte do marketing dos títulos estar a seu favor, evidentemente, pois optou por nomeá-los com o ano de cada período que retratou, ou seja, primeiro foi o 1808 (ano da chegada da família real no Brasil) e agora o 1822 (ano da independência do Brasil). Mas os seus livros são muito mais do que puro marketing.
O primeiro não li ainda, mas vou ler! Comecei a ler, na sexta-feira, 1822: como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil, um país que tinha tudo para dar errado, e agora estou na metade do livro. É um livro de narrativa fluente e agradável: essa é a primeiríssima qualidade do mesmo. A segunda é uma qualidade menos óbvia, mas que alguns livros, não muitos, podem também revelar: eu penso que esse livro foi escrito com muito amor.
E como é bom ler um livro feito assim!
Muito já se disse desse livro, assim como do anterior, em todos os canais de comunicação. Não preciso dizer muito mais, mas posso dar notícia de uma ou outra impressão de leitor.
Eu concordo, por exemplo, que as principais qualidades do autor como jornalista podem mesmo ter colaborado para aquela característica muito positiva do livro a que já me referi e que é a sua fluidez. Afinal, o livro resultou de todo um excelente trabalho de investigação, e seu autor nos conta que sua experiência em reportagens do gênero muito o ajudaram na hora de transformar todo o material investigado naquilo que se conta no livro. Aqui temos uma verdadeira aula de história, na qual as personagens do episódio da independência do Brasil aparecem vivas e dinâmicas, porque elas tornaram-se personagens verdadeiramente humanizadas, e, assim sendo, muito próximas de cada um de nós. Essa é uma particularidade que faz com que, sim, ao término de cada capítulo eu tenha estado emocionado.
Quando fui contar essa circunstância a um amigo, ele me disse que isso talvez se devesse a um certo patriotismo em mim latente. Mas não acho que eu seja assim tão patriota e tampouco que isso aconteça por se tratar da história da minha pátria. Penso que isso se dá muito mais por essa história, que de fato é a do país em que nasci e vivo, ser uma história que é feita por gente e que veio de outros lugares desse mesmo planeta que habitamos, como o próprio Dom Pedro I, um português.
Por exemplo, o livro nos faz pensar muito detidamente nessa figura de Dom Pedro I, que, com apenas 23 anos, foi um dos protagonistas do episódio da independência. Curiosamente, quando eu lia essa informação da pouco idade que ele tinha, eu estava no metrô, em frente a um rapaz que aparentava ter essa mesma idade e fiquei pensando: Imagine! Ele era da idade desse menino, aqui, de bermuda, tatoo e dreads no cabelo. Ou seja, uma pessoa comum.
Outro aspecto bastante didático do livro e que, por isso mesmo, sugere uma reflexão suplementar é quando, por exemplo, o autor compara determinado acontecimento histórico de que está a tratar com os modos como ele já foi retratado, posteriormente, por outros meios. Por exemplo, a figura de Dom Pedro I foi personagem de um filme sobre a independência, da década de 70, interpretado pelo ator Tarcisio Meira e ainda de uma minissérie na TV, tendo, então, como seu intérprete, o ator Marcos Pasquim. Representações tão distintas e mesmo polêmicas e/ou redutoras, nasceram da complexidade da personagem histórica e que suscita e poderá sempre suscitar interesse. E deve mesmo suscitar! Há uma passagem que me fez pensar que Dom Pedro poderia, por exemplo, ter pertencido a minha família:

Gostava de jogar, mas era um mau perdedor. O viajante francês Jacques Arago contou ter sido convidado pelo imperador para uma partida de bilhar quando estava no Rio de Janeiro. Conhecedora do caráter impulsivo do marido, a imperatriz Leopoldina aproximou-se do francês antes que o jogo começasse e cochichou-lhe ao ouvido: “Deixe-o ganhar algumas partidas. Meu marido é bastante colérico.” Arago, que era um excelente jogador, não lhe deu atenção e, em vez disso, ganhou todas as partidas. D. Pedro reagiu de forma desesperada produzindo “uma cena digna de pessoas perversas em uma das piores tavernas de arrabaldes”, segundo o relato do viajante. Em seguida tentou blefar, mas como continuasse a perder, abandonou o jogo irritadíssimo. “De natureza impulsiva, voluntariosa, era sujeito a súbitas alterações de humor e violentas e repentinas explosões que tornavam difícil o seu convívio”, apontou a historiadora cearense Isabel Lustosa. “Eram logo sucedidas por atitudes de franca conciliação, quando dava demonstrações exageradas de arrependimento a quem antes ofendera.”

