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terça-feira, 25 de junho de 2013
cordas dedilhadas antigas
Eu tenho um amigo muito querido que sempre me avisa de programas alternativos maravilhosos na cidade de São Paulo. Hoje, ele enviou-me uma mensagem by celular, dizendo que teríamos um concerto de cordas na Igreja Santo Antônio, que fica na praça do Patriarca e que seria na hora do almoço.
Como trabalho muito perto dali, fui na minha hora de almoço conferir o que estava acontecendo.
Foi um prazer imenso participar deste evento, como público. É que tive uma aula sobre a evolução dos instrumentos de cordas no ocidente. O músico Guilherme de Camargo, doutorando e mestre em Musicologia e bacharel em Música pela ECA-USP, contou-nos um pouco de cada instrumento que ele levou ao concerto e nos demonstrou seu perfeito funcionamento, tocando-os todos.
Ele tocou um alaúde renascentista; uma teorba, instrumento do século XVII, XVIII; uma guitarra barroca; uma viola de Arame (séc. XVIII) e, por fim, uma guitarra romântica, instrumento característico do século XIX.
O repertório percorreu os compositores das épocas a que pertencia cada instrumento, desde o século XVI até o início do XX, pois também ouvimos, por fim, tocada na guitarra romântica, uma composição do brasileiro Aníbal Augusto Sardinha, o "Garoto", talentoso e arrojado compositor e que viveu entre nós de 1915 a 1955.
Antes, ouvimos John Dowland (1563-1626), Thomas Robinson (1560-1610), Robert de Visée (1655-1710), canções do século XVIII do Codex Lisboa, e também de Fernando Sor (1778-1839). Guilherme de Camargo falava com muita naturalidade dessas obras, dos instrumentos de cada época e tocava-os todos com tanta dedicação! Mas também não podia ser diferente: o rapaz morou por dois anos na Holanda apenas para especializar-se nas cordas dedilhadas antigas.
Quem ficou com vontade de ter participado desse evento sui generis pode ter a oportunidade de vivenciar algo parecido. É que depois dessa primeira apresentação do projeto Sons das Igrejas do Centro - Especial Cordas Dedilhadas, realizado pelo Sesc Carmo, e que foi pensada para apresentar todos os instrumentos, nós teremos a oportunidade de ter cada um dos mesmos instrumentos em apresentações individuais. Na programação, o próximo concerto será no dia 16/07, às 13 h, na Paróquia São Francisco de Assis. Nele, teremos Alexandre Ribeiro, instrumentista, bacharel em violão, especialista em cordas dedilhadas antigas, tocando a teorba , instrumento que gozou de grande prestígio até o fim do século XVIII, mas que só voltaria à cena a partir de 1960 e que, apesar de ser muito utilizado na Europa e nos EUA, no Brasil é sempre uma oportunidade raríssima ouvi-lo.
E é linda a sonoridade da teorba!
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Quando vamos à Ópera
A montagem da ópera O rouxinol, de Igor Stravinsky, encerrou assim uma trilogia de inspiração fantástica concebida pelo maestro Jamil Maluf e que, portanto, já encenara outros dois títulos: João e Maria, de Engelbert Humperdinck, em 2002, e, mais recentemente, O Menino e Os Sortilégios, do compositor Maurice Ravel.
Foi encantador ver que nesta O rouxinol foi preservada a versão original em russo, com legendas, para conservar intacta a riqueza sonora concebida por Stravinsky - segundo o que ouvi o próprio maestro dizer em uma entrevista na rádio cultura. Sabemos que foi Paulo Queiróz, tenor do Coral Lírico Municipal que domina a língua russa, o responsável pelo trabalho de pronúncia com os cantores, assessorado ainda pelos dois solistas russos convidados, a soprano Olga Trifonova e o baixo Denis Sedov, que estreiaram nos palcos brasileiros nessa montagem.
E que montagem magnífica!
Tudo era singelo e grandioso, como aliás é também o próprio conto que deu origem ao libreto. Ele é baseado no conto O rouxinol e o Imperador da China, de Hans Christian Andersen.
Apenas uma história muito profunda poderia conceber que um simples pescador fosse aquele que mais compreendesse o canto do pássaro e que também uma mulher simples - como a cozinheira do Imperador - pudesse apreciar o mesmo canto do rouxinol, um pássaro tímido, noturno e, no entanto, possuidor de um canto mavioso e que jamais se repete.
