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sexta-feira, 8 de maio de 2015

A pergunta que não deveria ser feita

Quando eu era mais jovem, eu achava normal e louvável que se declarasse a orientação sexual e estranhava quando alguém não se declarava, por exemplo, homossexual.

Isso tinha a ver com o fato de eu já ter sofrido preconceito de pessoas muito queridas justamente após elas terem descoberto por terceiros a minha verdadeira orientação. Ingenuamente eu acredita que se elas tivessem sido informadas por mim, elas não teriam tido preconceito. Pobre ilusão...

Contudo, o tempo passou e hoje acho absolutamente grosseiro quando alguém me pergunta: "Você é homossexual, heterossexual ou bissexual?" Isso é ainda mais desagradável se a pergunta for feita por uma pessoa que eu mal conheço e que se sente muito à vontade em me questionar apenas por que ela já imagina qual seja a resposta e, portanto, quer apenas uma confirmação...

Foi o que aconteceu comigo outro dia e a minha reação foi:

- Meu! Jura que você está me perguntando qual é a minha orientação sexual? Você não acha falta de educação perguntar a esse respeito a uma pessoa com a qual você não tem intimidade?

O rapaz ficou meio surpreso com minha resposta e achou melhor responder, por sua vez, alguma coisa a título de esclarecimento: "Eu não tenho problemas com isso, eu não tenho preconceito."

De minha parte, achei melhor esclarecer também o seguinte:

- Ainda que isso possa ser verdade, seria interessante que você ao menos refletisse a respeito desse seu questionamento a minha pessoa. Por exemplo, eu considero muito estranho que você se sinta à vontade para fazer um pergunta de natureza íntima a alguém que você acabou de conhecer.
Além disso, há uma outro aspecto da questão - e isso talvez seja ainda mais importante. Quando você me pergunta a respeito da minha orientação é devido ao fato de que, muito provavelmente, você já tenha um palpite a esse respeito e está tão somente querendo uma confirmação... Eu não consigo, por exemplo, imaginá-lo fazendo essa mesma pergunta a alguém que você tenha certeza que é um heterossexual. Aliás, será que algum heterossexual já foi questionado sobre a sua orientação sexual? "Você é heterossexual?" Acredite: nenhum heterossexual já ouviu essa pergunta. Então, por que um homossexual precisa ne-ces-sa-ri-a-men-te se assumir homossexual ao mundo? Evidentemente que ele pode e deve, se quiser. O que eu questiono a partir da sua pergunta é: Por que as pessoas não podem simplesmente conviver com um homossexual sem questioná-lo sobre a sua vida íntima ou tão somente deixar que as questões concernentes à intimidade dessa pessoa venham à tona, naturalmente, à medida em que o tempo e o espaço do convívio permitam que se fale sobre sexo etc?
E saiba: eu não estou me sentindo ofendido (embora, nesse sentido que aqui expus, a sua pergunta seja realmente ofensiva) eu apenas estou surpreso com o fato de que uma pessoa que me parece inteligente não tenha pensado nisso tudo por conta própria. 

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Jesus me ama: êta nóis!

Mesa  posta: comemoração do meu aniversário,
no último dia 7 de dezembro, com pessoas que me amam
Hoje eu passei por uma experiência curiosa e que me fez refletir sobre tanta coisa!

Andava contente pela rua, na companhia de uma amiga, e veio um rapaz em nossa direção, parecendo que nos pediria alguma informação: isso é tão comum no centro da cidade de São Paulo...

No entanto, para nossa surpresa, se dirigindo a mim, ele me perguntou o seguinte:
- Você nunca foi convidado a ir a uma igreja evangélica?
Evidentemente, eu respondi:
- Claro, inúmeras vezes!
Eu sorria, mas também demonstrava que não iria lhe dar uma atenção prolongada.
Ele, então, completou:
- Pois vá a uma igreja, Jesus te ama e vai te libertar do homossexualismo.
Sorrindo muito e muito sinceramente lhe respondi:
- Sim, claro que vai!