Ler um livro de História ensina tanto! Ensina-nos inclusive a compreender que o ser humano estará mesmo sempre sujeito a se lapidar, em qualquer tempo, espaço e condição. ;-)

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O Futebol é uma janela para o Brasil, segundo Felipe Carrilho

Na semana passada, aconteceu o lançamento do livro Futebol: uma janela para o Brasil, de Felipe Dias Carrilho. O autor é um apaixonado por futebol, como tantos brasileiros, não é mesmo? Além disso, ele também é bacharel em história pela USP, colabora com os jornais Brasil de Fato e Diário do Comércio e tem um blog chamado Jogo de Classe.
Embora eu não seja apaixonado assim por futebol, depois de ler o livro, eu compreendi até mesmo minha relação um tanto ambígua com o esporte. É que na infância eu não curti futebol e houve um período em que eu nem queria ouvir falar de futebol, mas graças a Deus, a gente cresce! E, então, já faz alguns anos, eu tenho olhado para o futebol com bons olhos, e com a consciência de que esse é um fenômeno que precisa ser compreendido para que faça sentido. E, afinal, eu sou uma pessoa que deseja entender o sentido das coisas. rsrsrs

Pois bem, se o futebol é um esporte que mobiliza tanta gente, todo um país, ele não pode ser algo que não faça sentido, e, tampouco ser visto, tão somente, como diversão, naquilo que essa palavra tem de descompromisso com o próprio contexto social em que vivemos.
Ele pode também ser diversão, entretenimento, mas é muito mais do que isso.
E eu, bem ou mal, já sabia disso, mesmo que eu nunca o tenha jogado, ou tenha ido a um estádio assistir a uma partida de futebol e me limite a assistir a um jogo de futebol quando é época de copa do mundo, para ver a seleção brasileira jogar.
A seleção brasileira e as copas todas são o alvo de uma análise histórica e mesmo antropológica, bastante aprofundada pelo autor de Futebol: uma janela para o Brasil.
O livro tem um apelo importante: ele nos faz entender porque o futebol é essa janela para vislumbrarmos nosso país, em suas contradições. É que o esporte passou a ser popular, propriamente, desde que saiu dos ciclos de elite a que estava circunscrito, no início de sua propagação pelo país.
Ele defende que, sim, a participação dos negros no esporte é que tornou o futebol brasileiro o futebol arte (esse quase em extinção) e essa ascensão, tanto dos negros quanto desse tipo de futebol, não ocorreu sem sofrimento:
Por exemplo, você sabia que os negros ficaram muito tempo sem ocupar a posição de goleiro na nossa seleção, depois do gol que fez o Brasil perder a última copa sediada no país, em 1950, quando o goleiro era negro?
Ou você sabia que, durante a ditadura, o Brasil perdeu uma das Copas e isso já era uma sugestão do declínio do próprio regime?
E, também, que alguns nomes importantes do futebol brasileiro, como o do jogador Dr. Sócrates, do Corinthians, apoiou, em campo, o movimento pela reabertura democrática do país durante aquela mesma ditadura?
Uma outra informação importante e atual, e que o autor nos sugere pensar, diz respeito ao fato de que há um perigo de retorno da elitização do esporte - com a desculpa de combater a violência das torcidas - limitando o acesso aos estádios, por exemplo, encarecendo os ingressos. São os caminhos de uma nova configuração do futebol: a da sua mercantilização, nos moldes dos interesses econômicos que envolvem verdadeiras fortunas.
Por tudo isso, por nos fazer conhecer e refletir em toda essa complexa teia que envolve o esporte no nosso país é que esse livro é importante e deve ser lido.
Há ainda um motivo ainda mais prazeroso e que reconheci a partir de sua leitura, é que, como em todo livro bem escrito, podemos observar que o autor consegue falar do futebol, da sua história, suas relações com o universo da política, da economia, enfim, com a própria vida brasileira nesse último século, e tudo isso soa vivo e pleno de interesse. Nada é exagerado no livro, sequer a paixão do autor pelo tema.
Tal paixão apenas contribuiu para que ele falasse do assunto com toda a segurança de quem o estuda e o pensa também com amor. Amor que está para além do esporte, posto que o que lhe interessa no futebol são os seres humanos que o fazem existir dentro de campo e também fora dele.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Elysa Lynch e a Guerra do Paraguai