Enfim, essa mulher é quem pôde encontrar o pássaro na floresta e também é quem ajuda a levá-lo para a apreciação do Imperador.
O rouxinol, então, vive um tempo na corte do Imperador chinês, mas a abandona quando esse último recebe do Imperador do Japão um pássaro mecânico e que canta sempre a mesma cantilena.
Com o tempo, no entanto, o Imperador da China adoece profundamente. O rouxinol volta ao palácio ao saber que seu antigo amo está recebendo a visita da Morte, a qual, aliás, traz consigo um Coro de Espectros. Impressionante a cena em que tal Coro se apresenta ao Imperador como sendo suas ações passadas... a sugerir que os fantasmas - que surgem em tais momentos ao nosso redor - estão sempre ali por conta mesmo dessas ações.
A Morte, no entanto, também se apaixona pelo canto do rouxinol, e o pássaro pode, então, fazer a barganha de continuar cantando se ela devolver tudo o que tirou do Imperador, o qual - depois que a Morte abandona a cena - revigora-se com os primeiros raios de sol.
O rouxinol, por sua vez, já recusara no primeiro contato com o Imperador todos os bens materiais que lhe foram oferecidos, dizendo contentar-se com as lágrimas de emoção que via brotar nos olhos do soberano ao ouvir seu canto. Também agora, reitera essa mesma forma de pagamento: contentar-se-á com essa demonstração de emoção e promete sempre voltar para reiterá-la.
É o Espírito dos Céus o canto do pássaro. É a própria transcendência e que nos liberta da morte.
Enfim, foi uma honra e privilégio estar nessa plateia, também foi uma alegria saber que, na nossa cidade, uma montagem desse nível de elaboração artística pode acontecer e ainda com tantos talentos genuínos envolvidos. Sobretudo também, por ter sido uma rara oportunidade, pois foram apenas três dias de apresentação, totalizando quatro récitas.
Por tudo isso, eu precisava muito compartilhar por aqui essas minhas impressões, diante desse acontecimento bendito.
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sexta-feira, 26 de outubro de 2012
Rebecca Clark
Rebecca Clark conseguiu o que ela chamou de "minha
breve lufada de fama", em 1919, quando sua Sonata para viola empatou em
primeiro lugar em um concurso promovido por Elizabeth Sprague Coolidge. Clarke
viveu boa parte de sua vida nos EUA, embora ela tenha nascido e sido educada na
Grã-Bretanha. Marcante pela sua paixão e energia, a música de Rebecca abrange
uma gama de estilos próprios do século XX, incluindo aí o do impressionismo, o pós-romântico
e o neo-clássico. Embora ela tenha escrito cerca de 100 obras (entre músicas
apenas instrumentais, obras corais, peças de câmara e música para piano solo),
apenas 20 dessas peças foram publicadas durante a vida da compositora, e quando
ela faleceu em 1979, aos 93 anos, todas essas peças já estavam fora de
catálogo.
Eu estava lendo tais informações no site da Rebecca Clark Society uma fundação que, desde o ano 2000, tem
procurado resgatar sua memória e importância. Comecei a me interessar por essa
compositora ontem, quando conheci uma de suas obras: uma peça para viola
e piano intitulada I’ll bid my heart be still.
Na verdade, quando eu acionei a frequência da rádio cultura FM
de São Paulo no meu celular, a música já
estava tocando e eu a achei linda. Contudo, ao fim da música, quando a
apresentadora do programa informou-nos: “Ouvimos de Rebecca Clark I’ll bid my
heart be still” eu não guardei o nome da compositora e apenas ouvi: I will be
my heart still. Por conta desse mal entendido, cheguei a postar no facebook:
Hoje, eu ouvia a rádio
cultura fm de São Paulo e, quando uma peça para piano muito linda que tocava
terminou, a locutora do programa anunciou o nome do compositor (que eu não
registrei na memória) e o nome da peça (que eu registrei porque achei
profundo): I will be my heart still!
Imediatamente eu postei aqui [no facebook] apenas o título em inglês... foi uma postagem isolada e que quase não teve repercussão, lógico. Agora, no final do dia, é que entendo porque isso me tocou tão profundamente é que ainda estou muito longe de concretizar esse desejo, ou seja, de ser um dia meu coração! Mas, eu serei meu coração ainda! [I will be my heart still!] I hope!