Saímos andando. Eu e minha amiga para um lado, enquanto ele também seguiu seu caminho.
Minha companheira estava chocada e ainda mais do que eu. Ela dizia:

- Que babaca!

Eu lhe disse:
- Um coitado, né? Vamos combinar que para uma pessoa se dirigir a um desconhecido com esse papo, só pode ser porque ficou muito incomodado e que isso (ver um homossexual tranquilo e feliz andando na rua sem nenhuma preocupação em mascarar seu modo de ser, sua condição humana) repercute muito dentro da sua subjetividade, em relação aos seus próprios fantasmas e, além disso, ainda tem o problema da sua doutrina religiosa e homofóbica, que lhe ensinou que o pobre Jesus se incomodaria comigo tanto quanto ele próprio se incomoda e que por isso Ele me libertaria desta “prisão”. 
Aliás, olha que interessante! Ele vê a orientação homossexual como uma prisão, não é louco isso?
Mas, você quer saber de uma coisa? Eu estou muito admirado não com a atitude dele, mas com a minha! 
Pois, no passado, eu daria o maior sabão no rapaz, me indignaria com a sua fala e com o seu julgamento da minha pseudo-ignorância acerca do amor de Jesus (como, aliás, eu já contei aqui).
Mas veja só, desta vez eu até “concordei” com a figura e tranquilamente, sorrindo!
É que de fato eu, hoje, acredito na eternidade do espírito e eu não imagino que eu vá ser homossexual pela eternidade afora, peloamordeDeus! 
Eu estou homossexual, graças a Deus! E, claro, penso que nesta encarnação a tal “libertação” que ele sugere não vai rolar, definitivamente...
Agora, fora do envoltório físico, do meu corpo material, por favor, vamos pensar alto: a experiência sexual será de outra natureza que ainda eu nem sei qual será! Portanto, vamos cantar pra subir, né?

Pois ele deveria era ficar sabendo que eu, agora, quero é a sorte de um amor tranquilo, como dizia Cazuza!

Na verdade, eu acho que a letra desta canção fala muito do que realmente aconteceu entre mim e este moço evangélico:


quarta-feira, 24 de abril de 2013

Amar sem medo

Flower-man
(via Robert Tisserand)

Estou muito interessado em desenvolver uma pesquisa profunda em torno de mim mesmo. Da minha história. Dos meus sentimentos e emoções.
Dizer isso pode parecer um lugar comum, até um clichê de livro de autoajuda! kkk
Mas, não é bem assim. Penso que faz parte da tarefa da vida, criar-nos a ilusão que, depois de certo tempo em que habitamos nosso corpo e que estamos andando por estas paragens, deixamos de viver surpreendentemente.
Embora faça parte das aparências, isso não é verdade. Afinal, só vive mesmo como um morto-vivo quem acredita na mortalidade da alma e, mesmo assim, nem todos os que creem nisso, verdadeiramente vivem assim.

O que nos surpreendente pode surgir o tempo todo.

Mesmo pessoas conservadoras são surpreendidas. Por exemplo, para alguns, deve ser incrível que, desde o ano 2000 até agora, já tenhamos 14 países no mundo que aprovaram leis que permitem o casamento civil igualitário entre pessoas do mesmo sexo:

1. Holanda (2001)
2. Bélgica (2003)
3. Espanha (2005)
4. Canadá (2005)
5. África do Sul (2006)
6. Noruega (2009)
7. Suécia (2009)
8. Portugal (2010)
9. Islândia (2010)
10. Argentina (2010)
11. Dinamarca (2012)
12. Uruguai (2013)
13. Nova Zelândia (2013)
14. França (2013)

bonequinha de pano
by Madame Durvalina
É preciso dizer que para quem vive avant-garde desde que nasceu, o surpreendente é que tenhamos esperado alcançar o século XXI para cumprir esse tipo de justiça: deixar as pessoas amarem em paz!