Elisa aos 20 anos (arquivo da família de Barbara Dimock)

Como já disse aqui, comecei a leitura de Grandes Expedições à Amazônia Brasileira. No entanto, o fiz enquanto ainda lia esse livro: Calúnia - Elisa Lynch e a Guerra do Paraguai. Agora, terminei a leitura do mesmo e ficou-me um sentimento de bom dever de leitura cumprido. Porque, não sei se minha formação em história não foi suficiente, mas a verdade é que durante a leitura dei-me conta de que eu não conhecia quase nada acerca da história da Guerra do Paraguai. :-(

Uma guerra sangrenta como sói ser as guerras e que ocorreu no quintal de nossa casa. Eu não sabia nada acerca do ditador do Paraguai na ocasião, Francisco Solano López, bem como nada acerca de sua loucura persecutória, que aliás, contribui para que ele perdesse a guerra, e ainda, nada acerca da Aliança tríplice entre Brasil, Argentina e Uruguai, os que venceram a guerra. Tampouco, que Dom Pedro II poderia ter aceitado a informação do Duque de Caxias de que a guerra estava ganha dois anos antes do tempo em que acabou sendo, por fim, o do término da guerra: o carniceiro Conde d’Eu, marido da princesa Isabel, só sossegou depois que mataram López (que, aliás, tinha pretendido casar-se com a princesa brasileira). Solano López, então, foi enterrado juntamente com seu filho de apenas 13 anos, numa cova cavada pelas próprias mãos de sua mulher, Elisa Lynch.
Essa heroina é a personagem central do livro. Tal mulher, segundo os autores, Michael Lillis e Ronan Fanning, sofreu toda espécie de calúnia durante a guerra e depois dela. Ela era uma Irlandesa e conheceu Solano López em Paris, uniu-se a ele e viveu no Paraguai onde foi considerada por muitos uma rainha, por tantos outros uma espécie de prostituta e usurpadora. Na verdade, tinha porte de rainha e causou muita inveja, ao menos, isso é o que pude concluir da leitura do livro.
O mais delicioso é que o livro é escrito de uma maneira que muitas vezes lembra um roteiro de cinema. É possível visualizar os momentos dramáticos da vida dessa mulher na sua relação com o ditador paraguaio, com seus inimigos, mas também com o povo simples do Paraguai, sobretudo as mulheres do povo e que a amavam.
Ao final de sua curta e intensa vida, ela morreu aos 52 anos, Elysa, sobrevivente da guerra, viveu sozinha num pequeno apartamento em Paris, durante treze anos de silêncio. Os autores então, são bastante elegantes. Eles nos dizem, na tentativa de responder ao porquê desse silêncio final, vindo de uma mulher tão aguerrida no passado:

Seria a calúnia, a torrente de difamação quase inimaginável e sensacionalista, ou a compreensão, no fim, de que não havia nada que ela jamais pudesse fazer para recuperar sua fortuna ou resgatar sua reputação como mãe compassiva e decente, além de companheira fiel até a morte de Francisco Solano López? O que esmagou seu entusiasmo? Algumas linhas de Shelley são sugestivas:
[Ela] superou a sombra de nossa noite
Inveja e calúnia e ódio e dor
E aquela inquietação que os homens erroneamente chamam de prazer ,
Já não podem nem tocá-la nem torturá-la novamente
Do contágio do lento estigma do mundo
[Ela] está a salvo, e já não pode condoer-se
Um coração tornou-se frio, uma cabeça ficou grisalha em vão.