Imediatamente eu postei aqui [no facebook] apenas o título em inglês... foi uma postagem isolada e que quase não teve repercussão, lógico. Agora, no final do dia, é que entendo porque isso me tocou tão profundamente é que ainda estou muito longe de concretizar esse desejo, ou seja, de ser um dia meu coração! Mas, eu serei meu coração ainda! [I will be my heart still!] I hope!
Depois é que eu descobri que o título era I'll bid my heart
be still (algo que, me parece, pode ser traduzido como “Eu vou oferecer o meu
coração ainda”] e, além disso, também soube que Rebecca teria composto sua peça para viola e piano,
em 1944, inspirada em uma antiga canção da fronteira escocesa cuja letra inclusive é
bastante intensa, pois embora seja lírica e triste, ela é também um
tanto épica.
Vejam se eu não tenho razão:
I'll bid my heart be still; and check each struggling sigh;
and there's none e'er shall know my soul's cherished woe: when the first tears
of sorrow are dry. [Eu vou oferecer o meu coração ainda, mas lutando quero ver
cada suspiro, e não há ninguém ou qualquer um que possa vir a conhecer a
aflição da minha alma querida: as primeiras lágrimas estarão secas então.]
They bid me cease to weep; for glory gilds his name; Ah,
'tis therefore I mourn, he can never return: to enjoy the bright noon of his
fame. [Eles mandam-me parar de chorar, para que a glória doure o
seu nome; Ah, eu lamento, mas ele nunca
retornará então para desfrutar do meio-dia brilhante de sua fama.]
My cheek has lost its hue; my eye grows faint and dim; but it
is sweeter to die in grief's gloomy shade: than bloom for another than him. [Meu rosto se empalideceu, o meu olho se arregala
débil e baço, mas é doce morrer na sombria dor da tristeza: desabrochar, de
si mesmo, noutro.]
Uma moça chamada Jo Lopine canta a cappella lindamente essa
canção no myspace
Já a
peça de Rebecca Clarke é uma das mais curtas dentre as que a compositora compôs para viola e piano. Trata-se de uma composição simples, portanto, mas que requer um controle impecável do arco por parte do violista
e mudanças dinâmicas. Além disso, ela é muito transparente nas harmonias com o piano.
Portanto, "simples" não quer dizer que não possa ser um desafio
considerável, é claro, para ambos os músicos: violista e pianista.
Preciso dizer: É claro que eu também espero um dia oferecer meu coração. Mas isso é uma outra história...
Preciso dizer: É claro que eu também espero um dia oferecer meu coração. Mas isso é uma outra história...
Vamos ouvir a música de Clark?
quarta-feira, 4 de julho de 2012
Ensemble Intercontemporain e Marthe Keller: uma visão de Cassandre!
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| Ensemble Intercontemporain |
No dia 02, segunda-feira, fui até
a Sala São Paulo conhecer o Ensemble
Intercontemporain. Trata-se de um grupo composto de 31 musicistas que têm
paixão pela música do século XX e XXI e, assim sendo, a divulgam nas principais
salas de concerto do mundo. O Ensemble
é sediado na Cité de la Musique, em
Paris, e tem um intenso trabalho de pesquisa e de fomento da produção e difusão
da música contemporânea, além de promover a formação e educação musical de
jovens instrumentistas, bem como de seu público.
A oportunidade de ouvir um grupo
de tanto prestígio e que divulga um repertório muito distante do lugar comum
foi uma experiência que achei consoladora em mais de um sentido. Afinal, como é
bom saber que há pessoas trabalhando com o suprassumo da composição musical e
que nos possibilitam, então, uma experiência de audição muito mais próxima do
nosso próprio tempo em uma espécie de atualização da tradição de concertos. Evidentemente,
o repertório apresentado também tinha muito de atemporal, e isso desde a
primeira peça, La Barque Mystique, de Tristan Murail (1947). Nela, senti-me como fosse tripulante da tal barca que na minha sensação navegava não em águas líquidas mas numa espécie de bruma espessa.
| Marthe Keller |
Também devido ao programa da noite, tínhamos ainda um motivo a mais para entender tal concerto como um acontecimento particularmente especial, é que acompanhava o grupo e seu
regente, Jean Deroyer, a atriz suíça
Marthe Keller, que faria a
protagonista da obra de Michael Jarrel,
Cassandre: o monodrama escrito em
1993-94, especialmente para a atriz. Trata-se, segundo seu compositor, de peça
escrita para “comediante e conjunto instrumental e eletrônico”. Foi uma honra ouvir Keller o declamando.
