Como a lotação começou a lotar, o homem e sua gaiola estavam em má situação. Uma moça sentada ofereceu-se para segurar a gaiola. Também pensei: Está aí uma gentileza que eu não poderia fazer, segurar uma gaiola. O homem achou melhor não. Ela perguntou se havia um pássaro dentro da gaiola o que ele confirmou e, então, ela também achou melhor não segurar. Eu senti-me cúmplice da moça, talvez ela tivesse se oferecido para segurar para ter oportunidade de confirmar aquele horror!
Acho que já deu para notar que eu estava com raiva daquele homem. Não era pouca, era muita raiva, ainda mais sendo um homem imenso e que segurava a gaiola com um dedo só. E o pássaro preso dentro da gaiola, na escuridão. Mas não é proibido transportar animais em veículos de passageiros? - também pensei. No entanto, como não consigo sentir raiva, demasiadamente, quando percebi esse meu sentimento, imediatamente, o homem também pareceu-me ridículo, segurando a gaiola como estava, e eu comecei a achar que o problema ali era que aquilo podia ser configurado tão somente como uma burrice do homem. E foi quando lembrei desse texto que lera enquanto viajava no trem, minutos atrás. Trata-se do mesmo livro de que falei no post anterior, aqui será Borges tratando da relação entre A Ética e a Cultura:
Penso que uma pessoa culta tem que ser ética. Por exemplo, costuma-se pensar que os bons são bobos, e que os malvados são inteligentes, e eu acho que não, eu acho que, de fato, é ao contrário. Geralmente, as pessoas más são ingênuas também: uma pessoa atua mal porque não imagina o que a sua conduta pode produzir na consciência dos outros. De modo que eu penso que, na verdade, existe inocência na maldade e inteligência na bondade. Além disso, a bondade, para ser perfeita – creio que ninguém chega a uma bondade perfeita – tem que ser inteligente. Por exemplo, uma pessoa boa, e não muito inteligente, pode dizer coisas desagradáveis para os outros, porque não se dá conta de que são desagradáveis. Por outro lado, para ser boa, uma pessoa tem que ser inteligente, porque, caso contrário, sua bondade será... imperfeita, por dizer coisas incômodas para os outros sem se dar conta.
Fiquei impressionado como um exemplo para o que eu acabara de ler viera a galope, em uma espécie de demonstração até mesmo anacrônica. Lembrando-me dessas palavras do sábio argentino, acalmei-me, em relação a toda aquela raiva que sentira, afinal não podemos corrigir a toda maldade que existe no mundo se sua causa é tão extremada, não é verdade?