Penso que a mulher é sempre um ser especialíssimo, e quando ela é a personagem central de um livro e de uma história verdadeira, a história e o livro tornam-se muito mais interessantes. ;-D
Na esperança de convencer futuros leitores dessa história, da importância e necessidade dessa leitura, irei reproduzir um texto que sintetiza melhor do que eu próprio estou conseguindo fazê-lo o sentido desse livro. Trata-se de um texto que se pode ler na orelha do livro, e que é assinado por Olgária Matos:

Calúnia oferece três planos simultâneos de interesse cultural: a pesquisa histórica que o inscreve nas competências da análise documental e o estabelecimento dos critérios de validade; a reconstituição do imaginário de uma época em meio às Guerras de Independência e a constituição das políticas de centralização autoritárias; o gênero literário e seu destaque entre as biografias históricas. Além de reabrir o passado, amplia os horizontes do presente, não para contar a "história do vencido", mas refletir sobre as injunções que tornaram possível, de ambos os lados, a barbárie. O livro não prescinde da consideração do papel das paixões nas decisões políticas, afastando-se da noção de uma objetividade assegurada pelo sentido único dos eventos políticos. Diferenciando-se de Maria Antonieta, de Stephan Zweig, o presente trabalho constrói as contingências da vida de Elisa Lynch, aproximando-se dos procedimentos literários de Proust, que invertem as relações entre arte e vida, transfigurando a personagem história em heroína literária, elaborando suas reflexões no limiar da história e da ficção, para melhor ingressar no sentido dos acontecimentos.

Boa leitura!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Conhecendo a Amazônia Brasileira




Um amigo emprestou-me um livro riquíssimo. Trata-se deste recém-lançado Grandes Expedições à Amazônia Brasileira de João Meirelles Filho.É um livro de grande formato, um verdadeiro álbum de 244 páginas, em capa dura, da editora Metalivros.
A proposta do autor é a de apresentar o olhar estrangeiro sobre a Amazônia, desde os primórdios do descobrimento até as primeiras décadas do século XX.
Todos sabemos o quanto a região amazônica fascina, o quanto é cobiçada, o quanto representa de esperança, sugere de aventura e o quanto provoca devaneios.
No livro, encontramos uma variada quantidade de viagens, e imensa riqueza das narrativas, bem como seus registros materiais (são 244 imagens, entre mapas, desenhos, fotografias ou coleções).
Meirelles passou quase vinte anos desenvolvendo essa pesquisa histórica, enquanto também se envolvia em iniciativas de educação, sustentabilidade ambiental e responsabilidade social na região amazônica. O projeto que resultou no livro, concebido por ele e o editor Ronaldo Graça Couto, adotou como estratégia restringir o tema do ano de 1500 até as viagens de Rondon nos anos 1930.
Muita gente andou pela Amazônia: os colonizadores portugueses, gente exploradora e conquistadora, mas também padres, gente catequizadora, e cientistas, antropólogos e linguistas, gente estudiosa, até princípes e princesas e escritores como Euclides da Cunha, Mário de Andrade. Todos estão no livro.
Os capítulos estão organizados nessa sequência cronológica em que de cada viagem relatada temos o seu contexto histórico e cultural; a biografia do líder ou líderes da expedição; seus principais colaboradores; seu percurso; a obra que resultou da expedição (produção escrita e iconográfica); e suas principais contribuições.
Assim sendo, é possível ler o livro do começo ao fim (seguindo a ordem dos capítulos), mas também é possível ler cada capítulo em separado, aleatoriamente, eles têm cada qual sua independência. [eu estou adotando essa maneira possível de ler o livro]
Fiquei sabendo que João Meirelles Filho é paulistano e que se dedica à Amazônia há 32 anos. Ele reside em Belém há cinco anos, onde se dedica à escrita e à pesquisa. Está à frente do Instituto Peabiru - organização sem fins lucrativos, voltada para a realização de projetos de sustentabilidade na Amazônia. Como voluntário atua para a Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR) e para a Rede Brasileira de Gerenciamento Costeiro. É líder parceiro da Avina, fundação suíça. Como escritor publicou Licença Poética, em 1982, pela Massao Ohno; Amazônia: o que fazer por ela?, em 1986, pela Companhia Editora Nacional; Guia Brasil de Turismo Ecológico, em 1991, pela Index; Mobilização de Recursos para o Terceiro Setor, em 2005, pela Fundação Konrad Adenauer & Peabiru; e o Livro de Ouro da Amazônia, em 2004, pela Ediouro, traduzido, em 2007, pela Corbaccio, Milão, Itália.
Motivou-me iniciar a leitura do livro o tom da Introdução que nos faz seu autor, onde entre outras coisas ele nos diz: O mínimo que posso fazer aos amazônidas originais é dedicar este livro a vocês, índios, quilombolas e populações tradicionais. (...) Que saibamos visitar a Amazônia verdadeira, aquela que representa o futuro viajante e turista; que se permitam visitar os milhares de comunidades tradicionais como se visita um parente longínquo a quem muito se quer. Caro ribeirinho, pescadora e pescador, quebradeira de coco, beiradeiro, castanheiro, seringueiro e marisqueira e tantos outros; com este livro-passaporte, peço licença para entrar em tua casa, conhecer-te os quintais, saberes e fazeres, rios e lagos, florestas, de que até agora tão bem soubeste cuidar para a humanidade.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