Além disso, foi também muito impactante ouvir tal narrativa em primeira pessoa. Nela, uma mulher solitária expõe seu drama. Cassandra, na mitologia, foi a bela filha de Príamo e Hécuba, reis de Troia e que recebeu do
apaixonado deus Apolo o dom da profecia. Como ela se negou a corresponder
ao amor do deus, Apolo decidiu que seu dom seria inútil e, então, embora ela
profetizasse, ninguém lhe dava crédito.
A peça de Jarrel foi inspirada na versão radiofônica que Gerhard Wolf que a adaptara da novela escrita por sua esposa, a escritora alemã Christa Wolf. Então, encontramos Cassandra no momento em que ela é prisioneira de Agamenon e tem poucas horas de vida. Cassandra nos conta em desespero tudo o que ocorreu na guerra que ela previra e que ninguém foi capaz de evitar, ou seja, no momento após ter testemunhado a morte dos pais e a derrota da cidade.
A peça de Jarrel foi inspirada na versão radiofônica que Gerhard Wolf que a adaptara da novela escrita por sua esposa, a escritora alemã Christa Wolf. Então, encontramos Cassandra no momento em que ela é prisioneira de Agamenon e tem poucas horas de vida. Cassandra nos conta em desespero tudo o que ocorreu na guerra que ela previra e que ninguém foi capaz de evitar, ou seja, no momento após ter testemunhado a morte dos pais e a derrota da cidade.
O musicólogo e crítico musical Philippe Albèra, citado no programa do
concerto, analisa que “a música de Michael Jarrel situa-se naquele limiar que
separa a profundidade do passado do abismo do futuro. Essa música incerta e
vibrante oscila entre o dito e o não dito, entre o sono e a vigília; dela
emergem vozes solitárias e fantasmagóricas. (...) Oblívio e retrospecção em Cassandre refletem-se, pois, numa música
que entretece misteriosamente os fios do novo e do velho.”
Pois bem, uma experiência como a
de ouvir tal peça pode ser transformadora se assim o quisermos. Afinal,
por ela vivenciamos a emoção de conhecermos artistas tão talentosos e ainda encenando
uma peça tão bem escrita e urdida por seus autores, mas também aprendemos que, desde
tempos imemoriais, os místicos como Cassandra são desacreditados. Porém, tal
experiência trágica renova-se em mais de um grau, a cada dia, em meio à
humanidade que se por um lado é sofrida, por outro, é também bastante feroz. Mon Dieu!
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| Cassandra and her Trojan | by Jann Barry |
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quarta-feira, 16 de maio de 2012
Para onde um concerto me leva
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| Orchestre National du Capitole de Toulouse |
Ver e ouvir um concerto na Sala São
Paulo é sempre um momento especial da minha vida. É como eu sinto tal experiência, portanto, sempre que
acontece de eu estar sentado naquela sala para experimentar esse tipo de deleite.
Para além de sentir uma certa atmosfera do lugar, eu, talvez por ser muito idealista, fico ali imaginando todo o tempo que foi necessário para a humanidade chegar a esse tipo
de excelência na experiência artística.
E, então, já estou tomado de emoção
antes mesmo das luzes da plateia se apagarem. Trata-se de uma emoção pura e que
se deve ao que há de sublime em um aspecto essencial da condição humana, ou seja, sua capacidade de criação no universo da arte: não tenho dúvida alguma
a esse respeito.
Ontem, apresentava-se na sala de
concertos a Orchestre National du
Capitole de Toulouse, sob a regência de Tugan Sokhiev, e que, segundo o amigo que me cedeu o ingresso, é
muito reconhecida, sobretudo, na execução das peças de Berlioz, aliás, foi com uma sinfonia desse compositor que encerraram a apresentação.
