
Manter um blog, além de favorecer a experiência de autoria, propiciando o exercício da escrita, também nos faz estar em contato com o mundo. Pessoas do mundo inteiro podem visitar esse espaço e, assim sendo, há sempre a possibilidade da troca de ideias com aqueles que estão distantes no espaço, mas próximos no espírito. Assim tem sido com um amigo catalão que conheci por aqui. Certa feita, ele sugeriu-me que trocássemos livros de poesia, pois, assim sendo, ele iria conhecendo a poesia dos brasileiros e eu a poesia de Espanha. Pedi que fosse um livro em espanhol porque o catalão poderia ser um pouco mais difícil para mim, ao menos por ora.
;-p
Recebi o primeiro livro dessa troca. E descobri um assombro de poeta.
Trata-se de
José Hierro e o seu
Cuaderno de Nueva York. Segundo o texto da contracapa dessa edição, esse poeta ocupa um lugar fundamental na poesia espanhola da última metade do século XX. Ele publicou seu primeiro livro em 1947,
Tierras sin nosotros e ganhou o prêmio
Adonáis com a obra
Alegria. Já esse
Cuardeno de Nueva York é de 1998.
Outros títulos como
Con las piedras, con el viento;
Quinta del 42;
Cuanto sé de mí, Libro de las alucinaciones e
Agenda marcam uma trajetória impecável, permanentemente enriquecida e renovada, e que tem sido reconhecida com numerosos prêmios como o
Nacional de la Crítica em duas ocasiões, o
Príncipe de Asturias, o
Nacional de las Letras Españolas e o
Reina Sofía de Poesía.
Eu estou achando o poeta e seu
Cuaderno emocionantes. Penso que essa sua poesia tangencia algo de mítico e de místico, ao mesmo tempo, o que não é muito comum, ou melhor, é apenas comum em toda poesia verdadeira. Assim sendo, penso que a poesia de Hierro toca em elementos que não podem ser compreendidos sem essa dimensão de transcendência do espírito humano. Eu considero que ele é daqueles poetas dos quais devemos decorar seus poemas e recitá-los sempre que houver oportunidade. Ou seja, tão somente quando estamos na companhia daqueles que se deliciam com essas profundezas da alma.
Todos os prêmios que Hierro recebeu são mais do que merecidos. Meu amigo catalão também merece um prêmio. Como não sou a rainha Sofia só posso dar-lhe como prêmio o livro prometido em troca e que já está a caminho de Benicarló, cruzando o Atlântico. Tenha paciência, Enric!
;-D
Para que vocês conheçam o poeta e o "clima" desse livro magnífico, eu trago aqui um dos poemas de que mais gostei. Perdoem-me a tradução, ou melhor, como não sou tradutor e nunca estudei espanhol, eu a chamaria de "versão brasileira"
by Josafá Crisóstomo. rsrsrs
ESPEJO
En outro cielo, en outro reino extraño,
mis trabajos se vieron em mi cara.
LOPE DE VEGA
Esse desconocido, esse recién llegado
que habla solo - no sabe que lo escucho -
y que pregunta, no sé a quién, ¿por qué volviste?
Mientras borra com una blanca nube
los trabajos tatuados en su cara,
los zarpazos del tiempo,
y que outra vez pregunta ¿por qué volviste?
Esse, al que veo y al que escucho
desde el lado de acá del espejo,
¿dónde, com quién estará hablando?
ESPELHO
Em outro céu, em outro reino estranho,
meus sofrimentos surgiram em minha face.
LOPE DE VEGA
Esse desconhecido, esse recém-chegado
que fala sozinho - não sabe que o escuto -
e que pergunta, não sei a quem: por que voltastes?
Enquanto apaga com uma nuvem branca
os sofrimentos tatuados em sua face,
as patadas do tempo,
outra vez pergunta: por que voltastes?
Esse, a que vejo e escuto
desde o lado de cá do espelho,
onde, com quem estará falando?