As cartas de Frei Betto


Quando a ditadura militar comandava o Brasil eu era criança. Na verdade, nasci em plena ditadura, vejam que coisa horrível para um ser humano e brasileiro. Fui crescendo e, já adolescente, sempre me senti mais à vontade com gente que não gostava dos militares do que com aqueles que defendiam o tal regime. Depois, veio o período da abertura e da Campanha das Diretas: sim, eu estava lá na Praça da Sé, nas históricas manifestações que reivindicavam a democracia.
O tempo passou e, hoje, as novas gerações veem tudo isso como uma passagem da história do Brasil já distante, longínqua mesmo, e da qual pouco se conhece, a não ser através da letra morta dos livros didáticos de história. Eu, embora não tenha sido jovem ou adulto nos anos de verdadeiro horror do regime, quando adolescente, já sabia do sofrimento que gente boníssima passou ou ainda passava, por se opor ao regime. Daí que, quando, recentemente ganhei o livro Cartas da prisão - 1969-1973, de Frei Betto, fiquei com pouca coragem de começar a leitura. Pensei: vai ser triste, sofrido, não será agora. E, assim, o livro ficou uns dois meses no silêncio da estante. Ontem, eu precisava ler alguma coisa (graças!) e iniciei a leitura dessas cartas que, segundo Alceu Amoroso Lima, representam um dos mais altos documentos de autenticidade humana e de beleza literária que jamais se escreveram no Brasil. Estou muito no começo, mas já posso concordar com Tristão de Athayde, sim são de uma autenticidade, humanidade e beleza como poucas vezes pude encontrar em escritos de brasileiros. Todas as cartas são assim mesmo.
Deixo aqui uma amostra do grau de espiritualidade e pureza desse grande escritor, pois mesmo estando preso e sofrendo as provações todas de quem está nessa condição, ele conseguiu, por exemplo, escrever para uma criança e com toda a delicadeza: única exigência de uma missiva para tal destinatário. É o que podemos testemunhar lendo essas duas cartas que ele escreveu para o seu irmão caçula, o Tunico (Antônio Carlos Vieira Christo Filho): como inferimos do teor das cartas, uma criança à época.
Tunico,
Gostei muito de sua carta, do desenho que fez do cometa, dos ovos de Páscoa. Vejo que vai bem nos estudos. Não tive, como você, a oportunidade de ver o cometa: naquela noite, me levantei às 4 horas para vê-lo, mas o céu estava encoberto, sem uma estrela. Um dia o cometa voltará e vamos vê-lo juntos. Agora passou rápido, Deus mandou-o só dar uma olhada para ver como estamos. O cometa veio de madrugada, quando todos estavam deitados, e fiscalizou a Terra. Não viu guerra, nem fome, nem desastre, nem briga, nada que há de ruim, porque todos dormiam quietinhos. Viu apenas os olhos das crianças que acordaram de noite para olhá-lo. E os olhos das crianças estavam cheios de luz e alegria. Aí o cometa foi girando, girando, passou pelos Estados Unidos, pelo México, pelo Brasil, pela Europa, pelo Japão (viu os olhinhos apertados dos japonezinhos), e depois voltou para junto de Deus. E ao chegar no céu não encontrou Deus. Soube que Deus havia ido morar no coração das crianças e dos pobres. Então o cometa mandou um recado a Deus, dizendo que tudo na Terra estava bem, todos se comportavam direitinho. Deus ficou satisfeito e disse ao cometa que ele podia descansar até o outro ano, quando voltaria à Terra. Aproveitando as férias, o cometa foi passear em Marte.
Feliz Páscoa para você. O menino Jesus mora em seu coração. Um abração de tamanduá.
Tunico,
Fiquei feliz em receber sua carta. Você escreve muito bem e com ótima letra. Faça sempre ditado e cópia.
Conhece a estória do rei que fez um concurso para saber quem era capaz de descrever, com menos letras possíveis, as maravilhas do Universo? Muitos concorreram. Um sábio escreveu um livro sobre a natureza: o mar, as pedras, a terra, o ar, o fogo, as plantas, os bichos, o ser humano. Outro descreveu as sete maravilhas do mundo: a muralha da China, o templo de Diana em Éfeso, as pirâmides do Egito etc.
Cada sábio escreveu sobre o que mais admirava. O rei, ao final do concurso, recebeu pilhas e pilhas de papéis, contendo as inúmeras descrições. Leu uma por uma, para escolher a melhor. No meio de toda aquela papelada, encontrou um papelzinho, onde estava escrito: ABCDEFGHIJKLMNOPQRSTUVWXYZ. Viu que, com as 26 letras do alfabeto, todas as maravilhas do Universo podem ser descritas em muitas línguas, formas e estilos. Viu também que, se essas letras não existissem, muitos não poderiam se comunicar por escrito com os semelhantes. Chamou o sábio que escrevera o alfabeto e deu a ele o prêmio do concurso. A mão da princesa, sua filha. Os dois casaram e viveram felizes para sempre.
Um abraço tamandualesco.
Penso que esse é o testemunho de um verdadeiro educador, em sua lição de amor. ;-D