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| Nijinski by Léon Bakst |
O programa iniciou-se com Claude
Debussy e o seu Prélude à l’après midi d’un
faune. Uma peça que, sempre que ouço, como aliás é o que deve acontecer com
muita gente, sou remetido ao balé L'après-midi
d'un faune, coreografado por Vaslav Nijinski para os Ballets Russes e que tinha por fundo exatamente essa delicada
composição de Debussy. O mais interessante é
que são, tanto a peça de Debussy quanto o balé de Nijinski, releituras do poema
A Tarde de um Fauno, de Mallarmé.
As três peças do programa tinham
em comum a presença da flauta e das arpas, instrumentos que não são comumente
explorados em concertos e que fazem tanta falta na nossa vida! Talvez porque sempre nos
relembram dessa atmosfera que nos dão os elementos do vento e da água na natureza: tão
reconfortantes, vivificantes!
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| Bertrand Chamayou |
A segunda peça, o Concerto para piano e orquestra em sol maior,
de Maurice Ravel, teve a graça, beleza e precisão do piano e que só foi possível que se desse desse modo por ser tocado pelo solista convidado: o pianista Bertrand Chamayou, natural de Toulouse, e já prestigiadíssimo, mesmo
sendo ainda muito jovem. O movimento que mais me emocionou foi o segundo
movimento do Concerto, o Adágio Assai, no qual o piano tocou sozinho em 33 compassos tudo o que é doçura e passividade até que
surgiu um oboé e que, embora em outra tonalidade, nos soou absolutamente
natural. Vejam só!
E o que dizer da Symphonie Fantastique, opus 14, de Hector Berlioz? Seu
movimento final, Songe d’une nuit du
Sabbat. Larghetto – Allegro assai, é simplesmente um espanto! Não há
como não compreender, ouvindo-a, que os gênios são absolutamente contumazes em seus
devaneios e paixões, e se sempre nos surpreendem é por nos remeter àquilo que nós também
teríamos de potencial expressivo e de majestosa sublimação. Contudo, se não
estivéssemos tão ocupados em atender as pequenas paixões cotidianas e que não podem ainda
transcender nada. Tal circunstância acontece por nos faltar também o mero reconhecimento de que poderemos criá-las, as paixões... recriando-as. Isso poderá se dar quando assumirmos todo o nosso potencial de entrega ao que
é em essência do universo espiritual. Até lá só nos resta aplaudir o exemplo do gênio, bem como o talento de seus intérpretes.
Um concerto na Sala São Paulo
representa para mim, além da fruição do espetáculo, motivos e razões para ser levado a pensar em tudo isso e um pouco mais. ;-)
segunda-feira, 30 de abril de 2012
Cotidiano possível das emoções
Hoje, eu estava ouvindo o Programa Manhã Cultura, na Rádio Cultura FM, quando em um
determinado momento o entrevistado do dia por Gioconda Bordon falou que Mozart, por exemplo, teria composto suas peças mais
luminosas quando em sua vida pessoal ele passava por experiências dolorosas.
Isso me fez pensar em quão interessantes são esses artistas
que, no momento mais tortuoso da vida pessoal, conseguem especialmente desenvolver
peças luminosas, transcendentes.
Provavelmente isso represente uma sabedoria que implica no
desenvolvimento da capacidade de elaboração dos diferentes veios emotivos da
subjetividade.
Afinal, a vida suscita a cada momento uma emoção particular
e que, evidentemente, vem acompanhada da expressão que lhe é peculiar. Mas escrever
ou compor qualquer coisa é também deixar um legado: qual será a expressividade
desse legado, que emoção essencial ele irá conter? Talvez o artista se faça
esse questionamento, mesmo que inconscientemente.
De qualquer modo, penso que não é preciso ser alguém do
perfil daquele que deixa um legado para a Humanidade (caso de um Mozart) para
também elaborar a expressividade da emoção que se queira passar na conjunção,
por exemplo, das relações cotidianas.
A escolha pela luminosidade – e, sim, não se espera que ela possa
ocorrer full time – talvez seja o
momento mais especial das experiências cotidianas. Porque tal escolha cria a
abertura, no centro da vida comum, de uma espécie de portal para uma dimensão
espiritual absolutamente desconhecida, sobretudo quando estamos mergulhados no afã
das fatigantes querelas do dia a dia.
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Hosanna
Ontem, vivi uma experiência muito próxima do que eu falava aqui no último post. Devo isso a um amigo que assina a temporada de concertos do Mozarteum Brasileiro e que, lamentavelmente, não poderia ocupar seu lugar cativo na Sala São Paulo. Sou imensamente grato a essa pessoa querida por ela ceder-me esse lugar de privilégio!