No entanto, independentemente disso tudo, surpreendo-me ainda a mim, pessoalmente, sem compreender em absoluto um certo mistério que há em torno da minha própria orientação sexual. 
Portanto, a verdade é que cada um é que sabe onde lhe aperta o calo. 
No entanto, confio que buscando, muito calma e sinceramente, conhecer a mim mesmo, isso já não será uma questão assim tão misteriosa, mas simplesmente um modo de ser enquanto aprendo a amar sem medo.

terça-feira, 9 de abril de 2013

O que você representa?



Outro dia fiquei muito triste porque uma pessoa da minha família dizia no facebook: “Eu sou a favor do pastor Marco Feliciano” Sim, li isso com profundo pesar, pois considero um desrespeito a mim que uma pessoa da minha família defenda a posição do famigerado pastor.
Ele é um personagem muito conhecido atualmente por representar, antes de qualquer coisa, o escândalo do fanatismo religioso. Aliás, vamos combinar que não há nada mais lamentável nesse mundo do que a ação daqueles que pregam o contrário do que Cristo pregou. O fazem acreditando, coitados, serem defensores da moral do próprio Cristo, pois não sabem que a postura que defendem é verdadeiramente resultado de uma interpretação equivocada do que encontram na Bíblia.
Vamos acreditar que é só isso, ou seja, que se trata apenas de ignorância. Sempre será isso, de qualquer modo, pois ainda que alguém como ele fosse um personagem consciente do mal que está fazendo, ou seja, ignorando o amor incondicional, semeando ódio, discórdia e rancor, simplesmente... Isso tudo já sinalizaria de qualquer modo uma profunda ignorância.
Evidentemente, seu comportamento anacrônico evidencia mais: a urgência de renovarmos nossas atitudes de respeito aos mais diferenciados perfis humanos. Todos nós em relação a todos os outros. Nesse sentido, é possível considerar alguma beleza no que sua atitude resultou: mesmo que ela surja em meio ao pantanal do escândalo.
Quando vi qual era a pessoa da minha família que dizia apoiar o cara, pensei: Nossa! Só podia ser esta pessoa! Sempre acreditei que ela era bissexual. Não deve mesmo ser fácil ser bissexual... Por exemplo, eu acredito que o Feliciano é um bissexual, porque somente alguém com muita dificuldade com a própria orientação sexual pode se incomodar com a orientação que rege a vida das outras pessoas: e digo que ele, muito provavelmente, é um bissexual, porque entendo que ele tem uma esposa e pôde procriar com ela, parece que ele tem filhos que ajudou a gerar. Assim sendo, alguma atividade sexual de “desenho heterossexual” ele tem. Porém, somente alguém vivendo como homem e tendo desejo por outro homem, mas achando que não pode assumir esse desejo nem para si mesmo, somente alguém que vive tal conflito seria capaz de odiar e combater o desejo daqueles que não veem problema algum nisso mesmo.
Eu não sei o que irá acontecer comigo em um futuro distante, sobretudo em outra vida (como meu espírito estará atuando sexualmente em tal ocasião). Eu apenas peço a Deus que eu não precise viver um conflito dessa natureza, como o que vive o pastor, pois concebo como horrível a possibilidade de vir a não aceitar uma dubiedade ou uma filigrana de um desejo ainda em ascensão ou, quiça, já em declínio e, por conta dessa não aceitação, ainda arrastar de carona para os combates do mundo, combates sempre povoados de implicações sociais, grupos que inflamam suas divergências diante de um conflito íntimo semelhante.
 A verdade é que apenas o conflito é semelhante, ao que qualquer um poderia viver estando na mesma situação, mas como agir mediante tal conflito (pasmem!) isso ainda pertence absolutamente à esfera íntima.
Eu sei que o amor irá vencer! Ele sempre vence, graças a Deus!