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Aldous Huxley


Estou lendo um livro de Aldous Huxley. Curiosamente comecei a leitura da obra desse autor por um livro que não é o mais conhecido ou famoso. Em geral, quando ouvímos falar em Huxley os títulos que nos sugerem são O admirável mundo novo ou As portas da percepção, seus clássicos, sobretudo em popularidade.
Eu estou lendo A eminência Parda e estou impressionado. Trata-se de um Estudo sobre Religião e Política. Sim é um livro difícil e, sobretudo, porque a figura central desse romance/ensaio histórico é um frade, François Leclerc du Tremblay, o Padré José de Paris, a própria Eminência Parda. Huxley o escolhe como figura central porque ele foi colaborador do Cardeal Richelieu durante a Guerra dos Trinta Anos.
Devo fazer um parênteses e dizer que o período histórico está agradando esse leitor também porque as personagens todas, bem ou mal, já são nossas velhas conhecidas, Maria de Médicis, o Luís XIII, o próprio Cardeal Richelieu, católicos de um lado, protestantes de outro, enfim, fico lendo o livro e as imagens das personagens que me vêm à cabeça aparecem nas figuras dos atores do filme A Rainha Margot (aquele do diretor Patrice Chéreau, com a belíssima Isabele Adjani). Isso é meio estranho, mas paciência. Creio que bem ou mal, tal interferência não prejudica em demasia as inferências que tenho de fazer. Sim, Husley não está defendendo sua tese assim tão assertivamente, ele, muito elegantemente, deixa por conta do leitor a maior parte do trabalho de análise, uma vez que suas pistas e afirmações, embora contundentes, são como uma aula e procuram sobretudo guiar o leitor em meio ao problema ali colocado, compõem um guia para a longa estrada da história.
Vejam só o que ele diz, logo no começo do livro, sobre a personagem que dá nome ao romance:

A sua vida - duplamente instrutiva por abranger os campos da religião e da política - é do maior interesse por constituir o mais estranho dos enigmas psicológicos - o enigma de um homem apaixonadamente ligado ao conhecimento de Deus, familiarizado com as mais altas formas da gnose cristã, que experimentou pelo menos os estágios preliminares da união mística mas que, ao mesmo tempo, viu-se envolvido nas intrigas da corte e da diplomacia internacional, ocupou-se com propaganda política e que de todo coração se dedicou a um esquema cujos resultados em mortes, miséria e degeneração moral podem ser vistos amplamente por toda a Europa do século dezessete, e cujas posteriores conseqüências o mundo sofreu até hoje.

É importante lembrar que ele está escrevendo em 1941, em plena II Guerra. Ele diz que a estrada que os pés calosos e desnudos do Frei palmilharam e que conduzia à Roma de Urbano VII, no século XVII, era a mesma que serviu aos acontecimentos de agosto de 1914 e de setembro de 1939.
Um livro fortíssimo e, como todo clássico, também atual, sobretudo se pensarmos que a religião e a política continuam irmanadas nesse século XXI, como continuarão sempre, e nessa aliança, tantas vezes fatal, continuam ambas a urdir os mesmos tristes horrores de sempre.