;-)
A que experiência eu me referia? Daquela experiência que, parafraseando Bruno Latour, podemos chamar de “politemporalidade”. Isso porque, sendo um morador da cidade de São Paulo e vivendo em 2010, estive naquela magnífica Sala São Paulo - que por si só é uma manifestação "híbrida", ela reúne as referências arquitetônicas de tez palaciana ou mesmo próprias a um templo e, ainda, o máximo de tecnologia a serviço da música erudita - e, sobretudo, porque lá estive para ouvir os Meninos Cantores de St. Thomas & Orquestra Bach da Gewandhaus Leipzig. Tal coro, por exemplo, existe há quase 800 anos. Essa instituição cultural de Leipzig é a mais antiga dessa cidade, pois é apenas cinquenta anos mais jovem que a própria cidade. E o que nos apresentaram? Uma obra de um compositor do barroco alemão, portanto, do século XVII, e tudo isso acontecia com a naturalidade e a verdade do humano, quando é possível que tal encontro ocorra por meio e através de diferentes tempos em comunhão.
O programa do concerto foi a Missa em si menor, BWV 232, de Johann Sebastian Bach (1685-1750).
Fiquei muito satisfeito por ter levado meus lenços de papel. Eu sabia que eu ia chorar e sabia disso porque eu já estava com vontade de chorar de emoção desde o momento em que sai do trabalho e peguei o táxi em direção à sala de concertos. O taxista boníssimo, quando eu o instruí acerca do destino, disse-me: Ah, você vai assistir a um concerto! Eu respondi: Sim! E não é qualquer um! É uma missa de Bach com um coro de meninos!
Ao dizer isso, eu já intuía e imaginava que a experiência seria transcendente. E foi isso mesmo o se passou.
Tal Missa em si menor é uma tradução de Bach para a missa latina. Fomos informados que Bach compôs algumas partes dessa Missa em si menor, em 1724, mas ele só a concluiu em 1750 (vinte anos depois). Também fomos informados que, embora o compositor fosse Luterano, não devemos estranhar que ele tenha composto com tanto arroubo místico essa missa que, no entanto, se integra na liturgia Católica Romana. Isso porque os luteranos, naqueles tempos, celebravam também missas latinas. Mas, eu, humildemente, penso que ela ganha tal magnitude porque, como também nos informaram no programa, para Bach, toda obra musical era uma consagração a Deus!
E, então, quando o coro dos meninos começou a cantar o Kyrie eleison eu já estava chorando. Uma música sacra nos faz chorar porque, então, temos confirmado o alto poder da nossa própria fé, que, no entanto, somente alguém tão genial poderia expressar na sua forma mais aguda.
Uma particularidade dessa missa muito intensa, a meu ver, deu-se por conta de que além da harmonia absoluta entre instrumentos da orquestra (violinos, violas, violoncelos, contrabaixo, flautas, oboés, fagotes, trompetes, tímpano, cembalo) que, como que emolduravam tão somente as vozes do coro, esse, por sua vez, embora fosse o elemento vocal preponderante, silenciava-se para que, então, as preces fossem entoadas por cantores: como nos duetos de soprano e contralto, Grabriele Hierdeis e Brita Schwarz, respectivamente, que tiveram duas oportunidades para isso, tanto no Gloria quanto no Credo. Foi particularmente comovedora a experiência de ouvir o dueto de soprano e tenor (Gabriele Hierdeis e Hans Joerg Mammel) no Domine Deus, do Gloria. Nesse último, também tivemos algumas árias, soladas, cada qual, pela soprano, pela contralto e pelo baixo (Markus Flaig), respectivamente, o Laudamus te, o Qui sedes ad desteram Patris e Quoniam tu solus sanctus. No Credo, como já disse, voltamos a ouvir um dueto de soprano e contralto, e uma ária do baixo. No final, o tenor cantou a ária Benedictus e a contralto a magnífica ária Agnus Dei que antecedeu a despedida do Coro: Dona nobis pacem. Assim seja!
O coro de meninos, magistral em toda a peça, levou-nos ao êxtase particularmente no Sanctus, (penúltima parte da missa), na minha humilde opinião, isso se deu porque nesse momento, como em vários outros, sentimos uma variação intensa de todas essas vozes do próprio coro, ou seja, os sopranos, os contraltos, tenores e baixos eram a própria litania da fé, como ela deve ser expressa por criaturas que divulgam, nesse nosso tempo, aquela própria fé que Bach vivenciava e que nos impede, necessariamente, se temos o mínimo de sensibilidade, de não crermos, por nossa vez, nessa exaltação da fé como expressão da arte, em segundo grau. Eu diria que isso é só o princípio, pois (como não?) somos conclamados a compreender essa mesma expressão, na verdade, como a expressão última dos anseios humanos.
Sim, confesso, foi isso mesmo o que eu senti, quando me perguntei:
Por que eu não creria que existem os coros dos anjos nos céus, depois de ter ouvido o coro de meninos de St. Thomas cantando uma missa de Bach?
Hoje, 27 de outubro, será a segunda apresentação desses artistas na mesma sala. Um aviso importante, aos interessados em conseguir possíveis ingressos remanescentes: o concerto dura cerca de duas horas, sem intervalo.
;-)
A que experiência eu me referia? Daquela experiência que, parafraseando Bruno Latour, podemos chamar de “politemporalidade”. Isso porque, sendo um morador da cidade de São Paulo e vivendo em 2010, estive naquela magnífica Sala São Paulo - que por si só é uma manifestação "híbrida", ela reúne as referências arquitetônicas de tez palaciana ou mesmo próprias a um templo e, ainda, o máximo de tecnologia a serviço da música erudita - e, sobretudo, porque lá estive para ouvir os Meninos Cantores de St. Thomas & Orquestra Bach da Gewandhaus Leipzig. Tal coro, por exemplo, existe há quase 800 anos. Essa instituição cultural de Leipzig é a mais antiga dessa cidade, pois é apenas cinquenta anos mais jovem que a própria cidade. E o que nos apresentaram? Uma obra de um compositor do barroco alemão, portanto, do século XVII, e tudo isso acontecia com a naturalidade e a verdade do humano, quando é possível que tal encontro ocorra por meio e através de diferentes tempos em comunhão.
O programa do concerto foi a Missa em si menor, BWV 232, de Johann Sebastian Bach (1685-1750).
Fiquei muito satisfeito por ter levado meus lenços de papel. Eu sabia que eu ia chorar e sabia disso porque eu já estava com vontade de chorar de emoção desde o momento em que sai do trabalho e peguei o táxi em direção à sala de concertos. O taxista boníssimo, quando eu o instruí acerca do destino, disse-me: Ah, você vai assistir a um concerto! Eu respondi: Sim! E não é qualquer um! É uma missa de Bach com um coro de meninos!
Ao dizer isso, eu já intuía e imaginava que a experiência seria transcendente. E foi isso mesmo o se passou.
Tal Missa em si menor é uma tradução de Bach para a missa latina. Fomos informados que Bach compôs algumas partes dessa Missa em si menor, em 1724, mas ele só a concluiu em 1750 (vinte anos depois). Também fomos informados que, embora o compositor fosse Luterano, não devemos estranhar que ele tenha composto com tanto arroubo místico essa missa que, no entanto, se integra na liturgia Católica Romana. Isso porque os luteranos, naqueles tempos, celebravam também missas latinas. Mas, eu, humildemente, penso que ela ganha tal magnitude porque, como também nos informaram no programa, para Bach, toda obra musical era uma consagração a Deus!
E, então, quando o coro dos meninos começou a cantar o Kyrie eleison eu já estava chorando. Uma música sacra nos faz chorar porque, então, temos confirmado o alto poder da nossa própria fé, que, no entanto, somente alguém tão genial poderia expressar na sua forma mais aguda.
Uma particularidade dessa missa muito intensa, a meu ver, deu-se por conta de que além da harmonia absoluta entre instrumentos da orquestra (violinos, violas, violoncelos, contrabaixo, flautas, oboés, fagotes, trompetes, tímpano, cembalo) que, como que emolduravam tão somente as vozes do coro, esse, por sua vez, embora fosse o elemento vocal preponderante, silenciava-se para que, então, as preces fossem entoadas por cantores: como nos duetos de soprano e contralto, Grabriele Hierdeis e Brita Schwarz, respectivamente, que tiveram duas oportunidades para isso, tanto no Gloria quanto no Credo. Foi particularmente comovedora a experiência de ouvir o dueto de soprano e tenor (Gabriele Hierdeis e Hans Joerg Mammel) no Domine Deus, do Gloria. Nesse último, também tivemos algumas árias, soladas, cada qual, pela soprano, pela contralto e pelo baixo (Markus Flaig), respectivamente, o Laudamus te, o Qui sedes ad desteram Patris e Quoniam tu solus sanctus. No Credo, como já disse, voltamos a ouvir um dueto de soprano e contralto, e uma ária do baixo. No final, o tenor cantou a ária Benedictus e a contralto a magnífica ária Agnus Dei que antecedeu a despedida do Coro: Dona nobis pacem. Assim seja!
O coro de meninos, magistral em toda a peça, levou-nos ao êxtase particularmente no Sanctus, (penúltima parte da missa), na minha humilde opinião, isso se deu porque nesse momento, como em vários outros, sentimos uma variação intensa de todas essas vozes do próprio coro, ou seja, os sopranos, os contraltos, tenores e baixos eram a própria litania da fé, como ela deve ser expressa por criaturas que divulgam, nesse nosso tempo, aquela própria fé que Bach vivenciava e que nos impede, necessariamente, se temos o mínimo de sensibilidade, de não crermos, por nossa vez, nessa exaltação da fé como expressão da arte, em segundo grau. Eu diria que isso é só o princípio, pois (como não?) somos conclamados a compreender essa mesma expressão, na verdade, como a expressão última dos anseios humanos.
Sim, confesso, foi isso mesmo o que eu senti, quando me perguntei:
Por que eu não creria que existem os coros dos anjos nos céus, depois de ter ouvido o coro de meninos de St. Thomas cantando uma missa de Bach?
Hoje, 27 de outubro, será a segunda apresentação desses artistas na mesma sala. Um aviso importante, aos interessados em conseguir possíveis ingressos remanescentes: o concerto dura cerca de duas horas, sem intervalo.
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Salve Beethoven! Salve Heliópolis!
Eu tenho verdadeira paixão por essa Sinfônica. E, agora, eles estão virando gente grande de verdade! Pela primeira vez, os jovens da Sinfônica Heliópolis, integrantes do Instituto Baccarelli (instituição que oferece formação musical para crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social), vão se apresentar no tradicional Festival Beethovenfest, em Bonn, na Alemanha.
Quer saber acerca da emoção e também da importância que essa oportunidade representa para esses jovens? Então, leia a reportagem de Rita Alves, no DCultura do Diário do Comércio. A jornalista foi conversar com os jovens da orquestra e também com o maestro responsável por todo o trabalho junto à Sinfônica: Roberto Tibiriçá.
Um jovem afirmou, nessa reportagem, algo que eu também acredito, quando o assunto é música erudita: "Música erudita é assim, as pessoas vão gostando aos poucos. A melhor coisa a se fazer é levar alguém para assistir a uma orquestra e sentir a vibração. Assim ela vai gostando, aprendendo, pesquisando e quando vê, já está apaixonada". Não deixe de ler a reportagem no link acima! Sobretudo, se você for como eu, pois eu choro de emoção quando vejo gente jovem tendo oportunidade, descobrindo seu talento e alimentando sonho e esperança. Salve Heliópolis! Salve Beethoven! \o/
Quer saber acerca da emoção e também da importância que essa oportunidade representa para esses jovens? Então, leia a reportagem de Rita Alves, no DCultura do Diário do Comércio. A jornalista foi conversar com os jovens da orquestra e também com o maestro responsável por todo o trabalho junto à Sinfônica: Roberto Tibiriçá.
Um jovem afirmou, nessa reportagem, algo que eu também acredito, quando o assunto é música erudita: "Música erudita é assim, as pessoas vão gostando aos poucos. A melhor coisa a se fazer é levar alguém para assistir a uma orquestra e sentir a vibração. Assim ela vai gostando, aprendendo, pesquisando e quando vê, já está apaixonada". Não deixe de ler a reportagem no link acima! Sobretudo, se você for como eu, pois eu choro de emoção quando vejo gente jovem tendo oportunidade, descobrindo seu talento e alimentando sonho e esperança. Salve Heliópolis! Salve Beethoven! \o/
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